A crise no Qatar
Nova tentativa tosca dos Três Estados Patifes para
enfraquecer o Irão
por The Saker
Primeiro, um rápido quem é quem
Nós provavelmente nunca descobriremos o que realmente foi discutido
entre Trump, os sauditas e os israelenses, mas há pouca dúvida de
que o recente movimento saudita contra o Qatar é o resultado directo
destas negociações. Como é que eu sei disso? Porque
o próprio Trump o disse
! Como mencionei recentemente, a
catastrófica submissão de Trump aos Neocons
e suas políticas
deixaram-no preso ao Reino da Arábia Saudita (RAS) e a Israel
, outros dois estados patifes cujo poder e, francamente, sanidade mental,
estão a minguar minuto a minuto.
Se bem que o RAS e o Qatar tenham tido suas diferenças e problemas no
passado, desta vez a magnitude da crise é muito maior do que qualquer
outra no passado. Este artigo é uma tentativa, necessariamente
grosseira, de delinear quem está a apoiar quem:
Apoiantes dos sauditas
(
segundo a Wikipedia
)
|
Apoiantes do Qatar
(segundo eu próprio)
|
|
Emirados Árabes Unidos, Bahrain, Egipto, Maldivas,
Iémen (eles
querem dizer o regime pró saudita no exílio),
Mauritânia,
Comoros, Líbia (governo de Tobruk), Jordânia,
Chad, Djibouti,
Senegal, Estados Unidos, Gabão
|
Turquia
,
Alemanha
, Irão
|
Perguntas, muitas perguntas
A situação é muita fluida e tudo pode mudar em breve,
mas percebe alguma coisa esquisita na lista acima? A Turquia e a Alemanha
estão a apoiar o Qatar muito embora os EUA estejam a apoiar o RAS. Ou
seja, dois importantes estados membros da NATO tomam uma posição
contra os EUA.
A seguir, examine a lista que apoia os sauditas: excepto os EUA e o Egipto,
eles são todos militarmente irrelevantes (e os egípcios de
qualquer forma não se envolverão militarmente). Não
é assim para aqueles que se opõem aos sauditas, especialmente
não o Irão e a Turquia. Assim, se o dinheiro está do lado
dos sauditas, o poder de fogo está do lado do Qatar.
E o Gabão e o Senegal? Desde quando estão estes dois envolvidos
na política do Golfo Pérsico? Por que é que eles
estão a tomar partido neste conflito distante? Uma olhadela
rápida às
10 condições que os sauditas exigem que os qataris cumpram
ajuda-nos a entender o seu envolvimento:
1. Corte imediato de relações diplomáticas com o
Irão;
2. Expulsão de todos os membros do movimento de resistência
palestina Hamas do Qatar;
3. Congelamento de todas as contas bancárias de membros do Hamas e
abstenção de qualquer acordo com eles;
4. Expulsão de todos os membros da Fraternidade Muçulmana do
Qatar;
5. Expulsão de elementos anti Conselho de Cooperação do
Golfo (GCC);
6. Cessar o apoio a "organizações terroristas";
7. Parar a interferência em assuntos egípcios;
8. Cessar a difusão do canal de notícias Al Jazeera;
9. Desculpas a todos os governo do Golfo (Pérsico) por
"abusos" da Al Jazeera;
10. Prometer que o Qatar não executará quaisquer
acções que contradigam as políticas do CCG e aderir
à sua carta.
Os sauditas também entregaram uma lista de indivíduos e
organizações que eles querem proibir (ver
aqui
).
Ao examinar estas condições torna-se bastante claro que o
Irão e os palestinos (especialmente o Hamas) estão em destaque na
lista de exigências. Mas por que o Gabão e o Senegal se
importariam com isto?
Ainda mais interessante: por que ISRAEL não está listado como um
país que apoia o RAS?
Como sempre, os próprios israelenses são muito mais honestos
acerca do seu papel em tudo isto. Bem, talvez eles não digam claramente
"nós fizemos isto", mas eles escrevem artigos como "
Cinco razões porque Israel deveria se preocupar com a crise no Qatar
", o qual lista todas as razões porque os israelenses estão
deliciados:
1. Prejudica o Hamas
2. Faz com que Israel fique mais próximo da Arábia Saudita, do
Egipto e do Golfo
3. Mostra que a influência dos EUA está volta na região
4. Deslegitima o terrorismo
5. Reforça a mão de Israel em geral e do governo de Israel em
particular.
