Seara de ódio
num campo de incógnitas
por Miguel Urbano Rodrigues
Uma seara de ódio contra os Estados Unidos cresce nos vales e montanhas
do Afeganistão. Mas não apenas nesse berço de grandes
civilizações. A irracionalidade da estratégia de
dominação planetária do sistema de poder norte-americano
e a agressividade que a acompanha criam a cada novo mês, quase a cada
semana, situações que geram em povos do Terceiro Mundo
sentimentos de revolta e rejeição.
Neste inicio do século XXI adquire uma dramática actualidade a
advertência do Che ao apontar o imperialismo norte-americano como o
grande inimigo da humanidade.
AFEGANISTÃO: ANARQUIA E VIOLÊNCIA
Do Afeganistão fala-se cada vez menos. Os grandes media
concluíram que o tema se tornou incomodo.
Até o muito prudente
The Washington Post
reconhece em editorial (9 de julho pp) que a anarquia alastra no país, o
comercio do ópio prospera, a violência tende a aumentar e a ordem
política pós talibã é muito frágil.
Enquanto os generais se interrogam no Pentágono sobre o paradeiro de
duas personagens erigidas em figuras míticas Osama ben Laden e o
mullah Omar as bombas e os mísseis norte-americanos continuam a
explodir em áreas remotas das montanhas, matando. De acordo com os
comunicados, os alvos seriam grupos de talibã ou de gente da Al
Qaeda. Mas com frequência as vitimas são pacíficos
moradores das tribos da fronteira ou soldados e oficiais de países
aliados que participam na ocupação do país. Isso
já aconteceu com tropas canadianas e britânicas, o que gerou em
Otawa e Londres uma onda de indignação. O mais recente engano
motivou um pedido de desculpas apresentado pelo próprio
secretário da
defesa, Donald Rumsfeld: um piloto da USAF tomou uma festa de casamento por
concentração subversiva e procedeu a uma chacina colectiva.
Noivos, parentes e convidados foram despedaçados pela metralha que
desceu do céu.
Naturalmente, nos EUA, associações de beneficência e de
defesa da moral continuam a proclamar que o povo afegão tem motivos
para agradecer a cruzada norte-americana que levou ao país a paz, a
educação, a democracia e a liberdade.
Assisti há dias a um vídeo original: a senhora Laura Bush,
dirigindo-se às mulheres afegãs, anunciava-lhes, com
convicção e emoção, que o Afeganistão,
graças à solidariedade dos EUA, se encontra no limiar de uma era
de felicidade.
Quanto à democracia, o quadro da Pax Americana é medonho. A Loya
Jirgah, a grande assembleia tradicional, convocada para decidir o futuro
político do pais, aprovou tudo o que dela foi exigido. A factura
apresentada pelos chefes tribais foi de muitos milhões de
dólares. Mas nem todos aceitaram o ouro americano. Algumas centenas
abandonaram o plenário instalado numa gigantesca tenda para dar
a cor local e denunciaram a grande farsa.
O presidente Hamid Karzai, que foi funcionário subalterno de uma
companhia petrolífera norte-americana, comporta-se como um criado dos
EUA. O assassínio do seu vice, Qadir, veio lembrar que o protectorado
imposto pelo império incentivou, em vez de atenuar, as lutas
endémicas travadas entre pachtuns e tadjiques.
Os ataques cada vez mais frequentes a instalações militares dos
EUA esses vão prosseguir. Washington atribui-os a bandos da Al
Qaeda. Mas o alto comando norte-americano está consciente de que eles
anunciam numa guerra de larga duração. O Afeganistão
não é o Kosovo. As espigas da seara de ódio contra os EUA
germinam naquela terra de culturas milenárias.
Quatro visitas ao pais nos anos 80 permitiram-me estudar com a profundidade
possível a história dos seus povos
[1]
. Conheci ali homens e
mulheres que me inspiraram grande admiração pela lucidez, firmeza
e coragem com que se batiam por uma revolução
democrática e nacional. Eles são o outro lado, o
invisível , de um sociedade arcaica cuja extraordinária
complexidade desmente o simplismo daqueles que lhe desconheciam quase a
existência antes de começarem a bombardear o Afeganistão
sob o pretexto de ser o pais dos Talibã e o refugio de Bin Laden.
Saberá Bush que no actual território do Afeganistão
floresceram na Antiguidade culturas maravilhosas e nasceram génios da
humanidade como Al Biruni, Firdusi e Sanaí? Terá conhecimento do
que significou para a Historia a Civilização Kuchana?
Terá ouvido falar das ruínas de esplendidas cidades
greco-bactrianas fundadas a Norte e Sul do Hindu Kuch pelos veteranos de
Alexandre o Magno?
Não me parece plausível dada a sua estrutura mental. Registei
que manifestou entusiasmo pelo bombardeamento de lugares muito
próximos de campos arqueológicos que constituem
património da humanidade.
OS EUA NA ÁSIA CENTRAL
No Pentágono acumulam-se relatórios sobre o desenvolvimento
previsível da oposição das populações
à situação criada no conjunto da Ásia Central
pela presença dos EUA.
