Os Estados Unidos enfrentam a perspectiva de uma grande derrota no Iraque, o
que provavelmente constituirá um sério recuo na campanha
contínua pela expansão do Império Americano. Por
trás da propaganda de guerra generalizada, como se evidenciou no
vitorioso" ataque a Faluja, encontra-se a realidade de uma
máquina de guerra que combate uma batalha fútil contra
forças de guerrilha crescentes, com poucas possibilidades de uma
solução política estável para o conflito que
pudesse cumprir os objectivos imperiais dos Estados Unidos. Ainda assim, a
classe dominante dos EUA, apesar de consciente dos perigos, actualmente
está convencida de que não tem outra escolha senão
manter o rumo" um slogan adoptado por ambos os partidos
políticos e aceite por virtualmente todo o 'establishment'
económico, político, militar e das comunicações. A
razão para esta determinação aparentemente irracional de
aguentar a todo o custo só pode ser compreendida através de uma
análise da lógica e dos limites do império capitalista.
A LÓGICA DO IMPERIALISMO
O capitalismo é, pela sua natureza própria, um sistema global
expansivo orientado para a acumulação à escala mundial.
Desde os seus princípios, nos séculos XV e XVI, tem
constituído uma economia mundial com uma divisão internacional do
trabalho dominada por nações-Estado em competição.
Atravessando este sistema global está uma estrutura de desigualdade
descrita com várias expressões, como centro/periferia,
metrópole/satélites, desenvolvidos/subdesenvolvidos, Norte/Sul
todas as quais apontam para o largo fosso que existe entre os Estados
que estão no centro do sistema e os que estão na sua periferia.
Desde o princípio os Estados líderes do capitalismo entraram num
movimento imperialista para o exteriorior. As sociedades
pré-capitalistas das Américas, África e Ásia foram
pilhadas, as suas populações acorrentadas, e o produto dos saques
enviados para a Europa. Sempre que possível, as sociedades
não-capitalistas foram destruídas e transformadas em
dependências coloniais. Entretanto, as grandes potências
combateram entre si pelos territórios e pelos despojos. Como Marx
escreveu na Génese do Capitalista Industrial", volume 1 de O
Capital:
A descoberta de ouro e prata na América, a extirpação,
escravização e enterramento em minas da população
indígena desse continente, os princípios da conquista e do saque
da Índia e a conversão de África numa reserva para a
caça comercial de peles negras, são todos factos que caracterizam
a alvorada da era da produção capitalista. Estes procedimentos
idílicos são os momentos principais da acumulação
primitiva. Firmes nos seus pés, segue-se a guerra comercial das
nações europeias, que têm o globo como campo de batalha.
Começou com a revolta da Holanda em relação à
Espanha, assume dimensões gigantescas com a Guerra Anti-Jacobina inglesa
e continua ainda na forma das Guerras do Ópio contra a China, etc.
No fim das Guerras Napoleónicas, a Grã-Bretanha, que liderava o
caminho da revolução industrial, emergiu como a potência
hegemónica imperial da economia do mundo capitalista. Neste
período as potências europeias dividiram o mundo, tanto exercendo
domínio político directo sobre as suas colónias como, onde
isto não era praticável, criando condições para a
subordinação de Estados periféricos às necessidades
daqueles do centro por meio de tratados desiguais. A mais importante
possessão colonial britânica, a jóia do seu império,
foi a Índia. Mas a Grã-Bretanha também exercia controle
económico informal em áreas que não eram formalmente
colónias, como na América Latina. A riqueza extraída
destes domínios coloniais fluía para os cofres das
nações capitalistas centrais, enriquecendo-as e realçando
o seu poderio. A hegemonia britânica sobre a economia mundial veio a ser
cada vez mais desafiada no princípio do século XX, em particular
pela Alemanha, e entrou em colapso como resultado das Primeira e Segunda
Guerras Mundiais, para ser substituída no rescaldo da segunda Guerra
Mundial pela hegemonia Americana, quando os Estados Unidos ascenderam à
dominância no sistema capitalista mundial.
