por Michael Hudson
entrevistado por Pepe Escobar
Pepe Escobar (00:42:53) O caso do Brasil, é absolutamente
incompreensível, mas abrange todos os temas básicos do que
realmente interessa aos 0,01%, que podemos identificar como uma guerra de
classes contra o trabalho, que é o sistema no Brasil desde o golpe
contra Dilma. Uma guerra contra economias mistas, soberania económica,
que é algo que os donos do universo dos 0,01% não podem travar
contra a Rússia e a China. Mas isso foi conseguido com muito êxito
contra o Brasil. Na verdade, em dois anos eles devastaram completamente o
país em todos os sentidos possíveis, industrialmente,
sociologicamente, o que você quiser...
Há alguns anos o Brasil era a sexta maior economia do mundo e caminhava
para se tornar a quinta. Agora é a 12ª, caindo sem parar,
controlado por uma máfia. Isso inclui, não por acaso, o ministro
pinochetista de Chicago, Paulo Guedes.
Quando Biden era vice-presidente em 2013, em Maio esteve três dias no
Brasil e encontrou-se com a presidente Dilma. Discutiram assuntos muito
delicados, incluindo o mais importante: as absolutamente enormes reservas de
petróleo. Sabe o que aconteceu uma semana depois: o início da
revolução colorida brasileira. Chegamos ao golpe contra Dilma em
2016, chegamos à operação que colocou Lula na cadeia. E
chegamos à eleição do Bolsanaro.
Michael Hudson (00:48:50) Esse problema remonta há 60 anos. Em
1965 João Goulart, o ex-presidente do Brasil, veio a Nova York e nos
encontrámos. Explicou-me como os militares apoiados pelos EUA se
livraram dele em 1964 porque ele não representava a classe financeira.
Disse-me que construíram Brasília apenas para se distanciarem das
grandes cidades industriais e dos seus eleitores. Queriam impedir que a
indústria, a democracia e a população controlassem o
governo.
Depois do México deixar de pagar a sua dívida externa em 1972,
ninguém ia investir na América Latina. Em 1990, o Brasil e
também a Argentina estavam a pagar 45% de juros ao ano para poder
financiar o seu défice que é principalmente a fuga de capitais
pelos ricos. Portanto, quando o Brasil paga a sua dívida externa em
dólares está a pagar ao seu próprio 1% que coloca o
dinheiro no exterior, por exemplo, nas Índias Ocidentais Holandesas,
onde foi localizado um fundo para fins de evasão fiscal. Fingem ser
imperialistas americanos, mas na verdade são imperialistas locais.
Perto do fim do governo de Lula, o Conselho Brasileiro de Assessores
Económicos convidou James Galbraith, Randy Wray e a mim, para uma
discussão. Estavam preocupados porque Lula, para ser eleito, tinha de se
reunir com os bancos e concordar em dar-lhes o que queriam. Os bancos
disseram-lhe: Podemos ver que você tem o poder de ser eleito.
Não queremos ter de lutar contra você de maneiras sujas. Vamos
deixá-lo ser eleito, mas você vai ter que apoiar as
políticas as políticas financeiras que queremos. Lula fez
uma espécie de acordo do diabo com eles porque não queria ser
morto e eles estavam dispostos a fazer coisas boas.
Ele era uma espécie de personagem do tipo Bernie Sanders. Você tem
que seguir um sistema muito mau para fazer algo de bom, porque o Brasil
realmente precisa que algo de bom seja feito. Bem, o facto é que os
grupos financeiros não o aguentaram nem um pouco, porque uma das
características da riqueza financeira é ser viciante. Não
é como diminuir a utilidade marginal. Se você dá mais
dinheiro a um multimilionário, ele quer ainda mais e fica ainda mais
desesperado. É como um viciado em cocaína. A classe dominante
brasileira queria isso tão desesperadamente que organizaram e
controlaram o sistema judicial totalmente corrupto. O sistema judicial no
Brasil é quase tão corrupto quanto na cidade de Nova York.
