Desce a cortina para os EUA na Síria
A Rússia e o Irão devem agradecer a Erdogan
por M.K. Bhadrakumar
O cenário acordado nos bastidores ao longo de meses de conversas
confidenciais, muitas vezes só entre duas pessoas, dentre os
líderes russos e turcos quanto ao Nordeste da Síria está a
entrar numa fase crítica de implementação sobre o terreno
com o acordo dos curdos e do governo Assad.
Temos um cenário complexo onde por um lado o exército turco e as
unidades de oposição síria leais a Ancara estão
implacavelmente a continuar sua ofensiva para Sul expandindo o controle sobre
regiões fronteiriças da Síria habitadas pelos curdos. De
acordo com o presidente turco, Recep Erdogan, 1000 km2 de território
anteriormente sob controle curdo foi "
libertado
".
Por outro lado, na sequência do acordo com os curdos, as primeiras
colunas de forças do governo sírio moveram-se para o Norte do
país rumo à fronteira turca.
À primeira vista, Damasco está a desafiar a ofensiva turca
como deveria e, em princípio, uma confrontação pode
seguir-se. Mas as coisas na Síria nunca são realmente exactamente
o que parecem superficialmente.
Um choque entre forças turcas e síria está simplesmente
fora de questão. Esse não é o jogo a ser jogado. Uma
declaração
do Ministério da Defesa turco na segunda-feira revelava que o militar
chefe, general Yasar Guler e seu equivalente russo, o general Valery Gerasimov,
estavam em contacto telefónico e discutiam a
"situação da segurança na Síria e os
desenvolvimentos recentes".
Não foram divulgados mais pormenores mas o quadro que emerge é
que
a Rússia propôs e a Turquia concordou
em que unidades russas estarão a patrulhar entre as forças
turcas e síria no Norte da Síria após a retirada das
tropas dos EUA daquela área.
Consequentemente, o Ministério da Defesa de Moscovo revelou que a sua
polícia militar na cidade curda de Manbij começou a patrulhar ao
logo da fronteira sírio-turca e a interagir com autoridades turcas.
Tropas russas entraram segunda-feira na cidade de Manbij com as forças
do governo sírio.
Ainda mais importante, através da mediação russa Ancara e
Damasco preferirão acordar sobre a divisão das zonas de controle
no Norte da Síria. Isso equivale a dizer que em linhas gerais as coisas
estão a mover-se na direcção do que o Acordo de Adana de
1998 (sobre a questão curda) pretendia, nomeadamente que a
segurança da fronteira sírio-turca será um assunto
bilateral entre Ancara e Damasco.
Na situação em causa, a necessidade imperativa da Turquia
é impedir que surja um "Curdistão" contíguo nas
suas fronteiras. A chamada "zona segura" destinava-se a frustrar os
planos dos EUA de criar um Curdistão na Síria, semelhante ao que
conseguiu criar no Iraque na era de Saddam Hussein.
É razoável argumentar que poderia haver congruência de
interesses entre Ancara e Damasco acerca deste ponto (Teerão
também tem interesses comuns com seus dois vizinhos quanto a isso).
Na verdade, para Damasco tudo isto é uma felicidade na medida em que a
"retirada deliberada" (como o Pentágono colocou isto) ou, mais
precisamente, a inevitável remoção das tropas dos EUA nas
regiões a Norte da Síria desencadeadas pela incursão
turca, permite-lhe reocupar parte das regiões nortistas, especialmente
aquelas partes que são bem dotadas de recursos de água e reservas
de hidrocarbonetos, as quais os militares americanos haviam designado como sua
zona exclusiva.
Para o presidente Bashar al-Assad, isto é um grande salto em frente no
cumprimento da sua promessa de reclamar o controle de toda a Síria (ver
o comentário da Euronews:
Damasco parece mais forte do que nunca: O que se passará a seguir na Síria quanto forças curdas se juntarem a Assad?
).
