Eleições e participação na luta dos povos
por Miguel Urbano Rodrigues
As eleições legislativas portuguesas vão realizar-se num
momento em que a humanidade atravessa uma das maiores crises dos últimos
séculos.
Na Europa e nos EUA os media, repetindo o que afirmam os governantes e os
senhores do capital, insistem em defini-la como financeira e passageira. Mentem
conscientemente porque sabem estar perante uma crise global do capitalismo,
estrutural e duradoura.
O discurso dos partidos da burguesia nesta campanha é, por isso mesmo,
um novelo de mentiras. Esconder do povo a realidade tem sido um objectivo
permanente dos dirigentes e candidatos do PS, do PSD e do CDS.
Atribuir a responsabilidade da gravíssima situação que o
país atravessa como fazem Sócrates e a sua gente
quase exclusivamente à crise internacional, apresentada como financeira,
é não somente uma inverdade como um acto de hipocrisia.
Mas para que a maioria dos eleitores possa elaborar um quadro minimamente
rigoroso dos problemas que o povo português enfrenta hoje é
indispensável inseri-los na história contemporânea da
Europa e das crises do capitalismo.
Reformas, progresso e perda de combatividade
É transparente que os trabalhadores da Europa Ocidental vivem hoje muito
melhor do que há um século, não obstante a gravidade da
crise.
As grandes conquistas da classe operária foram conseguidas no rescaldo
de grandes lutas a partir do início do século XX, sobretudo
após a Revolução Russa de Outubro e a segunda guerra
mundial.
O horário das 8 horas, a humanização das
condições de trabalho, as férias pagas, as pensões
de reforma, o 13º salário, o direito à saúde e
à educação tendencialmente gratuitas, alcançados
através de lutas tenazes, foram enormemente facilitados pelo medo do
socialismo.
A burguesia não fez concessões; as grandes reformas que criaram o
chamado Estado Social foram conquistas da classe trabalhadora.
A história nunca se repete mecanicamente. Mas é útil
recordar o que se passou na Alemanha no final do século XIX quando ali
tomou forma o moderno reformismo.
Na época, o Partido Social-Democrata Alemão, o partido do
proletariado, era a mais prestigiada das organizações marxistas
europeias que se batiam pelo socialismo.
A economia do Império Alemão apresentava as taxas de crescimento
mais elevadas do mundo. Era evidente a melhora das condições de
vida dos operários. Notava-se um amolecimento do espírito de luta
das massas. Foi então, no Congresso de Erfurt, que Edward Bernstein, com
o apoio de outros dirigentes, defendeu as teses que conduziram o partido a uma
progressiva integração no sistema. Segundo ele, através de
sucessivas reformas seria possível chegar-se ao socialismo sem uma
ruptura revolucionária. O "movimento" seria tudo e o resto
quase nada.
Comentando a atitude assumida por Bernstein e mais tarde por Karl Kautsky, o
historiador soviético Evgueni Tarlé escreveu na sua
"História da Europa - 1871/1919": "uma parte, bastante
considerável (dos dirigentes) seguiu as palavras de ordem de Bernstein,
abandonando as posições revolucionárias pelo
reformismo, enquanto a táctica da luta parlamentar e da
oposição legal acabava por ocupar a situação
predominante num partido que era revolucionário não só
pela sua origem mas também pelos fundamentos e bases da doutrina que
oficialmente continuava a ser aceite e reafirmada".
E que aconteceu?
"O sindicato, o economismo, a luta pela melhora da situação
económica, o crescimento do "apoliticismo", a
indiferença perante as palavras de ordem revolucionárias, eis os
fenómenos pelos quais a Inglaterra havia passado antes e a Alemanha
depois, precisamente na época em que a sua industria avançava de
êxito em êxito".
[1]
É bem conhecida a polémica de Rosa Luxemburgo com Bernstein e a
contribuição decisiva que a tese deste teve para a gradual
transformação do SPD alemão de partido marxista
revolucionário em partido reformador que, de tombo em tombo, acabaria,
na actualidade, inspirando muitos outros como executor de políticas
neoliberais.
