O neoliberalismo como prática de classe
Uma das imagens de marca dos nossos tempos é o domínio do
neoliberalismo nos principais fóruns económicos, políticos
e sociais dos países capitalistas desenvolvidos e nas agências
internacionais que estes influenciam incluindo o FMI, o Banco Mundial, a
OMC e as agências técnicas das Nações Unidas, como a
Organização Mundial de Saúde, e a Agência para a
Agricultura e Alimentação e a UNICEF. Começando nos
Estados Unidos, durante a administração Carter, o neoliberalismo
expandiu a sua influência através da administração
Reagan e, no Reino Unido, através da administração
Tatcher, para se tornar uma ideologia internacional. O neoliberalismo agarra-se
a uma teoria (embora não necessariamente a uma prática) que
defende o seguinte:
1. O Estado (ou o que é erradamente referido como "o governo",
no discurso popular) precisa de reduzir a sua intervenção nas
actividades económicas e sociais.
2. Os mercados financeiros e laborais devem ser desregulamentados para libertar
a enorme energia criativa dos mercados.
3. O comércio e os investimentos devem ser estimulados pela
eliminação de fronteiras e barreiras, para permitir a total
mobilidade do trabalho, capital, bens e serviços.
Seguindo estes três princípios, de acordo com os autores
neoliberais, vemos que a implementação mundializada destas
práticas levou ao desenvolvimento de um "novo" processo: uma
globalização da actividade económica que gerou um
período de enorme crescimento económico, a nível mundial,
associado a uma nova era de progresso social. Pela primeira vez na
história, dizem-nos, vemos uma economia mundial, em que os Estados
perdem poder e estão a ser substituídos por um mercado mundial,
centrado nas empresas multinacionais, que são as principais unidades de
actividade económica no mundo, hoje em dia.
Esta celebração do processo de globalização
também é evidente entre alguns sectores da esquerda. Michael
Hardt e António Negri, no seu vastamente citado
Empire
(Harvard University Press, 2000), comemoram a grande criatividade do que
consideram ser uma nova era de capitalismo. Este novo período, afirmam,
rompe com estruturas estatais obsoletas e estabelece uma nova ordem
internacional, que definem como uma ordem imperialista. Mais, postulam que esta
nova ordem é mantida sem que nenhum Estado seja dominante ou
hegemónico. Assim, escrevem:
Queremos enfatizar que o estabelecimento do império é um passo
positivo rumo à eliminação de actividades
nostálgicas, baseadas nas antigas estruturas de poder; rejeitamos todas
as estratégias políticas que querem fazer-nos regressar a
situações passadas, como a ressurreição do
Estado-nação, para proteger a população do capital
global. Cremos que a nova ordem imperialista é melhor do que o sistema
anterior, da mesma maneira que Marx acreditava que o capitalismo era um modo de
produção e um tipo de sociedade superior ao modo que
substituíra. Este ponto de vista defendido por Marx era baseado num
saudável desprezo pelo localismo paroquial e pelas rígidas
hierarquias que precederam a sociedade capitalista, bem como no reconhecimento
do enorme potencial libertador do capitalismo. (39)
A globalização (i.e., a internacionalização da
actividade económica de acordo com os princípios neoliberais)
torna-se, de acordo com a posição de Hardt e de Negri, um sistema
internacional que está a estimular uma actividade a nível
mundial, que opera sem que qualquer Estado ou Estados a liderem ou organizem.
Uma tal visão de admiração e elogio à
globalização e ao neoliberalismo explica as críticas
positivas que
Empire
recebeu de Emily Eakin, uma crítica de livros do
New York Times,
e de outros críticos convencionais, que não são
conhecidos por críticas amistosas a livros que afirmem derivar a sua
posição teórica do marxismo. Aliás, Eakin descreve
Empire,
como o quadro teórico que o mundo precisa para entender a sua
realidade.
Hardt e Negri aplaudem, juntamente com os autores neoliberais, a
expansão da globalização. Outros autores de esquerda,
contudo, lamentam em vez de celebrar esta expansão, considerando a
globalização como a causa das crescentes desigualdades e pobreza
do mundo. É importante sublinhar que embora os autores deste
último grupo que inclui, por exemplo Susan George e Eric Hobsbawm
lamentem a globalização e critiquem o pensamento
neoliberal, ainda partilham com os autores neoliberais a
concepção básica do neoliberalismo: que os Estados
estão a perder poder numa ordem internacional em que o poder das
multinacionais substituiu o dos Estados.