No mundo do pós-guerra imediato os Estados Unidos eram, em termos de
pura força material ao seu dispor, a nação mais poderosa
que já se vira. Eram responsáveis por mais de metade da
produção mundial total e por 60 por cento da manufactura e tinham
o monopólio das armas nucleares. No lugar do anterior padrão
ouro, o acordo de Bretton Woods santificou o dólar americano como
principal divisa internacional, o que era sustentado pelo acordo de Washington
em trocar por ouro os dólares retidos pelos bancos centrais de outros
países. Bases militares americanas aos milhares estenderam-se por todo
o globo. As corporações multinacionais americanas tomaram o
controle de economias inteiras no Terceiro Mundo e, apesar de o fazerem com
base no chamado comércio livre", foram apoiadas nas suas
operações e interesses económicos pelo poderio militar
americano sempre que necessário.
Mas de muitas maneiras o poder dos EUA era restringido. A existência da
União Soviética, que havia surgido de uma revolução
socialista em meio à Primeira Guerra Mundial, significava que existia
uma outra super-potência, a qual, ainda que longe de ser tão
poderosa como os Estados Unidos, conseguia restringir as acções
dos EUA, colocando certas regiões fora dos limites da expansão
capitalista e oferecendo suporte material às revoluções no
Terceiro Mundo. Ainda assim, a ameaça real ao capitalismo como um todo
e ao domínio global dos EUA não vinha directamente da
União Soviética mas das vagas de revolução que
tiveram lugar no século XX à medida que povos na América
Latina, África e Ásia procuraram libertar-se do colonialismo e do
neocolonialismo, i.e., da posição para que haviam sido relegados
na divisão imperialista do trabalho. Quando os Estados Unidos cercavam
a União Soviética e a China com bases e alianças militares
e ao mesmo tempo procuravam conter revoluções pelo Terceiro Mundo
afora, deparavam-se com os limites globais do seu poder.
O VIETNAM E OS LIMITES DO IMPÉRIO
Em nenhum outro lugar os limites do poder americano foram mais evidentes do que
na Guerra do Vietnam. Nela, os Estados Unidos tomaram conta daquilo que fora
uma guerra colonial por parte dos franceses, impediram eleições
no país como havia sido estabelecido pelos acordos de Genebra de 1954 e
dividiram o Vietnam ao meio criando um regime fantoche no Sul. Nos anos 60, um
acumular maciço de tropas americanas teve lugar, naquilo que escalou
até à invasão e ocupação da parte Sul do
Vietnam. Incapazes de ganhar uma guerra de guerrilha, apesar de gastarem mais
do dobro da potência explosiva que tinham usado em toda a Segunda Guerra
Mundial e apesar de milhões de vietnamitas mortos, incapazes de ter
êxito na construção da Nação" no
Vietnam do Sul, onde procuraram impor um regime corrupto da sua própria
criação, os Estados Unidos foram obrigados devido à
dissenção crescente entre a sua população civil e
aos sinais de rebelião entre as patentes militares mais baixas a retirar
sob a cobertura da vietnamização" da guerra. As
distorções na balança de pagamentos americana durante este
período contribuíram para a diminuição da hegemonia
do dólar como divisa mundial e para o fim do padrão
dólar-ouro. Durante décadas após a retirada do Vietnam a
capacidade americana de intervir militarmente ficou severamente limitada por
aquilo que os conservadores rotularam de síndrome do
Vietname" ou seja, a falta de vontade da população
americana em participar em intervenções militares de grande
escala noutros países.
A Guerra do Vietnam, como outras grandes guerras imperialistas, revelou a
lógica e os limites do império capitalista. É muitas
vezes dito que os Estados Unidos não tinham interesses económicos
significativos no Vietnam que justificassem a sua grande
intervenção ali. Niall Ferguson, um professor de história
financeira da universidade de Nova Iorque e membro sénior da Hoover
Institution, declara no seu novo livro,
Collossus: The Price of America's Empire,
"Os Estados Unidos não salvaram a face [no Vietnam]. Isso foi
praticamente a única coisa que perderam". Tais pontos de vista
tendem a reforçar a ideologia de que Estados Unidos, visto não
terem nada de
material a perder no Vietname, devem lá ter estado só para
promover a liberdade e a democracia. Na realidade, os objectivos dos EUA no
Vietnam foram a manutenção do imperialismo como sistema. No
sentido mais abrangente, isto envolveu metas estratégicas que têm
sido compreendidas de forma clássica debaixo da rubrica da
geopolítica", em que os requisitos políticos,
económicos e militares de império são colocados dentro de
um contexto estratégico que leva em conta as características de
recursos geográficos, demográficos e naturais de determinadas
regiões. Tal compreensão geopolítica da expansão e
defesa imperiais está, é claro, completamente de acordo com a
necessidade da maior expansão possível da economia capitalista
mundial.