Os chamados "anos dourados" do capitalismo ficaram a assinalar na
Europa Ocidental o declínio da combatividade dos trabalhadores. O baixo
nível do desemprego, o acesso de milhões à casa
própria, às férias, aos benefícios da
Segurança Social, a um bem-estar relativo, coincidiram com uma ofensiva
ideológica que fez estragos em muitos partidos operários. As
campanhas contra a União Soviética adquiriram um estilo novo com
a vaga do eurocomunismo. Partidos Comunistas como o Francês e o de
Espanha distanciaram-se dos seus programas revolucionários, optando por
um reformismo que os descaracterizou. O italiano, de grandes
tradições, renunciou ao marxismo, mudou de nome, transformou-se
em poucos anos num partido burguês, aliado do imperialismo.
A crise do petróleo, em 1973, traçou a fronteira entre duas
épocas. O capitalismo arquivou as políticas neokeynesianas. As
teses neoliberais de Friedrick Hayek foram desenterradas, envernizadas e
gradualmente encontraram a sua expressão em políticas impostas em
todo o Ocidente no âmbito de uma estratégia do capital que teve em
Margaret Thatcher e Ronald Reagan os seus mais fiéis intérpretes.
Nos anos 90 o desaparecimento da União Soviética abriu a porta ao
hegemonismo do imperialismo estadounidense, criando condições
favoráveis a uma ofensiva generalizada na Europa Ocidental contra o
impropriamente chamado Estado do Bem-Estar Social.
Num contexto muito diferente do existente no início do século XX,
a luta dos partidos e organizações revolucionários
é hoje muitíssimo mais difícil, sobretudo na Europa
Ocidental.
Na época post-bismarkiana as contradições de interesses
entre as grandes potências capitalistas desembocaram na guerra
imperialista, uma tragédia que abriu perspectivas de luta inesperadas
à intervenção dos trabalhadores e dos partidos
revolucionários.
Hoje é impensável admitir que as contradições do
capital sejam resolvidas mediante o recurso a guerras interimperialistas. O
desaparecimento da União Soviética e a
criminalização do comunismo surgem simultaneamente como factores
que dificultam extraordinariamente a ascensão das lutas
revolucionárias.
Na Europa e nos EUA não se vislumbram no horizonte, em tempo
previsível, perspectivas de mudanças revolucionárias.
Afirmar o contrário é resvalar para posições
irrealistas, românticas.
Entretanto, paradoxalmente, a crise do capitalismo aprofundou-se e assumiu uma
dimensão planetária. Sendo estrutural e não
cíclica, os ideólogos do sistema, conscientes de que não
existem soluções, sugerem medidas e estratégias
enganadoras (incluindo guerras asiáticas) que lhe prolongam a
existência mas não podem curar o paciente.
Uma das contradições da crise que a diferencia de outras
anteriores é a que resulta da certeza de que não há hoje
reforma que possa salvar o capitalismo ou sequer humanizá-lo, mas
também da convicção de que a agonia do sistema pode ser
muito prolongada. Não há data sequer imaginável para o
desaparecimento do capitalismo que, na sua evolução, adquiriu os
contornos de ameaça à humanidade, à própria
continuidade da vida na Terra.
Coloca-se então a velha pergunta: Que fazer num contexto tão
complexo?
Na América Latina e na Ásia, em situações
aliás muito diferentes, abrem-se aos povos em luta contra o imperialismo
perspectivas menos desfavoráveis. Não nos países da
União Europeia. Neste Velho Mundo os trabalhadores enfrentam desafios
que na prática inviabilizam num horizonte próximo a
instalação de governos progressistas.
O grande capital montou engrenagens que mantêm o Estado a seu
serviço. Para evitar tensões sociais os regimes são
formalmente democráticos na Europa Ocidental, mas funcionam como
ditaduras de fachada democrática.
[2]
O clintoniano Samuel Huntington, autor da tese racista sobre o "conflito
de civilizações", levanta num relatório à
Comissão Trilateral a ponta do véu que encobre mecanismos que,
através dos processos eleitorais, travam nos países
avançados a ascensão ao poder político dos partidos
progressistas. Huntington "explica" que a "democracia", tal
como a concebe e deseja, exige que uma parcela importante da cidadania
não participe da vida política. Por outras palavras, que
milhões de eleitores não possam ou não estejam
interessados em exercer direitos que lhes são garantidos pelas
constituições dos respectivos países. Essa massa enorme de
cidadãos, ou se abstém ou é induzida por sistemas
mediáticos perversos controlados pelo capital a votar contra os seus
interesses.