A contradição entre teoria e prática no neoliberalismo
Vamos esclarecer desde já que a teoria neoliberal é uma coisa e a
prática neoliberal é outra, completamente diferente. A maior parte
dos membros da Organização para a Cooperação e o
Desenvolvimento Económico (OCDE) incluindo o governo federal dos
Estados Unidos têm visto a intervenção estatal e a
despesa pública aumentar ao longo dos últimos trinta anos. A
minha área de formação é em políticas
públicas e eu estudo a natureza da intervenção estatal em
muitas partes do mundo. Posso testemunhar o crescimento da
intervenção estatal na maior parte dos países do mundo
capitalista desenvolvido. Mesmo nos Estados Unidos, o neoliberalismo do
presidente Reagan não se traduziu na redução do sector
público federal. Ao contrário, a despesa pública cresceu,
durante o seu mandato, de 21,6 para 23 por cento do PIB, como
consequência do crescimento espectacular das despesas militares de 4,9
para 6,1 por cento do PIB (
Congressional Budget Office National Accounts
2003). Este crescimento das despesas públicas foi financiado com o
aumento do défice federal (criando uma dívida estatal esmagadora)
e com o aumento de impostos. Apesar de supostamente ser um presidente
anti-impostos, Reagan, de facto, aumentou os impostos a mais gente (em tempo de
paz) do que qualquer outro presidente na história dos Estados Unidos. E
aumentou os impostos não uma, mas duas vezes (em 1982 e 1983). Numa
demonstração de poder de classe, reduziu drasticamente os
impostos aos 20 por cento da população com maiores rendimentos,
enquanto os aumentava para a maioria da população.
Não é correcto, por isso, dizer-se que Reagan reduziu o papel do
Estado nos EUA ao reduzir a dimensão do sector público e ao
baixar os impostos. O que Reagan (como Carter antes dele) fez foi mudar
dramaticamente a natureza da intervenção estatal, para que
beneficiasse ainda mais as classes elevadas e os grupos económicos (como
as empresas relacionadas com o ramo militar) que lhe financiavam as campanhas
eleitorais. As políticas de Reagan eram, de facto, políticas de
classe que prejudicaram a maioria da classe operária do país.
Reagan era profundamente anti-trabalhadores, fazendo cortes nas despesas
sociais a um nível sem precedentes. Vale a pena repetir que as
políticas de Reagan não eram neoliberais: eram keynesianas,
baseadas numa grande despesa pública e em grandes défices
federais. Além disto, o governo federal interveio muito activamente no
desenvolvimento industrial nacional (essencialmente, mas não
exclusivamente através do Departamento da Defesa). Como Casper
Weinberger, secretário da Defesa na administração Reagan,
afirmou uma vez (em resposta às críticas dos Democratas de que a
administração havia abandonado o sector manufactureiro), "A
nossa administração é a que tem a mais avançada e
extensiva política industrial no mundo ocidental" (
Washington Post,
13 de Julho de 1983). Ele estava certo. Mais nenhum governo ocidental tinha
uma política industrial tão extensiva. De facto, o Estado federal
dos EUA é um dos mais intervencionistas do mundo ocidental.
Há provas científicas muito sólidas de que os EUA
não são uma sociedade neoliberal (como estão
constantemente a ser definidos) e que o Estado americano não está
a reduzir o seu papel chave no desenvolvimento da economia nacional, inclusive
na produção e distribuição de bens e
serviços por grandes empresas americanas. Esta evidência
empírica mostra que o intervencionismo do governo federal (na esfera
económica, política, cultural e de segurança) aumentou ao
longo dos últimos 30 anos. Na esfera económica, por exemplo, o
proteccionismo não diminuiu. Cresceu, com subsídios mais altos ao
sector agrícola, militar, aeroespacial e biomédico. Na
área social, as intervenções do Estado para enfraquecer
direitos sociais (e muito especialmente direitos laborais) aumentaram
enormemente (não apenas com Reagan, mas também com Bush
Sénior, Clinton e Bush Júnior), e a vigilância sobre a
cidadania cresceu exponencialmente. Mais uma vez, não houve
diminuição do intervencionismo federal nos Estados Unidos, mas um
carácter de classe ainda mais enviezado nessa intervenção,
nos últimos 30 anos.
Os contos neoliberais sobre o declínio do papel do Estado na vida das
pessoas são facilmente desmentidos pelos factos. De facto, como afirmou
certa vez John Williamson, um dos arquitectos intelectuais do neoliberalismo,
"temos de reconhecer que aquilo que o governo dos Estados Unidos promove
no estrangeiro, o governo dos Estados Unidos não segue
internamente", acrescentando que "o governo americano promove
políticas que não são seguidas nos Estados Unidos"
("What Washington Means by the Policy Reform," em J. Williamson, ed.,
Latin America Adjustement,
1990, 213). Não poderia ter sido melhor dito. Por outras palavras, se
quiser entender as políticas públicas dos Estados Unidos, olhe
para o que o governo americano faz, não para o que diz. Esta mesma
situação ocorre na maioria dos países capitalistas
desenvolvidos. Os seus Estados tornaram-se mais, não menos,
intervencionistas. A dimensão do Estado (medida pela despesa
pública per capita) aumentou na maior parte destes países. Mais
uma vez, a informação empírica sobre este ponto é
forte. O que tem vindo a suceder não é uma redução
do Estado, mas antes uma mudança na natureza da
intervenção estatal reforçando o seu
carácter de classe.
Deterioração da situação económica e social
mundial
Contrariamente ao dogma neoliberal, as políticas públicas
neoliberais tem sido notavelmente mal sucedidas em atingir os seus objectivos
declarados: eficiência económica e bem-estar social.
