Desdolarizando o império financeiro americano
por Michael Hudson
entrevistado por Bonnie Faulkner
O imperialismo está a obter algo em troca de nada. É uma
estratégia para conseguir excedente de outros países sem
desempenhar um papel produtivo e sim através da criação
de um sistema extractivo
rentista.
Uma potência imperialista obriga outros países a pagarem
tributo.
Naturalmente, a América não diz directamente aos outros
países: "Você tem de nos pagar um tributo", tal
como os imperadores romanos diziam às províncias que governavam.
Os diplomatas dos EUA simplesmente insistem em que outros países
invistam seus influxos da balança de pagamentos e as poupanças
dos seus bancos centrais em US dólares, especialmente em títulos
do US Treasury. Este padrão de títulos do Tesouro
transforma o sistema monetário e financeiro global num sistema
tributário.
É isto o que paga os custos dos gastos militares dos EUA, incluindo suas
800 bases militares espalhadas por todo o mundo.
Sou Bonnie Faulkner. Hoje no [programa]
Guns and Butter
temos o Dr. Michael Hudson. Apresentamos hoje a
Desdolarização do império financeiro americano.
O Dr. Hudson é economista e historiador. É presidente do
Institute for the Study of Long-Term Economic Trend, analista financeiro da
Wall Street e distinto professor investigador de teoria económica na
Universidade do Missouri, Kansas City. Entre os seus livros mais recentes
incluem-se
...And Forgive Them Their Debts: Lending, Foreclosure and Redemption from Bronze Age Finance to the Jubilee Year
;
Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Destroy the Global Economy
e
J Is for Junk Economics: A Guide to Reality in an Age of Deception
. Retornamos hoje para uma discussão do livro seminal de 1972 do Dr.
Hudson,
Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire
, uma crítica de como os Estados Unidos exploram economias
estrangeiras através do FMI e do Banco Mundial. Discutimos como os
Estados Unidos têm dominado o mundo economicamente tanto como o maior
credor mundial como, posteriormente, como o maior devedor mundial. Além
disso daremos uma olhadela à morte anunciada da dominação
do dólar.
Bonnie Faulkner
: Michael Hudson, bem-vindo de volta.
Michael Hudson
: É bom estar de volta, Bonnie.
BF
: Por que o presidente Trump insiste em que o Federal Reserve reduza suas taxas
de juro? Creio que elas já estavam extremamente baixas. E se ficarem
ainda mais baixas, que efeito teria isto?
MH
: As taxas de juro estão historicamente baixas e elas têm sido
mantidas baixas a fim de tentar proporcionar moeda barata para especuladores
comprarem acções e títulos com o objectivo de fazerem
ganhos de arbitragem. Os especuladores podem tomar emprestado a uma taxa de
juro baixa para comprar uma acção que produz dividendos (e
também fazer ganhos de capital) a uma taxa de retorno mais alta, ou
comprando um título tal como títulos lixo corporativos que pagam
taxas de juro mais altas e manter a diferença. Em suma, taxas de juro
baixas são uma forma de engenharia financeira.
Trump quer que as taxas de juro sejam baixas a fim de inchar o mercado
habitacional e o mercado de acções ainda mais, como se isto fosse
um indicador da economia real, não apenas do sector financeiro, da
economia da produção e do consumo. Para além desta
preocupação interna, Trump imagina que se mantiver taxas de juro
mais baixas do que aquelas na Europa a taxa de câmbio do dólar
declinará. Ele pensa que isto tornará as
exportações dos EUA mais competitivas em relação
aos produtos estrangeiros.
Trump está a criticar o Federal Reserve por não manter taxas de
juro ainda mais baixas do que as da Europa. Ele pensa que se as taxas de juro
forem baixas haverá uma saída de capital deste país para
comprar acções e títulos estrangeiros que pagam uma taxa
de juro superior. Esta saída financeira reduzirá a taxa de
câmbio do dólar. Ele acredita que isto aumentará a
possibilidade de reconstruir a manufactura de exportações da
América.
Este é o grande erro de cálculo neoliberal. É
também a base para modelos do FMI.
Como taxas de juro baixas reduzem a taxa de câmbio do dólar,
elevando preços de importação
A ideia condutora de Trump é que reduzir o valor do dólar
reduzirá o custo do trabalho para o patronato. Isto é o que
acontece quando uma divisa é desvalorizada. A depreciação
não reduz custos que tenham um preço comum à escala
mundial. Há um preço comum para o petróleo no mundo, um
preço comum de matérias-primas e um preço quase comum para
capital e crédito. Assim, a principal coisa que é desvalorizada
quando se pressiona uma divisa para baixo é o preço do trabalho e
das condições de trabalho.
Os trabalhadores são esmagados quando cai uma taxa de câmbio da
divisa, porque eles têm de pagar mais pelos bens que importam. Se o
dólar for para baixo contra o yuan chinês ou a divisa europeia,
importações chinesas vão custar mais em dólares. Do
mesmo modo as importações europeias. Isto é a
lógica por trás de desvalorizações tipo
"arruíno meu vizinho".
Quanto mais custarão as importações do estrangeiro depende
de quão longe for a queda do dólar. Mas mesmo que ele mergulhe
uns 50 por cento, mesmo que o dólar se torne uma divisa lixo como a da
Argentina ou de outros países latino-americanos, isso não pode
realmente aumentar as exportações manufactureiras americanas porque
já não há muito trabalho americano nas fábricas.
Operários conduzem táxis e trabalham na indústria de
serviços ou para companhias de seguros médicos. Mesmo que
você dê aos trabalhadores americanos em empresas manufactureiras
todo o seu vestuário e alimento em troca de nada, eles ainda assim
não podem competir com países estrangeiros porque seus custos de
habitação, seus seguros médicos e seus impostos são
tão altos que eles são colocados fora dos mercados mundiais. Por
isso, não ajudará muito se o dólar cair 1%, 10% ou 20%. Se
você não tem fábricas a funcionar e se não tem um
sistema de transporte, um abastecimento de energia, e se os nossos
serviços públicos e infra-estrutura estão a ser
destruídos, não há nada que a manipulação da
divisa possa fazer para permitir que a América reconstrua rapidamente
sua indústria de exportação de manufacturas.
