Os 60 anos da revista fundada por Paul Sweezy
Esta edição da
Monthly Review
assinala o 60.º aniversário da revista. Olhando para a
história da
Monthly Review,
somos surpreendidos pela congruência histórica entre a
crítica de longo prazo do capitalismo desenvolvida nestas páginas
ao longo das décadas e a abordagem do curso presente dos acontecimentos.
Trata-se de uma verdade aplicável a três grandes áreas da
crise do sistema capitalista mundial: economia, ecologia e Império.
No que diz respeito à economia, o trabalho de Paul Sweezy e Harry
Magdoff, durante muito tempo editores da
MR,
começou a centrar-se na criação do padrão
dólar desde o início, nos anos 1970 (com a extinção
do velho padrão dólar-ouro). Daí em diante, eles
relacionaram o défice da balança de pagamentos externa com as
despesas militares externas dos Estados Unidos. O poder de Washington para
reforçar o padrão dólar permitiu aos Estados Unidos
empenharem-se num investimento imperial em massa, inundando o mundo com
dólares sem que tivessem que suportar as consequências.
De modo semelhante, o crescimento da dívida norte-americana em
proporção do PIB foi comentada desde o início dos anos
1960. Nos anos 1970, tal veio a ser identificado como uma tendência
marcante que se estende para lá dos meros ciclos ascendentes e
descendentes dos negócios. Isso mesmo foi manifesto mais
espectacularmente num crescimento explosivo do sector financeiro
norte-americano em relação à economia real subjacente. Nas
últimas duas décadas do século XX, Paul e Harry
começaram a observar o fenómeno económico mais
visível da altura a saber, a financeirização, a
"globalização" e a criação de um
exército global de reserva (e a capacidade de produção
excessiva) como manifestações ou tentativas de contrariar
a tendência fundamental para a estagnação que haviam
identificado na década de 1930. Sugeriram que a estagnação
e a financeirização tomavam cada vez mais a forma de um
"abraço simbiótico", estando o problema de base na
primeira.
À medida que o século XX chegava ao fim, parecia-lhes claro que a
financeirização não só não estava a ser
capaz de deter o abrandamento do crescimento, como tendia, ela própria,
para o que parecia ser cada vez mais um limite, com a hipertrofia da
finança a evoluir previsivelmente para crises financeiras mais
devastadoras. Uma das imagens favoritas de Harry nos últimos anos era
que seriam necessárias cada vez maiores quantidades de dívida
para atingir o mesmo nível de crescimento na economia norte-americana.
Paul, nos seus últimos anos, afirmou que estava confortável com a
morte, mas lamentava não vir a ver como tudo terminaria. Não
teria ficado surpreendido com o que, efectivamente, viria a acontecer.
Os editores da
MR
estavam seguros de que tinham identificado algumas das relações
básicas que não eram imediatamente visíveis. Mas
não tinham a pretensão (como acontece com as pretensões
inflacionadas que muitas vezes caracterizam os intelectuais, tanto à
esquerda como à direita) de ter desenvolvido o que seria um novo sistema
ou modelo que cobrisse tudo o que era importante. Pelo contrário, Paul
em particular insistia que a análise plena desses processos marcantes e
interconectados no capitalismo global financeirização,
estagnação do crescimento, concentração das
principais indústrias num pequeno punhado de empresas multinacionais,
transferência de poder dos conselhos de administração para
os banqueiros teria que ser tomada por pensadores mais jovens que
beneficiariam de ver essas contradições a funcionar.
Nestas páginas, aplicámos esta herança intelectual aos
acontecimentos que vieram a desenvolver-se na economia global e nos Estados
Unidos durante os últimos anos. Pensamos que qualquer observador
bem-intencionado concordará que esta perspectiva nos deu e
acreditamos que aos nossos leitores uma poderosa ferramenta para
compreender os acontecimentos e a forma como se desenvolveram. No entanto, do
nosso ponto de vista, esta herança nunca foi vista como o fim da linha
da construção de um sistema. Pelo contrário, foi sempre um
ponto de partida
exigindo para o seu desfecho análise histórica
continuada, acção e crítica de uma tentativa
colectiva de
mudar
o mundo. Se nos referimos frequentemente à tradição da
MR,
isso serve para dar crédito ao que o merece e a
impulsionar
com mais eficácia o projecto de transformação social
radical.
Não é necessário sublinhar que a análise
económica do capital monopolista (ou, como hoje surge, do capital
monopolista-financeiro) está no centro mas não esgota o projecto
da
MR.
A revista também é globalmente conhecida pela sua
crítica do Império e, mais recentemente, pela sua crítica
ecológica. Infelizmente, o espaço não nos permite
desenvolver essas outras tendências cruciais aqui. Todos esses problemas
centrais estão crescentemente interligados no actual momento
histórico, reflectindo o que pode ser visto como uma crise total do
sistema.
Além disso, essas contradições do sistema capitalista
estão todas profundamente enraizadas nas múltiplas formas de
opressão associadas à classe, raça, género,
orientação sexual, exploração da natureza e outras
divisões fundamentais. Não hesitamos em admitir que a forma
exacta como essas variadas formas de opressão se encaixam umas nas
outras não é totalmente clara para nós e tem conduzido a
muitas discordâncias na esquerda. Mas a realidade é que elas
encaixam, que isso se relaciona com o sistema e que a saída depende de
se encontrar um terreno comum de resistência. Quanto a isso, não
temos dúvidas. Como sempre, a
MR
está comprometida com a construção do terreno comum para
a mudança revolucionária. Não obstante os editores da
MR
se terem apresentado a si próprios como marxistas, a revista procurou
ser um espaço onde outras correntes radicais fossem também
bem-vindas: a única condição é promoverem uma
crítica, por mínima que seja, do sistema capitalista, do ponto de
vista da humanidade (e do planeta) como um todo. Esta visão ampla e
não-sectária também caracteriza a Monthly Review Press e,
mais recentemente, a MRzine.
Estamos ansiosos por podermos encontrar-nos com todos os que possam juntar-se
à nossa celebração do 60.º aniversário em
Setembro próximo (divulgaremos oportunamente mais detalhes). Mas
também queremos aproveitar a oportunidade para convidar a vasta maioria
dos que não possam juntar-se a nós em Nova Iorque nessa
ocasião a fazê-lo nas lutas críticas que temos pela frente.
Como escreveu Einstein há 60 anos nas páginas da
MR,
"A clareza acerca dos objectivos e dos problemas do socialismo tem um
grande significado na nossa era de transição. Considero que a
fundação desta revista é um importante serviço
público". Acreditamos que as suas palavras e, em particular, o
papel que atribuiu à
MR
são ainda mais importantes hoje, seis décadas mais tarde, do que
eram quando foram escritas.
Estas notas que comemoram o 60.º aniversário da
Monthly Review
não estariam completas se não comemorassem também um dos
nossos mais antigos e queridos assinantes, o nosso amigo Pete Seeger, que
celebra agora o seu 90.º aniversário. Satisfaz-nos e orgulha-nos
bastante podermos identificar a
MR
com a todas coisas por que Pete lutou toda a sua vida. Que o seu banjo toque
para sempre!
O original encontra-se em
http://monthlyreview.org/nfte090501.php
Este editorial encontra-se em
http://resistir.info/
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