Tabela 1 Crescimento económico 1960-2000
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1960-1980
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1980-2000
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Taxa de crescimento económico nos países em desenvolvimento
(excepto China):
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Crescimento económico anual
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5.5%
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2.6%
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Crescimento económico anual per capita
|
3.2%
|
0.7%
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Taxa de crescimento económico na China:
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Crescimento económico anual
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4.5%
|
9.8%
|
|
Crescimento económico anual per capita
|
2.5%
|
8.4%
|
Fontes: Banco Mundial,
World Development Indicators,
2001 CD-ROM; Robert Pollin,
Contours of Descent
(Verso, 2003) 131.
Se compararmos o período de 1980-2000 (quando o neoliberalismo atingiu a
sua máxima expressão) com o período imediatamente
precedente, 1960-1980, podemos facilmente ver como 1980-2000 foi muito menos
bem sucedido que 1960-1980 na maior parte dos países capitalistas
desenvolvidos e em desenvolvimento. Como mostra a tabela 1, a taxa de
crescimento e a taxa de crescimento per capita em todos os países em
desenvolvimento (excepto a China) foram muito mais altas entre 1960-1980 (5,5 e
3,2 por cento) do que entre 1980-2000 (2,6 e 0,7 por cento). Mark Weisbrot,
Dean Baker e David Rosnick documentaram que a melhoria da qualidade de vida e
os indicadores de bem-estar (mortalidade infantil, taxa de
escolarização, esperança de vida e outros) aumentaram mais
entre 1960-1980 do que entre 1980-2000 (quando comparando países ao
mesmo nível de desenvolvimento no ano inicial de cada período
The Scorecard on Development,
Center for Economic and Policy Research, September 2005). E, como mostra a
tabela 2, a taxa de crescimento económico anual per capita nos
países capitalistas desenvolvidos foi mais baixa entre 1981-99 do que
entre 1961-80.
Tabela 2
A. Taxa média anual de crescimento económico per capita
nos países da OCDE e em desenvolvimento
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1961-1980
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1981-1999
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(A) Países OCDE
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3,5%
|
2,0%
|
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(B) Países em desenvolvimento (excepto China)
|
3,2%
|
0,7%
|
|
Diferencial de crescimento (A/B)
|
0,3%
|
1,3%
|
B. Crescimento das desigualdades de rendimento mundiais, 1980-1998 (excluindo a
China)
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Rendimento dos 50% mais ricos em proporção ao rendimento dos 50 %
mais pobres
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4x mais desigual
|
|
Rendimento dos 20% mais ricos em proporção ao rendimento dos 20 %
mais pobres
|
8x mais desigual
|
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Rendimento dos 10% mais ricos em proporção ao rendimento dos 10 %
mais pobres
|
19x mais desigual
|
|
Rendimento dos 1% mais ricos em proporção ao rendimento dos 1 %
mais pobres
|
77x mais desigual
|
Fontes: Banco Mundial,
World Bank, World Development Indicators, 2001; Robert Sutcliffe, A More or
Less Unequal World? (Political Economy Research Institute, 2003); Robert
Pollin, Contours of Descent (Verso, 2003), 133.
Mas, é também importante sublinhar que, devido ao maior
crescimento económico anual per capita nos países da OCDE em
relação aos países em desenvolvimento (excepto a China), a
diferença entre as suas taxas de crescimento per capita tem vindo a
aumentar dramaticamente (tabela 2). Isto significa, em termos práticos,
que as desigualdades de rendimento entre estes dois tipos de países
cresceram de forma espectacular e, particularmente, entre os extremos (ver
tabela 2). Mas, o mais importante, as desigualdades têm aumentado
dramaticamente, não apenas entre países, mas dentro dos
países, tanto nos desenvolvidos como nos países em
desenvolvimento. Somando os dois tipos de desigualdades (entre e dentro dos
países), descobrimos, como Branco Milanovic documentou, que os 1% mais
ricos da população mundial recebem 57% do rendimento mundial, e a
diferença de rendimento entre os que estão no topo e os que
estão no fundo aumentou de 78 para 114 vezes. (
Worlds Apart,
Princeton University Press).
Deve ser enfatizado que, embora a pobreza tenha aumentado a nível
mundial e nos países que seguem políticas neoliberais, isto
não significa que os ricos, em cada país (incluindo nos
países em desenvolvimento), tenham sido afectados negativamente. Ao
contrário, os ricos viram o seu rendimento e a sua distância dos
não-ricos aumentar substancialmente. As desigualdades de classe
aumentaram grandemente na maior parte dos países capitalistas.