As companhias matrizes americanas já mudaram suas fábricas para o
exterior. Elas abandonaram a América. Na medida em que Trump ou seus
sucessores se abstêm de mudar este sistema na medida em que ele
dá vantagens fiscais a empresas para que se mudem para fora
não há nada que se possa fazer que restaure a indústria
aqui. Mas ele está apanhado pela teoria económica lixo do Fundo
Monetário Internacional, a conversa de padrão neoliberal que
é transmitida à América Latina a qual pretende que se um
país simplesmente reduzir mais sua taxa de câmbio ele será
capaz de reduzir seus salários e padrões de vida, pagando menos
ao trabalho em termos de moeda forte até um certo ponto, quando a sua
pobreza e austeridade ficarem suficientemente profundas, em que ele se
tornará mais competitivo.
Isto não funcionou durante cinquenta anos na América Latina. Isto
tão pouco funcionou para outros países e nunca funcionou nos
Estados Unidos. No século XIX a Escola Americana de Política
Económica desenvolveu a doutrina da Economia de Altos Salários
(revi isto no meu livro
America's Protectionist Takeoff: 1815-1914
). Eles reconheceram que se você pagar mais ao trabalho, isto é
mais produtivo, pode permitir uma melhor educação e funciona
melhor. Eis porque trabalho de alto salário pode vender a preço
mais baixo que o trabalho "pauperizado" de baixo salário.
Trump está portanto um século atrás no tempo ao acolher a
ideia austeritária do FMI de que se pode simplesmente desvalorizar a
divisa e reduzir salários de trabalhadores e padrões de vida em
termos internacionais para tornar a economia mais lucrativa e de alguma forma
"abrir o seu caminho para a saída da dívida".
O que a depreciação da divisa faz quando o dólar é
desvalorizado é capacitar firmas da Wall Street a tomarem emprestado a
1% e comprarem divisas e títulos europeus que rendem 3% ou 4% ou 5%, ou
acções que rendem ainda mais. A ideia condutora é fazer o
que fez o Japão na década de 1990: ter taxas de juro muito baixas
para aumentar o chamado
carry trade.
O
carry trade
é tomar emprestado a uma taxa de juro baixa e comprar títulos
que rendem uma taxa mais alta, fazendo um ganho de arbitragem sobre a taxa de
juro diferencial. Assim, Trump está a criar uma oportunidade de
arbitragem para investidores da Wall Street. Ele pretende que isto é
favorável ao trabalho e que pode reconstruir a manufactura. Mas isto
só ajudará a esburacar a economia dos EUA, enviando moeda para
outros países a fim de construí-
los
ao invés de investir em nós próprios. De modo que o
efeito do que Trump está a fazer é o oposto do que ele diz que
está fazendo.
BF
: Exactamente. Qual é o sentido de conduzir o investimento para
países estrangeiros, longe dos Estados Unidos?
MH
: Se você for um investidor, você pode ganhar mais dinheiro com o
desmantelamento da economia dos EUA. Você pode tomar emprestado a 1% e
comprar um título ou uma acção que rende 3% ou 4%. Isso
é a chamada arbitragem. É um almoço financeiro gratuito. O
efeito deste almoço gratuito, como você diz, é erguer
economias estrangeiras ou pelo menos seus mercados financeiros enquanto
enfraquece a sua própria. A finança é cosmopolita,
não patriótica. Ela realmente não se importa onde ganha
dinheiro. A finança vai a qualquer lugar onde a taxa de retorno seja
mais elevada. Essa é a dinâmica que tem estado a desindustrializar
os Estados Unidos ao longo dos últimos quarenta anos.
BF
: Pelo que está a dizer, parece que as políticas que Donald Trump
estão levando a fazer aos Estados Unidos o que o FMI e o Banco Mundial
tradicionalmente fizeram às economias estrangeiras.
MH
: É o que acontece quando se desvaloriza. O sector financeiro
verá que as taxas de juro estão a baixar, de modo que a taxa de
câmbio do dólar também declinará. Os investidores
mudarão sua moeda (ou tomarão emprestada) para euros, ouro ou yen
japonês ou franco suíço cujas taxas de câmbio se
espera que ascendam. Assim, está-se a oferecer uma arbitragem financeira
e ganho de capital para investidores que especulam em divisas estrangeiras.
Também se estará a esvaziar a economia aqui e a esmagar
níveis de salário real e padrões de vida.
Porque a desvalorização não ajudará a
re-industrializar a economia dos EUA
BF
: Pensa que Donald Trump entende o que está a fazer?
MH
: Não creio que entenda. Penso que ele tem uma visão
super-simplificada de como funciona o mundo. Ele pensa que se desvalorizarmos o
dólar podemos vender a baixo preço à China e à
Europa. Mas você só lhes pode vender a baixo preço se tiver
fábricas de automóveis disponíveis. Se não tiver
uma fábrica, não será capaz de vender a baixo preço
a fabricantes estrangeiros não importa quão baixo vá o
dólar. E se já não tiver um conjunto de fábricas a
manufacturarem computadores e fornecedores locais nos Estados Unidos,
não vai ter capacidade de produção apta a vender a
preço mais baixo à China. Acima de tudo, é preciso
infraestrutura pública e habitação, educação
e cuidados de saúde a preços acessíveis. Assim, a
visão de Trump é uma fantasia. É como dizer: "Se
tivermos algum presunto, podíamos ter algum presunto e ovos, se
tivéssemos alguns ovos". Isto ignora as causas da
desindustrialização da América.
Se tivéssemos aqui fabricantes de carros, computadores e outras
indústrias manufactureiras desempregadas fábricas que
estavam ociosas numa economia que fosse bastante competitiva
então a desvalorização poderia fazer algum sentido. Mas os
americanos simplesmente não são nem um pouco competitivos. Os
custos de habitação na América são altos, assim
como os custos médicos e de seguro de saúde, os impostos e
salários retidos sobre o trabalho e os preços de infraestruturas
básicas que de modo algum podem competir com países estrangeiros
simplesmente pela manipulação da divisa.
Desde 1980 a economia dos EUA foi tornada de muito alto custo. Mas
também houve um enorme esmagamento do trabalho, pela
elevação dos preços que ele tem de pagar por necessidades
básicas. Mesmo se os salários se elevarem, as pessoas não
podem permitir-se viver tão bem como há trinta anos atrás.
Uma reestruturação radical é necessária a fim de
restaurar uma economia industrial de pleno emprego. Você precisa de
desprivatizar, você tem de romper monopólios, você precisa
da espécie de economia e reforma económica que a América
teve sob Franklin Roosevelt na década de 1930. Não vejo isso a
acontecer.
