O socialismo deve retomar a ofensiva
por Miguel Urbano Rodrigues
Ao reler o capitulo XVIII de
"Para alem do capital",
de István Mészáros, senti a necessidade de escrever umas
páginas para condensar a reflexão suscitada pelo trabalho do
filósofo marxista húngaro.
[1]
O andamento da história conferiu uma grande actualidade ao ensaio do
autor de
"O Poder da Ideologia",
redigido há mais de uma
década.
Mészaros recorda-nos que a chamada "crise do marxismo" levou
muitos intelectuais progressistas a adoptarem uma posição
defensiva precisamente numa época crucial em que deveriam empenhar-se
numa ofensiva socialista.
Lenine acreditava que a revolução de Outubro, na Rússia,
fosse a espoleta de "turbulentas revoltas políticas e
económicas" na Europa e fora dela.
O desfecho da guerra mundial não confirmou essa esperança. O
capitalismo sobreviveu. Após o fracasso da revolução na
Alemanha e a derrota do Exército Vermelho às portas de
Varsóvia, o dirigente bolchevique concluiu que era
imprescindível defender a revolução russa do cerco
imperial, custasse o que custasse.
Mas a impossibilidade em prazo previsível da revolução
mundial exigiu uma dramática revisão estratégica.
O projecto socialista, que fora concebido para a ofensiva, viu-se
forçado a uma defensiva.
Mészáros analisa a contradição entre o pensamento
de Lenine e o
de Estaline sobre essa polémica questão. O primeiro, na
ausência da revolução mundial, encarava a luta a travar
como "uma operação para sustentar uma
posição", operação que, após
desenvolvimentos futuros favoráveis no plano mundial, permitiria
retomar a ofensiva; Estaline "convertia a desgraça em virtude"
convicto de que a vitoria socialista de Outubro abria por si só as
portas a uma futura etapa superior do comunismo.
O refluxo, após Versailles, do movimento revolucionário mundial
tornou inevitável a permanência de uma estratégia defensiva.
As esperanças dos que esperavam grandes convulsões sociais no
rescaldo da crise de 1929-33 foram dissipadas pelo rumo da história. O
mundo do capital sobreviveu sem dificuldade ao temporal iniciado com o crash
da Bolsa de Nova York. A crise não era estrutural. A própria
opção pelo fascismo na Alemanha de Weimar inseriu-se numa crise
cíclica do capitalismo.
No contexto defensivo, os órgãos de combate socialistas que
actuavam, no âmbito de instituições de fachada
democrática, podiam ganhar lutas secundárias, através de
reformas impostas pela luta de massas, mas não vencer a guerra contra o
capital. A correlação de forças não o permitia.
Mészáros recorda que os dois pilares da classe trabalhadora no
ocidente
os partidos e os sindicatos se encontravam na prática
inseparavelmente ligados a um terceiro membro da montagem institucional geral,
o Parlamento, "mediante o qual se fecha o circulo sociedade civil -
estado político e se converte nesse 'círculo mágico'
paralisante ao qual não se pode escapar".
Os acontecimentos que precederam a segunda guerra mundial confirmaram que
é uma ilusão romântica encarar os sindicatos, isoladamente,
como algo pertencente exclusivamente à sociedade civil,
susceptível de ser utilizado contra o estado para uma
transformação socialista profunda. Seria necessário muito
mais do que o derrubamento, no estado burguês, do Parlamento para se
produzir uma ruptura rumo ao socialismo.
No seu ensaio Mészáros dedica uma atenção especial
ao Parlamento.
Até hoje escreve "não existe nenhuma teoria
socialista satisfatória que diga o que se fazer com ele após a
conquista do poder".
Na concepção que Marx tinha da "política" como
negação radical,
o Parlamento aparecia como um instrumento perverso do sistema cuja
função era "enganar os outros e, ao enganá-los,
enganar-se a si mesmo".
Marx admitia que em alguns países, nomeadamente na Grã-Bretanha,
na Holanda, e até nos EUA, a transição do capitalismo
poderia realizar-se por meios pacíficos, mas considerava extremamente
difícil reorientar radicalmente a "sabedoria parlamentar" de
modo a colocar o legislativo a serviço de objectivos antagónicos
aos anteriores.
