A crise brasileira: reflexões implacáveis
por Jorge Figueiredo
"Reflexões sobre a crise brasileira"
[1]
, a obra mais recente de Edmilson Costa, é um livro instigante. Tem o
grande mérito de deixar de lado a pequena política e ir às
questões de fundo, àquelas que realmente interessam. Obras como
esta são uma raridade no Brasil, onde aparentemente está toda a
gente voltada para questões eleitoreiras e estritamente dentro do quadro
institucional (cada vez mais podre) em vigor. O secretário-geral do PCB
é dos poucos economistas brasileiros com perspectiva histórica e
que, numa óptica de classe definida, tem coragem suficiente para agarrar
o touro pelos cornos. Grande parte dos economistas vulgares preocupa-se em
fazer a "gestão da crise" mas não em
traçar os caminhos para a sua superação.
Nos países da periferia a teorização disto é mais
complicada do que nos centrais. A maioria dos países que hoje são
desenvolvidos fez
as suas revoluções burguesas no passado. Na Grã-Bretanha
foi feita com Cromwell (1649), em França com a Revolução
de 1789, nos EUA com o fim da Guerra de Secessão (1865), no Japão
com a queda do shogunato (1868) que liquidou o feudalismo niponico. Em alguns
foi feita de cima para baixo, como na Alemanha com a reunificação
bismarckiana (de direita) e na Itália com a unificação
garibaldiana (de esquerda mas apropriada a seguir pela direita). Mas
países que chegaram atrasados na história as
colónias e quase-colónias da Ásia, África e
América Latina não puderam mais fazer as suas
revoluções burguesas. Suas economias foram desde o
princípio orientadas para o exterior. A apropriação de
grande parte do seu excedente por potências coloniais ou imperiais
impediu a criação de burguesias locais fortes o que gerou
classes dominantes locais dependentes e serviçais ao estrangeiro,
não aos seus próprios povos. Só alguns poucos economistas
como por exemplo Jorge Beinstein, Rui Mauro Marini, Prabhat Patnaik,
Nildo Ouriques tiveram a lucidez de encarar esta realidade. A maioria
tem-se limitado a papaguear o que dizem cartilhas neoliberais ou keynesianas.
Os ensaios agora reunidos por Edmilson Costa não pecam por este defeito.
Eles foram sistematizados em duas partes: a conjuntura política e a
conjuntura económica. A primeira faz uma análise da crise
brasileira, enquadrada na actual terceira crise sistémica global do
capitalismo (a primeira foi de 1873-1896 e a segunda de 1929-1945). As
deficiências de compreensão e/ou a pusilanimidade das
coligações petistas, que levaram ao
impeachment,
são ali analisados. O reflexo no Brasil da actual fase de
financiarização da crise global é o presente desmonte do
Estado
brasileiro. A destruição do pouco que fora conquistado pelo seu
povo começou com a privatização da
Previdência; a reforma trabalhista; as privatizações
selvagens de empresas públicas; a entrega das reservas
petrolíferas às transnacionais e das empresas estatais que as
exploravam; austeridade fiscal; a entrega da base militar de Alcântara
aos EUA, etc. Note-se que essas malfeitorias, intensificadas no governo
Bolsonaro, começaram durante governos anteriores, inclusive do PT. Por
isso mesmo, observa o autor, "o Partido dos Trabalhadores foi abandonado
pelos proletariado nas principais regiões industriais do
país" (p.44).
Um tema muito comentado nos media é o da psicopatia do presidente
Bolsonaro, que o leva a cometer declarações estapafúrdias
quase diárias. No entanto, observa o autor, tais bizarrices
"cumprem um papel funcional e compõem um método de
acção política da extrema-direita que também
é observado em outras partes do mundo". As suas posturas toscas
e/ou grosseiras marcam a agenda política e mediática. Elas
"contribuem para distrair a população dos verdadeiros
problemas do país, como a recessão, o desemprego, o caos nos
transportes, na saúde e a incompetência do governo em resolver
esses problemas". É o circo para distrair as multidões.