PE Mais, mais
MH E isto é o que é um mercado livre: controle
totalitário pela classe financeira. É liberdade para a classe
financeira fazer o que quiser com o resto da economia. É a luta da
direita contra o governo. É uma luta contra qualquer governo forte o
suficiente para resistir aos interesses financeiros e imobiliários. O
Brasil é apenas o exemplo mais devastador disso, porque há uma
guinada racial lá. Os brasileiros querem fazer fortuna destruindo a
Amazónia, cortando a Amazónia, vendendo madeira para a China,
transformando a Amazónia em produção de soja para vender
à China.
Mas para isso é preciso exterminar a população
indígena que quer usar a terra para se alimentar. Então
você vê o tipo de guerra racial e guerra étnica que se tem,
sem falar na guerra contra os negros nas favelas brasileiras que Lula tentou
ultrapassar. Essencialmente, é uma tragédia o que está
acontecendo no Brasil, mas é basicamente o que aconteceu no Chile sob
Pinochet, e é por isso que eles têm o pinochetista e os boys de
Chicago que mencionou.
PE (01:34:50) Mas então, Lula terá que convencer mais do
que os mestres do universo. Ele vai ter de convencer os militares e vai ter de
convencer o mercado essa entidade que governa o Brasil e colhe todos os
benefícios da sua destruição. E o quarto componente
são os media.
No Brasil isso significa a rede Globo, que desempenha um papel que nos Estados
Unidos equivaleria a todas as grandes redes americanas, mas concentrada num
único media. Isso é muito complicado porque eles têm os
mesmos interesses que a classe dominante brasileira. Eles têm os mesmos
interesses dos militares e têm seus próprios interesses
monopolistas em termos de controle do fluxo de informações
públicas para a massa dos brasileiros. A maioria absoluta dos
brasileiros não tem ideia do que está acontecendo porque é
como uma bomba de fragmentação após outra, como uma
semiótica
(mudança do significado das palavras)
gratuita para todos.
MH (00:57:27) Por que o sistema chinês não pode ser
exportado para o Ocidente? Essa é uma boa pergunta. Suponhamos que a
indústria americana fosse capaz de seguir o mesmo caminho produtivo da
China. Bem, por um lado, hoje o maior peso no orçamento dos
trabalhadores é a habitação: 40%. Suponha que se reduzisse
o preço da habitação na América de 40% para 10%,
como na China. Este é o grande elemento na diferença de estrutura
de custos. Se as pessoas tivessem que pagar apenas 10% do seu rendimento para
habitação, todos os bancos iriam falir, porque 80% dos
empréstimos bancários são empréstimos
hipotecários.
E se a América tentasse desenvolver uma ferrovia de alta velocidade como
a China? Bem, então era preciso direito de passagem. As ferrovias
precisam ser em linha tão recta quanto possível. Precisam de um
direito de passagem, o que não existe porque isso entraria em conflito
com a propriedade privada e a maior parte do direito de passagem confrontava-se
com um imóvel muito caro. Então, não podem ter comboios de
alta velocidade nos Estados Unidos, como na China.
Suponha que houvesse uma educação pública de baixo custo.
Então livrava-se de desviar rendimento do trabalho a fim de pagar
empréstimos para educação. Suponha que houvesse
saúde pública e se evitasse que os americanos adoecessem como na
China e ou na Tailândia. Nesse caso, as seguradoras de saúde e as
empresas farmacêuticas não seriam capazes de fazer seus pagamentos
de juros e dividendos. Assim, não é possível adoptar nos
Estados Unidos um programa industrial do tipo chinês sem que na realidade
houvesse uma revolução contra o legado do monopólio da
banca privada, das finanças e de todas as fortunas que foram
construídas financeiramente nos últimos 40 anos, desde 1980.
MH (01:03:22 ) - A Teologia da Libertação foi apoiada pela Igreja
Católica que defendia a reforma agrária para alimentar a
população. Bem, é claro que o resultado foi que os Estados
Unidos definiram mercado livre como sendo quando suas Forças Especiais
entram e disparam nas freiras após violentá-las. Eles mataram
teólogos da libertação. Eles mataram líderes
indígenas. Eles reconheceram que não é possível ter
um mercado livre ao estilo de Chicago sem ser capaz de matar todos que
discordam de si e que pensam que o mercado deve ser para as pessoas, não
para os 1%.
