por Miguel Urbano Rodrigues
A decisão do governo Obama de instalar na Colômbia sete bases
militares dos Estados Unidos insere-se na estratégia de
dominação mundial da nova Administração
norte-americana.
O discurso de matizes humanistas do actual Presidente e uma campanha de
propaganda massacrante contribuíram para que milhões de pessoas
acreditassem que a política imperial de George Bush seria
substituída por uma política de paz.
Tal convicção é desmentida pela realidade.
Ao declarar que a primeira prioridade da sua política exterior é
vencer a guerra no Afeganistão, Obama abriu a porta a uma escalada de
violência na Ásia Central. Por si só, a
nomeação do general Stanley Mc Chrystal um criminoso de
guerra para comandante operacional na Região é
esclarecedora das opções do Presidente dos EUA num conflito que
traz à memória do povo norte- americano os fantasmas e traumas do
Vietname.
Na América Latina as iniciativas que confirmam a volta a uma
política "musculada" são também inquietantes.
O golpe nas Honduras foi concebido e montado em reuniões realizadas na
Embaixada dos EUA em Tegucigalpa. A presença, agora permanente, da IV
Frota da USNavy em águas sul-americanas traduz igualmente o objectivo de
impor por meios militares a vontade de Washington em países que recusem
submeter-se ao poder imperial.
Nessa estratégia, a Colômbia de Álvaro Uribe desempenha um
papel fulcral.
O acordo já firmado permite a instalação de sete bases
norte-americanas: Três da Força Aérea, em Palanquero,
Malambo e Apiay; duas da USArmy em Tolemaida e Larandia; e duas da USNavy em
Cartagena e Bahia Málaga.
A Colômbia, como sublinhou o Partido do Pólo Democrático,
foi convertida por este acordo "numa plataforma para a
consolidação e a expansão bélica desta politica que
afecta não só a estabilidade dos governos democráticos e
progressistas como os projectos de integração latino-americana e
do Caribe".
Obama não inovou, deu continuidade a um projecto ambicioso cuja
execução foi iniciada por Clinton e Bush. A Venezuela bolivariana
é o alvo principal. Cercam hoje a Venezuela bases militares dos EUA
localizadas em seis países da Região: El Salvador, Honduras,
Costa Rica, Panamá, Peru e Paraguai. A elas se somam as de Aruba e
Curaçao no Caribe holandês, as de Porto Rico e a de Guantanamo, em
Cuba. Na Colômbia já existem há muito três bases dos
EUA, a de Arauca, a de Larandia e de Três Esquinas.
Foi para denunciar a ameaça representada pela instalação
das novas bases norte-americanas que se realizou em Bariloche, na Argentina,
uma reunião extraordinária da União das
Nações Sul Americanas UNASUL. O objectivo não foi,
porém, atingido. A Declaração Final, inócua, nem
sequer menciona expressamente a Colômbia e os EUA. A reunião foi
sabotada por Lula que chegou a ser grosseiro ao dirigir-se a Chavez e a Rafael
Correa e se absteve de criticar Uribe.
É oportuno recordar que durante a Administração Clinton o
Pentágono elaborou um plano de intervenção militar directa
na Colômbia. O pretexto invocado seria o combate ao narcotráfico,
mas o objectivo era a aniquilação das Forças Armadas
Revolucionarias da Colômbia-FARC e do Exército de
Libertação Nacional-ELN. Na operação, sugerida pelo
general McCaffrey, participariam duas divisões aerotransportadas e
três divisões de Marines, envolvendo 120.000 homens. A
intervenção contra as FARC seria desencadeada inicialmente por
tropas da Colômbia e de outros países latino-americanas,
nomeadamente do Peru e do Equador.
A ofensiva terrestre e aérea estava prevista para o ano 2000, mas o
projecto foi arquivado porque o governo Clinton chegou à
conclusão de que esbarraria com a oposição do Congresso.
A estória minuciosa do plano Caffrey foi, aliás, evocada com
minúcias num artigo do professor brasileiro Moniz Bandeira, publicado em
Setembro passado em webs de informação alternativa.