Na opinião de Edmilson Costa, as classes e fracções de
classe que agora comandam o governo são três: "a)
Bolsonaro e
seus filhos, pentecostais e neopentecostais, corruptos e fascistas
orgânicos; b) militares de direita, reacionários,
saudosistas da
ditadura, entreguistas e privatistas, mas com certa racionalidade do ponto de
vista da política externa e menos bizarro do ponto de vista dos
costume;
c) os representantes da ditadura do mercado, dos grandes monopólios
industriais e de serviços, da oligarquia financeira e do
agronegócio, além da estrutura jurídica para dar
feição legal às contra-reformas". São blocos
que actuam de modo unitário, embora possa haver pequenos choques entre
eles quando a política do governo fere o interesse de alguma
fracção.
Organizar a resistência, com paciência e sem desespero
"Trata-se de uma da conjunturas mais dramáticas da nossa
história (...) Estamos diante de uma luta de classe aberta, onde o
inimigo resolveu tirar a máscara em relação aos seus
objectivos e declarar guerra à maioria da população
brasileira", afirma Edmilson (p.60). Diante deste quadro, conclui,
é preciso "organizar a resistência, com paciência e sem
desespero". Mas para isso será preciso abandonar a política
de conciliação de classe promovida pelo PT. Por isso, é de
criticar sectores da esquerda que apostam todas as suas fichas no processo
eleitoral em detrimento das manifestações populares.
A ideia actual de que a "saída" estaria numa
eleição de Lula à Presidência em 2022 é jogar
areia nos olhos do povo. Para já a possibilidade de candidatura de Lula
nem sequer está garantida do ponto de vista jurídico. Além
disso, nunca se explicita o programa que seria desenvolvido por um eventual
governo Lula . A proibição da candidatura de Evo Morales na
Bolívia; o exílio do Equador do ex-presidente Rafael Correa; o
suicídio do ex-presidente do Peru, Alan García, deveriam fazer
meditar a direcção do PT que aponta ao povo caminhos
"fáceis" mas inviáveis. Mas fica a suspeita de que ela
aponta tais caminhos porque tem outros objectivos em mente: não romper
com a burguesia rentista que domina o Brasil e sim acomodar-se a ela.
"Tentam criar a ilusão de que se Lula voltar à
presidência fará um governo diferente porque aprendeu com o
passado. É pura ilusão, pois se Lula ganhar novamente fará
um governo pior que o anterior, em função das
condições objectivas da conjuntura e das alianças com as
mesmas forças do passado que está costurando agora", afirma
Edmilson (p. 143). Na verdade, a Revolução Brasileira nunca
será fácil e é desonestidade política apregoar o
contrário.
A segunda parte do livro, a da conjuntura económica, analisa extensamente
o capitalismo monopolista brasileiro. O grau de monopolização
indica um capitalismo maduro e desenvolvido. Isso pode ser avaliado
através de classificações como as 1000 maiores empresas,
os 500 maiores grupos, etc. Examinando apenas as 100 maiores, verifica-se que
58% do conjunto de grupos são controlados por capital nacional e em 2018
eles facturaram 38% do PIB brasileiro. Os restantes 42 grupos, controlados pelo
capital internacional, foram responsáveis por 18,3% do PIB, mas
controlavam os sectores mais dinâmicos.
A análise de Edmilson rompe com a teorização antiga (e
errada) do PCB de que haveria uma burguesia nacional com interesses opostos
à burguesia internacional, o que a transformaria numa potencial aliada.
Na verdade, ambas estão estreitamente imbricadas uma com a outra numa
amálgama inseparável. Isto é ainda mais verdadeiro agora,
na actual etapa da financiarização do capitalismo. Já nem
sequer se pode detectar diferenças entre capital industrial e
financeiro, pois as empresas industriais também fazem
aplicações no mercado financeiro.
Isto leva ao exame do "carácter das transformações no
Brasil", em que Edmilson conclui que "o carácter da
revolução do país é socialista, não
existindo mais espaço para as chamadas lutas de libertação
nacional envolvendo todo o povo, inclusive sectores da burguesia, contra um
imperialismo externo que sufocaria as possibilidades de desenvolvimento da
nação" (p.247). E o autor recorda o triste exemplo dos
governos de aliança do PT: "a burguesia quando avaliou que o seu
aliado não era mais funcional para seus interesses, descartou-o de
maneira humilhante".
