Os últimos ataques de Israel foram demasiado longe

por Andre Vltchek [*]

Após os recentes ataques israelenses contra o Líbano, a Síria e o Iraque, o Oriente Médio foi envolvido numa guerra não declarada.

Quase todo a gente no Líbano parece concordar. "Desta vez, Israel foi longe demais. Em apenas dois dias, bombardeou três países", disse-me um funcionário local da ONU com sede em Beirute.

No mesmo dia, meu barbeiro local dizia como via as coisas, com voz cheia de sarcasmo e determinação:

"O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu enfrenta eleições difíceis em casa, enquanto sua esposa está a ser julgada por fraude. Um bocado de excitação durante o noticiário da noite só pode ajudar suas probabilidades de recuperar a atenção de seu eleitorado. Mas nós aqui já tivemos o quanto baste; estamos prontos para combater pelos nossos países. "

Mas "combater pelos seus países" pode demonstrar-se letal, pois Netanyahu ameaçou atacar o Líbano como um todo se o Hezbollah decidir retaliar.

Meu barbeiro não é apenas barbeiro. Ele é um engenheiro sírio, exilado no Líbano. Toda a região está dispersa, descarrilada e entrelaçada, após ataques da NATO e de Israel, ocupações e campanhas de desestabilização.

Em 25 de Agosto, Hassan Nasrallah, o chefe do Hezbollah, falou sem rodeios durante seu discurso televisionado no Líbano:

"O ataque suicida da madrugada é o primeiro ato de agressão desde 14 de Agosto de 2006. A condenação do Estado libanês do que aconteceu e o encaminhamento do assunto ao Conselho de Segurança é bom, mas estes paços não impedem o andamento de acções a serem empreendidas. Desde 2000, temos permitido drones israelenses por muitas razões, mas ninguém se mexeu. Os drones israelenses que agora entram no Líbano já não estão mais a colectar informação, mas sim [a executar] assassinatos. A partir de agora, enfrentaremos os drones israelenses quando entrarem nos céus do Líbano e trabalharemos para deitá-los abaixo. Digo aos israelenses que Netanyahu está a arriscar o seu sangue".

O presidente do Líbano, Michel Aoun, foi ainda mais longe, classificando o ataque de drones contra o seu país como uma " declaração de guerra".

Enquanto isso, um bloco poderoso no Parlamento do Iraque – a Coligação Fatah – insiste em que os EUA são " totalmente responsáveis " pelos ataques israelenses, "os quais consideramos uma declaração de guerra contra o Iraque e o seu povo ". A Coligação Fatah quer todas as tropas dos EUA fora do Iraque, o mais rápido possível.

Não há dúvida de que Netanyahu, com suas recentes incursões e bombardeios de drones de combate, lançou toda a região numa grande e inesperada turbulência.

Há décadas que Israel ataca regularmente a Síria e bombardeia a Palestina. Mas o Líbano é uma história totalmente diferente: só seu espaço aéreo vinha sendo violado habitualmente pelos jactos israelenses a voarem rumo a alvos sírios. Bombardear o Iraque também é claramente uma escalada da estratégia belicosa de Israel. Uma escalada bizarra, considerando que o Iraque ainda é de facto um estado ocupado pelo aliado mais próximo de Israel – os Estados Unidos.

Tudo o que é xiíta – menos o próprio Irão (por enquanto) – subitamente se tornou um 'alvo legítimo' para Israel. Durante muitos anos, o islão xiita foi sinónimo de resistência ideológica ao imperialismo ocidental no Médio Oriente: o próprio Irão, várias facções no Iraque, o Hezbollah, entre outras.

O Líbano está profundamente dividido

O Líbano é um dos países mais 'estratégicos' do Médio Oriente e o mais dividido. Ele baseia-se num sistema "confessional". Seu governo é sempre pelo menos "instável", mas muitas vezes totalmente disfuncional. Em comparação com a do seu homólogo israelense, a sua força aérea consiste em aviões de brinquedo, como os Cessnas convertidos.

Os mais recentes carros Maserati e Ferrari passam por algumas das mais miseráveis favelas do Médio Oriente. Restaurantes e cafés elegantes muitas vezes estão a poucos metros de mendigos. Existem centenas de milhares de refugiados neste pequeno país, de toda a região: palestinos, a viverem em campos perigosos e superlotados, com muito pouca esperança; Iraquianos em fuga da guerra e da ocupação da NATO; e vítimas da guerra síria.

O governo libanês e as elites estão a lucrar com a crise dos refugiados, supostamente embolsando dinheiro da "ajuda externa". Quase nada resta para os serviços sociais, ou mesmo para a defesa, muito menos para os pobres e a classe média baixa.