Durante a campanha eleitoral e após a sua eleição, Barack
Obama comprometeu-se a desenvolver na relação com a
América Latina uma política diferente daquela que sucessivos
presidentes dos EUA aplicaram, tratando as nações do Sul do
Hemisfério como "o pátio das traseiras".
Mas a promessa está a ser desmentida. É difícil avaliar
até que ponto o Presidente actua sob a pressão das poderosas
engrenagens do establishment. Mas os factos confirmam que Washington, alarmada
com a grande vaga de contestação ao imperialismo e as politicas
neoliberais que varre a América Latina e que encontra a sua
expressão mais desafiadora na Venezuela, no Equador e na Bolívia
decidiu retomar uma estratégia musculada. Em vez do anunciado
diálogo entre iguais, as iniciativas do grande vizinho do Norte deixam
entrever ameaças militares.
AS DUAS COLÔMBIAS
Não há na América Latina outro país onde a
violência seja como na Colômbia um fenómeno endémico
tão enraizado. Desde o Bogotazo, em 1948, foram ali assassinadas mais de
300 mil pessoas. Não é de estranhar que a imagem do país
no mundo seja péssima. Para isso contribuem decisivamente campanhas de
desinformação que falsificam a História, transformando as
vítimas em criminosos e os criminosos em cidadãos merecedores de
respeito.
Em Washington o regime colombiano é apresentado como democracia
exemplar. Significativamente, o Departamento de Estado no seu último
relatório anual sobre a situação dos Direitos Humanos
inclui a Colômbia na lista dos países onde eles são
respeitados.
A Administração Obama mente conscientemente. A senhora Clinton
sabe que a fachada democrática institucional da Colômbia oculta um
regime liberticida e que o actual Presidente, Álvaro Uribe Vélez,
pratica uma política neonazi.
Quando director da Aeronáutica no Departamento de Antioquia, Uribe
manteve relações com os carteis da droga. Virgínia
Vallejo, num livro de memórias, conta que Pablo Escobar, seu amante, lhe
contou que sem a ajuda de Uribe não teria podido fazer sair do
país toneladas de cocaína. O nome do actual Presidente figura
aliás na lista de aliados do narcotráfico em arquivos da CIA hoje
desclassificados.
Anos depois, como governador de Antioquia, Uribe desempenhou um papel
importante na criação e financiamento do paramilitarismo.
Posteriormente foram sempre íntimas as suas relações com
as chamadas Autodefesas da Colômbia AUC, a
organização criminosa paramilitar incumbida pelo Exército
de praticar os crimes mais repugnantes. É do domínio
público que milhares de paramilitares amnistiados foram nomeados para
cargos públicos. Uma percentagem considerável faz parte do corpo
de espiões avaliado num milhão que recebe um
pequeno salário para transmitir informações sobre a
insurgencia.
No governo de Uribe, os escândalos alguns envolvendo membros da
sua família, ministros e generais da sua máxima confiança
tornaram-se rotineiros. O Presidente desenvolveu um estilo imperial.
Para se reeleger, fez aprovar uma emenda à Constituição
depois de ter comprado a maioria do Congresso. Agora repete a manobra e prepara
uma segunda reeleição através de um referendo montado ad
hoc.
Não exagerou o comandante Manuel Marulanda, fundador das FARC, quando o
definiu como fascista mascarado de democrata.
A politica dita de "Segurança Nacional" de Uribe traduz-se
numa estratégia de opressão e violência, que configura a
prática de crimes de genocídio.
A SAGA DAS FARC
O governo Bush conseguiu, após o 11 de Setembro, que a ONU e a
União Europeia incluíssem as Forças Armadas
Revolucionarias da Colômbia-Exército do Povo na lista das
organizações terroristas. Mas, para desacreditar as FARC,
Washington e Bogotá foram mais longe.
Uma campanha milionária foi desencadeada a nível mundial com dois
objectivos.
1. Apresentar as FARC como uma guerrilha intimamente ligada ao
narcotráfico e que somente sobrevivia por manter intimas
ligações com os cartéis da droga.