A Guerra do Vietnam ilustra perfeitamente a importância de tais metas
geopolíticas. O objectivo da intervenção dos EUA era
controlar o Anel do Pacífico e cercar e conter" a China como
parte de uma estratégia geopolítica mais geral de domínio
global das cercanias" da Eurásia isto é, a
Europa Ocidental, o Anel do Pacífico e o Médio Oriente. Foram
estas cercanias o foco principal das alianças militares globais dos EUA;
e foi aqui que os Estados Unidos dedicaram mais recursos ao estabelecimento e
à manutenção de uma presença militar. Elas
representavam, de facto, as fronteiras do sistema imperialista, no qual os EUA
eram a potência hegemónica portanto as fronteiras de um
Império Americano construído de uma forma pouco definida.
[1]
Visto neste prisma, o enorme empenho dos Estados Unidos em reter o Vietnam na
sua esfera imperial um empenho mantido ao longo de cinco
presidências de ambos os partidos não era simplesmente
irracional mas parte de uma estratégia global maior. Para a classe
dominante dos EUA e para os seus estrategas militares e de política
externa, a derrota no Vietnam é recordada como uma grave falha na defesa
dos interesses americanos. Nos anos 70, a economia do mundo capitalista entrou
numa crise a longo prazo, ou estagnação, que continua a assombrar
cada um dos seus passos. No mesmo período, a hegemonia económica
dos EUA resvalou para baixo. Esta retirada parcial dos Estados Unidos do palco
mundial após a Guerra do Vietnam, pois as suas
intervenções militares eram abreviadas apesar de crescentes
movimentos revolucionários no Terceiro Mundo, era muitas vezes vista por
aqueles no topo da sociedade americana e entre os militares como uma fonte de
mal-estar ou fraqueza geral, afectando a ordem dos EUA.
O REGRESSO À GUERRA
A partir dos fins dos anos 70 Washington procurou reconstruir a sua capacidade
de entrar em guerras imperialistas. Guerras ocultas no Afeganistão e na
América Central foram seguidas pelo exercício directo do
imperialismo militar no Líbano, em Granada e no Panamá. Com a
queda do bloco soviético e a saída de cena, dois anos depois, da
própria União Soviética, os Estados Unidos movimentaram-se
para preencher o vácuo de poder mundial, levando a cabo
intervenções militares no Médio Oriente, no chamado
Corno de África" e na antiga Jugoslávia que antes
teriam sido impensáveis. A seguir aos ataques de Setembro de 2001, as
invasões e ocupações do Afeganistão e do Iraque e a
construção de bases militares nas antigas Repúblicas
Soviéticas da Ásia Central, constituíram uma vasta
expansão do Império Americano em regiões até
então inacessíveis. Tal extensão do poder imperial dos
EUA foi em parte tornada possível pelos ganhos económicos
apesar da natureza transitória dos mesmos que os Estados Unidos
haviam realizado nos anos 90 relativamente aos seus competidores capitalistas
da linha da frente. Foi este facto que ajudou a dar aos falcões
antiterroristas" da administração de George W. Bush a
confiança para explorar o medo engendrado pelos ataques de Setembro de
2001 e a elaborar a
Estratégia Nacional de Segurança dos Estados Unidos da
América,
em Setembro de 2002. Esta estratégia declarava que os Estados Unidos
fariam tudo ao seu alcance para impedir a aparição de outro
par competidor" no reino militar e não hesitariam em entrar
em intervenções antecipativas" (ou preventivas) para
avançar os seus interesses de segurança nacional. Isto
não era mais do que uma declaração de guerra
perpétua, tornando claro que os Estados Unidos estavam dispostos a
brandir o seu poderio militar para expandir à vontade o seu
império, e portanto a sua posição geopolítica no
mundo. Nunca antes na história do mundo moderno uma nação
havia reclamado uma estratégia tão abrangente para a
dominação global a termo indefinido.
Ajudando a preparar o caminho para a reafirmação das
ambições imperiais dos EUA estava uma transformação
que teve lugar no balanço histórico dominante da Guerra do
Vietname. Interpretações conservadoras da guerra propostas pelos
líderes militares e comentadores da ala direita no início
escassamente levadas a sério na discussão pública
tornaram-se mais influentes e penetrantes à medida que as
memórias da guerra recuavam. No novo clima de fazer a América
erguer-se de novo direita", a derrota no Vietnam foi
progressivamente relegada para a clássica categoria
propagandística de traição", provocada neste
caso pela falta de lealdade dos media e por extremistas entre a
população civil.
