Líbano:
Avaliação dos desenvolvimentos recentes

por PCL

1- Conclusões preliminares gerais

No princípio de Agosto, ao completarem 20 dias desde o arranque da agressão israelense-americana contra o Líbano, já podemos retirar algumas conclusões preliminares ou avaliações gerais respeitantes ao quadro geral do que tem estado a acontecer durante esta etapa da agressão. Elas podem ser sumariadas como se segue:

1- Independentemente da operação de resistência de 12 de Julho no qual dois soldados israelenses foram capturados — uma operação que alguns encararam como a razão directa para a agressão — a escala da agressão, sua extensão e o facto de que afectou todas as regiões do Líbano torna impossível encarar a agressão como uma resposta àquela operação particular. Isto é, ao contrário, um acto de agressão ordenado pelos Estados Unidos e executado por Israel que fora preparada com muita antecipação e funciona como parte do "Plano do novo Médio Oriente" que os Estados Unidos têm estado a trabalhar para viabilizar desde o começo da sua invasão do Iraque. A agressão está portanto destinada a:

a) Separar o Líbano da crise regional pela implementação das resoluções da ONU que servem este propósito — 1559 e 1608 — assegurando as fronteiras de Israel pelo desarmamento da resistência e finalmente concluindo um "acordo de paz" com o Líbano.

b) Desencadear uma mudança de regime em plena escala em favor das "forças de 14 de Março" pró-americanas, depois de aquelas forças terem fracassado em fazerem isto por si próprias, a fim de proteger os ganhos conseguidos pelos EUA na chamada "Revolução do Cedro" e no chamado "exemplo de democracia".

c) Isolar a Síria e o Irão e pressioná-los a fazer concessões ou mesmo cercá-los com o objectivo de tomar novos passo num momento posterior.

Em suma, o objectivo era avançar no caminho do plano do "Novo Médio Oriente".

2- A agressão contou com os seguintes meios:

a) Extensas operações militares que atingem alvos civis e infligem danos severos à infraestrutura, estradas, pontes e instituições económicas em toda a parte do Líbano. O propósito disto é infligir uma derrota militar à resistência, e também preparar e incitar movimentos políticos interno e tentar virar a opinião pública libanesa contra a resistência e o Hezbollah, minando a firmeza popular.

b) Trabalho destinado a atiçar as disputas internas. A administração americana tomou esta tarefa sobre si própria ao incitar e encorajar seus "aliados" a pressionar por isto. De facto, o governo libanês e aquelas forças prestaram um serviço aos EUA, que se demonstrou muito custoso para o Líbano, quando tomaram posições divergentes da resistência, levantando argumentos acerca de "guerra e paz", acerca de "o Líbano ser tornado uma arena onde outros podem combater", "guerra sobre o nosso solo" e assim por diante. Os agressores fizeram uso disto e conceberam as coisas na esperança de que pudessem com isso virar aquelas posições em actividade real dentro do Líbano. Os agressores ainda hoje estão a trabalhar nesta frente apesar da unidade formal que está a ser apresentada pelos libaneses. Isto é o mais perigoso factor a confrontar o Líbano de hoje à luz das principais ramificações da agressão.

c) A utilização da comunidade internacional — suas instituições e estados —para servir os objectivos desta agressão e para afundar quaisquer tentativa de qualquer país de adoptar posições diferentes daquela dos Estados Unidos. Para esta finalidade a administração americana impediu e continua a impedir a aprovação de qualquer resolução do Conselho de Segurança a apelar ao cessar fogo a menos que seja ligada a um preço político que sirva o plano americano.

d) A utilização das atitudes oficiais dos estados árabes. O uso é feito das posições daqueles regimes árabes que são cúmplices, submissos, e proporcionam cobertura para a agressão sob o pretexto de que o conflito é contra os "desígnios persas" e segundo o qual a derrota do Hezbollah e do Hamas inibiria a capacidade do Irão para expandir sua influência na região.

Tal utilização também está a ser feita daqueles regimes que se opõem à agressão mas que até agora não fizeram mais do que proporcionar conselhos e solidariedade verbal. É compreendido que o conflito no Líbano é alvejar não só o Líbano mas também terá resultados decisivos para todo o conflito árabe-israelense e também para o "Plano americano". Se a resistência libanesa fracassar, aquele plano será capaz de avançar muito para a eliminação de qualquer regime que os EUA e Israel encarem como obstáculo ou "oposição", utilizando todos os meios disponíveis — a menos que aqueles regimes evitem serem eliminados caindo antecipadamente na submissão.