A sua atitude configura o fenómeno que Marx definia como
alienação.
Mas a História não é estática. A
situação descrita por Huntington funciona na Europa e nos EUA,
mas a sua tese está a ser desmentida na América Latina. Aí
a miséria, a fome, o sofrimento das grandes maiorias atingiu um
nível tal que as massas trabalhadoras passaram a exercer direitos que
lhes asseguram a participação activa na construção
do futuro.
Quando o sofrimento ultrapassa determinados limites a vida perde valor para as
vítimas da exploração que passam a desafiar os
responsáveis pela opressão. Pelo voto ou por outros meios. Isso
aconteceu no Brasil, na Argentina, na Venezuela, no Equador, no Uruguai, no
Paraguai, na Nicarágua, em El Salvador. Em alguns casos Brasil,
Uruguai, Argentina os políticos guindados ao poder (Lula,
Tabaré, os Kirchner) esquecem os compromissos assumidos e pactuam com o
inimigo, mas essa atitude não trava a tendência dos povos da
América Latina para se assumirem como sujeito da História, rumo a
democracias participativas.
Na Europa é muito diferente o quadro. Tornou-se rotineiro o
rodízio no governo de partidos que aplicam com variações
as políticas de direita que servem o capital. Mas, não obstante a
crise, os padrões de vida das maiorias oprimidas são muito
superiores aos dos trabalhadores da América Latina. Paradoxalmente, um
nível médio cultural melhor não é
incompatível com um índice de alienação maior.
Daí a extrema dificuldade que os partidos revolucionários
encontram nos processos eleitorais no diálogo com as vítimas do
sistema.
Sócrates, um populista de direita
A campanha oficial para as eleições legislativas portuguesas vai
principiar. Pode-se desde já prever que o seu nível não
será melhor do que o da prolongada e massacrante pré-campanha.
Com excepção do PCP, a crise mundial apareceu no discurso da
maioria dos candidatos, sobretudo do PS, como factor determinante e
praticamente o único da situação que Portugal vive. Mas
foi encarada por uma chusma de políticos apenas como um sismo
financeiro, com implicações na economia real, nascido de erros de
banqueiros e especuladores e da falta de controlo e
regulamentação do mercado, ou seja um problema que na
prática assim afirmam estaria prestes a ser resolvido.
Aliás, o Governo, imitando o dos EUA, está preocupado não
com o desemprego e a pobreza da maioria do povo, mas sobretudo em acudir aos
banqueiros e a outros responsáveis pela "turbulência" e
pelos escândalos que atingiram os mercados financeiros.
A crise global de civilização que a humanidade enfrenta,
resultante da crise do capitalismo, é ignorada por esses senhores. Essa
opção marca o tom e o conteúdo do discurso de direita do
PS, do PSD e do CDS, concentrado numa abordagem farisaica da pequena
política. A forma pode diferir, mas o denominador comum é uma
demagogia torrencial, o vazio de ideias e uma montanha de promessas que repetem
outras anteriores, sempre incumpridas.
Sócrates suavizou a arrogância. Em campanha pelo país sorri
agora muito e repete-se monocordicamente, elogiando a grandeza e lucidez da sua
política enquanto anuncia futuros êxitos miríficos. A
mensagem é pouco inteligente. Durante três anos aplicou uma
política neoliberal ortodoxa; fez a apologia das
privatizações, invocando a necessidade de "modernizar"
Portugal. Agora, numa pirueta, critica o neoliberalismo e afirma que a direita
pretende destruir as suas "políticas sociais". Aprendeu com
Mário Soares subitamente mascarado de socratiano a
comportar-se como um camaleão. É muito descaramento reivindicar
políticas sociais quem promoveu o desemprego, tentou destruir o que
resta do Serviço Nacional de Saúde e desencadeou na frente da
Educação uma ofensiva contra os professores que levou estes a
sair às ruas em gigantescas manifestações de protesto.
