A montanha que pariu um rato

Os libaneses são contra o projecto americano:
ele dá a Israel o que este não pôde conseguir através da agressão

por Marie N. Debs

Precisemos, em primeiro lugar, que o projecto de resolução [1] sobre o Líbano, apresentado em conjunto pelos Estados Unidos e pela França para ser discutido no Conselho de Segurança, é o projecto inicial de John Bolton, embaixador americano pertencente ao grupo dos novos terroristas cristãos que dirigem a Casa Branca já há alguns anos.

Um provérbio muito nosso diz: "A montanha experimentou as dores do parto... Ela pôs no mundo um rato". Isto quer dizer que por vezes as pessoas esperam da parte das "grandes potências" deste mundo uma atitude verdadeiramente forte, mas a desilusão as toma rapidamente à vista dos actos destas grandes potências.

Foi o que nos aconteceu ao ler o projecto de resolução que mencionámos.

Por que os libaneses são (quase) unânimes na recusa a este projecto e como o vêem?

Podemos caracterizar o seu conteúdo em duas frases, dizendo: ele concede ao governo de Israel tudo o que este não conseguiu ter em quatro semanas de guerra extrema e de massacres. Recordemos o projecto inicial de Ehoud Olmert que dizia ter necessidade de três semanas (segundo informações publicadas no San Francisco Chronicle ) para destruir a estrutura militar do Hezbollah, parando assim toda possibilidade de resistência do lado libanês e permitindo à administração de Georges Bush gritar vitória em outro lugar, após os fracassos ardentes registados no Iraque.

Contudo, as tropas "aguerridas" de Israel desta vez foram derrotadas apesar da longa preparação (dois anos) e do material de guerra muito refinado (todos os bombardeiros "F", inclusive o "shadow" F 22) que provocou a morte e a destruição por todo o Líbano.

As forças da agressão começaram a perder fôlego face a uma Resistência bem determinada e a actuar sobre o seu próprio terreno. Eles retomaram os bombardeamentos histéricos contra a população civil e a infraestrutura: mais de um genocídio foi cometido em Srifa, Cana, Marwahine, Jammalieh, Al-Qaa e, sobretudo, no arrabalde Sul de Beirute, transformado em cidade-fantasma e numa paisagem lunar... A pontes, a estradas, as fábricas, as viaturas, o camiões: tudo está queimado e destruído, mesmo os hospitais e as ambulâncias. Entretanto, nada disto quebrou a determinação dos resistentes que defendem cada metro da terra libanesa.

A rota do Líbano não está, portanto, pavimentada para os agressores que pedem a ajuda dos Estados Unidos e da Senhora Condolizza Rice em particular.

O CONTEÚDO DO PROJECTO AMERICANO

Rice deu toda a liberdade solicitada a fim de acabar com o que ela chama "o terrorismo". Ela não se contentou em por em cheque a tentativa do governo italiano de utilizar a Conferência de Roma com a finalidade de votar um cessar fogo imediato. Ela também pediu ao seu embaixador no Conselho de Segurança para exercer novas pressões sobre a Europa, os governos do G8 em particular, e aproveitar o recuo dos governos árabes para fazer aprovar uma resolução favorável a Israel.

Com este objectivo, o projecto de resolução chama a atenção para o facto de que "O Conselho de Segurança se inquieta com o recrudescimento da violência desde o ataque perpetrado, a 12 de Julho, pelo Hezbollah", apelando, primeiro, a este partido "para parar imediatamente todos os seus ataques". E se o projecto fala, também, da "paragem de todas as operações militares do lado israelense", ele não nem uma palavra acerca da retirada das tropas israelenses de certos pontos do Sul do Líbano, o que vai ao encontro do pedido para respeitar "a linha azul" (ou fronteira temporária) e da necessidade de criar uma zona tampão no Sul do Líbano, "entre a linha azul e o rio Litani", como se Israel não tivesse, desde 1948, nada a ver com o que se passava nesta região cobiçada pela presença de três cursos de água essenciais ao Líbano.

Notamos também que o "bloqueio internacional sobre a venda ou o envio de armas" não se refere em caso algum a Israel, mas somente ao Líbano, à excepção das armas "assinaladas" pelo governo libanês. Por outras palavras, e partindo das declarações feitas por certos responsáveis americanos em Abril último sobre o envio de armas às forças de segurança interna do Líbano, é-nos proibido (tal como aos palestinos antes de nós) ter outras armas além daquelas necessárias à repressão interna, o que permitirá a Israel fazer tudo o que quiser e quando quiser sobre a nossa terra.

Em contrapartida, a resolução esquiva-se aos dois pontos que interessam ao Líbano: os detidos e os locais de Chebaa.

Quanto ao primeiro ponto, esta resolução exige "a libertação sem nenhuma condição dos dois soldados israelenses capturados", em compensação ela contenta-se em "encorajar os esforços desenvolvidos para encontrar uma solução para o problema dos prisioneiros libaneses detidos em Israel".

Naturalmente, o ponto mais forte de toda esta resolução é colocação em execução da resolução 1559 (Verão de 2004( que considera a Resistência como uma simples milícia.

A FALTA DE RESPEITO DEVIDA AO GOVERNO LIBANÊS

O pior em tudo isto é que governo libanês, que havia votado por unanimidade um projecto de 7 pontos, cujos dois primeiros falavam da "cessação da agressão israelense contra o Líbano" e da "retirada dos soldados israelenses das posições que ocupam no Sul", viu-se, mais uma vez, espezinhado pelos americanos que haviam assegurado que o Líbano está de acordo com a resolução que eles vão tomar.

Sem falar que o projecto contem uma falta grave para o governo, a saber, a parte referente aos lugares de Chebaa, chamados "regiões litigiosas e não confirmadas libanesas".

O Líbano, todo o Líbano, com excepção de alguns porta-vozes americanos, considera que esta resolução, tal como é apresentada, não pode levar nem a um cessar fogo durável nem à resolução dos problemas essenciais.

Eis porque o Líbano pede às Nações Unidas, de que é membro fundador, para fazer todas as diligências possíveis a fim de por fim aos massacres e às destruições e proteger a população civil contra os agressores.

Um projecto de três pontos pode constituir uma primeira etapa para uma solução durável e, sobretudo, equitativa.

Estes três pontos são:

  • Um cessa fogo imediato em condições.
  • A retirada israelense para lá da "linha azul".
  • A reinstalação das forças da ONU presentes no Líbano.

    Na sequência do que far-se-á a torca dos detidos e a ONU poderá apresentar um projecto referente aos pontos litigiosos.

    CONCLUSÃO

    A nova guerra israelense contra o Líbano mostrou, mais uma vez, que o povo libanês, ainda que aspire a viver em paz, não pode faze-lo às custas da honra nacional e da soberania territorial. Os israelenses devem saber isto desde o ano de 1982, que viu nascer uma resistência encarniçada contra a ocupação, assim como a recusa de toda solução não conforme aos interesses patrióticos. Eis porque o Acordo de 17 de Maio entre o presidente libanês de então, Amin Gemayel, e Israel foi rapidamente explodido. E eis porque toda resolução durável deve ser baseada na justiça.

    Beirute, 6 de Agosto de 2006

    [1] Draft of Lebanon United Nations Security Council Resolution

    O original encontra-se em http://www.lcparty.org/060806_4.html


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 06/Ago/06