3- O que aconteceu até agora?

a) No terreno: O exército israelense não foi capaz de alcançar qualquer vitória militar decisiva sobre a resistência e o Hezbollah. De facto, a resistência infligiu perdas pesadas ao exército israelense e dentro de Israel. Batalhas terrestres alastram-se ao longo de toda a linha de fronteira na qual a resistência apresentou uma firmeza de proporções épicas. Além da destruição e matança que tem abatido os civis, pode-se dizer que até agora a confrontação militar tem sido em favor do Hezbollah e da resistência.

b) Politicamente: Na base da firmeza, da resistência e do consequente fracasso dos israelenses para alcançarem qualquer vitória, e tento em vista o carácter selvagem e bárbaro da agressão, pode-se notar o seguinte:

I. Surgiu maior diferenciação nas atitudes tomadas pelos diferentes países e forças no mundo. Pode-se dizer que os Estados Unidos agora encontram-se numa situação em que não podem impor suficientemente sua vontade ao Conselho de Segurança a fim de emitir resoluções em conformidade com os eus planos para a região. Mas ao mesmo tempo ainda podem bloquear qualquer resolução que não seja do seu interesse e do interesse de Israel. A posição francesa está, assim, a tornar-se mais distinta das dos EUA, tal como a posição geral da europeia, com a excepção da da Grã-Bretanha. Apesar de ainda não se poder dizer que tenha havido uma grande mudança na posição internacional respeitante à agressão de modo a que possa forçar Israel e os Estados Unidos a se retirarem. Acreditamos que o fortalecimento e a ampliação de campanhas de solidariedade popular na Europa podem desempenhar um papel para provocar uma tal mudança, fazendo pressão sobre os governos daqueles países. Isto é uma tarefa urgente para as nossas organizações e nossas relações exteriores.

II. O extenso crescimento do movimento popular no mundo árabe em resposta à débil posição tomada pelos regimes árabes impeliu alguns destes regimes a modificarem algumas das suas atitudes originais por medo de tais movimentos populares e porque eles não podem esconder os verdadeiros objectivos da agressão e do total alinhamento americano com Israel. Isto tem tornado as coisas difíceis para muitos dos amigos dos EUA. Além disso, o carácter selvagem e bárbaro da agressão tanto no Líbano como na Palestina, bem como o medo de que a guerra possa espalhar-se através da região, colocarão aqueles regimes entre o martelo do seu povo e a bigorna da sua amizade com a América e Israel. Também devemos notar aqui que a política de tentar isolar a Síria e o Irão não rendeu benefícios para aqueles que até agora a promoveram. De facto, agora pode-se observar que a Síria e o Irão estão a ser trazidos de volta à arena das negociações pois ouvem-se apelas de várias partes internacionais a dizer que eles não podem ser excluídos da solução. A reunião entre Manuchehr Mottaqi, o ministro iraniano das Relações Exteriores, com o ministro francês homólogo, Philippe Douste-Blazy, é uma prova de tal mudança.

Aqui é possível concluir que o que está a acontecer no Líbano não pode ser separado da crise na região como um todo e portanto nenhuma solução no Líbano será capaz de perdurar muito tempo a menos que seja parte de uma resolução abrangente do conflito árabe-israelense e, na sua base, uma resolução da questão do povo palestino e da retirada israelense de todos os territórios árabes ocupados.

Por outro lado, a resistência no Líbano e na Palestina no passado e actualmente obrigou o mundo a reconhecer quem são eles e o que podem fazer, dando um exemplo de uma força que pode alcançar vitórias e levar Israel à derrota. Ela contribuiu com a sua parte, e continua a faze-lo, no quadro da luta de resistência nacional árabe. Cabe portanto ao outros, particularmente aqueles que afirmam ser pela "resistência, oposição e confrontação", dizer o que farão a fim de que uma frente abrangente de resistência nacional árabe possa emergir, não na base de fazer acordos de paz país por país ou arranjos egoístas, mas na base de que o povo árabe seja capaz de derrotar todo o plano americano.

c) As perdas infligidas a Israel até agora e sua incapacidade para atingir quaisquer dos objectivos da sua agressão, além das perdas do seu exército, o qual provou-se incapaz de conseguir uma derrota decisiva mesmo em relação a um partido, para não falar de um estado, levou à emergência de grandes contradições dentro da sociedade israelenses onde crescem apelos pela finalização da guerra. Alguns começaram a resmungar que Israel está a ser usado como uma ferramenta pelos Estados Unidos. Outros estão a exigir que o governo permita maiores concessões (quanto aos palestino e às terras ocupadas) de modo a que Israel possa viver em paz. Acreditamos que a continuação da confrontação e o fracasso da agressão em alcançar seus objectivos exacerbará esta contradição.

