Trump ordena retirada de tropas na Síria
por M.K. Bhadrakumar
O presidente dos EUA, Donald Trump, não é conhecido por praticar
judo. No entanto, pode ter aprendido algumas técnicas de judo com o seu
colega russo Vladimir Putin, que é faixa negra. Mas o que Trump acabou
de fazer ao presidente da Turquia, Recep Erdogan, é claramente do
conceito da física do judo.
Aproveitar o ímpeto do oponente é uma técnica inteligente
do judo. Se ele o atacar e você apenas permanecer ali, ele irá
derrubá-lo. Mas a velocidade que ele está a ganhar pode ser
simplesmente usada contra ele, puxando-o, o que fará com que ele se
desconcerte. Você pode poupar muito tempo e energia se puder tirar
proveito do ímpeto do seu oponente.
Erdogan tem ameaçado ruidosamente invadir a Síria e dizimar os
curdos sírios alinhados com os militares dos EUA que estão
abrigados nas regiões do norte que fazem fronteira com a Turquia. No ano
passado, aproximadamente, os EUA tentaram por sua vez pacificar Erdogan,
apaziguá-lo, persuadi-lo e por vezes até a
ameaçá-lo para não lançar uma incursão no
norte da Síria, a leste do Eufrates, onde ainda existem bolsões
residuais do ISIS e onde milhares de combatentes do ISIS estão
internados em campos sob a vigilância da milícia curda, seu
inimigo implacável.
No sábado, Erdogan perdeu a calma e apresentou um cronograma.
Ameaçou
que se os EUA não atendessem às suas exigências para
limpar o "corredor terrorista" ao longo da fronteira da Turquia com a
Síria, nem cumprissem o acordo para estabelecer uma "zona
segura" no norte da Síria, tomará o assunto nas suas
mãos e lançará uma invasão unilateral a leste do
Eufrates "tão logo como hoje ou amanhã".
Nas palavras de Erdogan: "Concluímos nossos preparativos e o plano
de acção, as instruções necessárias foram
dadas. Talvez seja hoje ou amanhã o momento de abrir caminho aos
esforços de paz os quais estão estabelecidos e o processo para
isso foi iniciado. Vamos executar uma operação terrestre e
aérea".
Trump falou imediatamente com Erdogan e, no final do domingo, o
secretário de imprensa da Casa Branca emitiu uma
declaração
, tomando nota da determinação da Turquia de avançar
"com sua operação planeada há muito no norte da
Síria".
A declaração deixou claro que os EUA "não
apoiarão ou se envolverão na operação (turca)"
e que o contingente militar dos EUA no norte da Síria "não
permanecerá mais na área imediata (da incursão
turca)". Acrescentou que "A Turquia agora será
responsável por todos os combatentes do ISIS na área capturados
nos últimos dois anos após a derrota do "Califado"
territorial pelos Estados Unidos".
Até que ponto Trump e Erdogan chegaram a um entendimento ainda
não está claro. O mostrador turco afirmou que Erdogan
visitará Trump em Novembro.
De qualquer forma, Trump não quer que as tropas dos EUA sejam apanhadas
num fogo cruzado entre os turcos e os curdos na Síria. Numa série
de tweets, ele voltou ao refrão de que os EUA não tinham motivos
para permanecer militarmente envolvidos na Síria. Trump tuitou:
"Supunha-se que os Estados Unidos ficassem na Síria por 30 dias,
isso foi há muitos anos atrás. Ficámos e nos
aprofundámos cada vez mais na batalha, sem objectivo à vista.
Quando cheguei a Washington, o ISIS actuava desenfreadamente na área.
Derrotámos rapidamente 100% do califado do ISIS, incluindo a captura de
milhares dos seus combatentes, vindos principalmente da Europa. Mas a Europa
não os queria de volta, eles disseram-nos para mantê-los nos EUA!
Eu disse: "NÃO, nós lhes fizemos um grande favor e agora
querem que nós os mantenhamos nas prisões dos EUA a um custo
tremendo. Eles são vosso para serem julgados". "Eles mais uma
vez disseram "NÃO", pensando como de costume que os EUA
são sempre os "otários", na NATO, no Comércio,
em tudo".
"Os curdos combateram connosco, mas receberam enormes quantias de dinheiro
e equipamentos para isso. Eles têm combatido a Turquia há
décadas. Adiei esse combate durante quase três anos, mas já
é tempo de sairmos destas ridículas Guerras Infindáveis,
muitas delas tribais, e trazer nossos soldados para casa. COMBATEREMOS ONDE
ISSO FOR PRECISO PARA NOSSO BENEFÍCIO E SÓ COMBATEREMOS PARA
VENCER. A
Turquia, Europa, Síria, Irão, Iraque, Rússia e curdos
terão agora de resolver a situação, e o que é que
querem fazer com os combatentes do ISIS capturados na sua
"vizinhança". Todos eles odeiam o ISIS, são inimigos
há anos. Estamos a 7000 milhas [11265 km] de distância e
esmagaremos o ISIS outra vez se chegarem perto de nós!"
Entretanto, a
RT citou
fontes curdas no sentido de que a retirada militar dos EUA de partes do leste
da Síria já está em curso. Assim, nasce uma beleza
terrível Trump finalmente está a conseguir a retirada de
tropas da Síria.
