Resposta do Hezbollah faz recuar Israel
por Richard Lavébière
O secretário-geral do Hezbollah prometeu e cumpriu: uma semana depois de
Israel ter morto dois técnicos do grupo num ataque contra a Síria
e de ter atacado os arredores de Beirute chegou a anunciada represália.
Os mísseis disparados pela organização de
resistência libanesa não se limitaram a liquidar o alvo e a
obrigar o exército de Israel a recuar e a abandonar uma base militar no
norte do país; puseram termo a uma escalada de violência ao
nível de 2006 e demonstraram uma nova capacidade do movimento
libanês para por Israel em respeito e atingir qualquer região
deste país. A notícia não correu mundo, mas a
relação de forças está diferente: o potencial
balístico do Hezbollah revela um caminho para a paridade táctica
com o Estado sionista.
A fronteira sul do Líbano com Israel acaba de ser palco de uma escalada
militar que se prolongou por vários dias. No dia 1 de Setembro, o
Hezbollah disparou dois mísseis anti-tanque contra um blindado
israelense situado nas imediações da base militar israelense de
Avivim (no extremo norte do país).
Esta operação realizou-se como represália pela morte de
dois peritos em drones do Hezbollah, mortos durante um ataque aéreo
israelense contra a Síria, em 24 de Agosto, e dois dias depois do
sobrevoo e da explosão de dois drones israelenses sobre os arredores sul
de Beirute. Represálias formais da represália: o exército
israelense respondeu lançando bombas de fósforo para uma zona
fronteiriça não habitada.
Retirada sionista
O receio de uma escalada militar semelhante à ocorrida em Julho de 2006,
que desencadeou a "guerra dos trinta dias", foi rapidamente afastado;
o exército israelense evacuou toda uma região com uma
profundidade de várias dezenas de quilómetros. Segundo fontes de
serviços de informações militares europeus e
árabes, "o exército israelense não está
absolutamente pronto para repetir uma operação convencional
contra o Líbano num contexto regional e operacional que mudou muito em
seu desfavor
"
O último ataque da Resistência (expressão utilizada pelos
partidários do Hezbollah para designar esta organização
político-militar libanesa) foi filmado por operadores no terreno. Na
sequência de imagens transmitida pela cadeia
Al-Manar
(televisão do Hezbollah) podem ver-se nitidamente os dois
mísseis partir simultaneamente de dois pontos de tiro diferentes antes
de atingirem o mesmo alvo com alguns segundos de intervalo. A distância
percorrida foi calculada entre 1,5 e dois quilómetros.
As armas utilizadas são mísseis pesados do tipo Kornet guiados a
laser. Ao serviço do exército russo desde 1998, estes engenhos
são exportados sob a designação Kornet-E. Utilizados pelo
Hezbollah durante a guerra de 2006, os Kornet permitiram neutralizar numerosos
tanques Merkava e helicópteros de combate. Em 6 de Dezembro de 2010, um
Kornet foi disparado da Faixa de Gaza contra um tanque Merkava, que ficou com a
blindagem esventrada.
Avaliação do general Amin Htaite
Segundo o general libanês Amin Htaite um dos mais prestigiados
peritos militares da região, especializado em armas balísticas
a operação de Avivim realizou-se segundo as seguintes
modalidades.
Teatro de operações:
"Contra o território de Israel e em profundidade, a alguns
quilómetros da fronteira; uma opção que, pela primeira
vez, é uma mensagem destinada a Israel advertindo que começou uma
nova era de confrontação e que qualquer
movimentação de militares no norte do país está, a
partir de agora, sob fogo da Resistência libanesa. Esta
evolução vai bastante para além do que a Resistência
tinha imposto com os seus mísseis terra-terra e que permitiu colocar o
conjunto do território de Israel na sua mira".
Timing:
"A operação desenrolou-se na tarde de 1 de Setembro, isto
é, precisamente uma semana depois de o secretário-geral do
Hezbollah, Hassan Nasrallah, ter prometido uma resposta punitiva e apenas oito
dias depois da agressão israelense. Uma semana durante a qual deixou
Israel marinar na confusão, perplexidade e inquietação
à espera da inevitável resposta; e que exerceu uma pressão
psicológica que levou os comentadores israelenses a reconhecer o poder
de Nasrallah na guerra psicológica e a sua capacidade para influenciar,
ou mesmo pesar sobre a consciência do público".
O nome da unidade operacional:
"O grupo da Resistência que executou a operação foi
baptizado com os nomes dos mártires 'Daher' e 'Zahib', para indicar que
esta foi realizada como resposta à agressão israelense que
assassinou estes dois combatentes na Síria".