Uma eventual derrota nas eleições significaria para
Sócrates, politico medíocre e inculto, um fim de carreira. O seu
nome seria rapidamente esquecido. Admito que será recordado apenas por
haver chefiado o governo mais reaccionário que o País teve desde
o 25 de Abril.
A comunicação social teima em qualificar de "esquerda"
o Partido Socialista. Essa inverdade é perniciosa porque engana uma
parcela ponderável do eleitorado.
O PS tem uma direcção que, não obstante algumas nuances
quanto aos métodos e ao discurso, aplicou com zelo durante quatro anos
uma política neoliberal respeitadora da ortodoxia definida por
Washington.
É tempo de se reconhecer a evidência: o PS não se limita a
fazer uma política de direita; transformou-se pela sua prática
num partido de direita, como a maioria dos partidos social-democratas europeus,
embora a sua base social não o seja maioritariamente.
Todo o alarido e confusão provocados pelos discursos de campanha dos
líderes do PS e do PSD, assim como pelas suas entrevistas à
televisão, contribuem para gerar a ilusão de que haveria
diferenças sensíveis na política que desenvolveriam no
Governo.
Iludem-se os que assim pensam. O sistema funciona com uma lógica tal
que, na prática, o resultado de uma eleição é
condicionado fundamentalmente não pela esperança de uma nova
política mas pela indignação provocada pela anterior. O
eleitorado mais do que votar pelo mais forte partido da oposição
costuma punir a política do partido que no governo a executou,
desrespeitando as promessas e o programa. O desfecho é mais um castigo
do que uma vitória. Assim aconteceu mais uma vez nas
eleições para o Parlamento Europeu. Manuela Ferreira Leite
festejou um êxito, mas, na realidade, o povo limitou-se a punir o PS.
A promoção do Bloco de Esquerda pelos media tem criado outra
ilusão, a de que estamos perante uma inflexão para a esquerda de
um segmento da sociedade portuguesa. Mas o crescimento eleitoral dessa
organização política é sobretudo resultante da
frustração de milhares de cidadãos, sobretudo jovens,
decepcionados com a política reaccionária de Sócrates. O
voto no BE é antes de mais outra forma de infligir um castigo ao PS. A
inesperada votação que o partido de Francisco Louçã
obteve em Junho em distritos de grande maioria conservadora, como Vila Real,
Bragança, Viseu e Guarda, é esclarecedora dessa tendência.
Aliás, a simpatia que o BE inspira hoje à burguesia confirma que
o grande capital o considera inofensivo.
Aos dirigentes do BE ajusta-se o qualificativo de "pequenos burgueses
enraivecidos" que Lenine aplicava a alguns grupos esquerdistas.
Integrado do sistema e com fome de poder e prebendas, o BE mudou o discurso e
engavetou as referências a Trotsky e a Mao, os ideólogos dos
partidos de cuja fusão resultou.
A prudência da morna campanha do PSD não surpreende. O seu
programa, ambíguo, tem afinidades com o do PS. O partido de Sá
Carneiro e Cavaco Silva, consciente da profundidade do descontentamento
popular, refugia-se em banalidades e silêncios quanto às suas
reais intenções, mas o historial dos seus governos dissipa
dúvidas. No Poder seria, como sempre foi, um instrumento da
estratégia do grande capital, submisso a todas as exigências de
Bruxelas e de Washington.
Quanto ao CDS, espelho embaciado da direita tradicional, sobrevive
graças fundamentalmente ao populismo agressivo de Paulo Portas, mas
carece de uma base social estável. É um partido caricatural.
Perspectivas nevoentas
Neste contexto, seria uma ingenuidade acreditar que das eleições
de Setembro pode resultar uma viragem na vida portuguesa, ou pelo menos um
governo comprometido com uma política que responda a
aspirações permanentes do nosso povo.
As engrenagens do sistema foram concebidas para impedir que isso possa ocorrer
no âmbito daquilo a que chamei a ditadura da burguesia de fachada
democrática.
Nestas vésperas eleitorais, a única certeza é o
desaparecimento da maioria absoluta. Nem o PS nem o PSD podem
alcançá-la.
