Reportagem a partir da Zona Verde
por Stefano Chiarini
A situação é desastrosa, encontramo-nos no meio de uma
guerra cujas razões não conhecemos, para a qual não
estávamos preparados e na qual não acreditamos. No entanto, temo
que aqui, tal como no Vietnam, terá, ainda, que correr muito sangue,
tanto nosso como iraquiano, para que em Washington renunciem aos seus loucos
projectos. Contudo, há um cheiro irrespirável a coronéis
Kurtz e de esquadrões de morte que não pressagia nada de bom.
John, um rapagão não demasiado jovem, oriundo de Nova
York, perito em desenvolvimento, arabista e membro de algum
serviço secreto ignorado pelo Pentágono, está inquieto por
ter tido que vir aqui, à zona verde de Bagdad, a cidade
proibida estadunidense na margem direita do rio Tigre, transformada na
maior embaixada dos Estados Unidos do mundo, para montar um
espectáculo tendo em vista às eleições, no
âmbito de uma política sem futuro que só está
destruindo o Iraque. A propósito diz-nos depois de
um momento de pausa , sabes que dia se escolheu para celebrar as
eleições? O trigésimo sétimo aniversário da
ofensiva do Tet, lançada pelos vietnamitas a 30 de Janeiro
de 1968, quando o governo Johnson e a opinião pública
norte-americana entenderam a impossibilidade de ganhar a guerra.
Pessimismo, amargura, desejo de ir embora são as notas mais recorrentes
das palavras de não poucos funcionários e soldados
norte-americanos, que apenas pretendem desabafar para poder assim continuar em
frente. Mais de 500 soldados dos EUA foram repatriados desde o começo
da guerra por problemas relacionados com o equilíbrio mental. As
diferenças entre o Vietnam e o Iraque são muitas e evidentes
continua John, cujo pai é um sobrevivente da Indochina mas
é tristemente semelhante o lento atolamento no pântano da
ocupação. John fala-nos depois do ressentimento de alguns
sectores militares pela decisão do ministro da Defesa, Rumsfeld,
não só de enviar um exército ligeiro
cerca de 138 mil soldados, reduzidos actualmente a 150 mil) que não pode
controlar um país tão vasto, sofrendo assim perdas graves,
senão através das contínuas prorrogações dos
períodos de permanência na Mesopotâmia e pelas recorrentes
recusas de deixar livres os soldados no final dos seus contratos.
70 ATAQUES ARMADOS DIÁRIOS
Além disso, no terreno, os números da ocupação
tornam-se desastrosos: 1.430 mortos americanos, 76 ingleses e 85 nas fileiras
do resto dos contigentes, enquanto a média de soldados mortos cada
mês passou dos 17 em Junho de 2003 para uns 70 actualmente, e o
número de feridos, de 142 a 708.
Paralelamente, os ataques da resistência iraquiana passaram de 735 por
mês para 2.400, ou seja, uns 80 por dia; o número de resistentes
cresceu, aproximadamente, de 5.000 para 40.000 a tempo inteiro e 200.000 a
tempo parcial. Ao mesmo tempo, a gasolina é impossível de
encontrar, a energia eléctrica é cada dia mais escassa, a
reconstrução está paralisada, os preços
triplicaram. Não temos grandes razões para nos sentirmos
orgulhosos diz-nos um John de rosto entristecido e será
cada vez pior. Vendo estes apontamentos vêm-me à memória
as palavras de Winston Churchil quando, referindo-se ao Iraque, disse:
É surpreendente como conseguimos, em tão pouco tempo,
inimizarmo-nos com um país inteiro.