[2]
O foco desta reinterpretação das ambições imperiais
dos EUA centrou-se no ponto de viragem da guerra, durante a ofensiva vietnamita
do Tet em 1968. O Tet, dizia-se agora, fora uma retumbante vitória das
forças americanas e do Vietnam do Sul, que dizimaram os seus atacantes
da Frente de Libertação Nacional. Porém, numa
traição" de primeira ordem, segundo nos dizem, foi
transformada em derrota pelos 'media' americanos e por uma minoria estridente
de protestátarios anti-guerra, o que teve o efeito de induzir Johnson a
desistir. Com efeito, a opinião do 'establishment' adoptou o mesmo
veredicto sobre a guerra apresentado antes pelo general William Westmoreland,
comandante das forças dos EUA no Vietnam, que em
A Soldier Reports
(1976) disse que a ofensiva do Tet representou uma derrota militar
marcante para o inimigo sob qualquer ponto de vista
Infelizmente, o
inimigo marcou nos Estados Unidos a vitória psicológica que lhe
fugiu no Vietnam, influenciando de tal modo o presidente Johnson e os seus
conselheiros civis que estes ignoraram a máxima de que quando o inimigo
nos está a magoar, não se diminui a pressão, mas sim
aumenta-se". Para Westmoreland, referindo-se à Guerra da Indochina
como um todo, a falta de determinação em manter o
rumo
demonstrou no Camboja, no Vietname do Sul e no Laos que a
alternativa à vitória foi a derrota."
Referências ao fracasso dos EUA em manter o rumo" tornaram-se
um tema principal dos balanços conservadores da guerra. Esta
expressão foi frequentemente empregue na própria guerra. Por
exemplo, o presidente Johnson usara-a em 1967 para transmitir a sua
resolução em continuar a guerra. Noutra instância,
Townsend Hoopes, o sub-secretário da Força Aérea havia
apresentado o secretário de Estado Clark Clifford em Fevereiro de 1968
uma estratégia para manter o rumo por um número adicional
de anos desgastantes" pela mera concentração no controle das
áreas populosas. Mas a frase tornou-se ainda mais importante mais
tarde, num slogan agressivo para explicar a derrota dos EUA. Isto aconteceu
depois de o notável jornalista Stewart Alsop recordar no seu memorial
Stay of Execution
(1973), que Winston Churchill havia declarado na sua presença: A
América é um grande e forte país, como um cavalo de
tracção puxando o resto do mundo do desalento e do desespero.
Mas será que vai manter o rumo?" Falcões do Vietname como o
senador democrata Henry M. Jackson viravam-se para a questão de
Churchill em todas as oportunidades insistindo que os Estados Unidos
haviam fracassado em manter o rumo no Vietnam e não deviam cometer
novamente esse erro.
[3]
Este entendimento da Guerra do Vietname por parte da extrema-direita e dos
militares tornou-se tão poderoso que é agora uma força a
considerar na actual guerra no Iraque. Por isso, quando o presidente George W.
Bush declarou com respeito ao Iraque, em Abril de 2004 que Temos que
manter o rumo e vamos manter o rumo", o seu oponente Democrata, senador
John Kerry corroborou dizendo de que os Estados Unidos deviam manter o
rumo" no Iraque e acrescentando que Os americanos divergem sobre se,
e como, deveríamos ter ido para a guerra. Mas seria agora
impensável para nós retirarmos em desordem e deixar para
trás uma sociedade afundada em disputas e dominada por radicais"
(Robert Scheer, Don't Stay the Course Senator", Salon.com,
28/Abr/2004; Evan Thomas, The Vietnamese Question", MSNBC.com, 19 de
Abril de 2004).
O CAMINHO PARA A RUÍNA NO IRAQUE
Esta insistência repetida em manter o rumo é às vezes
reduzida a uma mera vontade de permitir a continuidade do banho de sangue.