BF
: Pensa que Donald Trump foi instalado como presidente para superintender a
bancarrota dos Estados Unidos e desmantelar o Império dos EUA?
MH
: Ninguém o instalou, ele instalou-se a si próprio. Não
creio que a maior parte das pessoas esperasse que vencesse. Se observar as
probabilidades que os corretores de apostas profissionais e os provedores de
cotações davam desde o instante em que anunciou sua candidatura,
a maior parte das pessoas pensava que o sonolento Jeb Bush obteria a
nomeação e que Bush perderia para Hillary. Assim, houve na
verdade tentativas para instalar Hillary ou Bush. Mas ninguém tentou
instalar o Trump. Ele fez um drible em torno deles, por conversa directa, humor
e celebridade.
Ele não tinha conselheiros que ouvisse, porque sempre foi um
one-man show.
E ele realmente não sabe o que está a fazer economicamente. Ele
sabe como trapacear as pessoas, vitimizar fornecedores e como ganhar dinheiro
no mercado imobiliário simplesmente não pagando fornecedores e
pedindo emprestado a bancos e não os pagando. Mas ele nem sequer tem
ideia de que não se pode administrar uma economia deste modo. Ser um
mafioso imobiliário não é o mesmo que administrar uma
economia inteira. Trump não tem ideia e não acho que
alguém saiba como controlá-lo, excepto talvez a Fox News.
Wall Street versus a economia "real": Qual se revela mais real?
BF
: O que está acontecendo com a classe dominante nos Estados Unidos?
Será que alguém nas suas fileiras sabe como administrar uma
economia?
MH
: O problema é que administrar uma economia para ajudar o povo e elevar
padrões de vida, assim como para reduzir o custo de vida e de fazer
negócio, significa não administrar para ajudar a Wall Street. Se
alguém souber como administrar uma economia, o sector financeiro quer
mantê-lo afastado de qualquer gabinete público. A alta
finança é curto-prazista, não pensa a longo prazo. Ela
joga o jogo do bate e foge, não a tarefa muito mais difícil de
criar uma infraestrutura para crescimento económico tangível.
Só se pode fazer uma de duas coisas: Ajudar o trabalho ou ajudar a Wall
Street. Se administrar a economia significa ajudar o trabalho e melhorar
padrões de vida dando melhores cuidados médicos, isto vai ser a
expensas do sector financeiro e de lucros corporativos a curto prazo. Assim, a
última coisa que se quer fazer é ter alguém a administrar
a economia para a sua própria prosperidade ao invés dos
objectivos da Wall Street.
A questão é quem vai fazer o planeamento. Serão
funcionários públicos eleitos no governo ou a Wall Street? O
escritório de relações públicas da Wall Street
é a Universidade de Chicago. Ela afirma que um mercado livre é
aquele em que ricos investidores da Wall Street e a classe financeira
administram uma economia. Mas se deixar as pessoas votarem e elegerem governos
democraticamente, isso é chamado de "interferência" num
mercado livre. Este é o combate de Trump contra a China. Ele quer que os
bancos administrem a China e disponham de um mercado livre. Ele diz que a China
se tornou rica nos últimos cinquenta anos por meios injustos, com a
ajuda do governo e empresas públicas. De facto, ele quer que os chineses
fiquem tão ameaçados e inseguros quanto os trabalhadores
americanos. Eles deveriam livrar-se dos seus transportes públicos.
Deveriam livrar-se dos seus subsídios. Deveriam deixar muitas das suas
empresas irem à bancarrota para que americanos pudessem
comprá-las. Deveriam ter a mesma espécie de mercado livre que
arruinou a economia dos EUA.
A China não quer esta espécie de mercado livre, é claro.
Ela tem uma economia de mercado. Esta é realmente muito semelhante ao
que os Estados Unidos foram no seu arranque industrial do século XIX,
com forte subsídio governamental.
Os EUA a mudarem de estratégia monetária, dos pagamentos
excedentes para o status do défice
BF
: No seu trabalho seminal de 1972,
Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire
, escreveu: "Enquanto a dominação dos EUA da economia
mundial se estendeu de 1920 a 1960 a partir da sua posição
credora, seu controle a partir da década de 1960 teve origem na sua
posição de devedora. Não só as mesas foram viradas,
mas os diplomatas dos EUA descobriram que a sua influência como a maior
economia devedora do mundo é tão forte quanto aquela que antes
reflectia sua posição de credora líquida". Isto soa
contra-intuitivo. Você poderia decompor o argumento nos seus componentes?
Vamos começar de 1920 a 1960. Como os Estados Unidos conseguiram dominar
a economia mundial a partir de sua posição de credor?
MH
: A posição credora dos EUA começou realmente após
a I Guerra Mundial, com base no dinheiro que emprestaram aos Aliados antes de
se juntarem à guerra. Quando a guerra acabou, diplomatas dos EUA
disseram à Inglaterra e à França para nos pagarem as armas
que haviam comprado anteriormente. Mas no passado, durante séculos, os
vitoriosos habitualmente perdoavam todas as dívidas entre si uma vez
acabada a guerra. Pela primeira vez, a América insistiu em que os
Aliados pagassem pelo apoio militar que lhe fora vendido antes se juntar a eles.
Os Aliados europeus estavam bastante devastados pela guerra e voltaram-se para
a Alemanha e insistiram em reparações que rapidamente a levaram
à bancarrota. A Alemanha levou à bancarrota a sua economia ao
tentar pagar à Inglaterra e à França, que simplesmente
enviavam o recebido para pagar os Estados Unidos. Suas balanças de
pagamentos estavam em défice e suas divisas iam abaixo. Investidores
americanos viram nisso uma oportunidade para comprar sua indústria. O
ouro era a medida do poder, o suporte para a moeda interna e o crédito e
portanto para o investimento de capital.
A América era muito mais produtiva pois não sofrera danos de
guerra. Entre o fim da II Guerra Mundial e 1950, quando estalou a Guerra da
Coreia, a América acumulou mais de 75 por cento do ouro monetário
mundial. Os Estados Unidos tinham fortes exportações
agrícolas, exportações industriais crescentes e bastante
dinheiro para comprar as principais indústrias da Europa, da
América Latina e de outros países.
