Dois erros paralelos
por Guillermo Almeyra
Há dois velhos, velhíssimos, erros que hoje se apresentam juntos
e têm um efeito conservador. O primeiro espera que o mundo mude se se
eleger um presidente bom e capaz (ou maioria de parlamentares capazes e
honestos desculpem o oxímoro) e se se utilizar bem a varinha
mágica das eleições (parlamentares ou presidenciais).
Tudo dependerá, por conseguinte, de dar base de massas ao Salvador ou
aos Salvadores de turno, e de fazer suficiente pressão para que superem
as armadilhas e emboscadas dos Maus, que tratam de preservar os seus
privilégios mas podem e devem ser varridos pela revolução
nas urnas, pelo dilúvio de papelinhos de voto que há que despejar
sobre as suas cabeças. Este erro eleitoralista crê que o voto e a
constituição têm poder ou dão poder por si mesmos, e
não se dão conta de que são factores de poder, com efeito,
mas só quando mudam previamente as relações de
força entre as classes, para faze-los valer.
O segundo, paralelo ao anterior, sustenta em troca que as
eleições são "uma armadilha para tolos" (
éléctions piéges á cons,
dizem os ultras franceses). E, por conseguinte, que há que fugir com
asco do terreno da luta inter-burguesa e institucional, e refugiar-se no
Aventino do não voto para não evitar contaminação.
Holloway e o duo Negri-Hardt (uma dupla semelhante à do Gordo e o Magro,
mas no campo da filosofia e da política) teorizam inclusive o
"êxodo" do sistema: se deixarmos de crer no capitalismo e,
portanto, de recriá-lo, diz o primeiro, o sistema cairá; se
sairmos do capitalismo (parando o planeta para dele sairmos, por exemplo),
dizem os segundos, o capitalismo desaparecerá. Nesta
posição reflecte-se, naturalmente, o asco pela política
politiqueira, um começo de ruptura da dominação e da
hegemonia cultural do capital e o desejo de uma solução
pacífica para a actual crise de decomposição
política e moral do aparelho de Estado, além de uma dose para
elefante de idealismo, de desconhecimento histórico e de
ignorância sobre como se sustentam mutuamente os mecanismos de
exploração e os de dominação.
O primeiro dos erros crê no sistema e na possibilidade de
reformá-lo; ao passo que o segundo, aparentemente radical, perpetua-o
ao separar aqueles que se consideram puros e duros do comum dos mortais, que
faz política nas manifestações, na resistência
quotidiana, mas também, quando não há mais remédio,
porque se encontra de repente perante uma conjuntura eleitoral, votando (pelo
candidato a Salvador, quando tem esperanças, ou pelo menos pior, quando
quer castigar o seu inimigo principal votando pelo adversário deste na
luta inter-burguesa pela repartição do queijo).
A América Latina vive a fase da luta entre os diversos componentes do
establishment, do combate inter-burguês, em resultado do enfraquecimento
do aparelho estatal devido à ofensiva neoliberal, consentida e apoiada
por uma parte do mesmo, e dos dramas populares provocados pelas
políticas do capital financeiro internacional. Em toda a América
Latina estamos na fase da utilização das pressões sociais
para produzir mudanças nas cúpulas do Estado, não na fase
da mobilização popular para acabar com aparelho do Estado e
instaurar um poder anti-capitalista. Isso aconteceu no Brasil, no Uruguai com
a Frente Ampla, ou com o governo peronista sui generis de Nestor Kirchner, na
Argentina, que em Outubro, se tudo continuar assim, conseguirá um apoio
amplamente majoritário. Não se pensa em nenhuma
revolução ou alternativa social: pensa-se em reformas, e
"mudança" quer dizer isso, como demonstrou a
eleição de Vicente Fox ou demonstra o apoio a López
Obrador. E essa mudança tenta-se pela via das eleições,
não da auto-organização, a autonomia, as tentativas de
autogestão (todas as quais, apesar de existirem e estarem na ordem do
dia, mobilizam apenas minorias, umas poucas andorinhas que, se não fazem
o verão, em parte preanunciam-no).
Mas inclusive quando, como no México, a maioria dos explorados e
oprimidos espera de um Salvador ou espera das eleições que
imponham reformas, essa maioria dá à utilização da
campanha eleitoral e do momento do voto um sentido diferente ao que dão
os que a conclamam a mobilizar-se, ou a desmobilizar-se, segundo as suas
conveniências na luta inter-burguesa, para negociar assustando os seus
adversários ou para tranquilizar os "factores de poder". Por
conseguinte, se há teatro entre os políticos de profissão,
na gente a pé há desejo de utilizar todos os meios,
pacíficos de preferência, para dar soluções,
também reformistas, mas incompatíveis com o sistema, como as
medidas de fundo que possam mudar a situação dos indígenas
e dos camponeses, ou que possam preservar as conquistas sociais da
Revolução mexicana ou a independência nacional.
Consequentemente, o dever dos que dizem ser rebeldes ou revolucionários
não é dizer "merda!" perante o actual processo e sim
colaborar com todas as suas forças, a partir do nível de
consciência e de organização actual das classes
subalternas, para acompanhá-las nas suas experiências,
ajudá-las a crescer, impulsioná-las para a sua
independência política e a sua auto-organização. Ou
seja, trabalhar juntos, por alguns pontos comuns, com os mais próximos,
apesar das diferenças passadas e presentes, para que a luta as dirima.
Saber esquecer o mau também é ter memória.
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2005/may05/050515/024a1pol.php
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