Prémio Nobel de Economia: paradoxos e metáforas
por Alejandro Nadal
Pobre Adam Smith. Agora deve estar confuso no seu túmulo na pequena
igreja de Canongate, em Edimburgo. Ele há de se perguntar: se os
membros do comité do Prémio Nobel são tão
conservadores, como é que este ano atribuíram-no a um economista
(Leonid Hurwicz) que tanto contribuiu para enterrar definitivamente a teoria do
mercado?
Para entender este paradoxo é preciso retirar o velho Smith do seu
caixão, sacudir-lhe e pó e contar-lhe algo acerca da
evolução da teoria económica, principiando pelo Nobel
deste ano para três economistas que desenvolveram a teoria do desenho de
mecanismos. Ainda que a imprensa tenha tentado esclarecer o público
sobre o que é isso de "desenho de mecanismos", as
explicações não passaram de uma série de
citações piedosas do comunicado do comité Nobel que
não dizem nada. A Smith será preciso explicar qual é a
relação entre a bela e poderosa metáfora da
"mão invisível" e o desenho de mecanismos.
A alegoria da mão invisível pretender responder a uma pergunta
inquietante: se os indivíduos que compõem uma sociedade
são egoístas, como é que não acabam por matar-se
uns aos outros? A solução deste enigma está, segundo
Smith, no mecanismo da mão invisível: o mercado é um
dispositivo social que permite coordenar os planos de indivíduos
egoístas numa sociedade sem necessidade de que o Estado tenha de
intervir. Nesta metáfora, o mercado não só torna
compatíveis os planos individuais de agentes egoístas sem que
estes percebam isto (da a "invisibilidade" do mecanismo) como permite
alcançar a prosperidade. Mas ainda que Adam Smith o tenha tentado,
não pôde proporcionar a prova científica de que
efectivamente era isso o que acontecia no mercado.
Em 1948 Samuelson apresentou uma demonstração de que a
posição de equilíbrio está associada a um
critério de eficiência. Alguma coisa é alguma coisa, ainda
que o critério de eficiência (óptimo de Pareto) deixe muito
a desejar. Mas continuava a faltar o mais importante: demonstrar que as
forças do mercado conduzem ao ponto de equilíbrio. Para isso era
necessário construir um modelo que representasse de maneira
dinâmica o processo de formação dos preços de
equilíbrio.
Depois de um longo percurso, com o trabalho de Kenneth Arrow e Leonid Hurwicz
sobre "estabilidade do equilíbrio competitivo" (1958-59) a
comunidade académica pensou que fora possível demonstrar
definitivamente que as forças do mercado conduziam ao equilíbrio.
O que fizeram estes autores? Construíram um engenhoso modelo de
equações diferenciais no qual as forças da
competição permitem a formação de preços de
equilíbrio para todas as mercadorias simultaneamente (a esses
preços oferta igual a procura em todos os mercados ao mesmo tempo). A
utilização de um instrumental matemático poderoso
(funções Lyapunov) permitia-lhe "demonstrar" a
convergência até a posição de equilíbrio.
Pela primeira vez fora construído um mecanismo que aparentemente
permitia demonstrar que com efeito, tal como sugeria a metáfora de
Smith, as forças do livre mercado conduziam os preços das
mercadorias à posição de equilíbrio e à
eficiência.
Desgraçadamente para o mecanismo concebido por Hurwic, nesse modelo a
formação de preços de equilíbrio só podia
ser garantido mediante a intervenção de pressupostos muito
restritivos (bem conhecidos na disciplina: bens substitutos brutos ou o axioma
débil das preferências reveladas a nível de mercado). Mas,
ainda que esse resultado fosse insatisfatório, Arrow e Hurwicz
aventuraram uma conjectura. Afirmaram que apesar de reconhecerem que o
resultado alcançado dependia de maneira crucial da
introdução de pressupostas restritivos, pensavam que em geral (ou
seja, sem os referidos pressupostos abusivos) era possível demonstrar
que o mecanismo de mercado conduzia sim a uma posição de
equilíbrio.
Erro crasso. Em 1960, num artigo famoso, Herbert Scarf demonstrou que essa
conjectura era inválida: com um contra-exemplo pôde provar que,
se se retirassem os pressupostos restritivos, o mecanismo do modelo não
servia para demonstrar que a mão invisível permitia tornar
compatíveis os planos individuais (no equilíbrio). Apesar de
famoso, esse artigo passou desapercebido até para os alunos preferidos
de Scarf.
O debate foi um divisor de águas. Catorze anos depois, Debreu, Mantel e
Sonnenschein demonstraram que para atingir o resultado de Arrow-Hurwic, seria
sempre necessário recorrer a pressupostos restritivos. Ponto final:
esse foi o último prego no ataúde da teoria do equilíbrio
geral.
Desde então, Leonid e os seus amigos passam o tempo a desenhar
mecanismos para a teoria dos jogos. A realidade é que 230 anos depois
de
A riqueza das nações,
a teoria económica ainda não sai da sua metáfora sobre a
mão invisível. Os pais da teoria do equilíbrio geral
reconheceram-no, apesar de isso não ser ensinado nas escolas de economia
(nem aqui nem nos Estados Unidos). A única base da ideia de que o
mercado é um mecanismo eficiente para assinalar recursos é a
fé, não a ciência. E esse resultado nem 10 prémios
Nobel podem mudá-lo.
17/Outubro/2007
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2007/10/17/index.php?section=opinion&article=028a1eco
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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