Reflectindo sobre a experiência das sociedades do leste europeu onde
durante mais de quatro décadas estiveram no poder governos que
proclamavam a sua opção pelo marxismo leninismo,
Mészáros
conclui que "não basta demolir um dos três pilares do marco
institucional herdado, porque de um modo ou outro o acompanham sempre os
restantes.
A actual crise estrutural do capital, insiste, é uma crise global, que
levará à morte do sistema ou à destruição da
civilização.
A compreensão dessa evidência é ainda muito limitada. O
controle hegemónico do sistema mediático permitiu após a
desagregação da URSS persuadir centenas de milhões de
pessoas, através da mistificação ideológica, que a
luta de classes findara, o proletariado desaparecera e o capitalismo iria
perdurar indefinidamente.
Entretanto, a ofensiva contra o que resta do Estado do "Bem Estar
Social", ao iluminar o aprofundamento da crise do capitalismo demonstrou
que a actual, diferente de anteriores, colocava a humanidade perante uma
crise estrutural de todas as instituições políticas.
Não foi repentina. O seu processo de fermentação vem
do começo dos anos 70.
Para Mészáros o desfecho da confrontação com o
capital do
conjunto heterogéneo de forças socialistas dependerá de
transformações que elas conseguirem introduzir na vida
quotidiana, dominada actualmente por ubíquas manifestações
das contradições subjacentes. Por outras palavras da habilidade
para combinar num todo coerente, com implicações socialistas
definitivamente irreversíveis uma enorme variedade de exigências e
estratégias parciais que em si mesmas não necessitam ser
especificamente socialistas.
Nesse sentido esclarece "as exigências mais urgentes do nosso
tempo, que correspondem directamente a necessidades vitais de uma grande
variedade de grupos sociais decentes, juntamente com as exigências
inerentes à luta pela libertação da mulher e contra a
discriminação racial são tais que, sem
excepção, em principio, qualquer liberal genuíno pode
fazê-las suas com empenhamento".
Mas, perante as tendências e contradições do capital, as
exigências de mudança radical somente podem ser formuladas na
perspectiva de uma alternativa socialista global. Por isso mesmo a
renovação criadora do marxismo, tal como a concebia Marx , se
tornou imprescindível.
O MITO DA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA
Volto ao tema do Parlamento e do seu papel instrumental no sistema. A
desmontagem dos mecanismos perversos da democracia representativa é uma
exigência da luta, porque a mitologia da falsa democracia está
tão ancorada na consciência social que exerce forte
influência na linguagem, na mundividência e nas formas de luta
de muitos comunistas.
As mudanças que temos testemunhado sublinha
Mészáros
"no funcionamento do próprio parlamento mudanças que
tendem a privá-lo até das suas limitadas funções
autónomas do passado não podem ser de maneira circular em
termos da instável máquina eleitoral e das correspondentes
praticas parlamentares. Os porta-vozes da hipostasiada
"soberania absoluta do parlamento e os seus embates teóricos com
os seus colegas parlamentares em torno da miragem da "perda da soberania
para Bruxelas" (por exemplo) estão longe da verdade. Procuram
soluções para as deploradas mudanças onde elas não
podem ser encontradas, nos limites do próprio domínio
político parlamentar".
A política é demasiado importante para que as forças
progressistas aceitem que ela possa ser conduzida pela chamada "classe
política". A democracia autêntica, participada, nada tem a
ver com as democracias parlamentares tuteladas pelo capital.
Mészáros lembra que quando a burguesia concede a representantes
da esquerda o
título de "grandes parlamentares" devemos desconfiar. Essas
personalidades políticas "aprenderam as regras do procedimento
parlamentar e, com a ajuda delas, "continuam a levantar os assuntos
desconfortáveis. Entretanto, a verdade realmente desconfortável
é que os assuntos assim levantados são invariavelmente ignorados
ou declarados "fora da agenda" pelo próprio Parlamento.
O pensador húngaro documenta essa realidade sobretudo com exemplos do
funcionamento da Câmara dos Comuns, o berço e modelo da democracia
parlamentar. "Futilidades e marginalização política
são os critérios para ser promovido ao alto posto de 'grande
parlamentar' na esquerda. Desse modo alguns deles são admitidos no
átrio da fama para colocar o sistema da democracia parlamentar
além e acima de toda a "critica legitima concebível".