MH (01:07:22) - O problema é o que podemos fazer sem uma
revolução. Nos Estados Unidos, a sra. Pelosi e os democratas no
Congresso têm uma nova lei de votação que tenta impedir que
qualquer terceiro partido se desenvolva. Portanto, só pode haver um
partido, o duopólio entre os republicanos e os democratas. Não
pode haver um Partido Verde. Isso está sendo essencialmente descartado.
Não se pode ter qualquer alternativa política e não se
pode ter um sistema parlamentar como o que há na Europa. A única
escolha que se tem é a cor da oligarquia que se deseja. Pode ter-se uma
oligarquia branca republicana ou um partido democrático com
política identitária mista, mas nenhuma das identidades pode
cuidar de assalariados, credores ou locatários.
Portanto, a menos que as pessoas tenham uma ideia de que existe uma
alternativa, elas não serão capazes de criar um movimento
político. E nos Estados Unidos, se você estudar economia,
você só aprenderá a economia neoliberal da Universidade de
Chicago. Não há mais história do pensamento
económico, então não se leu Adam Smith, John Stuart Mill
ou Marx. Não há história económica. Então,
não se sabe o que foi a luta contra o feudalismo. Não se tem
ideia de que existe uma alternativa. Como disse Margaret Thatcher, Não
há alternativa.
Bem, é claro que existe uma alternativa, mas se as pessoas não
sabem que existe uma alternativa, elas vão cair nesta linha, que
não há alternativa ao mercado livre controlado pelosr
1% liberdade apenas para os 1% e escravidão por dívida
para os 99%. A menos que eles saibam disso, não tenho muita
esperança de que as pessoas aqui possam fazer muito.
MH - (01:21:21) - Os americanos querem guerra. As pessoas que Biden indicou
têm um ódio emocional à Rússia. Falei com
governantes próximos do Partido Democrático, disseram-me que
há um desejo emocional patológico de guerra com a Rússia,
em grande parte devido ao facto dos czares serem anti-semitas e ainda haver
ódio sobre seus ancestrais: Veja o que eles fizeram com meu
bisavô. E assim estão dispostos a apoiar os nazis, os
anti-semitas na Ucrânia.
Conheci tais pessoas. Sua emoção é de ódio e raiva.
Pode olhar-se o rosto deles e ver no que se tornaram. Isto é realmente
perigoso. Eles são loucos. E Putin está certo. A América
obteve o seu poder quebrando contratos. Quebrou todos os contratos com os
nativos americanos a fim de tomar as suas terras. Quebrou o contrato iraniano.
Recentemente, quebrou o acordo ucraniano de Minsk. Então, de que adianta
fazer um acordo com os Estados Unidos, se eles vão dizer: "Tudo
bem, temos um acordo. Você deu e nós demos. Agora, vamos tomar
isso como um ponto de partida. Vamos quebrar o antigo acordo e vamos pedir
ainda mais. Chamam isso de táctica do salame. Fatiar e fatiar e
fatiar. Então, posso ver que essencialmente a América está
a dizer aos ucranianos: "Vamos lutar contra a Rússia
até ao último ucraniano".
Na América qualquer coisa que seja contra a guerra é uma
propaganda a favor da Rússia, porque está a tentar evitar a
guerra com a Rússia. Então, se se acredita no que Alanna
(moderadora da entrevista)
acredita e que quer um mundo pacífico, você é
pró-Putin.
MH (01:41:08) Sempre houve um sentimento de negação no
Ocidente de que a Organização de Cooperação de
Xangai (OCS) pudesse desenvolver uma filosofia económica de
desenvolvimento diferente. E é disso que realmente estamos a falar.
Não é simplesmente uma organização de pessoas que
querem ajudar-se umas às outras. É a maneira como estão a
tentar ajudar-se uns aos outros. É um modo de desenvolvimento. É
a ideia de que qualquer recurso que gere renda bancos, terras, recursos
naturais e monopólios de infraestrutura natural deve estar no
domínio público para atender necessidades básicas a todos
gratuitamente.