O neoliberalismo como prática de classe: As raízes das
desigualdades
Assim, em cada um destes países, o rendimento dos que estão no
topo aumentou espectacularmente como resultado das intervenções
estatais. Consequentemente, temos de nos voltar para algumas das categorias e
conceitos descartados por grandes sectores da esquerda: estrutura de classe,
poder de classe, luta de classes e o seu impacto sobre o Estado. Estes
conceitos científicos continuam a ser de uma importância chave
para a compreensão do que se passa em cada país. Deixem-me
clarificar que um conceito científico pode ser muito antigo sem ser
antiquado. "Antigo" e "antiquado" são dois conceitos
diferentes. A lei da gravidade é muito antiga mas não é
antiquada. Quem duvidar disto pode testá-lo saltando do décimo
andar. Existe o risco de que alguns sectores da esquerda venham a pagar o
mesmo preço suicida por ignorarem conceitos científicos como
classe e luta de classes, simplesmente por que estes são conceitos
antigos. Não conseguimos entender o mundo (do Iraque à
rejeição da Constituição Europeia) sem reconhecer a
existência de classes e de alianças de classe, estabelecidas em
todo o mundo, entre as classes dominantes do mundo capitalista desenvolvido e
as do mundo capitalista em desenvolvimento.
O neoliberalismo é a ideologia e a prática das classes dominantes
tanto do mundo desenvolvido como do mundo em vias de desenvolvimento.
Mas antes de saltarmos para a frente, comecemos com a situação em
cada país. A ideologia neoliberal foi a resposta das classes dominantes
aos ganhos substanciais conquistados pelas classes operária e camponesa,
entre o fim da Segunda Guerra Mundial e meados da década de 70. O enorme
aumento das desigualdades que tem ocorrido desde então é o
resultado directo do crescimento do rendimento das classes dominantes, que
é uma consequência das políticas públicas de classe,
como:
(a) desregulamentação dos mercados laborais, um movimento contra
a classe operária;
(b) desregulamentação dos mercados financeiros, o que beneficiou
grandemente o capital financeiro, o ramo hegemónico do capital no
período 1980-2005;
(c) desregulamentação do comércio de bens e
serviços, o que beneficiou a população com elevada
capacidade de consumo, em prejuízo dos trabalhadores;
(d) redução das despesas públicas sociais, atingindo a
classe operária;
(e) privatização de serviços que beneficiou os 20% mais
ricos da população, à custa do bem-estar das classes
trabalhadoras que dependem dos serviços públicos;
(f) promoção do individualismo e do consumismo, prejudicando a
cultura da solidariedade;
(g) desenvolvimento de uma retórica e de um discurso teórico que
presta homenagem aos mercados, mas oculta uma aliança clara entre as
transnacionais e o Estado em que estão baseadas;
(h) promoção de um discurso anti-intervencionista em claro
conflito com o real aumento da intervenção estatal para promover
os interesses das classes dominantes e das unidades económicas as
transnacionais que acolhem esses interesses.
Cada uma destas políticas públicas de classe exige uma
acção ou intervenção estatal que entra em conflito
com os interesses dos trabalhadores e outras classes populares.
O conflito primário no mundo hoje: Não entre o Norte e o Sul mas
sim entre uma aliança das classes dominantes do Norte e do Sul contra as
classes dominadas do Norte e do Sul
Tornou-se parte da sabedoria convencional que o conflito primário no
mundo é entre o Norte rico e o Sul pobre. O Norte e o Sul, no entanto,
têm classes com interesses antagónicos, que estabeleceram
alianças a nível internacional. Esta situação
tornou-se clara para mim quando fui conselheiro do presidente Allende, no
Chile. O golpe fascista liderado pelo general Pinochet não era, como
foi amplamente relatado, um golpe imposto pelo Norte rico (os Estados Unidos)
sobre o Sul pobre (Chile). Os que impuseram brutalmente o regime de Pinochet
foram as classes dominantes do Chile (a burguesia, a pequena-burguesia e as
classes médias-altas profissionais), com o apoio não dos Estados
Unidos (a sociedade americana não era um agregado de 240
milhões de imperialistas!) mas sim da administração Nixon,
que era, na altura, muito impopular nos Estados Unidos (tendo enviado o
exército para sufocar a greve dos mineiros de carvão em
Appalachia).
A falta de consciência da existência de classes leva muitas vezes
à condenação de um país inteiro, frequentemente os
Estados Unidos. Mas de facto, a classe operária dos Estados Unidos
é uma das primeiras vítimas do imperialismo dos Estados Unidos.
Alguns dizem que a classe operária americana beneficia do imperialismo.
A gasolina, por exemplo, é relativamente barata nos Estados Unidos
(embora cada vez menos). Custa-me trinta e cinco dólares atestar o meu
carro nos Estados Unidos e cinquenta e dois euros para atestar o mesmo modelo
na Europa. Mas, em contraste, o transporte público é praticamente
inexistente em muitas regiões dos Estados Unidos. A classe
operária de Baltimore, por exemplo, beneficiaria mais com transportes
públicos de primeira classe (que não tem) do que em ter de
depender dos carros, qualquer que seja o preço da gasolina. E não
vamos esquecer que os interesses das indústrias da energia e do
automóvel têm sido os agentes principais de oposição
e destruição do transporte público nos Estados Unidos. A
classe operária dos Estados Unidos é uma vítima do sistema
capitalista e imperialista do seu país. Não é por acaso
que mais nenhum país no mundo capitalista desenvolvido tem um Estado
providência
(welfare state)
tão subdesenvolvido como os Estados Unidos. Mais de 100 mil pessoas
morrem nos Estados Unidos todos os anos devido à falta de cuidados de
saúde públicos.