Nas últimas duas décadas os partidos social democratas europeus,
incluindo aqueles que ainda se dizem socialistas (Portugal, Espanha,
Grécia, etc) não somente romperam com o marxismo como, aderindo
ao neoliberalismo, se orgulham de administrar melhor do que os partidos
conservadores uma economia capitalista moderna, moldada pelo neoliberalismo.
Afirma Mészáros e identifico-me com essa opinião
que
"o papel principal dos partidos social democratas (incluindo antigos
partidos comunistas rebaptizados) se .limita hoje a
entregar o trabalho ao capital,
e utilizar o povo como
forragem eleitoral
para os propósitos da legitimação espúria do
status quo
perpetuado sob o pretexto do processo eleitoral 'aberto' e «plenamente
democrático".
Essa tendência vem de longe. Cabe recordar que o velho Partido Social
Democrata Alemão, quando ainda era revolucionário, começou
a ceder em vida de Marx. Prometia então uma
«transformação social radical, mediante a
realização de reformas estratégicas até capitular
abertamente perante as exigências do expansionismo nacional burguês
com a irrupção da Primeira Guerra Mundial».
A promessa de instaurar o socialismo por meios parlamentares estava condenada
desde o início. Era uma impossibilidade transformar através do
parlamento "um sistema de controle reprodutivo social sobre o qual
não tinham nem podiam ter qualquer controle significativo".
Hoje, de tombo em tombo, a social-democracia contribui activamente para que a
legislação dos Parlamentos seja um instrumento da
castração dos movimentos laborais e dos direitos dos
trabalhadores. O papel regulador básico do parlamento burguês
consiste em legitimar a imposição das normas da "legalidade
constitucional" ao trabalho que as desafia e simultaneamente persuadir o
povo de que, agindo assim, defende a democracia. O objectivo inconfessado
é forçar o trabalho a submeter-se ao capital.
Anos atrás, quando apenas iniciava a luta que o levaria à
presidência, o venezuelano Hugo Chavez hoje o mais popular
líder revolucionário da América do Sul , repetindo
criticas de Rousseau à farsa parlamentar, recordou que para os partidos
tradicionais do seu país, o único dever do povo era votar nas
eleições. E depois esperar que tudo se resolvesse. Sem qualquer
participação popular obviamente. "Esses cantos de sereia
concluiu o actual presidente da Venezuela bolivariana conduziram
à passividade um povo que foi esquecendo que as grandes gestas se fazem
pelo caminho dos sacrifícios, substância indispensável na
hora de proceder às sementeiras da história. O acto do
sufrágio transformou-se assim no principio e fim da democracia".
O grande desafio de Chavez foi persuadir a sua gente de que era
possível desmantelar o sistema para que o povo soberano se convertesse
"em objecto e sujeito do poder".
E isso aconteceu.
A amplitude assumida pela revolta dos marginalizados em França, as
manifestações contra a presença de Bush na Argentina e no
Brasil, e, na Alemanha, em defesa de conquistas históricas do povo,
são outros tantos indícios de que a maré dos protestos
populares contra o sistema de dominação imperial volta a subir.
Nos EUA a rejeição da guerra do Iraque cresce a cada dia.
Não se infira da minha identificação com a critica de
Mészáros à farsa da democracia representativa que
pretendo retirar
significado à participação das forças progressistas
nos processos eleitorais. Essa seria uma atitude irresponsável. Penso
pelo contrário que a presença de fortes bancadas dos comunistas
e seus aliados nos parlamentos é muito importante. Repetidamente, em
artigos e intervenções em Seminários internacionais tenho
sustentado que na luta pelo desmascaramento das ditaduras da burguesia de
fachada democrática tudo se deve fazer para reforçar a
presença de representantes de partidos revolucionários nas
instituições criadas pelo sistema. No caso português, a
eleição de comunistas para a Presidência de dezenas de
Câmaras Municipais demonstrou que nos municípios onde o povo
lhes confere a oportunidade de exercer o poder, a transformação
da sociedade, apesar da habitual hostilidade do governo central, reflecte
quase sempre uma humanização da vida e a
participação do povo como colectivo.
No caso do Parlamento não existe a menor possibilidade na União
Europeia de um partido progressista chegar ao governo, a menos que renuncie
aos princípios e se submeta ao sistema, através de
alianças espúrias, como ocorreu em França. Nem por isso
é de subestimar em Portugal a intervenção dos comunistas.