Mas a partir de 1950, com a Guerra da Coreia, a balança de pagamentos
dos EUA entrou em défice pela primeira vez. Até piorou quando o
presidente Eisenhower decidiu que a América tinha de apoiar o
colonialismo francês no Sudeste asiático, na Indochina francesa
Vietname e Laos. No momento em que a Guerra do Vietname escalou, na
década de 1960, o dólar estava a incidir em grandes
défices de balança de pagamentos. Toda semana na Wall Street
observávamos a oferta de ouro descer, perder ouro para países que
não estavam em guerra, como a França e a Alemanha. Eles estavam a
prevalecer-se do excesso de dólares que estavam a ser gastos pelos
militares americanos. Por volta de 1960 ficou claro que a América estava
numa trajectória de ficar sem ouro dentro de uma década devido
aos gastos de guerras além-mar.
Por fim, em Agosto de 1971, o presidente Nixon cessou de vender na bolsa de
Londres e o preço subiu muito acima dos US$35 por onça
[1]
. A balança de pagamentos dos EUA ainda apresentava um défice
profundo devido aos combates no Sudeste Asiático e alhures, o que criava
um défice permanente na balança de pagamentos. O sector privado
estava em equilíbrio durante os anos 1950 e 1960. A totalidade do
défice era militar.
Quando a América saiu do ouro, as pessoas começaram a
perguntar-se o que iria acontecer. Muitos previram um dia do juízo final
económico. Estavam a perder a sua capacidade de dominar o mundo
através do ouro. Mas o que eu percebi (e fui o primeiro a publicar) foi
que, se os países não pudessem mais comprar e manter ouro nas
suas reservas internacionais, o que é que eles iriam manter? Havia
apenas um activo de que poderiam dispor: títulos do governo dos EUA, ou
seja, títulos do Tesouro
(Treasury bonds).
Um título do Tesouro é um empréstimo ao Tesouro dos EUA.
Quando um banco central estrangeiro compra um título, ele financia o
défice orçamental interno dos EUA. Assim os défices da
balança de pagamentos acabam por financiar o défice
orçamental interno.
O resultado é um fluxo circular de gastos militares reciclados por
bancos centrais estrangeiros. Depois de 1971 os Estados Unidos continuaram a
gastar militarmente no exterior e em 1974 os países da OPEP
quadruplicaram o preço do petróleo. Naquele momento os Estados
Unidos disseram à Arábia Saudita que podiam cobrar quanto
quisesse pelo seu petróleo, mas tinha de reciclar todos os seus ganhos
líquidos de dólares. Os sauditas não deveriam comprar
ouro. Foi dito aos sauditas que seria um acto de guerra se não
reciclassem na economia americana os dólares que recebiam pelas suas
exportações de petróleo. Eles foram encorajados a comprar
títulos do Tesouro dos EUA, mas também podiam comprar
acções e títulos dos EUA para ajudar a impulsionar os
mercados de valores aqui e ao mesmo tempo apoiarem o dólar.
Os Estados Unidos mantiveram seu próprio stock de ouro, enquanto queriam
que o resto do mundo mantivesse suas poupanças na forma de
empréstimos aos Estados Unidos. Dessa forma o dólar não
foi abaixo. Outros países que estavam a receber dólares
simplesmente reciclavam-nos para comprar títulos financeiros dos EUA.
O que teria acontecido se não tivessem feito isto? Digamos que a
Alemanha, França ou Japão não o tivessem feito. Se
não reciclassem suas receitas em dólares de volta para a economia
dos EUA, suas divisas iriam subir. As entradas de dólares pelas vendas
exportadas seriam convertidas na sua divisa, aumentando a sua taxa de
câmbio. Mas ao comprar títulos ou acções dos EUA,
lançam o preço dos dólares de volta contra a sua
própria divisa.
Assim, quando os Estados Unidos incorrem num défice de balança de
pagamentos sob condições em que outros países
mantém suas reservas externas em dólares, o efeito para outros
países é manter estáveis as taxas de câmbio das suas
divisas principalmente através de empréstimos ao governo
dos EUA. Isso dá aos Estados Unidos um benefício sem custo
(a free ride).
Eles podem cercar o mundo com bases militares e os dólares que isto
custa são retornados aos Estados Unidos.
Imagine subscrever IOUs
[2]
quando você gasta numa loja ou num restaurante mas os seus IOUs
nunca serem cobrados! A loja pode dizer: "Temos um IOU de Bonnie
Faulkner. Vamos mantê-lo nas nossas poupanças. Ao invés de
depositá-lo no banco ou pedir o pagamento em moeda real, vamos
simplesmente manter-nos a coleccionar estes IOUs de Bonnie Faulkner". As
corporações chamam de "realizável"
("receivables")
a tais IOUs e créditos comerciais. Agora, suponha que faça uma
farra de despesas e dê à loja IOUs no valor de mil milhões
de dólares. Não há como pagar esses mil milhões de
dólares. Nesse caso, as lojas que recebem esses IOUs diriam: "Bem,
nós realmente não queremos excluir Bonnie, porque sabemos que ela
não pode pagar. Perdemos o valor das contas realizáveis no lado
do activo do nosso balanço todas estas notas promissórias
que colectámos.
Isso na essência é o que países estrangeiros estão a
dizer acerca da sua acumulação de dólares. A
posição dos EUA é, efectivamente, de que não vamos
reembolsar qualquer país estrangeiro pelos dólares que lhes
devemos. Quando era secretário do Tesouro, John Connolly disse:
"São nossos dólares, mas é vosso problema".
Outros países têm de nos pagar ou do contrário nós
os bombardearemos. A dimensão militar deste esquema é a
posição dos EUA de que seria um acto de guerra se outros
países não se mantivessem a gastar seus ganhos de
exportações em empréstimos ou acções e
títulos dos EUA.
É isto o que torna os Estados Unidos o "país
excepcional". O valor da nossa divisa está baseado nas
poupanças dos outros países. A moeda que eles poupam tem de ser
mantida na forma de dólares ou títulos que nunca reembolsaremos,
mesmo que pudéssemos.
