por Federico Pieraccini
[*]
As revelações cuidadosamente ignoradas pelos grandes media
lançaram uma luz sobre a teia emaranhada tecida pelos media
cúmplices e pela hipocrisia descarada do Ocidente, envolvendo a OPCW, a
Wikileaks e a detenção ilegal Julian Assange.
Um denunciante da Organização para a Proibição de
Armas Químicas (OPCW) entregou à Wikileaks
documentos autênticos
relativos às investigações do bombardeio de Douma na
Síria em 2018.
Estes documentos confirmaram o que muitos escreviam há meses, ou seja,
que as investigações e conclusões da OPCW foram fabricadas
a fim de alcançar um resultado premeditado que era desfavorável
ao Exército Árabe da Síria e em consonância com os
objectivos da política externa de Washington, Tel Aviv, Riad, Paris,
Ancara, Doha e Londres.
Os EUA anteriormente utilizaram exactamente esta mesma fórmula, sob o
pretexto de R2P (Responsibility to Protect,
Responsabilidade de Proteger), para justificar o bombardeio de um país.
Um ataque químico a ser atribuído ao exército sírio
parecia o meio mais directo de desencadear a R2P e alcançar os desejados
objectivos de política externa. No entanto, o que sabemos agora
através dos documentos publicados pela Wikileaks é que a
organização internacional que supostamente deveria garantir
imparcialidade e objectividade falsificou relatórios e procedimentos.
Nas
palavras
de José Bustani, o primeiro director-geral da OPCW e ex-embaixador do
Brasil no Reino Unido e na França:
"A evidência convincente de comportamento irregular na
investigação da OPCW do alegado ataque químico de Douma
confirma as dúvidas e suspeitas que eu já tinha.
Eu não conseguia entender o que estava lendo na imprensa internacional.
Mesmo relatórios oficiais de investigações pareciam
incoerentes, na melhor das hipóteses.
O quadro certamente agora está mais claro, embora seja muito
perturbador. Sempre esperei que a OPCW fosse um verdadeiro paradigma
de multilateralismo.
Minha esperança é que as preocupações expressas
publicamente pelo Painel, em sua declaração conjunta de consenso,
catalisarãom um processo pelo qual a Organização possa
ressuscitar para se tornar o órgão independente e não
discriminatório que costumava ser".
O órgão que deveria garantir imparcialidade conluiou-se para
enquadrar Damasco por um crime que ele não cometeu, só para que o
Ocidente tivesse desculpa para efectuar uma campanha de bombardeamento contra a
Síria.
Neste mecanismo perverso, qualquer testemunho fora do roteiro dos sírios
no terreno, jornalistas estrangeiros independentes ou quaisquer outras fontes
não aprovadas foram sumariamente rejeitados pela imprensa europeia e
americana como enviesados e não confiáveis.
Estas revelações do Wikileaks são uma rara oportunidade de
olhar por trás da cortina e entender os mecanismos que levam a
milhões de mortes, destruição de países e perda de
gerações. Já vimos no passado como um poder
hegemónico como os Estados Unidos actua, fabricando pretextos como
"armas de destruição em massa", está disposto a
tentar manter sua posição de domínio a qualquer
preço numa região estratégica como o Médio Oriente.
Podemos perceber no ataque químico de Douma um ataque de bandeira falsa
perpetrado por militantes da Al-Qaeda (retratados pelo Ocidente como rebeldes
moderados a lutarem bravamente contra Assad), a OPCW a apresentar-se como
árbitro imparcial e os grandes media a ampliarem as mentiras produzidas
por este organismo supostamente imparcial, condicionando a opinião
pública no processo a aceitar a utilização da força
para pôr fim ao sofrimento na Síria, alegadamente perpetrado pelas
forças de Assad.
A legitimidade estendida à Al-Qaeda e suas afiliadas permitiu que
terroristas realizassem ataques civis na Síria usando armas
químicas com o objectivo de culpar as tropas do governo, justificando
assim um apoio internacional aberto de outros como EUA, o Reino Unido e a
França. Para garantir o êxito desta conspiração, os
relatórios fraudulentos da OPCW destinavam-se a fornecer a justificativa
humanitária para a intervenção internacional.
Todo este assunto é ainda mais perturbador quando consideramos a
questão da ética jornalística. Os jornalistas poderiam
muito bem ter feito seu trabalho adequadamente e investigado o ataque
químico de Douma, colectando depoimentos de testemunhas de civis e
gravando imagens. Em vez disso, os media papaguearam a propaganda ocidental,
ampliando a informação comprometidas da OPCW.
Foi relegado à Wikileaks exercer o jornalismo adequado, publicando as
informações verificadas do denunciante da OPCW e, no processo,
revelando um enorme escândalo que mina a credibilidade das
proclamações altissonante do Ocidente.
Esta é a razão porque Assange está atrás das
grades, enquanto os âncoras dos grandes media ganham milhões de
dólares a transmitirem a propaganda oficialmente aprovada para o
público. A Wikileaks conta a verdade com seu trabalho, revelando como as
potências ocidentais estão dispostas a fazer tudo o que podem para
iniciar novas guerras e prosseguir sua agenda imperialista.
Vemos nesta revelação da Wikileaks o que levou a actual ordem
mundial a ser tão instável e a origem de tanta guerra e
miséria. A máquina de propaganda ocidental conseguiu comprometer
um organismo antes respeitado pela sua probidade, com o objectivo de infligir o
máximo possível de danos à Síria.
Este escândalo é o exemplo mais recente de como os
políticos ocidentais, os grandes media e as organizações
internacionais são meras ferramentas imperialistas empregadas para
ataques a oponentes geopolíticos.
29/Outubro/2019
Ver também o caso anterior com a OPCW:
O Brasil, os EUA, a OPAQ e Bustani
, 27/Abr/2002
O original encontra-se em
www.strategic-culture.org/...
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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