Mas insisto a utilidade social da presença comunista no
Legislativo será sempre condicionada pela recusa de concessões a
estratégias reformistas. A fidelidade ao objectivo primeiro o
socialismo distante exige inclusive a intervenção
parlamentar em defesa das lutas reivindicativas dos trabalhadores e a
critica permanente às políticas dos partidos no poder. Mas
exige paralelamente a denuncia firme da engrenagem do próprio sistema
e a recusa de ilusões reformistas, a rejeição de uma
mentalidade eleiçoeira. O capitalismo não é
humanizável, tem de ser destruído.
A credibilidade de um partido revolucionário entre os trabalhadores
não resulta do simples apelo à mobilização para
lutas que exigem deles enormes sacrifícios. As massas somente respondem
a tais apelos quando as direcções das organizações
revolucionárias lhes inspiram uma confiança quase ilimitada pela
sua coerência, pela sua linha política, pela fidelidade aos
princípios enunciados.
Levar o povo português, como outros, a tomar consciência de que
a actual crise global de civilização colocou a humanidade no
limiar de uma viragem de desfecho imprevisível é uma tarefa
gigantesca. Ela implica em primeiro lugar a necessidade de que
milhões de pessoas consigam superar o envenenamento resultante de um
sistema mediático monstruoso que desinforma e deforma.
Na grande batalha contra o capitalismo, golpeado pela sua própria crise
estrutural, a passagem da
defensiva à ofensiva,
imprescindível no combate frontal ao sistema exige cito
Mészáros
"o desenvolvimento de um movimento
extra parlamentar como força condicionante total
do próprio parlamento. E do marco legislativo da sociedade
transnacional em geral. Tal como estão as coisas hoje em dia, o
trabalho como antagonista do capital vê-se forçado a defender os
seus interesses não só com uma, mas com ambas as mãos
amarradas nas costas".
Uma delas é atada por forças ostensivamente hostis ao trabalho,
a outra pelas políticas reformistas dos sindicatos e, nos países
da Europa Ocidental, da maioria dos partidos operários (os PC grego e
português constituem quase as únicas excepções).
Não sejamos românticos. O poder extraparlamentar do capital
somente pode ser enfrentado pela acção dos trabalhadores, com o
apoio dos sindicatos.
Vale a pena citar palavras de Rosa Luxemburgo:
"o parlamentarismo é o viveiro de todas as tendências
oportunistas hoje existentes na social democracia ocidental ele proporciona a
base de ilusões do oportunismo, na moda, tais como a
sobrevalorização das reformas sociais, a
colaboração da classe e do partido, a esperança do
avanço pacífico para o socialismo, etc(
) Com o crescimento
do movimento laboral, o parlamentarismo converteu-se em trampolim para os
políticos profissionais. Por isso mesmo, tantos ambiciosos fracassados
da burguesia correm em tropel para se juntarem sob as bandeiras dos partidos
socialistas(
) O objectivo é dissolver o sector actuante do
proletariado na
massa amorfa de um «eleitorado".
Transcorreram quase 90 anos, o mundo mudou profundamente, mas o desabafo de
Rosa não perdeu actualidade.
Hoje a luta contra o capitalismo difere da que então se travava em
múltiplos aspectos. Em primeiro lugar porque ele, atingida a sua
última fase, está ferido de morte, por mais lenta que possa ser a
agonia. Em segundo lugar, porque, na tentativa desesperada para sobreviver, a
sua estratégia põe em causa a continuidade da própria vida
na Terra. É a humanidade colectivamente que o funcionamento do sistema
ameaça. Incapaz de encontrar solução para a sua crise
estrutural e reconstituir com êxito as condições da
dinâmica expansionista, o capital, representado pelo seu pólo
imperial mais agressivo, desencadeia guerras genocidas e promove o saque de
recursos naturais em escala sem precedentes.
Passar portanto da defensiva à ofensiva é uma exigência do
tempo que vivemos imposta às forças e partidos para os quais a
alternativa à barbárie é o socialismo.
Serpa, 11/Novembro/2005
[1]
István Mészaros,
"Para Alem do Capital",
págs 789 a 861, Ed. Boitempo, 2002, São Paulo, Brasil, ISBN
85-7599-001-4.
resistir.info publicará em breve o capítulo
XVIII desta obra.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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Versão em castelhano:
El socialismo debe retomar la ofensiva
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