Isto é um enorme almoço gratuito. Você poderia pensar que
Donald Trump desejasse manter esta situação. Mas ele afirma que a
China está a manipular a sua divisa ao reciclar seus dólares em
empréstimos ao Tesouro dos EUA. O que significa isso? A China
está a ganhar um bocado dólares com exportações de
bens para os Estados Unidos. O que faz com estes dólares? Ela tenta
fazer o que a América fez com a Europa e a América do Sul. Ela
tentou comprar companhias americanas. Mas os Estados Unidos impediram-na de
fazer isto, com argumentos especiosos sobre segurança nacional. O
governo afirma que a nossa segurança nacional ficaria ameaçada se
a China comprasse uma cadeia de postos de abastecimento de combustíveis,
como ela quis fazer na Califórnia. Os Estados Unidos têm portanto
um duplo padrão, afirmando que ficam ameaçados se a China comprar
qualquer companhia, mas insistindo no seu direito de comprar os altos comandos
de economias estrangeiras com crédito electrónico em
dólares.
Isto deixa a China apenas com uma opção: comprar títulos
do Tesouro dos EUA, emprestando seus ganhos de exportação ao US
Treasury.
Trump está agora a conduzir outros países para fora da
órbita do dólar
A China agora percebe que o Tesouro dos EUA não vai reembolsá-la.
Mesmo se quisesse reciclar seus ganhos de exportação em
títulos do Tesouro ou em acções e títulos ou em
imobiliário dos EUA, Donald Trump agora está a dizer que
não quer que a China apoie a taxa de câmbio do dólar (e
mantenha baixa a sua própria taxa de câmbio) através da
compra de activos dos EUA. Estamos a dizer à China para não fazer
o que dissemos a outros países para fazerem durante os últimos
quarenta anos: comprar títulos dos EUA. Trump acusa países de
manipulação artificial da divisa se mantiverem suas reservas
estrangeiras em dólares. Assim, ele está a dizer-lhes,
especificamente à China, para livrar-se dos seus haveres em
dólar, não mais comprar dólares com os seus ganhos de
exportação.
Assim, a China está a comprar ouro. A Rússia também
está a comprar ouro e grande parte do mundo está agora no
processo de reverter ao padrão
gold-exchange
(o que significa que o ouro é utilizado para liquidar
desequilíbrios de pagamentos internacionais, mas não está
conectado à criação de moeda interna). Os países
percebem que há uma grande vantagem no padrão
gold-exchange.
Existe apenas um montante limitado de ouro nos bancos centrais do mundo. Isto
significa que qualquer país que trava guerras vai incidir num grande
défice de balança de pagamentos e vai perder suas reservas-ouro.
Assim, ressuscitar o papel do ouro pode impedir qualquer país, incluindo
os Estados Unidos, de irem à guerra e sofrerem um défice militar.
A ironia disto é que Trump está a desmanchar o almoço
gratuito financeiro da América sua política de
imperialismo monetário ao dizer às províncias para
deixar de reciclarem seus influxos de dólares. Elas têm de
desdolarizar suas economias.
O efeito disto é tornar estas economias independentes dos Estados
Unidos. Trump já anunciou que não contratará chineses nos
nossos sectores de TI ou deixará chineses estudarem em universidades [dos EUA]
assuntos que possam permitir-lhes rivalizarem connosco. De modo que nossas
economias estão em vias de separar-se.
Com efeito, Trump tem dito que se não pudermos vencer num acordo
comercial, se não pudermos fazer com que outros países percam e
se tornem mais dependentes de fornecedores estado-unidenses e com preços
de monopólio, então não assinaremos um acordo. Esta
posição está a conduzir não só a China como
também a Rússia e mesmo a Europa e outros países para fora
da órbita dos EUA. O resultado final vai ser que os Estados Unidos
serão isolados, sem serem capazes de manufacturar como costumavam
fazê-lo. O país está a desmantelar a sua manufactura.
Assim, como
acabará
isto?
Alguns números demográficos foram divulgados na semana passada
mostrando que o meio da América está a esvazia-se. A
população está a mudar-se dos estados do Centro-Oeste e
montanhosos para as costas Leste e Oeste e para a costa do Golfo. Assim, as
políticas de Trump estão a acelerar a
desindustrialização dos Estados Unidos sem nada fazer para
colocar novas forças produtivas em substituição e nem
mesmo desejando que outros países invistam aqui. As montadoras
automobilísticas alemãs vêem Trump a aplicar tarifas sobre
o aço importado que precisam para construir carros nos Estados Unidos.
Para construí-los aqui a fim de contornar as barreiras tarifárias
dos EUA contra automóveis alemães e outros. Mas agora Trump
não está sequer a deixá-los importar as peças de
que precisam para montar estes carros nas fábricas
não-sindicalizadas que construíram no Sul.
O que podem eles fazer? Talvez proponham uma troca com a General Motors e a
Chrysler. Os europeus obterão as fábricas que as empresas
americanas possuem na Europa e lhes darão suas fábricas
americanas em permuta.
Está espécie de divisão está a verificar-se sem
qualquer tentativa de tornar o trabalho americano mais competitivo
através da redução dos seus custos de
habitação, ou do preço dos seus seguros de saúde e
cuidados médicos, ou dos seus custos de transporte ou dos custos de
infraestrutura. De modo que a América está a ficar sem
salvação como uma economia de altos preços num mundo
nacionalista, enquanto incide num enorme défice de balança de
pagamentos para suportar seus gastos militares por todo o globo.
BF
: Assim, parece que quando os Estados Unidos saíram do
padrão-ouro, o dólar basicamente substituiu o ouro como o
principal activo no qual os governos estrangeiros podiam manter seus activos.
Agora você está a dizer que, quando não havia mais
padrão-ouro, se economias estrangeiras não comprassem
títulos do Tesouro dos EUA, o preço das suas divisas aumentaria e
os tornaria não competitivos.
MH
: Sim. Imagine se os americanos tivessem de pagar cada vez mais dólares
para comprar carros alemães. Haveria uma maior procura pela divisa
alemã, o euro, cuja taxa de câmbio subiria. Isso estava a
acontecer durante os anos 1960 e 1970, antes do euro. O único meio pelo
qual a Alemanha podia manter baixo o valor do seu marco era comprar alguma
coisa que custasse dólares. Ela não comprava
exportações americanas, porque os EUA já estavam a
fabricar e exportar cada vez menos, excepto quanto a alimentos e a
Alemanha só podia comer uma quantidade limitada de trigo e soja. Assim,
a única coisa que a Alemanha podia comprar com preço em
dólares eram títulos do Tesouro dos EUA. Isso impedia o marco
alemão de ascender ainda mais rapidamente e mantinha a balança de
pagamentos equilibrada.