A tendência para olhar para a distribuição de poder pelo
mundo enquanto se ignora o poder de classe em cada país é
também evidente nas frequentes denúncias que as
organizações internacionais são dominadas pelos
países ricos. É frequentemente apontado o facto, por exemplo, de
que 10 por cento da população mundial, vivendo nos países
ricos, tem 43 por cento dos votos no FMI, mas não é verdade que
10 por cento da população vivendo nos chamados países
ricos controle o FMI. São as classes dominantes desses países que
dominam o FMI, desenvolvendo políticas públicas que prejudicam as
classes dominadas do seu próprio país, tal como as de outros
países. O director do FMI, por exemplo, é Rodrigo Rato, que
enquanto foi ministro da Economia de Espanha no governo de ultra-direita de
José María Aznar (que se associou com Bush e Blair para apoiar a
guerra no Iraque) levou por diante políticas brutais de austeridade que
reduziram severamente o nível de vida das classes populares espanholas
(Vicente Navarro, Quem é Rodrigo Rato?, em
http://resistir.info/espanha/rodrigo_rato.html
).
Deixem-me também clarificar outra questão. Muito se escreveu
acerca do conflito na OMC entre países ricos e pobres. Os governos dos
países ricos, diz-se, subsidiam pesadamente a sua agricultura enquanto
levantam barreiras protectoras para as indústrias, como as têxteis
e alimentares, que são vulneráveis aos produtos vindos dos
países pobres. Embora estes obstáculos ao comércio mundial
de facto afectem adversamente os países pobres, é errado
assumir-se que a solução é um comércio mundial mais
livre. Mesmo sem barreiras, a produtividade mais elevada dos países
ricos garantiria o seu êxito no comércio mundial. O que os
países pobres precisam de fazer é mudar de economias viradas para
a exportação (a raiz dos seus problemas) para um crescimento
orientado para o mercado interno uma estratégia que exigiria uma
grande redistribuição do rendimento e é, por isso,
recusada pelas classes dominantes desses países (e dos países
ricos). É extremamente importante compreender que a maior parte dos
países já possui os recursos (incluindo o capital) para romper
com o seu subdesenvolvimento. Deixem-me citar uma fonte improvável. O
New York Times,
a 12 de Setembro de 1992 (numa altura em que a explosão populacional
era considerada a causa da pobreza mundial), publicou uma
avaliação surpreendentemente cândida da
situação no Bangladesh, o país mais pobre do mundo. Neste
extenso artigo, Ann Crittenden tocou directamente na raiz do problema: os
padrões de propriedade do meio de produção a terra:
A raiz da persistente má nutrição no meio de relativa
abundância é a desigual distribuição da terra no
Bangladesh. Poucas pessoas são ricas pelos padrões ocidentais,
mas sérias desigualdades existem, de facto, e reflectem-se numa
distribuição da propriedade da terra altamente desequilibrada. Os
16% mais ricos da população rural controlam dois terços da
terra e 60% da população tem propriedades de menos de um acre
[4047 m
2
].
Crittenden não tem esperança que a solução seja
tecnológica. Ao contrário, a tecnologia pode piorar as coisas:
As novas tecnologias agrícolas que estão a ser introduzidas
tendem a favorecer grandes os grandes agricultores, colocando-os numa melhor
posição para comprarem a propriedade dos seus vizinhos menos
afortunados.
Porque é que esta situação persiste? A resposta é
clara.
No entanto, com o governo dominado por proprietários cerca de 75%
dos membros do Parlamento possuem terra ninguém prevê apoio
oficial para mudanças fundamentais no sistema.
Permitam-me acrescentar que na classificação dos regimes
políticos do Departamento de Estado dos Estados Unidos, o Bangladesh
está colocado na coluna democrática. Entretanto, fome e peso a
menos são a principal causa de mortalidade infantil no Bangladesh. A
cara faminta duma criança no Bangladesh tornou-se o poster mais
utilizado por muitas organizações caritativas para envergonhar as
pessoas nos países desenvolvidos a fim de enviarem dinheiro e ajuda
alimentar para o Bangladesh. Com que resultados?
Funcionários da ajuda alimentar no Bangladesh confessam em privado que
apenas uma fracção dos milhões de toneladas de ajuda
alimentar enviadas para o Bangladesh chegaram aos pobres e famintos nas
aldeias. A comida é dada ao Governo, que por sua vez a vende a
preços subsidiados aos militares, à polícia e aos
habitantes de classe média das cidades.
A estrutura de classe do Bangladesh e as relações de propriedade
que a determinam são as causas da enorme pobreza. Como conclui Ann
Crittenden:
O Bangladesh tem terra suficiente para fornecer uma dieta apropriada para cada
homem, mulher e criança do país. O potencial agrícola
desta terra verdejante é tal que mesmo o inevitável crescimento
populacional dos próximos 20 anos pode facilmente ser alimentado com os
recursos apenas do Bangladesh.