No Líbano: Os Estados Unidos até agora não foram capazes de levar seus aliados locais a juntarem-se à batalha ao seu lado. Ao invés disso estão a tentar travar as recriminações que poderiam ameaçar o que os EUA já alcançaram na etapa anterior. O governo Siniora quase caiu. Ele e as forças que representa foi incapaz de proporcionar plena cobertura, embora tenham tentado fazer isso a princípio numa tentativa de obter ganhos políticos internos. Aqueles grupos portanto fizeram tentativas de aderir aos Estados Unidos mas seus planos foram arruinados pela resistência e pela firmeza, e a revelação do papel americano no Líbano — um papel que nunca foi e nunca será de apoio à independência, soberania e democracia do Líbano, mas tem sido ao contrário de participante na agressão israelense e de tem tentado inserir o Líbano dentro da estrutura do seu plano para a região.

A posição mais recente adoptada pelo governo ao rejeitar quaisquer negociações até que um cessar fogo imediato fosse imposto constitui um novo princípio aceitável sobre o qual pode-se basear o fortalecimento do país na confrontação com a continuação da agressão. Há, entretanto, muitas tentativas de contornar esta posição e conversas acerca do plano de Sete Pontos proposto pelo primeiro ministro Siniora em Roma a 29 de Julho como se este fosse uma "fórmula mágica" que desse voz às velhas posições, bem como conversas acerca de uma "vitória" apesar de não ser claro de que vitória tais vozes estão a discutir.

Neste contexto, a importância da unidade nacional e da solidariedade entre os libaneses deve ser reafirmada em oposição à agressão e à linha de abraçar a resistência agora a fim de eliminar todos os traços da mesma posteriormente.

Isto é também a garantia de que a unidade do país será preservada, bem como sua segurança e estabilidade. Qualquer tentativa de qualquer facção interna para retirar benefícios deste conflito no sentido de tentar mudar o equilíbrio de poder dentro do país será a fagulha que ateará a guerra civil que está permanentemente ligada ao que está em andamento na região e ao plano de "caos criativo" sob o qual operam os Estados Unidos. A vitória que esperamos vir a ser alcançada deve ser nos interesses do Líbano na base de uma reforma genuína que vá além do sistema sectário que opera no estado, no governo e na economia onde os postos são delineados de acordo com a filiação religiosa de cada um, para um sistema baseado na cidadania e na igualdade de todos os libaneses. A construção de um estado democrático libanês, um estado de igualdade entre os libaneses, é o que definirá o papel do Líbano e suas relações com o mundo exterior.

4- O que deveríamos esperar? Quais são as possibilidades?

Estamos confrontados com a seguinte situação: os EUA e Israel até agora foram incapazes de fazer qualquer progresso político ou militar que pudesse melhorar sua posição negocial e sua capacidade para impor suas condições. Diferentes e distintas posições estão a emergir internacionalmente entre os estados árabes, pois a sua disposição para cobrir a agressão começa a romper-se e as vozes a condenar os crimes de guerra de Israel estão a começar a fazer-se ouvir mais alto. A actividade diplomática está a ganhar velocidade, particularmente com o Irão e a Síria a serem envolvidos nas negociações com os europeus (França) numa tentativa de chegar a um memorando de entendimento que pudesse finalizar a crise agora. Se isto fosse alcançado, seria uma vitória pouco satisfatória para o Hezbollah e a resistência. É algo que os EUA e Israel não podem tolerar. Portanto os Estados Unidos recorrerão à interferência com todo o seu poder para bloquear qualquer tentativa de uma reviravolta política. Eles têm portanto estado a escalar sua pressão contra o Irão (a resolução mais recente do Conselho de Segurança) e contra a Síria, e mais uma vez a dar a Israel liberdade de acção para executar operações militares extensas na terra e no ar. Israel também pode recorrer a algumas operações de segurança e sabotagem no interior do Líbano. Com base nisto, podemos considerar que Israel pode ter êxito em ocupar uma parte do território libanês e empurrar o Hezbollah da sua fronteira, mas acreditamos que isto não constituiria uma derrota para o Hezbollah e a resistência enquanto esta continuar a infligir perdas às forças terrestres do inimigo e continuar a ser capaz de disparar rockets no Israel profundo. O conceito de ganho e perda neste tipo de guerra (um estado a combater um partido que trava guerra de guerrilha) difere das guerras clássicas travadas entre estados.

Nesta base, pensamos que há as duas possibilidades seguintes:

   -Que o conflito se expanda regionalmente a fim de impor as bases de uma nova equação, ou

   -Que um acordo que vá para além do Líbano será alcançado em resultado da inclusão do Irão no processo de negociação, mas esta segunda possibilidade parece improvável no momento.

02/Agosto/2006

O original encontra-se em http://www.lcparty.org/020806_7.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
04/Ago/06