O Japão tinha um problema semelhante. Os japoneses tentaram comprar
imóveis nos EUA, mas não tinham qualquer ideia do que fazer com o
valioso imobiliário daqui. Eles perderam mil milhões de
dólares na compra do Rockefeller Center por não perceberem que o
valor do edifício era separado do valor da terra e que a terra era
possuída pela Universidade de Columbia. O próprio edifício
estava a incidir num défice. A maior parte do valor locativo era paga ao
proprietário da renda da terra. Os japoneses não tinham ideia de
como funciona o imobiliário americano.
O euro é apenas uma divisa satélite do US dólar
Alguns americanos preocupam-se com a possibilidade de o euro rivalizar com o
dólar. Afinal de contas, a Europa não está a
desindustrializar-se. Está a mover-se em frente e a produzir melhores
carros, aviões e outros produtos para exportação. Assim os
Estados Unidos persuadiram políticos estrangeiros a estropiar o euro
fazendo dele uma divisa de austeridade, criando tão poucos
títulos governamentais que não há nenhum veículo
euro suficientemente grande para países estrangeiros nele manterem suas
reservas. Os EUA podem criar cada vez mais dívida em dólar
incorrendo num défice orçamental. Podemos seguir políticas
keynesianas incorrendo num défice para empregar mais trabalho. Mas a
eurozona recusa-se a deixar seus países incorrerem num défice
superior a 3% do PIB. Este nível é muito marginal em
comparação com o dos Estados Unidos. E se estiver a tentar
não incidir de todo em qualquer défice e mesmo se o
mantiver em menos de 3% então estará a impor austeridade
sobre o seu país, mantendo baixo o seu emprego. Estará a sufocar
seu mercado interno, a cortar sua garganta ao ser incapaz de criar um rival
real para o dólar. Eis porque Donald Rumsfeld chamou a Europa de zona
morta e porque a única alternativa para uma divisa real é o yuan
chinês. Eles estão a movimentar-se para uma área com divisa
baseada no ouro juntamente com a Rússia, o Irão e outros membros
da Organização de Cooperação de Shangai.
BF
: A União Europeia ao não permitir países europeus dentro
da eurozona incorrerem em défices de mais de 3% está basicamente
cortar a sua própria garganta. Por que fariam eles uma tal coisa?
MH
: Porque os responsáveis do Banco Central estão a combater uma
guerra de classe. Eles consideram-se como generais financeiros no combate
económico contra o trabalho, para prejudicar a classe trabalhadora,
reduzir salários e ajudar o seu eleitorado político, a classe
investidora rica. A Europa sempre teve uma guerra de classe mais viciosa do que
os Estados Unidos. Ela nunca emergiu realmente do seu aristocrático
sistema pós feudal. Seus banqueiros centrais e universidades seguem a
escola do livre mercado da Universidade de Chicago, dizendo que o meio de ficar
rico é tornar os seus trabalhadores mais pobres e criar um governo em
que o trabalho não tenha voz. Essa é a filosofia económica
da Europa e é por isso que a Europa não tem alcançado o
crescimento que a China e outros países estão a experimentar.
BF
: Assim, parece que desde 1971 os Estados Unidos foram capazes de dominar a
economia mundial a partir de uma posição devedora.
Michael Hudson
: Quando perdia ouro, de 1950 a 1971, não estavam a dominar; estavam a
perder a oferta de ouro da América para a França, Alemanha,
Japão e outros países. Somente quando cessou o padrão
gold-exchange
e os países ficaram sem alternativa para suas poupanças
internacionais, excepto comprar títulos do Tesouro dos EUA ou outros
títulos, os EUA foram capazes de pagar pelos seus gastos militares sem
perder seu poder.
Desde 1971, a diplomacia mundial tem sido essencialmente apoiada pelo poder
militar americano. Não é um mercado livre. O poder militar
mantém países numa camisa de força financeira na qual os
Estados Unidos podem incidir em dívida sem terem de reembolsá-la.
Aos outros países que incidem em défices de pagamentos não
é permitido expandirem suas economias, ou rivalizar os Estados Unidos ou
mesmo melhorar padrões de vida da sua força de trabalho.
Só países fora da órbita dos EUA China e em
princípio a Rússia e alguns outros países na Ásia
são capazes de aumentar seus padrões de vida e
investimento de capital e tecnologia por estarem livres desta guerra de classe
financeira globalizada.
BF:
Em
Super Imperialism
você escreve que: "Pressões para criar uma Nova Ordem
Económica Internacional entraram em colapso no fim da década de
1970". Estará você a dizer que outros países
simplesmente abandonaram e aceitaram o imperialismo monetário americano?
O que aconteceu?
MH
: Contaram-me que foi suborno em grande escala. Responsáveis da
administração Reagan contaram-me que simplesmente pagaram a
responsáveis estrangeiros para apoiar a posição dos EUA e
não uma Nova Ordem Económica Internacional. Agências dos
EUA manobravam dentro da política partidária de países
europeus e do Oriente Próximo para promover responsáveis
pró-americanos e marginalizar aqueles que não concordassem em
actuar como satélites dos EUA. Muito dinheiro esteve envolvido nessa
intromissão.
Assim os Estados Unidos corromperam a política democrática por
toda a Europa, Oriente Próximo e grande parte da Ásia. Isso
conseguiu esterilizar a independência estrangeira nos EUA. Enquanto isso,
as ideias neoliberais de Thatcher e Reagan foram promovidas ao invés da
espécie de economia mista que Roosevelt e a social-democracia haviam
impulsionado durante cinquenta anos.
Quem planeará economias: Administradores financeiros ou governos
democráticos?
BF
: Se houve pressões para criar uma Nova Ordem Económica
Internacional na década de 1970, o que era esta nova ordem que se
pretendia alcançar?
MH
: Outros países quiseram fazer para as suas economias o que os Estados
Unidos fizeram há muito para a sua própria economia: utilizar
gastos deficitários do governo para construir infraestrutura, elevar
padrões de vida, criar habitação e promover
tributação progressiva que impedisse uma classe
rentista,
uma classe de latifundiários e financistas, de tomar as rédeas
da administração económica. No campo financeiro, eles
queriam que os governos criassem sua própria moeda, para promover o seu
próprio desenvolvimento, tal como os Estados Unidos fizeram. O papel do
neoliberalismo era o oposto: era promover o sector financeiro e
imobiliário e os monopólios para afastar a
administração económica do governo.