Esta espécie de honestidade é bastante refrescante, ainda que
seja primariamente para consumo interno israelense.
Rápida verificação com uma fonte palestina
sim, os israelenses estão a apoiar o RAS. Isto não tem
nada de surpreendente, não importa quão arduamente os media
corporativos ocidentais tentem não noticiar isto.
E quanto aos EUA? Será que eles realmente beneficiam desta crise?
Os EUA têm no Qatar o que pode possivelmente ser a maior base da US Air
Force em todo o mundo, a
Al Udeid Air Base
. Além disso, os centros de comando avançados dos Estados Unidos,
CENTCOM
, também estão localizados no Qatar. Dizer que estas são
infraestruturas são cruciais para os EUA é uma
atenuação da verdade poder-se-ia argumentar que estas
são as mais importantes instalações militares
estado-unidense em qualquer parte do mundo fora dos EUA. Então
alguém logicamente concluiria que a última coisa que os EUA
desejariam é qualquer tipo de crise ou mesmo de tensões em
qualquer parte próxima de instalações tão vitais,
mas é bastante claro que os sauditas e os americanos estão a
actuar em uníssono contra o Qatar. Isto não faz sentido,
não é? Correcto. Mas agora que os EUA embarcaram numa
fútil política de escalada militar na Síria
não deveria ser surpresa que os dois principais aliados dos EUA
não região estejam a fazer a mesma coisa.
Além disso, houve algum momento em que as políticas da
administração Trump no Médio Oriente tivessem qualquer
sentido lógico? Durante a campanha eleitoral elas foram, diremos, 50/50
(excelente sobre o ISIS, completamente estúpida acerca do Irão).
Mas desde o golpe de Janeiro contra Flynn e a rendição de Trump
aos Neocons todos nós vimos uma forma de ilusão estúpida
após a outra.
Objectivamente, a crise em torno do Qatar não é boa de todo para
os EUA. Mas isso não significa que uma administração que
foi capturada por ideólogos endurecidos esteja desejosa de aceitar esta
realidade objectiva. O que temos aqui é uma administração
muito fraca dirigindo um país a enfraquecer rapidamente e a tentar
desesperadamente prova que ainda tem um bocado de peso para lançar. E se
assim é, o plano na verdade é muito mau, um plano destinado a
falhar que resultará num bocado de consequências inesperadas.
De volta ao mundo real
O que temos aqui é um caso grave de jogos de fumos e espelhos e o que
está realmente a verificar-se, mais uma vez, é uma tentativa
tosca dos Três Estados Patifes (EUA, Arábia Saudita, Israel) de
enfraquecer o Irão.
Há certamente outros factores que também contribuem, mas o grande
acordo, o núcleo do problema, é o que eu chamaria a
"força gravitacional" em crescimento rápido e a
correspondente "desintegração orbital" de toda a
região cada vez mais próxima do Irão. E para tornar as
coisas piores, os Três Estados Patifes estão visível e
inexoravelmente a perder sua influência sobre a região: os EUA no
Iraque e na Síria, Israel no Líbano e a Arábia Saudita no
Iémen todos os três empenharam-se em
operações militares que acabaram por ser fracassos abjectos e nos
quais, longe de mostrarem que estes países eram poderosos, mostraram
quão fracos eles realmente são. Ainda pior é o facto de
que os sauditas estão a enfrentar uma grave crise económica sem
fim à vista, ao passo que o Qatar tornou-se o país mais rico do
planeta, principalmente graças a um imenso campo de gás que o
Qatar partilha com o Irão.
Poderia parecer que o Qatar não é uma grande ameaça para a
Arábia Saudita, uma vez que é ao contrário do
Irão outro país salafista. Mas na realidade isto faz parte
do problema: durante as últimas décadas os qataris sentiram que a
sua nova riqueza lhes dava meios completamente fora de proporção
com a sua dimensão física: não só criaram o mais
influente império mediático do Médio Oriente, a
al-Jazeera, como também embarcaram numa política externa
própria que os tornou actores chave nas crises na Líbia, Egipto e
Síria. Sim, o Qatar tornou-se um apoiante primário do terrorismo,
mas os Estados Unidos, Arábia Saudita e Israel também o
são, de modo que isso é apenas um pretexto vazio. O
"crime" real do Qatar foi recusar, por razões puramente
pragmáticas, aderir à maciça campanha anti-iraniana
imposta na região pela Arábia Saudita e Israel. Ao
contrário da longa lista de países que tinham de exprimir seu
apoio à posição saudita, os qataris tinham os meios para
simplesmente dizer "não" e seguir sua própria rota.