Segundo Max Boot, um membro sénior do prestigioso Council on Foreign
Relations, no seu
Savage Wars of Peace
(um título retirado do poema de Kipling
O fardo do homem branco (White Man's Burden):
"Qualquer nação empenhada numa política imperiali
sofrerá alguns dissabores. O exército britânico, no
decorrer de algumas guerras da rainha Vitória, sofreu grandes derrotas
com milhares de baixas na Primeira Guerra Afegã (1842) e na Guerra Zulu
(1879). Isto não ofuscou apreciavelmente a determinação
britânica de defender e expandir o império; tornou-os sedentos de
vingança. Se os americanos não conseguem adoptar uma atitude
igualmente cruel
(bloody-minded),
então não há razão para empreender uma
política imperial".
Mas a adopção de uma "atitude cruel" algo que
presentemente não falta em Washington não salvará
os Estados Unidos no Iraque. Apesar da muito proclamada
"vitória" em Faluja onde o nível de
destruição lançado contra uma cidade num país
já ocupado não tem provavelmente igual nos tempos modernos
os planeadores da guerra estão a fazer horas extraordinárias para
encontrar uma maneira de protelar uma derrota que parece cada vez mais
provável. A mais importante abordagem recente da guerra no Iraque a
partir de dentro do 'establishment' da segurança nacional veio de
Anthony H. Cordesman, há muito conselheiro para a segurança
nacional no Departamento de Defesa, especializado em assuntos do Médio
Oriente e da energia, que supervisionou a assessoria da Guerra do Yom Kippur
para o Departamento de Defesa em 1974. Cordesman é agora parceiro de
Alreigh A. Burke para a estratégia no Centro de Estudos Internacionais e
sobre Estratégia de Washington e é o analista de segurança
nacional da
ABC News.
No seu relatório
"Playing the Course:" A Strategy for Reshaping U.S. Policy in Iraq
and the Middle East"
(4.º versão, 22/Nov/2004, CSIS.org) Cordesman argumenta que os
Estados Unidos não devem "manter o rumo" se uma
estratégia pragmática para o êxito, que ele chama de
"cuidar do rumo"
(playing the course)
não funcionar. "Os EUA enfrentam demasiada raiva e ressentimento
iraquianos para tentar continuar em face de um fracasso claro, e conseguir
qualquer êxito estável em termos da aceitação
política iraquiana significa que os Estados Unidos devem procurar
retirar em larga escala durante os próximos dois anos".
Além disso, dado o grau do fracasso americano até agora, a
questão de uma derrota dos EUA no Iraque precisa ser considerada.
"As probabilidades de êxito duradouro dos EUA no Iraque,"
declara ele, "são na melhor das hipóteses de 50%, e podem
bem ser ainda piores. Os EUA podem quase com certeza ganhar qualquer batalha
ou confronto militar, mas é muito menos certo que ganhem a guerra
política e económica".
Cordesman acredita que os Estados Unidos podem apenas salvar-se de uma derrota
clara e da resultante perda de "face" no Iraque pela renúncia
simultânea a todos os objectivos imperiais. Tal como declarou numa
entrevista ao Council on Foreign Relations em Novembro passado: "Nunca
dissemos aos iraquianos que não íamos tomar o seu
petróleo, que não íamos roubar a sua economia, que
não íamos estabelecer bases militares, que partiríamos
quando um governo eleito nos pedisse. Nunca dissemos que aceitaríamos
qualquer governo eleito". Como escreve em
Playing the Course,
os Estados Unidos deviam abandonar "ostensivamente" os seguintes
objectivos: (1) usar "o Iraque como uma ferramenta ou alavanca para
modificar a região"; (2) usar o Iraque como "uma base militar
americana"; (3) interferir com "a independência do Iraque em
termos das suas políticas, economia e, sobretudo, petróleo";
e (4) bloquear a "transparência total" na
relação dos EUA com a economia iraquiana. As garantias dos EUA,
insiste ele, devem incluir o seu compromisso explícito de retirar
totalmente da Zona Verde de Bagdad, que não pode ser mantida como
quartel-general imperial num Iraque supostamente independente.
O Estados Unidos, aconselha Cordesman, deviam restringir os seus objectivos
à criação de um governo estável apoiado por uma
força militar iraquiana adequada ainda que o novo regime
político seja apenas moderadamente melhor que o de Saddam Hussein, e
ainda que abertamente antagonista em relação aos Estados Unidos.
Se Washington puder "ter êxito" mesmo a este nível, diz
ele, pode declarar "vitória" e sair dentro de dois anos com
danos mínimos à sua credibilidade como potência imperial.