Recentemente, o Bangladesh tem sido muito noticiado por ter tido um alto
crescimento económico devido em primeiro lugar às suas
exportações no mercado mundial. Mas esse crescimento foi limitado
a um pequeno sector da economia, orientado para a exportação,
deixando intocada a maioria da população. A má
nutrição e a fome, entretanto, aumentaram.
Os Estados e as alianças de classe
No estabelecimento de alianças de classe, os Estados têm um papel
chave. A política externa dos Estados Unidos, por exemplo, está
orientada para o apoio às classes dominantes do Sul (onde, a
propósito, vivem 20% das pessoas mais ricas do mundo). Estas
alianças incluem, muitas vezes, laços pessoais entre os membros
das classes dominantes. Os exemplos são múltiplos entre
eles, o tradicional apoio da família Bush aos regimes feudais do
Médio Oriente; o apoio de Clinton aos Emiratos Árabes Unidos
(EAU), um dos maiores apoiantes da Biblioteca Clinton em Little Rock, Arkansas,
e um dos grandes doadores a Clinton em pagamentos por conferências (cerca
de um milhão de dólares) e a causas que favorecem Clinton (
Financial Times,
4 de Março de 2006). Os EAU são um dos regimes mais opressivos
e brutais do mundo. As classes dominantes negam a cidadania a 85 por cento da
população activa (chamados "trabalhadores convidados").
É desnecessário dizer, as agências internacionais
(altamente influenciadas pelos Estados Unidos e governos europeus) promovem
estas alianças baseadas na retórica neoliberal dos mercados
livres. Os cortes nas despesas públicas sociais, defendidos pelo FMI e
pelo Banco Mundial, são parte das políticas públicas
impulsionadas pelas classes dominantes, tanto do Norte como do Sul, à
custa do bem-estar e qualidade de vida das classes dominadas em todo o mundo.
Em todos estes exemplos, os Estados do Norte e do Sul têm um papel
fundamental.
Outro exemplo de alianças entre classes dominantes é a actual
promoção dos seguros de saúde de
capitalização pela administração Bush, quer para a
população dos Estados Unidos quer, cada vez mais, para o mundo em
desenvolvimento. Isto é feito com o conselho e colaboração
de governos conservadores da América Latina, em nome das suas classes
dominantes, que beneficiam dos sistemas de seguros privados que seleccionam os
seus clientes e excluem as classes populares. Essas classes populares, nos
Estados Unidos e na América Latina, detestam profundamente esta
imposição dos seguros de saúde de
capitalização (o filme
John Q
relata a hostilidade contra as empresas de seguros de saúde entre a
classe operária dos Estados Unidos). O facto de que as classes
dominantes nos países desenvolvidos e em desenvolvimento partilham
interesses de classe não significa que estejam de acordo em tudo. Claro
que não. Têm grandes desacordos e conflitos (da mesma maneira que
há desacordos e conflitos entre os diferentes componentes das classes
dominantes em cada país). Mas estes desacordos não conseguem
esconder a comunidade dos seus interesses, como é claramente exposta em
fóruns neoliberais (como Davos) e aparelhos neoliberais que têm
uma posição hegemónica (como
The Economist
e o
Financial Times
).
Existirá um Estado dominante no mundo hoje em dia?
Mais do que globalização, o que vemos no mundo hoje em dia
é a
regionalização
das actividades económicas em torno de um Estado dominante: a
América do Norte em torno dos Estados Unidos, a Europa em torno da
Alemanha, e a Ásia em torno do Japão e em breve da China.
Há, assim, uma hierarquia de Estados em cada região. Na Europa,
por exemplo, o Estado espanhol está a tornar-se dependente das
políticas públicas da União Europeia, nas quais predomina
o Estado alemão. Esta dependência cria uma situação
ambivalente. Por um lado, os Estados da UE decidem delegar as principais
políticas (como as políticas monetárias) a uma
instituição mais elevada (o Banco Central Europeu, que é
dominado pelo Banco Central Alemão). Mas isto não significa
necessariamente que o Estado espanhol perca poder. "Perder poder"
significa que se tinha mais poder antes, o que não é
necessariamente o caso. A Espanha, por exemplo, é mais poderosa com o
Euro como moeda do que era com a peseta. De facto, o primeiro-ministro
espanhol Jose Luís Rodriguez Zapatero teria pago um preço muito
alto no seu confronto com Bush (ao retirar as tropas espanholas do Iraque) se a
Espanha ainda tivesse a peseta como moeda nacional. Partilhar a soberania pode
aumentar o poder. Por outro lado, o governo europeu é frequentemente
utilizado pelas classes dominantes como justificação para as
políticas impopulares que elas querem implementar (como a
redução da despesa pública como consequência do
Pacto de Estabilidade Europeu, que obriga os países a manterem um
défice orçamental abaixo dos 3 por cento do PIB); estas
políticas são apresentadas como decorrentes da
legislação europeia e não de algum dos Estados membros,
diluindo assim a responsabilidade de cada governo. As alianças de classe
ao nível europeu manifestam-se através do funcionamento das
instituições da UE empenhadas na ideologia e políticas
neoliberais. O voto "não" à proposta de
Constituição Europeia foi a resposta das classes trabalhadoras de
alguns Estados membros às instituições europeias, que
funcionam como alianças para as classes dominantes europeias.