Assim, a questão real dos anos 1980 era acerca de quem seria o centro
básico de planeamento da sociedade. Seria o sector financeiro os
bancos e accionistas dos bancos, cujo interesse está realmente nos Um
Porcento que possuem a maior parte dos títulos e acções
dos bancos? Ou seriam governos a tentarem subsidiar a economia para ajudar os
99 Porcento a crescerem e prosperarem? Essa era a visão social-democrata
a que se opunha o Thatcherismo e o Reaganismo.
O impulso internacional para desdolarizar
BF
: Foi esta pressão que bloqueou uma Nova Ordem Económica
Internacional provocada pelos Estados Unidos ao saírem do padrão
gold-exchange
?
MH
: Não. Foi uma reacção contra a política dos EUA de
apropriar-se dos altos comandos de economias estrangeiras. Os Estados Unidos
querem controlar suas exportações de matérias-primas,
especialmente seu petróleo e gás. Querem controlar seus sistemas
financeiros, de modo a que todos os seus ganhos económicos irão
para investidores estrangeiros, principalmente investidores dos EUA. Querem
tornar outras economias em economias de serviço para os Estados Unidos e
fazer delas uma espécie de aliança militar super-NATO que se
oporá a qualquer país que não queira fazer parte da ordem
global unilateral centrada nos EUA.
BF
: Como é que o imperialismo monetário de hoje super
imperialismo difere do imperialismo do passado?
MH
: É uma etapa mais alta do imperialismo. O velho imperialismo era
colonialismo. Você vinha e utilizava poder militar para instalar uma
classe dominante cliente. Mas cada país teria a sua própria
divisa. O que tornou o imperialismo "super" é que a
América não tem de colonizar um outro país. Ela não
tem de invadir um país ou realmente ir à guerra com ele. Tudo o
que precisa é ter o país a investir suas poupanças, seus
ganhos de exportação, em empréstimos ao Governo dos
Estados Unidos. Isto permite aos EUA manterem suas taxas de juro baixas e
permite a investidores americanos tomar emprestado de bancos americanos a taxas
baixas para comprarem indústria e agricultura estrangeira que rende 10%,
15% ou mais. De modo que os investidores americanos percebem que apesar do
défice da balança de pagamentos, podem emprestar esses
dólares a uma taxa tão baixa de países estrangeiros
pagando apenas 1% a 3% sobre os títulos do Tesouro que mantêm
enquanto bombeiam dólares para dentro economias estrangeiras ao
comprarem sua indústria, agricultura, infra-estrutura e serviços
públicos, obtendo grandes ganhos de capital. A esperança é
que, em breve, consigamos sair da dívida através deste esquema de
almoço gratuito.
O imperialismo está a obter algo em troca de nada. É uma
estratégia para obter excedente de outros países sem desempenhar
um papel produtivo, mas sim pela criação de um sistema extractivo
rentista.
Uma potência imperialista obriga outros países a pagarem tributo.
Naturalmente, a América não diz directamente aos outros
países: "Você tem de nos pagar um tributo", tal como os
imperadores romanos diziam às províncias que governavam. Os
diplomatas dos EUA simplesmente insistem em que outros países invistam
seus influxos da balança de pagamentos e as poupanças dos seus
bancos centrais em US dólares, especialmente em US Treasury (IOUs). Este
padrão de títulos do Tesouro transforma o sistema
monetário e financeiro global num sistema de tributos.
É isto o que paga os custos dos gastos militares dos EUA, incluindo suas
800 bases militares por todo o mundo e sua legião estrangeira de
combatentes do ISIS, Al Qaeda e de "revoluções
coloridas" para desestabilizar países que não aderem ao
sistema económico global centrado no dólar.
BF:
Você escreve: "Hoje seria necessário para a Europa e a
Ásia conceberem uma alternativa artificial, criada politicamente, ao
dólar como um armazém internacional de valor. Isto promete
tornar-se o ponto crucial de tensões políticas internacionais
durante a próxima geração". Como é que o mundo
romperia com este duplo padrão de dominação do
dólar?
MH
: Isto já está a acontecer. E Trump é um grande
catalisador acelerando a partida dos hóspedes. A China e a Rússia
estão a reduzir seus haveres em dólares. Eles não querem
manter títulos do Tesouro americano, porque se os EUA entrarem em guerra
com eles isso lhes fará o mesmo que fez ao Irão. Os EUA
simplesmente manterão todo o dinheiro, não reembolsarão o
investimento que a China tem efectuado em bancos dos EUA e no Tesouro. Assim,
eles estão a livrar-se dos dólares que possuem. Estão a
comprar ouro e a mover-se tão rápido quanto possível para
serem independentes de quaisquer exportações dos EUA. Eles
estão construindo suas forças armadas, para que, se os Estados
Unidos tentarem ameaçá-los, possam defender-se. O mundo
está a fracturar-se.
BF
: O que é que países estrangeiros como a China e a Rússia
estão a utilizar para comprar ouro? Estarão a comprar com
dólares?
MH
: Sim. Eles ganham dólares ou euros do que estão a exportar. Esta
moeda vai para o banco central da China, porque os exportadores chineses querem
o yuan interno para pagar aos seus trabalhadores e fornecedores. Assim,
vão ao Banco da China e trocam seus dólares por yuans. O Banco da
China, o banco central, decide então o que fazer com esta divisa
estrangeira. Eles podem ir ao mercado aberto e comprar ouro. Ou pode
gastá-la em países estrangeiros, na iniciativa Estrada da Seda
para construir uma ferrovia e infraestrutura de navegação e
desenvolvimento de portos para ajudar exportadores da China a integrarem sua
economia com outras e finalmente com a Europa, substituindo os Estados Unidos
como cliente e fornecedor. Eles encaram os Estados Unidos como uma economia
moribunda.
BF
: Podem os chineses construir seus projectos de infraestrutura da Estrada da
Seda com dólares?
MH
: Não, eles estão a livrar-se de dólares. Eles já
estão a receber tão grande excedente a cada ano que apenas
utilizam os dólares para comprar ouro ou alguns bens, tais como
aviões Boeing, mas sobretudo alimentos e matérias-primas. Quando
a China compra ferro da Austrália, por exemplo, ela vende dólares
das suas reservas de moeda estrangeira e compra a divisa australiana para pagar
aos australianos pelo minério de ferro importado. Ela utiliza
dólares para pagar outros países que ainda fazem parte da
área do dólar e ainda desejam continuar a acrescentar estes
dólares às suas reservas monetárias oficiais ao
invés de possuir ouro.