Isso significa, essencialmente, que o sector privado não terá que
pagar por serviços que deveriam estar disponíveis para todos, a
um custo mínimo. Se forem privatizados como no Ocidente, serão
fornecidos a um custo máximo, financiarizado, incluindo taxas de juros,
taxas de administração de dividendos, manipulação
corporativa para ganhos de capital e programas de recompra de
acções e títulos. É uma filosofia económica
totalmente diferente. Bem, não há necessidade da China, a
Rússia ou o Irão entrarem em guerra para fazer isso. Se o
Ocidente quer resistir a isso, tudo o que pode fazer é matar os seus
próprios líderes que queiram fazer algo assim. Se houver um
líder latino-americano, se a Venezuela tenta usar a riqueza do
petróleo para o bem público, então isola-se e ataca-se a
Venezuela. Se há um presidente hondurenho que quer distribuir a terra,
dá-se um golpe de Estado para os traficantes executarem.
Se alguém no Ocidente tenta fazer algo produtivo, será
marginalizado e impedido. E se houver uma ameaça de crescimento da
China, da Rússia e do Irão, tenta-se fazer o que os americanos
fizeram com a Rússia na década de 1920. Haverá
acções militares nas suas fronteiras, serão financiadas
revoluções coloridas, de modo a que eles tenham que dissipar a
riqueza que criam em despesas militares a fim de se equipararem às
despesas militares dos Estados Unidos. O sonho hoje é fazer da
Ucrânia para a Rússia o que o Afeganistão foi para a URSS.
O que dá vantagem à China e à Rússia é que a
defesa é apenas 10% do custo da ofensiva. A América precisa de
uma grande ofensiva e de uma grande corrupção. Para ser ofensiva,
a América tem que corromper a política europeia, corromper os
sindicatos, corromper todo o sistema educacional, transformar os media em media
lixo e a economia em economia lixo. E deve gerar enormes lucros para o complexo
militar-industrial. Esta é a versão americana do capitalismo
industrial. Tudo o que a China e a Rússia precisam fazer é
desenvolver mísseis de alta velocidade, mísseis defensivos para
deter um ataque.
PE (01:44:47) Lembro-me de que, anos atrás, costumava mencionar a
Organização de Cooperação de Shangai (OCS) a
pessoas em Bruxelas, da União Europeia ou da Comissão Europeia.
Eles diziam: De jeito nenhum. Não é importante. É
ridículo. É um
talk shop,
blá, blá, blá, blá". Anos atrás, na
verdade, no início dos anos 2000, era essencialmente a Rússia, a
China e quatro dos estados da Ásia Central contra o terrorismo, contra o
separatismo. Aos poucos, começaram a evoluir. Agora é
também uma organização de cooperação
comercial e de investimento. Fui a algumas das mesas redondas da OCS, por
exemplo, no Fórum Económico de São Petersburgo. Sempre que
há uma reunião da OCS é absolutamente fascinante.
Há russos, chineses, muitos participantes da Ásia central,
discutindo acordos comerciais, mas nenhum ocidental.
Não estão apenas discutindo terrorismo, também discutem o
movimento islâmico do Uzbequistão aliado aos Talibã, este
tipo de coisas. Mas discutem negócios. E agora é ainda mais
importante, porque com a expansão tem a Rússia, a China, os
países da Ásia Central, e também a Índia e o
Paquistão. E mais cedo ou mais tarde, não apenas como
observadores, mas como membros plenos, terão a Turquia e o Irão.
Há uma união económica original, a OCS, a iniciativa Belt
and Road, o Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas
todos convergem seguindo mais ou menos o mesmo caminho. Posteriormente, teremos
uma integração total dessas organizações
trabalhando para um propósito comum em termos de segurança,
é claro, mas também especialmente em termos de
realização de negócios.
MH (01:47:57) Então a questão é: por que outras
pessoas não estão a discutir o que nós estamos discutindo?
Por que as pessoas falam sobre isso apenas na web? Nada no
New York Times
ou noutros media convencionais.
PE [01:48:06] Nada Michael. Você nunca lerá algo assim no
Washington Post
ou no
New York Times.
Eles nem sequer sabem o que é a Organização de
Cooperação de Xangai.
26/Março/2021
A primeira parte deste resumo encontra-se
aqui
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A transcrição da entrevista, com 2h03m de duração,
encontra-se em
thesaker.is/...
Esta entrevista encontra-se em
https://resistir.info/
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