Mas seja qual for o mais votado, quer a saída seja um governo
minoritário quer um governo de coligação (não sendo
de excluir o formato "bloco central"), a gravidade da crise e o mais
elementar bom senso tornariam inviável a continuidade da agressiva
política socratiana. A conjuntura exige do futuro governo a
aplicação da fórmula de Lampedusa: mudar alguma coisa para
que tudo continue na mesma!
Na Europa Ocidental, o panorama não é alias muito diferente.
Embora em cada país o povo enfrente situações e problemas
inseparáveis de heranças históricas diferenciadas e da
multiplicidade de culturas, tornou-se rotineiro, num círculo vicioso, o
rodízio no Poder dos partidos da direita tradicional e da
social-democracia, esta convicta de que administra melhor o capitalismo.
O quadro não justifica optimismo.
Complexa é, portanto, a situação em que vai actuar o PCP,
um dos poucos partidos operários da Europa que se assume como
marxista-leninista e se mantém fiel ao seu programa
revolucionário.
A direita, com máscara ou sem ela, continuará a governar. PS ou
PSD, ou ambos em convergência, levarão adiante uma política
de direita, qualquer que seja o seu figurino. As eleições de
Setembro não abrirão a porta a uma alternativa de esquerda.
Subestimar a importância da chamada às urnas é, entretanto,
uma atitude inaceitável e capituladora.
Lutar pela eleição de uma bancada comunista mais numerosa
é dever de todos quantos em Portugal estão consciente de que o
capitalismo, mergulhado numa das maiores crises da sua história,
está condenado a desaparecer e que a única alternativa à
barbárie e ao exterminismo por ele desenvolvido é o socialismo.
As gigantescas manifestações do povo português condenando
nas ruas a política do governo do PS demonstraram que a única
alternativa ao poder de uma direita mascarada de democrática passa pela
intensificação da luta das massas, pelo desafio ampliado dos
trabalhadores ou seja do povo assumido como sujeito da história
aos responsáveis pelo desgoverno do País.
É nessa perspectiva que concebo o reforço da presença
comunista na Assembleia da República, orientada para uma solidariedade
actuante e criadora com a luta de massas, numa permanente, firme e combativa
denúncia do sistema e na condenação de todas as armadilhas
do reformismo.
No horizonte, o socialismo é ainda uma aspiração distante.
Mas a crise do capitalismo aprofunda-se, a decadência do poder imperial
dos EUA é inocultável. O fim do capitalismo será apressado
pela lenta mas necessária convergência da luta dos povos.
Os portugueses progressistas, com os comunistas na vanguarda, têm nela um
papel insubstituível a desempenhar.
Notas:
[1] Evgueni Tarlé, História de Europa-1871-1919, Editoral Futuro,
Buenos Aires, 1960, pg 88
[2] A expressão "Ditadura da burguesia de fachada
democrática" é susceptível de ser mal interpretada
por muitos leitores. Ela traduz, porém, uma realidade. Em Portugal (e na
União Europeia) utiliza-se tanto a palavra democracia para definir os
regimes vigentes que as grandes maiorias tendem a crer que o sistema
político é efectivamente democrático.
Formalmente é, porque a Constituição da República
garante direitos e liberdades fundamentais. Mas o funcionamento das
instituições contraria o espírito da
Constituição. O grande capital exerce sobre a sociedade um
controlo hegemónico concebido e aplicado de maneira a impedir que o
poder político seja reflexo e consequência da
participação do povo. O Governo é responsável
perante o Parlamento de cuja confiança depende. Mas a engrenagem
funciona de maneira viciosa. Os deputados dos Partidos, com a
excepção do PCP, são designados pelas
direcções, sem consulta às bases, salvo casos raros. A
liberdade de expressão é também ficcional; a frase esconde
a evidência: o poder absoluto daqueles que controlam os meios de
comunicação social.
O povo é assim sistematicamente excluído das grandes
decisões que lhe condicionam o futuro pelos representantes do capital
que exercem o poder político.
Na prática vivemos sob uma "Ditadura da burguesia de fachada
democrática".
Serpa e V.N. de Gaia, Setembro/2009
O original encontra-se em
http://www.odiario.info/articulo.php?p=1292&more=1&c=1
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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