Todavia, no caso de falhar na criação de uma
solução política estável ou na
criação de um exército iraquiano adequado dentro deste
período como agora parece mais provável os Estados
Unidos precisam imediatamente de começar a fazer planos quanto ao que
farão em caso de uma derrota clara. "Mesmo a 'vitória' no
Iraque", têm-nos dito, "será altamente relativa, e a
derrota," que pode ocorrer sob muitas formas, conforme o Iraque escape ao
controle, "forçará os EUA a reforçarem a sua
posição em toda a região."
Ainda mais importante que a formação de um regime estável,
do ponto de vista de Cordesman, está a substituição das
forças americanas por forças do Iraque. A
"iraquização" escreve ele, "ou se faz funcionar ou
tornar-se-á uma imagem espelhada do fiasco da
"vietnamização": as vitórias militares da
Coligação tornar-se-ão cada vez mais irrelevantes".
Depois de uma avaliação detalhada das forças e da
capacidade de treino iraquianas, ele conclui: "As forças militares
e de segurança do Iraque são de momento demasiado fracas para
empreender a missão de segurança, e vão quase de certeza
permanecer assim até aos finais de 2005. Os Estados Unidos só
podem 'cuidar do rumo' efectivamente se resolverem metas e planos com o governo
interino do Iraque, que vão muito para além dos 28 mil homens
[iraquianos] das forças armadas e o total aproximado de 40a 50
mil homens entre militares, paramilitares e Guarda Nacional que os EUA
dizem ser um 'requisito'".
A verdade é que a presença de 150 mil soldados americanos no
Iraque, que esticou as forças disponíveis dos EUA até ao
limite, não tem sido suficiente, mesmo com o suplemento de tropas da
Grã-Bretanha, para por o país de joelhos. "Os Estados
Unidos já aprenderam que conseguem ganhar virtualmente qualquer batalha
ou confronto militar directo mas não conseguem tornar o país
seguro
Como no Vietnam, se o governo interino do Iraque não
conseguir ganhar a batalha política, as vitórias dos EUA nas
batalhas militares tornam-se irrelevantes". Dada a barafunda
política no Iraque e a dificuldade na criação de qualquer
solução política, ou mesmo evitar a eclosão da
guerra civil, Cordesman acredita que os Estados Unidos precisam de
concentrar-se em como escorar a sua posição no resto do
Médio Oriente em caso de derrota:
Combater uma campanha de contra-insurgência é uma coisa; os
Estados Unidos não devem ficar se o Iraque degenerar numa guerra
civil
Ninguém pode garantir o êxito no Iraque; ou que o
Iraque não vai cair numa guerra civil, ficar sob a alçada de um
'homem forte' ou dividir-se ao longo de linhas étnicas ou
confessionais
Uma coisa é jogar o jogo, e outra bastante diferente
é tentar lidar com a derrota através do reforço do
fracasso ou da 'duplicação da aposta'. Se em 2006 for claro que
os EUA não conseguem ganhar com o seu actual nível de
esforço, e/ou a situação se deteriorar seriamente
até ao ponto em que fique claro não existir um novo governo do
Iraque e a correspondente força de segurança para o auxiliar, o
jogo terminou. Já não é mais tempo de desistir, é
tempo de fugir.
Se forçados "a fugir", afirma ele, os Estados Unidos
vão ter de oferecer novas garantias aos governantes dos "Estados
amigos do Golfo e a outros aliados árabes". Vão ter que
impedir qualquer expansão da jihad islâmica no Afeganistão
que resultar das declarações de "vitória"
islâmica no Iraque. Ao mesmo tempo, os EUA terão de impedir o
Irão de intervir no Iraque. Mais pressão do que nunca vai ser
aplicada sobre os Estados Unidos para resolver o problema Israel-Palestina.
Finalmente, a ameaça à posição estratégica
dos EUA no que respeita ao petróleo do Médio Oriente terá
que ser planeada, exigindo que os Estados Unidos não se retirem da
região e sim que intensifiquem o seu envolvimento.
Nenhuma dúvida resta, em
Playing the Course,
de que a principal questão para os Estados Unidos no Iraque, tal como
no Médio Oriente como um todo, é o petróleo. Ataques
continuados aos oleodutos por parte da resistência iraquiana têm
limitado o fluxo de petróleo proveniente do Iraque, minando um dos
principais objectivos dos EUA e realçando o fracasso geral americano.