Na hierarquia dos Estados, alguns são dominantes. O Estado americano tem
uma posição dominante que é mantida através de um
conjunto de alianças com as classes dominantes de outros Estados. A
ideologia neoliberal fornece a ligação entre estas classes.
Desnecessário dizer, há conflitos e tensões entre elas.
Mas estas tensões não conseguem sobrepor-se à comunidade
dos seus interesses de classe. Entre as práticas que os unem
estão as políticas agressivas contra a classe operária e
instituições de esquerda. O período de 1985-2005
caracterizou-se por campanhas agressivas contra os partidos de esquerda que
tinham tido sucesso no período de 1960-1980. Durante o período
neoliberal, a aliança das classes dominantes havia promovido movimentos
religiosos inter-classistas que usaram a religião como
motivação para travar o socialismo ou comunismo. Foi a
administração Carter que começou a apoiar os
fundamentalistas religiosos no Afeganistão contra o governo conduzido
pelos comunistas. Do Afeganistão ao Iraque, Irão,
territórios palestinos, e muitos países árabes, as classes
dominantes dos Estados Unidos e da Europa, através dos seus governos,
financiaram e apoiaram os fundamentalistas religiosos frequentemente
não apenas estranhos aos seus interesses de classe, mas estranhos
à sua própria religiosidade. Era suposto a "maioria
moral" nos Estados Unidos tornar-se a maioria moral em todo o mundo. Estes
movimentos fundamentalistas, profundamente anti-esquerda, desenvolveram a sua
própria dinâmica, utilizando as enormes frustrações
das massas árabes em relação aos seus regimes opressivos e
feudais, para facilitar a conquista do Estado e a instalação de
regimes de igualmente opressivas teocracias religiosas, como sucedeu em muitos
países árabes.
Mas é errado ver o apoio das classes dominantes aos regimes feudais
apenas como um produto da Guerra Fria. Foi muito mais do que isso. Foi uma
resposta de classe. A melhor prova disto é que o apoio continuou mesmo
depois do colapso da União Soviética. A Guerra Fria era uma
desculpa para continuar a luta de classes a nível mundial como
prova a sua continuação. A guerra de classe tornou-se, de facto,
um componente extremamente activo do intervencionismo dos Estados Unidos. Foi a
"terapia de choque" defendida por Lawrence Summers e Jeffrey Sachs na
Rússia durante a administração Clinton, que levou à
redução da esperança de vida na Rússia, uma
consequência do dramático declínio no nível de vida
das classes populares russas. O aumento da privatização de
importante património público era parte dessa guerra de classe na
Rússia como tem sido no Iraque.
O chefe da ocupação do Iraque pelos Estados Unidos, Paul Bremer,
despediu meio milhão de trabalhadores governamentais, reduziu os
impostos às empresas, deu aos investidores novos e
extraordinários direitos, e eliminou todas as restrições
às importações em todos os sectores, excepto no sector
petrolífero. Como Jeff Faux relata em
The Global Class War
(Wiley, 2006), as únicas leis da brutal ditadura iraquiana que a
ocupação reteve foram as que eram anti-sindicatos, incluindo um
restritivo acordo colectivo de trabalho, que retirou aos trabalhadores todos os
bónus e subsídios de alimentação e alojamento. Como
The Economist
publicou no seu editorial, as reformas económicas no Iraque são
o "sonho de um capitalista" (25 de Setembro de 2003).
Recentemente, outra versão da divisão Norte-Sul aparece nos
escritos de um dos pensadores mais influentes nos Estados Unidos, o
filósofo John Rawls, que divide os países do mundo entre
países "decentes" e "não-decentes". Os
países decentes (maioritariamente localizados no mundo capitalista
desenvolvido) são os que têm direitos democráticos e
instituições, enquanto os não-decentes (maioritariamente
localizados no mundo capitalista em desenvolvimento) não os têm.
Depois de dividir o mundo nestas duas categorias, conclui que é melhor
ignorar os países não-decentes, embora, admita "uma
responsabilidade moral de ajudar os países pobres, a quem a pobreza
impede de se organizarem como sociedades liberais ou decentes". Estas
posições e afirmações testemunham uma avassaladora
ignorância do passado e presente das relações
internacionais, bem como das relações de classe em cada um desses
países. Rawls mais confunde governos com países (uma
confusão que acontece frequentemente quando se assume que o conflito
primário é entre Norte e Sul). Os que ele chama países
não-decentes (caracterizados por ditaduras brutais e corruptas)
têm classes; as suas classes dominantes não têm sido
ignoradas nas actividades fomentadas e apoiadas pelas classes dominantes dos
países decentes, que também atingiram a qualidade de vida das
suas próprias classes dominadas. Além disso, nos chamados
países não-decentes de Rawls, existem movimentos com raiz de
classe que suportam enormes sacrifícios, levando a cabo uma luta
heróica pela mudança, lutando constantemente, embora
diminuídos e combatidos pelas classes dominantes dos chamados
países decentes. É notável (embora previsível) que
tal figura intelectual defina a bússola moral destas classes indecentes.