BF
: Bem, é bastante surpreendente, Michael, que países não
tenham começado a fazer isto bem mais cedo.
MH
: Houve pressão política para não se retirarem do sistema
de dívida em dólar. Se países actuarem de forma
independente, correm o risco de serem derrubados. É preciso um governo
forte para resistir à interferência americana e aos truques sujos
para colocar seu próprio país em primeiro lugar, em vez de seguir
conselheiros e agentes dos EUA que lhes pagam para servir a economia dos EUA ao
invés da sua própria, ou para resistir à lavagem cerebral
da teoria económica lixo da Universidade de Chicago.
BF
: Quão distante está a morte do dólar como a divisa de
reserva do mundo?
MH:
O dólar já está a desacelerar. Trump faz tudo o que pode
para acelerar a sua morte, ameaçando que se países estrangeiros
continuarem a reciclar seus ganhos de exportação em
dólares (elevando a taxa de câmbio do dólar), nós os
acusaremos de manipular sua divisa. Assim, ele gostaria de acabar isso tudo
até o final do seu segundo mandato em 2024.
BF:
Com o que se pareceriam os Estados Unidos se o dólar já
não fosse a divisa de reserva do mundo?
MH
: Se continuarem a deixar a Wall Street fazer o planeamento económico, a
economia dos EUA parecer-se-á à da Argentina.
BF
: E com o que se parece a Argentina?
MH
: Uma estreita oligarquia no topo, mantendo o trabalho na base, retirando
direitos do trabalho de sindicalizar-se uma economia cujos sectores
financeiro e militar venceram a guerra de classe.
BF
: A China, com o seu projecto de infraestrutura da Estrada da Seda, está
agora a comprar ouro no mercado aberto, tal como um certo número de
outros países. Será que o sistema bancário ocidental
penetrou a China? E se assim for, como você caracterizaria o sistema
bancário da China?
MH
: Há uma tentativa dos Estados Unidos de penetrar na China. Nos recentes
acordos comerciais a China permitiu que bancos dos EUA criassem seu
próprio crédito. Não estou seguro de que isso vá
realmente em frente, agora que Trump está a intensificar a guerra
comercial. Mas basicamente, na América, você tem bancos privados a
concederem, crédito a corporações. Na China, você
tem os bancos do governo a concederem os empréstimos. Isso salva a China
de ter uma crise financeira do mesmo modo dos Estados Unidos.
Cerca de 12% das companhias americanas são consideradas companhias
zumbi. Elas já estão insolventes, incapazes de fazer um lucro
depois de pagarem seu pesado serviço de dívida. Mas os bancos
ainda estão a dar-lhes crédito suficiente para permanecerem no
negócio, de modo a não terem de ir à bancarrota e criar
uma crise. A China não tem esse problema, porque quando
indústrias e fábricas chinesas não são capazes de
pagar, o Banco da China (público) pode simplesmente perdoar a
dívida. Sua escolha é clara. Ou ele pode deixar companhias irem
à bancarrota e serem vendidas a baixo preços a algum comprador,
sobretudo americano, ou pode limpar as dívidas podres da contabilidade.
Se a China tivesse sido bastante louca para ter empréstimos estudantis
que deixassem seus licenciados empobrecidos ao invés de proporcionar
universidades gratuitas, o banco central da China poderia simplesmente cancelar
os referidos empréstimos. Nenhum investidor perderia, porque os bancos
são propriedade do governo. Sua posição é: "Se
se trata de uma fábrica, não queremos que tenha de
encerrá-la e desempregar seus trabalhadores. Vamos apenas cancelar
parcialmente a dívida. E se os seus empregados estiverem em
dificuldades, cancelamos parcialmente as suas dívidas, de modo a que
possam gastar seu dinheiro em bens e serviços para ajudar a expandir
nosso mercado interno".
Os bancos da América são possuídos pelos accionistas e
detentores dos títulos, os quais nunca deixariam o Chase Manhattan ou o
Citibank ou o Wells Fargo simplesmente perdoarem suas várias categorias
de empréstimos. Esta é a razão porque a banca
pública é muito mais eficiente ao nível de uma economia
vasta do que bancos privados. Esta é a razão porque a banca
deveria ser um serviço público e não privatizada.
BF
: Pode explicar com mais pormenor como o cancelamento parcial de dívidas
é bom para a economia?
MH
: Bem, pense na alternativa a cancelar dívidas. Se você não
cancelar parcialmente as dívidas de estudantes da América os
licenciados têm de pagar tanto do serviço de dívida
estudantil (agora ao governo) que não têm dinheiro suficiente para
poderem comprar uma casa, não têm bastante dinheiro para se
casarem, não têm dinheiro suficiente para comprar bens e
serviços. Isto significa que a maior parte das pessoas que pode comprar
casas são licenciados com fundos fiduciários
(trust funds)
estudantes cujos pais são bastante ricos de modo a que
não tivessem de recorrer a um empréstimo estudantil para pagar
pela educação dos filhos. Estas famílias
hereditárias são suficientemente ricas para lhes comprarem seu
próprio apartamento.
Eis porque a economia americana está a polarizar-se entre pessoas que
herdam bastante dinheiro para serem capazes de ter a sua própria
habitação e orçamentos livres de empréstimos
estudantis, a comparar com famílias que estão presas a
dívidas e incidindo cada vez mais profundamente em dívidas e sem
grandes poupanças. Esta bifurcação financeira está
a tornar-nos mais pobres. Mas a teoria económica neoliberal encara isto
como uma vantagem competitiva. Para eles, e para o patronato, a pobreza
não é um problema a ser resolvido. É a
solução para o seu próprio objectivo da lucratividade.
BF
: Assim é todo este esquema de privatização,
particularmente a privatização do sistema bancário e a
privatização de muitas infraestruturas que está a levar os
Estados Unidos à bancarrota?
MH
: Sim, tal como levou a Inglaterra e outros países à bancarrota
que se seguiu ao thatcherismo ou à filosofia neoliberal desde cerca de
1980.
BF
: Michael Hudson, muito obrigado mais uma vez.
MH
: É sempre um prazer ter estas discussões.
[1] 1 onça troy = 31,103 gramas
[2] IOUs: notas de reconhecimento de dívida ou notas promissórias
(I owe you)
O áudio desta entrevista está disponível em
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O original encontra-se em
thesaker.is/bonnie-faulkner-interviews-michael-hudson/
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