Em caso de uma derrota clara e de uma retirada dos Estados Unidos do Iraque, a
situação em relação ao petróleo
tornar-se-á ainda mais crítica. "Os Estados Unidos",
escreve Cordesman, "podem e devem encontrar substitutos para o
petróleo, mas isso vai levar décadas. No presente, os EUA e a
economia global vão de facto ficar mais dependentes das
importações energéticas provenientes do Golfo". Nos
finais de 2025, só os países industrializados, de acordo com
estimativas da
US Energy Information Agency
(IEA) no seu
International Energy Outlook, 2004,
espera-se que aumentem as suas importações de petróleo
da OPEP em mais 11,5 milhões de barris por dia para além dos 16,1
milhões de barris por dia em 2001, com o Golfo Pérsico a fornecer
mais de metade do aumento adicional. Estima-se que as
importações norte-americanas do Golfo Pérsico dupliquem
nesse período. Entretanto, espera-se que a procura de petróleo
pela China e outros países em desenvolvimento aumente dramaticamente. A
importância estratégica do petróleo para a economia mundial
vai aumentar em concordância.
Para responder a esta exigência de produção adicional, a
EIA estima que mais 1,5 triliões de dólares terão que ser
investidos no Médio Oriente entre 2003 e 2030. O potencial a longo
prazo para investimento na expansão da produção no Iraque
é maior do que em qualquer outro lado, visto que muitos analistas e
institutos (por exemplo: Baker Institute, Center for Global Energy Studies,
Federation of American Scientists) acreditam que, além das suas reservas
comprovadas de 115 mil milhões de barris de petróleo, o Iraque
pode ter, nos 90% do seu território que permanece inexplorado, 100 mil
milhões ou mais de reservas de petróleo adicionais. (Estimativas
vindas de algumas agências, como o US Geological Survey, são menos
optimistas, com a média de reservas adicionais do Iraque a situar-se nos
45 mil milhões de barris.) De acordo com Cordesman, é o enorme
nível de investimento necessário para a expansão da
produção de petróleo no Médio Oriente, que deve
ocorrer a fim de assegurar fornecimentos adequados para o consumo futuro, que
é o mais urgente "problema prático" apresentado pelo
Golfo Pérsico do ponto de vista da economia global. Não
só tais investimentos devem ser feitos como têm depois de ser
protegidos. A este respeito, não será fácil aos Estados
Unidos retirarem-se completamente do Iraque, ou absterem-se de aumentar o seu
envolvimento no restante Médio Oriente se obrigados a deixar esse
país.
Relativamente à maioria das análises que emanam dos
círculos de segurança nacional nos Estados Unidos,
Playing the Course,
de Cordesman, tem a vantagem, pensamos, de ser forte quanto ao realismo.
É pois razoável perguntar se pode esperar-se que os poderes
vigentes nos EUA sigam a sua receita, começando por renunciar a todos os
objectivos imperiais no Iraque. Pensamos ser improvável que isto
aconteça. Permanece a frase operacional de "manter o rumo".
Em 30 de Março de 2004 o antigo secretário da Defesa sob as
administrações de Nixon e Ford, James Schlesinger e o antigo
embaixador dos EUA na Rússia e sub-secretário para os Assuntos
Políticos da administração Clinton, Thomas Pickering (os
dois partilharam a presidência da 'task force' do Council on Foreign
Relations que produziu o relatório
Iraq: One Year Later
), exprimiu num editorial do
Los Angeles Times
que o Iraque devia permanecer "acima da política" e que os
Estados Unidos deviam "manter o rumo". As razões que
apresentaram incluíam a prevenção da influência do
Irão sobre o Iraque; a garantia de "estabilidade a longo prazo na
produção e fornecimento de petróleo"; o bloqueio do
aparecimento de uma nova potência no Iraque em oposição aos
Estados Unidos; o evitar a percepção de uma derrota americana que
serviria para desestabilizar o poder americano e os seus interesses tanto no
Médio Oriente como a nível global. Resumindo, os objectivos
imperialistas para os quais os Estados Unidos intervieram na região
devem ser mantidos a todo o custo.
Nada proveniente de Washington nos dias que correm sugere que este ponto de
vista dominante se tenha alterado de qualquer forma. Apesar de ser bem
entendido para aqueles no topo da hierarquia social que uma série de
desastres pode muito bem estar à espera dos Estados Unidos no Iraque se
estes se limitarem às armas, não o fazer é visto como uma
garantia de um desastre ainda maior uma confissão de derrota que
irá diminuir a capacidade futura dos EUA de fazerem guerra à
vontade nas sociedades do Terceiro Mundo, e portanto de empregar a força
directa como um meio de promover os seus desígnios imperialistas.
