As mãos sangrentas de Fox
por La Jornada
O governo de Vicente Fox chega ao seu fim como refém dos estamentos mais
delituosos do partido que pretendia "retirar a patadas" [do
palácio] de Los Pinos, com o estigma da traição a um
movimento popular com o qual se encontrava formalmente em
negociações, com a mania intacta de mentir e com as mãos
manchadas de sangue. Tal é o saldo provisório da incursão
repressiva lançada ontem [29] contra a Assembleia Popular dos Povos de
Oaxaca (APPO), decidida com a máxima precipitação depois
de os corpos estatais e municipais de segurança, convertidos em
esquadrões da morte, assassinaram, na sexta-feira, quatro pessoas e
feriram outras 23.
O poder federal não actuou para desarmar e deter os homicidas e sim para
tripudiar sobre as suas vítimas e para reinstalar no poder uma
autoridade repudiada e impopular como há muito não se via no
país. Horas antes da operação, a Secretaria da
Governação cortou as linhas de comunicação com os
representantes da organização popular com a qual mantinha
conversações. A atitude obriga a recordar o 9 de Fevereiro de
1995, quando o governo de Ernesto Zedillo, sem interromper os contactos que
mantinha com os dirigentes do Exército Zapatista de
Libertação Nacional, tentou capturá-los de surpresa e
à traição.
Impávido, o titular dessa dependência saiu a festejar o
"saldo branco" que lhe relatou Miguel Angel Yunes Linares,
subsecretário de Segurança Pública, enquanto os media
reproduziam as fotos de um dos mortos na incursão repressiva, Jorge
Alberto López, que recebeu no peito o impacto de uma cápsula de
gás lacrimogéneo, lançada pelos efectivos da
Polícia Federal Preventiva.
O "método muito cuidadoso para não ferir, para não
lesionar" dos contigentes policiais deixava, até ontem, um saldo de
três mortos e dezenas de feridos. A mobilização policial
mostrou os seus verdadeiros propósitos: esmagar o movimento que pede a
saída de Ulises Ruiz do governo estatal com a detenção de
uns 60 supostos integrantes da APPO e a busca em meia centena de
residências. E o pretexto para a incursão de que "ambas as
partes estavam a matar-se reciprocamente", dito por Abascal, cai pelos seu
próprio peso, porque a violência do Estado voltou-se de maneira
inequívoca contra o movimento popular e em caso algum contra os
responsáveis de todas as mortes, cerca de uma vintena, ocorridas
até agora naquela convulsionada entidade.
Naturalmente, a entrada violenta das forças federais na capital
oaxaquenha não vai resolver o conflito. Pelo contrário, este
recurso repressivo complica mais a crise regional e introduz um factor
adicional de tensão no já por si decomposto panorama
político nacional. No imediato, cabe perguntar se poderá ser
efectuado o reinício das aulas pelos professores de Oaxaca, que estava
previsto para hoje e que tanto festejavam as autoridades federais, em meio a um
ambiente social exacerbado pela presença de pequenos tanques
anti-motins. Quanto à APPO, a destruição das barricadas,
a "recuperação" dos edifícios públicos, a
perseguição, as mortes, as agressões físicas e a
evacuação do centro de Oaxaca não farão
senão fortalecer as razões de ser desse movimento.
Finalmente, se com esta escalada repressiva pretendia-se aplainar o caminho de
Felipe Calderón à Presidência, pode ser que o governo
federa consiga o resultado contrário. Com decisões tão
torpes e insensíveis como essa o foxismo poderia provocar, nos 32 dias
que lhe restam, uma desestabilização sem precedentes. Conseguiu,
no imediato, e pela terceira vez após as
intervenções de forças federais em Lázaro
Cárdenas e em Texcoco-Atenco, manchar as mãos de sangue.
30/Outubro/2006
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2006/10/30/edito.php
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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