O que os sauditas agora estão à espera é que o Qatar se
submeta às ameaças e que a coligação liderada pelos
sauditas prevaleça sem ter uma guerra "quente" contra o Qatar.
A probabilidade de alcançarem este resultado ninguém sabe, mas
pessoalmente considero duvidoso (mais acerca disto depois).
E a Rússia em tudo isto?
Os russos e os qataris chocaram-se muitas vezes, especialmente acerca da
Síria e da Líbia em que o Qatar desempenhou um papel extremamente
tóxico por ser o financiador primário de vários grupos
terroristas takfiri. Além disso, o Qatar é o competidor
número um da Rússia em muitos mercados de GNL (gás natural
liquefeito). Também houve outras crises entre os dois países,
incluindo o que parece ser um
assassinato russo do líder terrorista checheno Zelimkhan Yandarblyev
e a subsequente tortura e julgamento de dois empregados da Embaixada Russa
acusados de estarem envolvidos no (foram sentenciados à prisão
perpétua e finalmente enviados de volta para a Rússia). Ainda
assim, os russos e os qataris são pessoas eminentemente
pragmáticas e os dois países mantêm um relacionamento
cordial, se bem que cauteloso, o qual inclui mesmo alguns empreendimentos
económicos conjuntos.
É altamente improvável que a Rússia venha a intervir
directamente nesta crise a menos, naturalmente, que o Irão seja atacado
directamente. A boa notícia é que tal ataque directo ao
Irão é improvável pois nenhum dos Três Estados
Patifes tem realmente estômago para enfrentar o Irão (e o
Hezbollah). O que a Rússia fará é utilizar o seu soft
power,
político
e
económico
, para vagarosamente tentar trazer o Qatar para a órbita russa de acordo
com a estratégia semi-oficial do ministro russo dos Negócios
Estrangeiros, que é "transformar inimigos em neutrais, neutrais em
amigos, amigos em aliados". Assim como com a Turquia, os russos
ajudarão de bom grado, especialmente quando sabem que isto
ajudará a comprar-lhe alguma influência muito preciosa na
região.
Irão, o alvo real de tudo isto
Os iranianos agora estão a dizer abertamente que
o recente ataque terrorista em Teerão foi ordenado pela Arábia Saudita
. Tecnicamente falando, isso significa que
agora o Irão está em guerra
. Na realidade, como a real super-potência local, o Irão
está a actuar com
calma e contenção
: os iranianos entendem plenamente que este últimos ataque terrorista
é um sinal de fraqueza, se não de desespero, e que a melhor
reacção é actuar do mesmo modo como os russos reagiram
às explosões bombistas em S. Petersburgo: permanecer centrado,
calmo e determinado. Tal como os russos, os iranianos agora também se
ofereceram para enviar alimentos ao Qatar mas é improvável que
cheguem a intervir a menos que os sauditas realmente enlouqueçam.
Além disso, com
forças turcas posicionadas no Qatar dentro em breve
, os iranianos não têm necessidade real de qualquer
exibição de poder militar. Eu argumentaria que o simples facto de
que nem os EUA nem Israel tenham ousado atacar directamente o Irão desde
1988 (desde o
derrube pela US Navy do voo 655 do Airbus do Irão
) é a melhor prova do poder militar real iraniano.
Então, para onde estamos a ir?
É realmente impossível prever, até porque as
acções do Três Estados Patifes dificilmente podem ser
descritas como "racionais". Ainda assim, assumindo que ninguém
fica louco, meu sentimento pessoal é que o Qatar prevalecerá e
que a mais recente tentativa saudita de provar quão poderoso ainda
é o seu reino irá fracassar, tal como todas as anteriores (no
Bahrain em 2011, na Síria em 2012 ou no Iémen em 2015). O tempo
também não está do lado dos sauditas. Quanto aos qataris,
eles já indicaram claramente que
não estão dispostos a render-se
e que
combaterão
.