2. Difundir das FARC a imagem de uma organização criminosa,
incompatível com os princípios e valores da democracia, que
assassina os camponeses, faz dos sequestros um pilar da sua estratégia e
tortura os prisioneiros.
Essas calúnias contribuíram para que milhões de pessoas em
dezenas de países, sobretudo nos meios intelectuais, tenham hoje sobre
as FARC opiniões muito negativas, o que dificulta extraordinariamente a
solidariedade com a luta dos combatentes do saudoso Manuel Marulanda.
É útil recordar que a designação de narcoguerrilha
foi forjada numa reunião com militares do Pentágono por Louis
Stamb, ex-embaixador dos EUA na Colômbia, um diplomata que mantinha
estreitas relações com a CIA.
Dispusessem as FARC dos milhões que lhe são atribuídos e
certamente teriam há muito adquirido mísseis para se defender dos
ataques da Força Aérea de Uribe e dos aviões que espiam os
seus acampamentos na selva. E até hoje não possui armas desse
tipo, como Washington aliás reconhece.
É oportuno recordar que os oficiais e soldados capturados em combate
pelas FARC são apresentados pelo governo de Bogotá como
"sequestrados" e os guerrilheiros presos como "terroristas".
Significativamente, nunca que eu saiba, os grandes midia da burguesia
informaram que as FARC elaboraram um projecto-piloto que previa em poucos anos
a erradicação da coca mediante a substituição de
culturas no município de Cartagena del Chairá, responsável
pela produção de 90 % da droga de um Departamento. O custo da sua
aplicação seria apenas de 10 milhões de dólares. O
estudo foi enviado à ONU, mas o governo Uribe opôs-se à
iniciativa.
No que se refere à campanha internacional que tem por objectivo
apresentar as FARC como um bando de criminosos e assassinos, a difusão
da mentira também funciona.
O caso de Ingrid Bettancourt é esclarecedor dos métodos usados
pelo governo de Uribe. Durante anos a ex-candidata a Presidência da
Republica foi apresentada como uma heroína, que estaria às portas
da morte em consequência de maus-tratos recebidos. Foi libertada mediante
a compra do guerrilheiro responsável pela sua custódia na selva.
Mas o governo Uribe enganou a opinião mundial afirmando que fora
resgatada pela Força Aérea numa operação montada de
acordo com a Cruz Vermelha Internacional. Logo se verificou, porém, que
Ingrid estava de perfeita saúde e cheia de energia.
Clara Rojas, ex-secretária de Ingrid e sua companheira de cativeiro,
desmascara aliás, num livro recente, a falsa heroína cujo
comportamento a isolou dos demais presos.
Em 2001 passei algumas semanas num acampamento das FARC na selva
amazónica do Caquetá.
Nesses dias tive a oportunidade de falar durante muitas horas com o comandante
Raul Reyes assassinado em 2008 no Equador durante um bombardeamento
realizado pela Força Aérea colombiana e de conhecer alguns
destacados comandantes das FARC, incluindo Manuel Marulanda, o seu
legendário comandante-chefe.
As conversas que então mantive sobre múltiplos temas com esses
dirigentes das FARC deixaram em mim recordação inapagável.
Desses encontros retirei a conclusão de que os homens apresentados como
terroristas e facínoras por Uribe são revolucionários
merecedores de respeito, com um conhecimento invulgar do marxismo-leninismo, a
ideologia do partido-guerrilha assumida pelas FARC.
A vida permitiu-me estabelecer laços não apenas de camaradagem,
mas de amizade com alguns colombianos. Entre eles ocupa o primeiro lugar
Rodrigo Granda. Conheci-o em Havana, reencontrei-o em El Salvador, muitas vezes
em Cuba e na Venezuela, na véspera do seu sequestro por polícias
de Uribe. A amizade é um sentimento difícil de hierarquizar. Mas
de Rodrigo Granda posso dizer, camaradas, que ele me aparece como um
revolucionário e um comunista exemplar, um paradigma do quase
mítico homem novo com que sonhamos.
O APELO À PAZ DAS FARC
Há mais de quatro décadas que as FARC se batem por uma
Colômbia verdadeiramente independente e democrática
Nesse batalhar houve um momento, no começo dos anos 80, em que aceitaram
suspender a luta sem entregar as armas aceitando a proposta do
governo da época para participarem na vida politica transferindo para o
campo institucional a defesa do seu projecto de sociedade.