Alvo e objectivo:
"A operação teve como alvo um veículo militar
blindado israelense de transporte de tropas com capacidade para oito homens e
que, normalmente, não se desloca com menos de três soldados a
bordo. Esta opção marca a vontade da Resistência de
infligir perdas humanas nas fileiras do inimigo pelo menos equivalentes
às sofridas pela Resistência com os dois mártires
caídos em território sírio".
Armamento utilizado:
"Os mísseis anti-tanque Kornet, que deixaram uma marca negra na
consciência colectiva israelense devido ao facto de terem
destruído tanques Merkava em Wadi Alhojair e na planície de
Khiyam em 2006, impediram Israel de aceder ao rio Litani e de realizar qualquer
operação militar, ainda que simbólica. Este míssil,
de elevada precisão, tem um alcance eficiente de 5,5
quilómetros".
Ambiente securitário e operacional:
"A acção desenvolveu-se durante o estado de alerta
israelense mais elevado ao nível de operações e de
informações, no norte de Israel, e ao cabo de uma semana durante
a qual a Resistência exerceu uma forte pressão psicológica
que obrigou o inimigo a colocar cinco brigadas em estado de alerta
máximo no norte, com a mobilização dos aviões de
combate e dos drones necessários para os apoiar, bem como um
terço da marinha militar israelense".
O MEDO MUDOU DE CAMPO
No dia seguinte à operação do Hezbollah, a correspondente
de Russia Today (palestina originária da região) deslocou-se
à base de Avivim. Verificou que a zona foi completamente evacuada numa
profundidade de várias dezenas de quilómetros. Quanto ao
comunicado do exército israelense afirmando que o golpe do Hezbollah
apenas atingira manequins de uma encenação sabiamente
orquestrada, várias fontes militares europeias desmentiram esta
versão sublinhando que uma dezena de soldados tinham sido transferidos
de urgência para um dos hospitais militares da região.
Acontece que este ataque altera completamente os dados estratégicos e
tácticos observados até agora entre Israel e o Líbano. Em
primeiro lugar, o ataque nada tem de surpresa: numa semana o chefe do Hezbollah
ameaçou por duas vezes Israel com represálias. Como é
hábito, as autoridades de Telavive puderam constatar que Hassan
Nasrallah faz o que diz e diz o que faz, as suas considerações
sobre as capacidades operacionais do Hezbollah não são para
encarar de ânimo leve. Em dois discursos anteriores, que remontam ao
início do ano passado, advertira claramente que o arsenal da
Resistência mísseis balísticos de médio e
longo alcance permitem, a partir de agora, atingir "qualquer
território em Israel, incluindo a central nuclear de Dimona.
Em Telavive a ameaça é levada a sério, uma vez que os
serviços israelenses acabam de publicar um relatório alarmista
explicando que as forças especiais do Hamas estão em vias de se
equipar massivamente com mísseis Kornet. Desde há vários
anos, com a ajuda do Irão e do Hezbollah, as unidades armadas da Faixa
de Gaza aplicam as mesmas tácticas que as utilizadas pelo Hezbollah: uso
de mísseis artesanais e de importação,
escavação de subterrâneos e deslocação de
comandos em motas todo-o-terreno. O relatório destaca as mesmas
evoluções operacionais no Iraque e no Iémen, onde as
facções Houthi progrediram muito na utilização de
mísseis tácticos.
O general Amin Htaite acrescenta:
"Pela primeira vez o norte de Israel está na mira dos
mísseis anti-tanque activados por operadores capazes de alvejar um
objectivo a olho nu. É um salto qualitativo dado pela Resistência,
porque mesmo em 2006 não foi realizada qualquer operação
semelhante com tanta precisão. A utilização destas armas
limitava-se apenas à defesa do território libanês. Os
israelenses lembrar-se-ão perfeitamente da declaração de
Nasrallah segundo a qual poderia enviar combatentes para a Galileia para se
baterem directamente no território israelense. Uma vez que isso
aconteça, e de uma vez por todas, a doutrina militar israelense segundo
a qual a guerra trava-se apenas no campo do adversário voará
definitivamente em pedaços".
"PARIDADE TÁCTICA"
É verdade que a natureza assimétrica do fraco e do forte continua
a caracterizar a globalidade do frente-a-frente israelo-libanês, mas
"o potencial balístico do Hezbollah está em vias de
reequilibrar os dados em favor de uma real paridade táctica",
explica um adido de defesa europeu destacado em Beirute; "o último
ataque do Hezbollah leva-nos até à situação
operacional de 1948, isto é, a uma defesa de Israel totalmente
dependente dos seus apoios externos, sendo os principais as
transferências norte-americanas de alta tecnologia. Mas sejam quais forem
os progressos técnicos dos meios ofensivos e de defesa, o
exército israelense já não pode estar seguro de uma
assimetria a seu favor que pontuou a maior parte das guerras
israelo-árabes (excepto a de Outubro de 1973) precisamente desde
1948
".
