Oaxaca contra-insurgente
por Carlos Fazio
Uma das características do Estado terrorista é o ocultamento do
seu modo de agir. Por isso, grupos operativos (como os que assassinaram
vários professores oaxaquenhos e Brad Hill, da Indymedia) não se
identificam, seus braços executores vestem à civil, as
autoridades negam a sua acção e legitimam a morte de opositores
criminalizando as vítimas ao apresentá-las como
"violentas" ou "subversivas", como fazendo parte de una
"guerrilha urbana"
O que começou em Oaxaca como um problema sindical protagonizado pela
secção 22 do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da
Educação, em Maio passado, logo se transformou num problema
político que o governo de Vicente Fox transformou num assunto de
segurança nacional. De um modo sumário, a génese do
conflito é facilmente identificável: perante a resposta
repressiva do governo local encabeçado por Ulises Ruiz contra o piquete
dos professores em greve (14 de Junho), com o saldo de 92 feridos, e a
acumulação de agravos, surgiu um amplo movimento social
representado pela Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca (21 de Junho). A
emergência da APPO acendeu o sinal vermelho no bloco dominante, que viu a
sua hegemonia e os seus interesses desafiados.
Apesar das suas contradições e matizes, a aliança entre os
governos de Oaxaca e federal, no plano político, expressou-se num
desejado concubinato entre os partidos Acción Nacional e Revolucionario
Institucional. E a nível repressivo exibe duas características
principais. Por um lado, o governador Ruiz recorreu à
acção coerciva e violenta do aparelho de segurança do
Estado, e quando este foi ultrapassado pela férrea resistência
civil, pacífica, dos membros do magistério e da APPO, pôs
em prática uma acção paralela, clandestina, estatal,
através da paramilitarização do conflito.
O uso de sicários e esquadrões da morte por parte do Estado
com elementos que sofrem una espécie de desdobramento funcional:
cumprem tarefas policiais durante a jornada de trabalho, e aproveitam a calada
da noite para converter-se em bando que sai para matar manifestantes nas
barricadas rompe com toda a legalidade formal e incorpora elementos
próprios da guerra suja, que, por sua vez, a assimilam ao terrorismo de
Estado.
Uma das características do Estado terrorista é o ocultamento do
seu modo de agir. Por isso, grupos operativos (como os que assassinaram
vários professores oaxaquenhos e o operador de câmara
estadunidense Bradley Roland Hill, da Indymedia) não se identificam, os
seus braços executores vestem à civil, as autoridades negam a sua
acção ou modo de proceder, e procuram escondê-los ou
legitimam a morte de opositores criminalizando as vítimas ao
apresentá-las como "violentas" ou "subversivas",
como fazendo parte de uma "guerrilha urbana".
Por outro lado, ao intervir no conflito, o governo de Vicente Fox em
consulta com o seu sucessor imposto, Felipe Calderón , optou por
uma saída militar de tipo contra-insurgente. Não foi outra coisa
o desembarque de helicópteros, blindados anti-distúrbios e corpos
de elite da Marinha de Guerra em Huatulco e Salina Cruz, a 30 de Setembro,
assim como o sobrevoo de aviões e helicópteros do
Exército, da Armada e da Polícia Federal Preventiva (PFP) sobre a
capital oaxaquenha, entre eles um helicóptero espia Schweizer dotado de
alta tecnologia (sistemas de gravação, raios infravermelhos e
visão nocturna).
Não se tratou, então, de uma simples "acção
militar dissuasiva", que visaria enviar à APPO e à
secção 22 uma mensagem inequívoca: rendição
à mesa de negociações ou intervenção, como
artificiosamente afirmaram "especialistas" em assuntos de
segurança. Tampouco, dado o volume de tropas e o sofisticado
equipamento castrense, estes elementos foram mobilizados para executar uma
operação tipo "cirúrgico". O plano era outro.
Porém, os distintos serviços de informações
(Exército, Marinha, Cisen) alertaram as autoridades nacionais para o
facto de que Oaxaca não era Atenco. A rebelião popular em
ascensão desenhava um cenário possível de muitos mortos,
num país politicamente polarizado, o que abria a possibilidade de que se
desencadeasse um efeito gelatina, que derivasse, por sua vez, numa eventual
explosão insurreccional. Isso fez abortar o plano de
operações.
Não obstante, a 28 de Outubro, deixando-se encurralar pelas
circunstâncias e cedendo às pressões de Calderón e
dos poderes de facto, o presidente Fox decidiu que os representantes
governamentais abandonassem de modo unilateral a mesa de diálogo na
Secretaria de Governação e, depois de fazer ouvidos de mercador
à proposta de uma trégua de 100 dias sugerida pelos Servicios y
Asesoría para la Paz (Serapaz, a organização civil
encabeçada pelo bispo emérito Samuel Ruiz), ordenou uma
operação de desalojamento na capital oaxaquenha, de tipo limitado.
Apesar de ser certo que durante a retomada de lugares estratégicos na
cidade de Oaxaca (29 de Outubro) e no decurso da batalha campal que se
verificou durante a tentativa de cerco da Universidade Autónoma Benito
Juárez de Oaxaca (2 de Novembro) houve mortos e feridos, a
polícia militarizada (PFP) e os corpos especiais, de inteligência
e táctica, do Exército e da Armada que participaram nas
escaramuças não tinham ordens de atirar a matar e/ou aniquilar o
adversário.
Com a sua torpe decisão, Fox deu um apoio virtual ao governador Ruiz e
aos seus aliados do PRI, e, ao mesmo tempo, identificou a resistência
civil, pacífica, protagonizada por amplos sectores sociais oaxaquenhos,
como o "inimigo interno" a vencer. A partir do accionar repressivo
instrumentado pelos governos federal e estatal, Oaxaca, como antes Chiapas,
conforma hoje um Estado militarizado de tipo contra-insurgente. Reina ali um
estado de excepção, estruturado sobre una base pública, ao
mesmo tempo clandestina e terrorista, que procura, mediante o exercício
da violência institucional (de poder-força), a
desarticulação do movimento social e uma aceitação
cidadã e um consenso forçados, afins à "lei e
à ordem" formais do bloco de poder dominante.
Com uma agravante: a humilhação sofrida pela PFP e outras
forças coadjuvantes na fracassada tomada da Cidade Universitária
poderia vir a alentar uma vingança, segundo os códigos da
"sociedad del honor" que vigoram ainda no arcaico sistema
político mexicano. Uma nova acção punitiva colocaria o
país no pior dos cenários possíveis e abriria o caminho
para um processo de fascistizacão do Estado.
O original encontra-se em
http://listas.nodo50.org/cgi-bin/mailman/listinfo/diariodeurgencia.
Traduçao de Jorge Almeida.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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