Quanto aos curdos, eles não têm nenhum lugar para ir excepto
acomodar-se com Damasco. Eles
simplesmente não estão à altura
para o altamente profissional exército turco.
Claramente, a incursão turca e a iminente ofensiva contra os curdos
tornou indefensável a continuada presença militar americana no
Norte da Síria e a Rússia alavancou a situação para
promover o acordo entre os curdos e Damasco.
Tendo conseguido êxito neste esforço, os russos ganharam a
confiança dos turcos. Não surpreendentemente, o presidente Recep
Erdogan é indiferente quanto ao acordo entre os curdos e Damasco e
encolheu os ombros para os movimentos das tropas sírias junto às
fronteiras da Turquia. Ele evasivamente referiu-se às garantias de
Vladimir Putin.
Na análise final, os americanos estão a pagar um preço
forte por serem espertos pela metade tensionando a Turquia nos
últimos anos enquanto metodicamente consolidavam o terreno para a
criação de um Curdistão autónomo nas suas
fronteiras, além de armar e treinar a milícia curda para
transformá-la num exército regular.
Erdogan deu uma longa corda para que os americanos se enforcassem a si
próprios, literalmente. Quando ele atacou, as contradições
da política dos EUA foram reveladas de imediato o plano de jogo
de balcanizar a Síria e derrubar Assad; o pacto faustiano com um grupo
terrorista que tem sido um sangrento aliado da NATO; e a agenda
geopolítica de seccionar o eixo do Irão com a Síria e o
Levante.
Basta dizer que, com a remoção das forças estado-unidenses
do Norte da Síria, os turcos alcançaram algo que a Rússia
e o Irão (e Damasco) sempre desejaram, mas não podiam conseguir.
A partir deste ponto, a Rússia e o Irão prevalecerão sobre
Ancara para que se reconcilie com Damasco.
Os EUA entenderam tardiamente que a Turquia terminou sumariamente sua
intervenção de oito anos na Síria para derrubar o regime
Assada. A rancorosa reacção de Trump e do secretário da
Defesa dos EUA, Mark Esper (
aqui
e
aqui
) é evidente.
Mas a ameaça das sanções dos EUA não deterá
Erdogan, pois o espectro do Curdistão em suas fronteiras ameaçava
a soberania e a integridade territorial da Turquia e não há
espaço para concessões quando a segurança nacional
está sob ameaça. A propósito, a
opinião pública interna
turca é esmagadoramente favorável a Erdogan.
A Turquia foi estranhamente paciente com os EUA, esperando que este desistisse
da ligaçlão com o YPG (milícia curda) quando a luta contra
o ISIS estivesse acabada. Não é tanto Trump, mas sim o
Pentágono, responsável pela quebra de confiança entre a
Turquia e os EUA. Como na maior parte das questões de política
externa, Washington tinha duas políticas na Síria a de
Trump e a do establishment de segurança e defesa dos EUA.
Os EUA, sob o direito internacional, não têm
locus standii
de manter uma presença militar permanente na
Síria e quando anunciou pela primeira vez a retirada das tropas, ela
deveria ter sido implementada. Mas, ao invés disso, o Pentágono
minou a decisão de Trump, reduziu-a e finalmente ignorou-a completamente.
Erdogan sabe que os EUA vão bufar, mas vão se habituar ao
"novo normal" na Síria. A Europa tão pouco terá
um álibi, pois os russos nunca permitirão que o ISIS ascenda na
Síria. Trump está a incumbir o vice-presidente
Mike Pence
de viajar à Turquia em busca de um "acordo negociado" o
que quer que isso possa significar para enfrentar o facto consumado criado por
Erdogan.
15/Outubro/2019
Artigo anterior de Bhadrakumar:
Uma entente cordial turco-russo em formação
Ver também:
EE.UU. y Turquía llegan a un acuerdo para decretar en Siria un alto el fuego de 120 horas
, 17/Out
L’invasion turque du Rojava
, 17/Out
O original encontra-se em
indianpunchline.com/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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