E que aconteceu, camaradas? A Unión Patriótica, o
partido-movimento então criado pelas FARC, foi alvo do maior
genocídio político da história da América Latina.
Em pouco mais de dois anos, senadores, deputados, intelectuais, sindicalistas
da União Patriótica foram assassinados.
Obviamente as FARC retomaram a luta armada. A organização
revolucionária cresceu. No início do milénio, quando o
presidente Pastraña concordou abrir negociações com vista
à Paz e foi criada uma Zona Desmilitarizada com uma superfície
equivalente ao Estado do Espírito Santo, as FARC constituíam um
exército popular com efectivos avaliados em 17 mil combatentes
distribuídos por 60 Frentes de luta. Somente no Vietname se encontra
precedente para uma saga comparável à das FARC-EP.
Sob a pressão dos EUA, da oligarquia bogotana e do exército, o
presidente Pastrana fechou a porta a qualquer negociação
séria que pudesse conduzir à Paz, invadiu e reocupou a Zona
Desmilitarizada.
Recordo que então os comandantes guerrilheiros, em La Macarena, no acto
de libertação unilateral de 300 prisioneiros das FARC a
que assisti eram tratados com o maior respeito pelos embaixadores de
grandes potencias europeias. Entretanto, passaram de um dia para outro a ter a
cabeça a prémio como terroristas, narcotraficantes e assassinos.
Com a chegada de Uribe à Presidência a escalada assumiu as
proporções de um assalto à razão. Sucessivas
ofensivas militares, mobilizando dezenas de milhares de soldados, foram
desencadeadas com o objectivo de aniquilar as FARC. Todas fracassaram
não obstante o recurso a armas e equipamentos sofisticados, fornecidos
pelos EUA.
Camaradas
A solidariedade com o povo da Colômbia, nestes dias em que a
Administração Obama desenvolve uma estratégia que
configura uma ameaça global à América Latina, é uma
exigência da história.
Uribe impôs à Colômbia um regime neofascista.
O projecto do Novo Estado uribista outorga ao Executivo um poder quase
absoluto. A consumar-se a nova reeleição através
métodos ilegítimos, Álvaro Uribe Velez governará
como um ditador.
Conforme recorda o Secretariado das FARC, Uribe, após a sua primeira
reeleição, anunciou que destruiria a organização
revolucionária num prazo de 18 meses. A promessa foi desmentida pela
História. Agora, ao lutar por um terceiro mandato, afirma que a
vitória contra as FARC está iminente e fala do "final do
final", comprometendo-se a fazer da Colômbia "a Cidade do
Sol".
Na realidade o país foi transformado numa semi-colónia dos EUA.
Dos deputados que apoiam Uribe, 85 são paramilitares. Na cadeia cumprem
aliás penas dezenas de congressistas condenados por crimes graves.
As FARC não surgiram por geração espontânea.
O Secretariado do seu Estado Maior Central num apelo dirigido em Julho p. p. ao
povo colombiano convida-o "a trabalhar por um Acordo Nacional de Paz que
construa uma alternativa política que convoque o diálogo, ponha
em campo uma trégua bilateral e proceda à retirada imediata das
tropas norte-americanas e que, uma vez alcançados acordos com o
protagonismo das organizações sociais e politicas, convoque uma
Assembleia Constituinte para referendar o acordado".
Camaradas:
Os combatentes revolucionários das FARC que se batem por valores eternos
da condição humana merecem o respeito e a solidariedade dos
comunistas.
As FARC enfrentam na sua luta tremendas dificuldades. Mas as calúnias
não fazem história. Com o rodar dos anos os nomes de Uribe e dos
seus generais vão desaparecer na poeira do tempo. Mas o do comandante
Manuel Marulanda será pelos séculos afora recordado. Já
atravessou as portas do panteão dos heróis da América
Latina.
Setembro/2009/Serpa
O original encontra-se em
http://odiario.info/articulo.php?p=1326&more=1&c=1
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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