A cidade proibida, que acolhe, não só os
escritórios do novo embaixador estadunidense, John Negroponte
veterano da guerra suja da América Central , situados no ex
palácio presidencial de Sadam Hussein (quem sabe se terão mudado
as torneiras de oiro, motivo recorrente de muitas reportagens antes da guerra),
mas também as do governo iraquiano, algumas embaixadas aliadas, as sedes
das multinacionais e as residências de muitos ministros e
funcionários iraquianos, membros dos serviços secretos,
empreiteiros e mercenários, vai-se transformando numa pura e dura
fortaleza, assediada por todos os lados. Uma realidade, de cuja
evidência nos apercebemos logo a alguns quilómetros de
distância, mal cruzamos o Tigre. Barreiras de cimento, rolos de arame
farpado, blocos de terra comprimida envolta em grandes redes de aço
colocadas ao longo de Mariam. Dois tanques, diante da entrada, não
longe do ex hotel Rashid. Um tem sob alvo a ponte Iumuriya e a
margem esquerda da cidade, onde está o centro comercial e a zona dos
hotéis; o outro, a ameaçante Haifa Street, que se estende pela
margem direita do Tigre.
Passar da zona vermelha, vermelha no sentido de perigosa, para zona
verde, a cidade do bem, da bíblia, onde também o aborto é
proibido, apresenta-se como uma autêntica fronteira com o centro num
campo de batalha. Lá dentro, uma vez superados os minuciosos e
repetidos controles realizados pelos mercenários nepaleses e filipinos
da sociedade britânica Global International, respira-se um
ambiente tão tenso que, em Bagdad, diz-se que o próprio primeiro
ministro Allawi aconselha sempre os seus hóspedes estrangeiros a
não assomar às janelas, dizendo-lhes sabem, não
queria que....
Dentro da base, entre empreiteiros com aparência de lobos,
mercenários tipo
robocop,
pessoal civil, médicos, enfermeiros, todos eles
armadíssimos, com colete anti-bala, ray ban, metralhadora, dois
carregadores, pistola, rádio, etc, parece que todos se encontram no
set
de um filme.
O SEGUNDO EXÉRCITO, OS 25 MIL MERCENÁRIOS
Os mercenários da segurança são mais de 25 mil, e
constituem o segundo contingente depois do dos EUA, mas os empreiteiros civis
militarizados ultrapassam os 75.000. Basta pensar que, agora, aproximadamente
um em cada dez soldados da linha de fogo é um mercenário. Um
negócio de dimensão mundial que equivalerá a mais de 100
mil milhões de dólares. A ocupação do Iraque
não poderia funcionar sem eles, nem sob o ponto de vista militar, nem no
que toca aos serviços essenciais para fazer funcionar as 14 grandes
bases dos EUA, construídas no país. As sociedades que organizam
os mercenários, oriundas de corpos especiais de meio mundo, são
na sua maioria americanas, embora também haja britânicas. Entre
as estadunidenses, destacam-se por serem já famosas e controversas, a
Mpri, a conhecida sociedade texana Kellogg, Brown e Root, subsidiária da
Halliburton, e a Dynacorp, há tempos também utilizada na luta
contra a guerrilha na Colômbia e na Jugoslávia, que, no Iraque, ao
que parece, se ocupa dos
raids
às casas de supostos líderes da guerrilha.
Todos os mercenários gozam de total imunidade, reconhecida por um
édito do próprio ex-administrador estadunidense no Iraque, Paul
Bremer, e os seus pagamentos são, em muitos casos, fabulosos: num
ano chego a ganhar diz-nos Jerry, empreiteiro sul-africano,
enfermeiro e escolta de comboios até 170 mil
dólares e duas semanas de férias em cada 90 dias. E depois
há sempre a atracção pela aventura, o arriscar a vida em
situações extremas. Claro que, na ocupação,
os custos não importam, já que, até este Outono, na maior
parte dos casos, não se utilizaram as verbas do Congresso (sujeitas a
rígidos controlos), mas verbas iraquianas do programa
petróleo por alimentos bem como dinheiro das vendas
petrolíferas.