Os sauditas já tomaram a decisão ultrajante de impor um bloqueio
de um país muçulmano durante o mês sagrado do
Ramadão. Será que realmente escalarão e cometerão
um acto de agressão contra um país muçulmano durante
aquele mês? Eles podem, mas é difícil acreditar que mesmo
eles pudessem ser tão ignorante quanto à opinião
pública muçulmana. Mas se não o fizerem, então sua
operação perderá um bocado de impulso ao passo que aos
qataris será dado tempo para preparar-se politicamente, economicamente,
socialmente e militarmente. O Qatar pode ser pequeno e os próprios
qataris não muito numerosos, mas os seus bolsos imensos permitem-lhes
alinharem rapidamente qualquer quantidade de fornecedores e empreiteiros
desejosos de ajudá-los. Isto é um caso em que as famosas
"forças de mercado" actuarão em benefício do
Qatar.
O
ministro dos Negócios Estrangeiros qatari é aguardado em Moscovo no sábado
e é bastante óbvio sobre o que serão as
conversações: apesar de a Rússia não colocar todo o
seu peso político no apoio aos qataris, o Kremlin pode aceitar tornar-se
um mediador entre o RAS e o Qatar. Se isso acontecesse, seria a ironia final: o
principal resultado da operação
saudita-israelense-estado-unidense fará da Rússia um actor ainda
mais influente na região. Quanto ao próprio Qatar, o resultado
desta crise provavelmente será articulado de acordo com as linhas
nietzcheanas:
"O que não nos mata torna-nos mais fortes".
Conclusão
Vejao esta última crise como mais uma tentativa desesperada do
Três Estados Patifes de provar que ainda são os maiores e os
piores rapazes do quarteirão e, tal como as anteriores, penso que
fracassarão. Exemplo: simplesmente não vejo os qataris a
encerrarem a
al-Jazeera,
uma das suas "armas" mais poderosas. Nem os vejo a romperem todas as
relações diplomáticas com o Irão pois os dois
estados andam juntos devido ao
imenso campo de gás condensado South Pars
. A imensa riqueza dos qataris também significa que eles têm
apoiantes muito poderosos no mundo que exactamente agora, quando escrevo estas
linhas, estão provavelmente a fazer telefonemas para pessoas muito
influentes e a indicar-lhes em termos não ambíguos que o Qatar
não deve ser enredado.
Se esta crise serve para alguma coisa é só para empurrar o Qatar
para os braços cálidos de outros países, incluindo a
Rússia e o Irão, e para um novo enfraquecimento dos sauditas.
Os Três Estados Patifes têm algum problema: sua capacidade militar
para ameaçar, intimidar ou punir está a corroer-se rapidamente e
cada vez menos países temem-nos. O seu maior erro é que ao
invés de tentar adaptar suas políticas a esta nova realidade,
eles optam sempre por dobrar a aposta uma vez após a outra, apesar de
fracassarem todas as vezes, tornando-os ainda mais fracos e a sua má
situação inicial ainda pior. Trata-se de um espiral descendente
muito perigosa e ainda assim os Três Estados Patifes parecem incapazes de
conceber qualquer outra política.
Terminarei esta coluna comparando o que os presidentes Putin e Trump
estão a fazer nestes dias pois considero esta comparação
altamente simbólica da nova era em que estamos a viver:
Trump, depois de bombardear alguns "técnicos" (camiões
4x4 com uma metralhadora) e camiões na Síria, prosseguiu com um
tweet [a dizer] que Comey era um mentiroso e um revelara segredos (
leaker).
Quanto a Putin, participou na última reunião da
Organização de Cooperação de Shanghai (OCS) a qual
deu as boas vinda tanto ao Paquistão como à Índia como
membros plenos.
A OCS agora representa mais da metade de todas as pessoas que vivem no nosso
planeta e um quarto do PIB mundial.
Pode-se pensar dela como o "outro G8", ou o "G8 de
importa".
Eu diria que esta rápida comparação de agenda realmente
diz tudo.
ACTUALIZAÇÃO:
O secretário de Estado Rex Tillerson agora
está a dizer aos sauditas para "esfriarem"
. O plano saudita-israelense começa a entrar em colapso.
10/Junho/2017
Ver também:
The real story behind the crisis in Qatar and Saudi Arabia’s involvement
, Robert Fisk
Pakistan navigates neutral waters in Persian Gulf
, M. K. Bhadrakumar
O original encontra-se em
www.unz.com/tsaker/the-crisis-in-qatar/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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