O mais recente exemplo desta indecência é o relatado apoio dos
governos dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha ao Rei do Nepal, que nasce
do seu desejo de travarem uma revolta de massas liderada por partidos de
esquerda num país do terceiro mundo.
Desigualdades entre os países e as suas consequências sociais
Está bem documentado que as desigualdades contribuem para a falta de
solidariedade social e aumentam a patologia social. Muita gente, incluindo eu
próprio, documentou esta realidade (
The Political Economy of Social Inequalities: Consequences for Health and
Quality of Life,
Baywood, 2002). As provas científicas em apoio desta
posição são esmagadoras. Em qualquer dada sociedade, um
grande número de mortes poderia ser evitado reduzindo as desigualdades
sociais. Michael Marmot estudou o grau de mortalidade por doenças
cardíacas entre profissionais de diferentes níveis de autoridade,
e descobriu que quanto mais elevado o grau de autoridade, mais baixa a
mortalidade por doenças cardíacas (
The Status Syndrome,
2005). E além disso mostrou que este grau de mortalidade não
poderia ser explicado apenas pela dieta, exercício físico ou
colesterol; estes factores de risco explicavam apenas uma pequena parte da
gradação. O factor mais importante era a posição de
cada pessoa na estrutura social (em que classe, género e raça
desempenham papeis chave) e a distância social entre os grupos, e a
diferença de graus de controle que as pessoas têm sobre as suas
próprias vidas.
Esta importantíssima descoberta científica tem muitas
implicações; uma delas é a de que o maior problema que
enfrentamos não é o de simplesmente eliminar a pobreza, mas antes
reduzir a desigualdade. O primeiro não pode ser resolvido sem resolver
o segundo. Outra implicação é a de que a pobreza
não é apenas uma questão de recursos, como é
erradamente assumido nos relatórios do Banco Mundial que medem a pobreza
a nível mundial quantificando o número de pessoas que vivem com
um dólar por dia. O verdadeiro problema, uma vez mais, não
é o dos recursos absolutos, mas o da distância social e o dos
diferentes graus de controlo de cada um sobre os seus próprios recursos.
E isto é verdade em todas as sociedades.
Deixem-me explicar. Um jovem negro, não-qualificado, desempregado,
vivendo na área do ghetto de Baltimore tem mais recursos (ele ou ela
têm provavelmente um carro, telemóvel e televisão e mais
metros quadrados por habitação e mais equipamento de cozinha) do
que um profissional da classe média no Gana, em África. Se o
mundo fosse uma única sociedade, o jovem de Baltimore seria da classe
média e o profissional do Gana seria pobre. E no entanto, o primeiro tem
uma esperança de vida muito mais curta (45 anos) do que o segundo (62
anos). Como pode ser isto se o primeiro tem mais recursos do que o segundo? A
resposta é clara. É muito mais difícil ser pobre nos
Estados Unidos (o sentimento de distância, frustração,
impotência e falhanço é muito maior) do que ser da classe
média no Gana. O primeiro está muito abaixo da média; o
segundo está acima da média.
Será que o mesmo mecanismo funciona nas desigualdades entre
países? A resposta é, cada vez mais, sim. E a razão para
dizermos "cada vez mais" é a comunicação
com sistemas e redes de informação cada vez mais globalizadas,
mais informação chega às áreas mais remotas do
mundo. E a distância social causada pelas desigualdades torna-se cada vez
mais evidente, não apenas dentro, mas também entre países.
Porque esta distância é cada vez mais entendida como um resultado
da exploração, deparamo-nos com uma enorme tensão,
comparável com a do século XIX e início do século
XX, quando a exploração de classe se tornou a força motriz
da mobilização social. O elemento chave na
definição do futuro é através de que canais essa
mobilização se efectua. O que temos visto é uma enorme
mobilização, instigada e guiada por uma aliança de classes
dominantes do Norte e do Sul, com o objectivo de como foi mencionado
estimular mobilizações inter-classistas, religiosas ou
nacionalistas que deixem as relações de classe fundamentais
inalteradas. Vimos este fenómeno no fim do século XIX e
início do século XX. A democracia-cristã na Europa, por
exemplo, aparece como a resposta das classes dominantes à ameaça
do socialismo e comunismo. O nascimento do fundamentalismo islâmico
também foi estimulado com o mesmo objectivo.
A alternativa de esquerda tem de estar centrada em alianças entre as
classes dominadas e outros grupos dominados, com um movimento político
que deve ser construído com base no processo de luta de classes que
ocorre em cada país. Como disse Hugo Chávez da Venezuela,
"não pode ser um mero movimento de protesto e
celebração como Woodstock". É uma enorme luta, um
esforço em que organização e coordenação
são a chave, apelando para uma Quinta Internacional. Este o desafio de
hoje para a esquerda internacional.
[*]
Professor de Política Pública na Johns Hopkins University, EUA, e na
Universidad Pompeu Fabra, Espanha. O seu email é:
navarro@counterpunch.org
.
O original encontra-se em
http://www.monthlyreview.org/0906navarro.htm
Tradução de TR.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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