Assim, na visão da classe dominante, mesmo um fracasso absoluto no
estabelecimento de um regime político estável e na força
militar requerida para o defender não significa necessariamente que os
Estados Unidos devam retirar. Thomas Friedman, o colunista de opinião e
editoriais do
New York Times
para os negócios estrangeiros, cujos pontos de vista podem ser
usualmente tomados como um bom barómetro da opinião do
'establishment', conclui um relatório sobre o Iraque, de 18 de Novembro
de 2004, com a afirmação "Sem um ambiente seguro no qual a
sua nova liderança possa ser eleita e operar confortavelmente, o Iraque
nunca será capaz de respirar por si próprio e as tropas dos EUA
terão que lá ficar para sempre". A atitude aqui é a
de que a ocupação americana precisaria de continuar
interminavelmente no caso de falha em atingir o objectivo de uma
situação política estável no Iraque
aceitável para os Estados Unidos. Dadas as enormes reservas de
petróleo iraquiano, Washington pode decidir que sejam quais forem os
custos a pagar no Iraque eles serão amplamente recompensados no final.
Se a leitura anterior da actual determinação americana em manter
o rumo estiver certa, então é provável que os fracassos a
serem experimentados pelo imperialismo americano no Iraque provavelmente
persistirão e serão ainda maiores. A presença
contínua de tropas dos EUA significará que os militares
americanos continuarão a cobrar o seu imposto sangrento (que já
desceu à tortura sistemática e à
reintrodução do 'napalm', ilegalizado pelas Nações
Unidas em 1980), e a oposição iraquiana aos
"libertadores" só poderá crescer. Entretanto, qualquer
governo iraquiano eleito sob estas circunstâncias terá que se opor
à ocupação americana ou perder qualquer pretensão
de legitimidade na sociedade iraquiana. Toda a invasão e
ocupação americana do Iraque pode estar a criar as
condições para a guerra civil, acendendo um rastilho de
pólvora sob todo o Médio Oriente. Para ter uma ideia de
quão sério isto pode ser basta olhar para o presente treino e
armamento das milícias curdas pelos israelenses, com o objectivo de as
lançar se a necessidade surgir contra as forças
xiitas e sunitas no Iraque. A posse por parte de Israel de centenas de armas
nucleares coloca a ameaça contínua da "opção
Sansão", se o governo desse país considerar-se, ou à
sua ocupação da Palestina, como seriamente ameaçado.
[4]
Uma especulação mais vasta neste momento seria temerária.
Mas não restam dúvidas de que, ao invadir o Iraque, os Estados
Unidos abriram as portas do Inferno não apenas para os iraquianos e o
Médio Oriente como um todo como também para a sua própria
ordem imperialista global. As plenas repercussões do fracasso do
Império Americano estão ainda para ser vistas e só se
tornarão evidentes nos meses e anos vindouros.
__________
Notas
[1] Michael Klare, "The New Geopolitics," na edição de
John Bellamy Foster e Robert W. McChesney
Pax Americana
(Nova Iorque: Monthly Review Press, 2004), pp. 51-56.
[2] Para uma crítica desta nova história conservadora/militar da
guerra consultar
Masters of War: Military Dissent and Politics in the Vietnam Era,
de Robert Buzanco (Cambridge University Press, 1966)
[3]
The Pentagon Papers,
vol. 4 (edição Gravel) (Boston: Beacon Press), p. 668; Noam
Chomsky, "Foreward" na edição de Peter Limqueco e Peter
Weiss,
Prevent the Crime of Silence: Reports from the Sessions of the International
War Crimes Tribunal founded by Bertrand Russel
(Londres: Penguin, 1971), p. 19; edição de Dorothy Fosdick de
Staying the Course: Henry M. Jackson and National Security
(Seattle: University of Washington Press, 1987), p. 190.
[4] Seymour M. Hersh,
Chain of Command: The Road from 9/11 to Abu Ghraib
(Nova Iorque: HarperCollins, 2004), pp. 356-360, e
The Samson Option: Israel's Nuclear Arsenal and American Foreign Policy
(Nova Iorque: Random House, 1991)
O original encontra-se em
http://www.monthlyreview.org/0105editors.htm
Tradução de Alexandre Plácido.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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