No fim de um dia na zona verde, todos se dão conta do bem que fariam
aqueles que falam de infiltrações de terroristas
estrangeiros no Iraque se deitassem uma olhada a este lugar, onde
está concentrada grande parte da escória das guerras
sujas do mundo.
Desde os que colaboravam com os esquadrões da morte no Ulster, como o
britânico Derek William Adgey, aos assassinos dos corpos especiais
sul-africanos do
apartheid,
como Francois Strydom (morto no ano passado), ou o seu colega de Deon Gouws.
Para não falar do coronel Tim Spicer, encarregado pelos EUA da
coordenação das mais de 5 mil sociedades de mercenários no
Iraque, protagonista das guerras na sombra no Ulster, depois na
Papua Nova Guiné, depois na Serra Leoa.
Os mercenários encantam o Pentágono pois não têm que
respeitar lei alguma, a sua utilização não está
submetida ao controlo do Congresso, os fundos destinados ao seu pagamento
não fazem parte do orçamento de defesa e, quando morrem,
não fazem parte das estatísticas oficiais de mortos no Iraque.
A ESCÓRIA DAS GUERRAS SUJAS DO MUNDO
Esta filosofia de operações clandestinas de acordo com o
que sustentam alguns funcionários e soldados dos EUA não
inspirou somente a acção das sociedades privadas de
segurança, mas também os programas das próprias
autoridades oficiais de ocupação, provocando, entre outras
coisas, sérios problemas de coordenação com o
exército regular. Eles metem-se em sarilhos diz-nos, de
passagem, um militar e nós temos que ir salvá-los. Quando
é possível, fazemo-lo, mas, em muitos casos, têm que se
amanhar sozinhos. Figura representativa do vínculo entre as
autoridades de ocupação e as guerras clandestinas
é, sem dúvida, James Steel, conselheiro do ex-vice-rei dos EUA,
Paul Bremer, para as Forças de segurança iraquianas: veterano do
Vietnam, coronel em S. Salvador, sucessivamente ocupado com o coronel North no
apoio aos contra, depois no Panamá, para, finalmente, responder à
chamada do número dois do Pentágono, Paul Wolfowitz, seu velho
amigo. A tendência para a iraquização da
guerra está-se a acentuar com o progressivo aumento de mortes
norte-americanas e, agora, o general Gary Luck, enviado à
Mesopotâmia pelo Pentágono, parece ter decidido empreender com
decisão este caminho, propondo o envio de, pelo menos, 10 mil
conselheiros para os novos corpos do exército iraquiano, a fim de os
adestrar e controlar. Também parecem estar dispostos a explorar as
divisões étnicas e confessionais, enviando tropas curdas para
reprimir as zonas sunitas e xiitas, incitando, assim, estes últimos
à repressão daqueles. Parece que decidiram, também, o
envio de peritos para a direcção dos
ministérios iraquianos de Defesa e do Interior, para coordenar uma luta
contra o terrorismo mais eficaz. Na prática, é o
programa de vietnamização da guerra, que, no sudeste
asiático, apenas serviu para provocar milhares de mortos, sem obter com
isso, quaisquer resultados concretos. São propostas que nos recordam o
que escreveu no
Sunday Times,
durante a revolta de 1920, o coronel T. E. Lawrence: Os ingleses, na
Mesopotâmia, caíram numa armadilha da qual será
duríssimo sair com honra e dignidade. Deixámo-nos enganar por
falta de informação contrastada. Os comunicados oficiais chegam
tarde, atrasados e não são sinceros. As coisas estão
muito pior do que dizem... Não estamos muito longe do desastre.
Pôs-se o sol e um oficial convida-nos a voltar ao hotel, antes que
anoiteça, altura em que a zona vermelha, que na realidade
é a capital de todo o Iraque, caia nas mãos das forças do
mal, enquanto as do bem gozam o merecido descanso na zona verde.
O original encontra-se em
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=10809
.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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