Um Vietnam no deserto
Em 28 de Dezembro a cadeia Al Jazeera difundiu um suposto texto de Osama Bin
Laden em que reconhece o jordano Abu-Musab al-Zarqawi como seu braço
direito no Iraque e apela ao boicote dos cidadãos às
eleições programadas pelos Estados Unidos para 30 de Janeiro,
para a eleição duma Assembleia Nacional Constituinte. Esta
mensagem demonstra claramente a intensificação da guerra naquele
país: desde a invasão dos Estados Unidos em Março de 2003
a vida no Iraque não vale nada e, apesar das declarações
de Washington de que mantém o controlo, o que é certo é
que a violência vai aumentando, prejudicando sobretudo a
população civil. Apesar disso, os efectivos militares
estadunidenses e britânicos estão a começar a sentir as
consequências desta guerra de desgaste, situação que
recorda, cada vez mais, a sangrenta e prolongada intervenção
norte-americana no Vietnam.
Na actualidade, as tropas de ocupação enfrentam uma média
de 35 ataques diários da resistência iraquiana e, praticamente,
não passa um dia sem baixas nas suas fileiras. Segundo um
relatório da CIA, publicado pelo diário
Philadelphia Inquirer,
milhares de iraquianos entraram na resistência, as acções
do exército dos Estados Unidos provocam a rejeição
generalizada da população, as fronteiras são
impossíveis de controlar e os combatentes muçulmanos chegam de
todos os lados.
Isto traduz-se em emboscadas com bombas e ataques suicidas, sabotagens das
infra-estruturas (sobretudo petrolífera), bem como assassinatos de
empreiteiros e activistas estrangeiros e outras pessoas acusadas de colaborar
com o invasor. Até à data, o saldo é de mais de mil
soldados norte-americanos e britânicos falecidos desde o início da
guerra, a maioria em combate, e ainda se têm indícios de que os
suicídios e as baixas por doença não cessam de aumentar,
sem contar com as incipientes deserções, pelo que se pode falar
de um exército desmoralizado.
Outra prova da deterioração anímica é o aumento dos
crimes de guerra contra a população civil (entre 10 e 37 mil
vítimas, segundo organizações independentes) ou contra
combatentes já por terra, como mostram as recentes fotografias de um
marine
executando um rebelde iraquiano ferido e desarmado.
Neste contexto, a realização das eleições é
cada vez mais difícil. A campanha eleitoral não enfrenta
só as dúvidas da comunidade internacional que recusa a
legitimidade da guerra empreendida por Washington, mas também enfrentam
a oposição da comunidade sunita. O Partido Islâmico
Iraquiano anunciou há dias que não participará nesse
processo perante a recusa das autoridades provisórias de adiar a
votação por seis meses, para elaboração de um
recenseamento eleitoral mais amplo. Até aqui, também
ninguém garante que a 30 de Janeiro haja condições para as
pessoas se dirigirem às urnas.
Estes factores indicam que a guerra é um fracasso para os Estados Unidos
que já planeiam aumentar o seu orçamento para 2005 destinado ao
conflito em 66 mil milhões de dólares, alcançando a cifra
total de 80 mil milhões. As tropas estão atoladas nas areias
iraquianas suportando o desprezo da população local, o que
também sucede com as tentativas da Casa Branca em legitimar a
ocupação no concerto internacional das nações:
não só perdeu aliados (como a Espanha), como falhou no
envolvimento de outros países para aliviar o peso dos combates que
recaem sobre os seus soldados e para reconstruir o Iraque. Nenhum governo do
mundo esquece que as razões esgrimidas pelo presidente George W. Bush
para justificar a guerra (armas de destruição maciça, para
citar apenas uma) eram mentira e que a Nações Unidas foram
incapazes de deter um conflito que viola o direito internacional. Os Estados
Unidos estão perante um novo Vietnam, um pesadelo que abalou fortemente
o
sonho americano
a que ameaça manter em suspenso o povo americano e o mundo inteiro.
[*]
Editorial da edição de 28/Dez/04.
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2004/dic04/041228/edito.php
.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|