Esta evolução explica, segundo a mesma fonte, "o aumento de
operações com caças israelenses na Síria e, mais
recentemente, no Iraque". Numa encenação pouco habitual,
Benjamin Netanyahu reivindicou os "golpes defensivos" de 24 de Agosto
na Síria. Sem assumir oficialmente a responsabilidade, deixou perceber
que o seu país poderia ser responsável por vários ataques
que ocorreram no Iraque contra objectivos "xiitas aliados do
Irão" desde Julho último.
Em 29 de Agosto, Netanuahu afirmou ainda que o Irão e o Hezbollah tentam
produzir mísseis de precisão no Líbano, com o objectivo de
melhorar um arsenal calculado em cerca de 130 mil rockets e mísseis. O
programa teria sido lançado no Outono de 2016. Em que é que este
esforço de defesa nacional é ilegítimo?
Dito isto, as gesticulações de Benjamin Netanyahu inserem-se,
evidentemente, no contexto da campanha para as legislativas israelenses de 17
de Setembro. Estes esforços de comunicação, no entanto,
não enganam ninguém num terreno onde o exército israelense
já não faz actualmente a lei.
Para a opinião mundial, as gesticulações do
primeiro-ministro israelense já não conseguem
"criminalizar" as operações do Hezbollah que, tudo
somado, se inserem numa lógica de defesa e de segurança nacionais
para a salvaguarda do Líbano
DEFESA NACIONAL
No seu magistral livro "O Hezbollah, um movimento
nacional-islâmico" os politólogos Frédéric
Domont e Walid Charara apresentam, de maneira fundamentada e ilustrada,
à margem das questões militares, a concepção geral
dos programas sociais da organização político-militar.
"O Hezbollah trabalha eficazmente para atenuar as carências do
Estado libanês em matéria de saúde, educação
e apoios sociais em várias regiões onde os habitantes jamais
viram um funcionário libanês", revelam os autores; "os
quadros destes diferentes programas de acção social e educativa
insistem constantemente na dimensão nacional libanesa e nos diferentes
domínios ligados à segurança do território".
Esta abordagem ampliou-se nos últimos 15 anos e os programas sociais
reforçaram a credibilidade militar e nacional do Hezbollah. Esta atingiu
um pico no Verão de 2013, quando Hassan Nasrallah oficializou o
envolvimento militar da organização na Síria, nas
regiões fronteiriças em redor da cidade libanesa Tripoli. Por
esta altura, os terroristas do grupo Jabhat al-Nusra (al-Qaida na Síria)
estavam a um passo de conquistar Tripoli, o porto do norte do Líbano. Os
jihadistas chegaram mesmo a anunciar a intenção de coordenar
operações com grupos salafitas líbios a partir desta
frente marítima libanesa. Na época escrevemos que a
intervenção do Hezbollah que provocou numerosos protestos
- permitiu salvaguardar a integridade territorial e política do
País dos Cedros, o que hoje é geralmente reconhecido.
As autoridades de Telavive reivindicam agora, abusivamente, uma parte das
águas territoriais libanesas ricas em hidrocarbonetos (blocos 9, 10 e 11
do campo conhecido como Leviatã) e as suas unidades navais violam
quotidianamente o espaço marítimo libanês. De maneira ainda
mais evidente e regular, os caças israelenses penetram, quase todos os
dias, no espaço aéreo libanês sem serem inquietados. Cada
pedido para dotação de mísseis anti-aéreos dirigido
pelo Estado libanês aos Estados Unidos, França,
Grã-Bretanha ou Alemanha é imediatamente recusado porque Israel
protesta oficialmente, e ao mais alto nível, junto dos países
solicitados.
Nestas condições, o Hezbollah tem toda a legitimidade para dizer
que conservará o seu potencial militar enquanto as potências
regionais e internacionais não permitirem ao exército
libanês dotar-se dos meios necessários para uma defesa eficaz e
credível do país. Efectivamente, no estado actual das coisas e
perante a persistente relação de forças com Israel, o
Hezbollah assume, em grande parte, as responsabilidades da defesa e da
segurança nacionais do Líbano.
É verdade que os cidadãos israelenses têm o legítimo
direito à segurança. Mas por que razão e em virtude de que
princípios os palestinos, os libaneses e todos os outros habitantes do
Médio Oriente não têm os mesmos direitos? Quer isso agrade
ou não, o Hezbollah/Resistência contribui para a
edificação desta igualdade de tratamento numa região onde
um povo que se considera "eleito" não pode comportar-se como
dominador
10/Setembro/2019
O original encontra-se em
www.oladooculto.com/noticias.php?id=499
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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