Este espantoso desenvolvimento obriga todos os protagonistas a correrem como
uma galinha sem cabeça. A primeira
reacção do Kremlin
revela um sentimento de desconforto de que o caprichoso presidente turco possa
agora se tornar uma dor de cabeça para a Rússia. O porta-voz do
Kremlin, Dmitry Peskov, recusou-se a ser arrastado a uma discussão sobre
a inesperada decisão de Trump "não cabe a nós
decidir o que é este sinal". Ele repetiu suavemente a
posição da Rússia de que "todas as tropas
estrangeiras presentes ilegalmente na Síria devem abandonar o
país".
A situação da Rússia é compreensível.
Enquanto Erdogan estava em quezílias com os EUA, Moscovo poderia recuar
e ter um prazer indirecto e aproveitar-se disso. Mas agora Trump jogou a
toalha, sinalizando que está farto das birras de Erdogan.
Em princípio, a Rússia deveria saudar a retirada dos EUA. Mas se
a Turquia se mover para o norte da Síria, isto abrirá uma caixa
de Pandora certamente Damasco se oporá; o Irão já
advertiu a Turquia contra uma invasão e ofereceu-se como medianeiro com
os curdos; a milícia curda resistirá às forças
armadas turcas; Damasco pode aproveitar a oportunidade para lançar uma
ofensiva a fim de retirar o controle de Idlib, no Noroeste da Síria, das
mãos de grupos islâmicos radicais (os quais são apoiados
pela Turquia).
A Rússia pode encontrar-se na posição pouco
invejável de ser o
broker
em todas essas frentes. Sem dúvida, uma invasão turca da
Síria neste momento complicará infinitamente os movimentos
delicados de Moscovo no tabuleiro de xadrez diplomático na busca de um
entendimento na Síria.
Ser árbitro e protagonista ao mesmo tempo é uma
situação impossível, mesmo para a diplomacia russa.
Obviamente, não se pode excluir que os militares turcos fiquem afundados
num atoleiro no Norte da Síria.
Trump também enfrentará um bocado de críticas de
vários lados. Os curdos têm um lobby na Beltway e haverá
críticas de que Trump está a lançar os aliados curdos para
debaixo de um autocarro e isso desgastará a credibilidade dos EUA como
um aliado confiável no Médio Oriente.
Uma secção poderosa dentro do Pentágono e do sistema de
inteligência dos EUA encara a Síria através do prisma da
Guerra Fria e acredita que uma presença militar americana aberta na
Síria é um imperativo estratégico, dadas as bases
militares russas naquele país. Este ponto de vista terá
ressonância entre a elite política, os think tanks e os media
críticos de Trump.
Pelo contrário, Trump pode apostar na óptica de sua
decisão que está a finalizar o envolvimento dos EUA numa
guerra no Médio Oriente que não diz respeito directamente aos
interesses americanos. A opinião pública interna é a favor
disso.
Em termos gerais, a retirada dos EUA da Síria tem
implicações profundas para a região. Israel ficará
ainda mais dependente da benevolência russa. A Rússia advertiu
Israel contra desestabilizar a situação síria. Se os
turcos forem recalcitrantes, o eixo russo-turco-iraniano na Síria
deparar-se-á com uma morte súbita.
Peskov disse que Putin ainda não teve qualquer contacto com Erdogan. A
decisão de Trump deixa Erdogan absolutamente livre para ordenar
às tropas que invadam a Síria. Mas ele também
estará a mover-se dentro do vácuo criado pela retirada dos EUA em
territórios hostis. É improvável que a NATO fique ao lado
da Turquia nesta aventura arriscada.
De facto, a Turquia está em esplêndido isolamento. Ela não
pode deixar de ser tomada pela angústia sentindo-se como que
presa num infinito pesadelo de Sísifo. A Turquia junta-se à
Arábia Saudita como mais
um anjo caído na Beltway
.
No fundamental, estes desenvolvimentos significam que o recuo dos EUA no
Médio Oriente está a acelerar-se. Trump deixou bem claro que
não tem intenção de entrar em guerra com o Irão
para proteger a Arábia Saudita. Agora, sua decisão sobre a
Síria provocará inquietação na mente saudita de que
ele possa adoptar uma abordagem semelhante à guerra no Iémen em
algum momento muito em breve.
O grande quadro é que os estados regionais estão a ser
pressionados a resolver suas diferenças e disputas através das
suas próprias iniciativas. O que na verdade é uma coisa boa a
acontecer. Há sinais de que os Emirados Árabes Unidos e a
Arábia Saudita estão a procurar um
modus vivendi
com o Irão.
Certamente, durante sua visita à Arábia Saudita no fim de semana,
Putin irá insistir no conceito russo de uma arquitectura de
segurança colectiva na região do Golfo Pérsico. Em
comentários recentes, Putin sugeriu que a Rússia e os EUA,
juntamente com alguns outros países tais como a Índia, poderiam
ser "observadores" num mecanismo de segurança colectiva
inclusivo entre os Estados do Golfo Pérsico.
07/Outubro/2019
Ver também:
L’accord secret sur la question kurd
, 08/Out/19
Syria - Trump Gives A Green Light For Another Turkish Invasion
, 07/Out/19
O original encontra-se em
indianpunchline.com/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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