O Hezbollah, ao contrário, está a providenciar serviços sociais, incluindo alimentos, assistência médica e educação a todas as pessoas residentes no território libanês, independentemente de raça ou religião. Além disso, está a combater invasões israelenses, tomando nas suas fileiras todos os cidadãos libaneses que quiserem ingressar. Também combate terroristas na Síria. Está intimamente ligado ao Irão. Tudo isso, é claro, enfurece os Estados Unidos, Israel e Arábia Saudita. O Hezbollah está firmemente na "lista terrorista" do Ocidente e dos seus associados.

Israel está a usar a luta contra o Hezbollah e contra posições de aliados iranianos para justificar o bombardeamento de vários países da região. Continua "a descobrir novas tramas" e executa "ataques antecipativos" com o pleno apoio do governo estado-unidense.

Durante a escalada mais recente, consta que Israel teria efectuado três ataques com drones no Vale do Beqaa, no Líbano, a uma base pertencente ao grupo laico, marxista-leninista e pró-sírio, a Frente Popular para a Libertação da Palestina, qual é, como era de esperar, aliado do Hezbollah.

Linha Azul

Há poucos dias consegui dirigir-me à fronteira entre o Líbano e Israel e depois fui para o leste, seguindo a chamada Linha Azul, a qual é patrulhada pela Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL), em dezenas de quilómetros.

Os israelenses já ergueram um muro em quase todo o caminho desde o Mar Mediterrâneo até as Alturas de Golan – a fronteira libanesa.

Mais de um ano atrás, o governo do Líbano afirmou que "construir o muro equivaleria a um acto de guerra". Israel não se importou. Construiu uma enorme estrutura de concreto bem em frente ao Exército libanês, ao Hezbollah e à UNIFIL.

"Em muitas ocasiões, os israelenses realmente cruzaram a fronteira, pelo menos alguns metros ou centímetros, enquanto erigiam o muro", contaram-me vários agricultores locais na aldeia de Markaba. E nada aconteceu.

Na cidade de Kfarchouba, conhecida como fortaleza do Hezbollah, ao lado de uma parede sinistra decorada com desenhos infantis, pessoas disseram-me que estão "prontas para um conflito; prontas para morrer... se necessário".

Kfarshouba é onde os israelenses "descobriram túneis do Hezbollah", os quais foram uma justificativa oficial para a construção das muralhas.

"Asneira", disseram-me os locais. "Os túneis estavam lá há décadas, e os israelenses sempre souberam deles. Eles estiveram totalmente barricados durante muitos anos e não representavam perigo para Israel".

Bem em frente à horrenda nova muralha israelense, três bandeiras balouçam ao vento – as da Palestina, do Líbano e do Hezbollah. Ao lado delas, três veículos blindados da UNIFIL estão estacionados. Soldados indonésios descansam, tirando selfies.

"Vão actuar se Israel cruzar a linha?", pergunto-lhes.

Eles sorriem para mim. Nenhuma resposta coerente é dada.

As Alturas de Golan, ocupadas por Israel, ficam a apenas 10 km deste ponto. E várias aldeias e cidades israelenses estão logo atrás da muralha.

Com o poder de fogo que o Hezbollah tem, elas podiam ser arrasadas em apenas um minuto.

Embora o Hezbollah aparentemente esteja em "alerta máximo", até agora, a conversa sobre "retaliação" é apenas conversa.

"Inércia é como morte lenta no Líbano"

A fim de bombardear alvos dentro do Iraque, jactos israelenses tiveram de sobrevoar ou o território de seu antigo aliado, a Turquia, ou a Arábia Saudita. Conforme informado pela Al-Jazeera:

"Israel e os sauditas não têm relações diplomáticas formais, mas acredita-se terem estabelecido uma aliança nos bastidores na base da sua hostilidade compartilhada para com o Irão".

Israel estará a tentar provocar vários países árabes do Médio Oriente para mais uma guerra?

Ou será apenas mais uma "humilhação"? Será que Beirute, Damasco e Bagdad vão apenas contar pancadas e permanecer ociosos? Irão citar repetidamente as resoluções da ONU, enquanto Israel bombardeia continuamente suas cidades e campos, com total impunidade e com a aprovação do Ocidente?

É uma decisão muito difícil a tomar. Se o Líbano ou o Hezbollah decidirem retaliar ou simplesmente proteger seu país, milhares morrerão. Talvez de imediato.

Se não retaliarem, novas muralhas serão erguidas e as campanhas de bombardeio "discretas" dos israelenses continuarão, muito provavelmente, durante os muitos anos vindouros. Em consequência, toda a região continuará a estar paralisada.

Meu colega local foi mais expressivo: "Esta inércia é como uma morte lenta para todo o Líbano".

28/Agosto/2019

[*] Filósofo, romancista, cineasta e jornalista investigativo, andrevltchek.weebly.com

O original encontra-se em www.unz.com/...


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
01/Set/19