O autor dedica também um capítulo à
"independência do Banco Central". Assim, constata que o BC
opera com autonomia "desde o início do período neoliberal no
começo da década de 1990 e cumpriu como bom aluno aplicado todas
as determinações do Consenso de Washington" (p.250). Ou
seja, o BC do Brasil tem estado ao serviço dos rentistas, que se
locupletam com juros estratosféricos. Mas como os abutres são
insaciáveis, querem acabar até com as migalhas que eram
distribuídas à população (programa Bolsa
Família, redução de pensões e de salários da
função pública, etc). As várias políticas
cambiais que têm sido adoptadas (câmbio fixo, bandas cambiais,
câmbio flutuante) são igualmente analisadas por Edmilson.
"A oligarquia financeira tomou a chave do cofre" é o
título do capítulo 15. Verifica-se que a crise económica,
social e política brasileira mudou de patamar com o impeachment da
presidente Dilma Rousseff. A partir daí, o poder foi usurpado por uma
gangue de oligarcas corruptos, cujos principais personagens dominam o
Parlamento brasileiro e vários escalões da
administração. Ao seu lado estão os "ladrões
de casaca que tomaram de assalto todos os ministérios da área
económica e social para impor aos trabalhadores uma violenta
regressão social e a entrega do património público e das
riquezas nacionais para os monopólios nacionais e internacionais",
constata Edmilson (p.265).
O mimetismo do PT
No Brasil chamam de "ajuste fiscal" aquilo que na Europa é
denominado de "austeridade fiscal". É do que trata o
capítulo 16, cujo título significativo diz que foi feita para
"cevar os banqueiros e rentistas". Aqui se analisa o fenómeno
do "mimetismo", processo da natureza em que animais procuram
camuflar-se, adaptar-se e confundir-se com o meio ambiente ou outras
espécies. Mas na vida política trata-se de "um
fenómeno degenerado que transforma as organizações
políticas e sociais em instrumentos inteiramente diferentes do que pregavam
no início da sua existência, mudam de plumagem, de programa e
objectivos e levam seus militantes e simpatizantes a frustrações,
acomodação, além de derrota moral e política",
observa Edmilson. E conclui: "Esse fenómeno serve como uma luva
para a trajectória do Partido dos Trabalhadores (PT) nos últimos
20 anos e, especialmente, desde que assumiu o governo, há 12 anos. Como
um camaleão proletário, exerceu seu mimetismo de maneira
impressionante, ao se adaptar de tal forma ao sistema que passou a ser um dos
seus principais organismos, se não o principal, da ordem que antes dizia
combater" (p.285).
O penúltimo capítulo intitula-se "Paulo Guedes, um assassino
social a serviço dos rentistas". A caracterização
é justa, pois todo o curriculum vitae do sr. Guedes tem sido no campo da
especulação financeira, como Chicago boy e colaborador de
Pinochet. Na verdade, pode-se dizer que ele é medíocre pois pouco
sabe de gestão macroeconómica nunca cuidou disso.
Economistas burgueses como Delfim Netto, o autor do chamado "milagre"
no tempo da ditadura militar-empresarial, sabe mais dormindo
de gestão de política económica do que o sr. Guedes
acordado. Mas na verdade isso pouco importa: ele não foi nomeado
ministro para gerir de facto a economia e sim para fazer o trabalho sujo
pretendido pela classe parasitária. A um magarefe não se exige
grande ciência.
Finalmente, o livro conclui com uma análise aos 20 anos do Plano Real, a
nova moeda introduzida no governo F.H. Cardoso em substituição ao
antigo Cruzeiro. "Foi uma tragédia para o conjunto dos
trabalhadores e para a economia nacional. Em contrapartida, um paraíso
para os banqueiros nacionais e internacionais, os especuladores financeiros, os
grandes monopolistas e o agronegócio", afirma Edmilson (p.331).
15/Setembro/2020
[1] Ed. Instituto Caio Prado Jr., S. Paulo, 2020, 360 p., ISBN
978-65-87543-01-7
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