As opiniões dos analistas divergem. Os norte-americanos chegaram para
ficar. Os atentados do 11 de Setembro permitiram levar adiante uma
estratégia de penetração e controle da Região
concebida com muita antecedência. Mas a ambição dessa
estratégia e a rapidez com que está a ser aplicada aumentam
dialectica mente a sua vulnerabilidade.
A agressão ao povo do Afeganistão (nunca antes se vira um
império declarar guerra a um homem, Osama ben Laden, e não a um
Estado) foi, afinal, apenas o prólogo de uma implantação
fulminante dos EUA na vastidão centro-asiática.
Na Republica do Kirguizistão já foi construída uma
gigantesca base aérea. Uma guarnição de 3000
norte-americanos instalou-se nessa área estratégica,
próxima das fronteiras ocidentais da China. No Turquemenistão, no
Kasaquistão e no Azerbaijão, dirigentes e técnicos de
grandes companhias petrolíferas movem-se como se estivessem no Texas.
Mas no Uzbequistão têm de ser cautelosos. Nesse pais,
pátria do turco chagatai Tamerlão um dos mais famosos
conquistadores da história uma guerrilha islâmica com
2000 homens actua nas montanhas, alarmando com a sua simples presença
as tropas americanas, o punho de ferro que antecedeu a chegada dos homens do
capital.
O russo Vladimir Putin não protesta. Vai mais longe nas cedências
do que Ieltsine, o que não parecia possível. Simula não
ver aquilo que é transparente. Um cordão de bases militares
norte-americanas, nada menos de 17, tomou forma desde a região
transcaspiana aos contrafortes ocidentais das Cordilheiras do Pamir e do Tien
Chan.
A China inquieta-se . E tem sobrados motivos para isso.
O BIG BROTHER DE ORWELL
O prof. David Held, da London School of Economics and Political Sciences,
definiu o 11 de Setembro como o ponto de inflexão da era
contemporânea em que o projecto da globalização neoliberal
se encontrou com o projecto do terrorismo em massa. A fórmula,
ambígua, suscita confusões, porque para aquele académico
britânico o segundo seria uma iniciativa do «terrorismo radical
mundial». E aí comete um erro. Ambos os projectos são,
paradoxalmente, comandados pelos EUA. O Estado que funciona como pilar e
motor da globalização utiliza o seu imenso poder para
desencadear, directa ou indirectamente, o terrorismo mais brutal contra
governos e povos que apresenta como estorvos ao desenvolvimento da sua
estratégia de dominação planetária. Para essa
política de escalada conta na nevrálgica zona do Médio
Oriente com um aliado, Israel, cujos métodos reactualizam os
utilizados pela Alemanha nazi.
A irracionalidade dos dois projectos o económico e o
político-militar que tendem para a fusão, começa,
entretanto, a assustar os sócios no G-7 que comparticipam dos
benefícios da sobrexploração do Terceiro Mundo e actuaram
como cúmplices das criminosas agressões contra os povos do
Iraque, da Somália, da Jugoslávia e do Afeganistão.
Em Junho o Weatherhead Center for International Affairs da Universidade de
Harvard promoveu no lago de Annecy, numa paradisíaca estancia
turística da França, um Seminário sobre «O Futuro da
Política Exterior dos EUA».
Estiveram ali eminentes especialistas em questões internacionais. Pelos
relatos a que tive acesso, soube que os participantes europeus e
asiáticos, predominantemente conservadores, ficaram em estado de
choque. O que os alarmou foi a convergência dos seus colegas
norte-americanos no tocante à aprovação do
«unilateralismo» dos EUA, ou seja do seu direito, autoproclamado, de
agirem por conta própria, à revelia das Nações
Unidas ou dos seus próprios aliados .
Quanto ao modo de actuar, os académicos norte-americanos dividiram-se.
Para uns, defensores da tendência imperialista, os EUA devem intervir em
qualquer lugar do mundo onde identifiquem uma ameaça para os seus
interesses. Segundo a outra tendência, a isolacionista, os EUA deveriam
salvo em casos excepcionais abster-se de
intervenções directas, optando por lançar uma contra a
outra as potências regionais cuja política os incomode. Exemplos:
o Irão contra o Iraque, o Paquistão contra a Índia, a
China contra a Rússia, ou eventualmente contra o Japão.
Diego Hidalgo, presidente da Fundação para as
Relações internacionais e o Dialogo Exterior, esteve presente.
Recorda que em momento algum os expositores norte-americanos, geralmente
arrogantes, abordaram temas como a paz, a solidariedade, a ajuda aos povos
que se afundam na fome, na miséria e na doença .
O Presidente George Bush é um adepto entusiástico do
«unilateralismo. Para ele, quem deve governar o mundo são os EUA,
como nação predestinada.
No seu discurso de West Point, dirigindo-se aos futuros oficiais e ao mundo,
deu um passo em frente na escalada neo-nazi ao fazer a apologia das guerras
preventivas. Considera negativo esperar pela concretização
daquilo a que chama as ameaças terroristas. Adverte que os EUA, ao
pressenti-las, devem atacar sem perda de tempo. As referencias a Cuba
são, por si só, reveladoras do recorte paranóico dessa
arenga. Deve ignorar que algumas sentenças das suas arengas belicistas
lembram passagens de discursos de Hitler e Goering.
O presidente da grande República tem dificuldade em compreender a
ingratidão da esmagadora maioria da humanidade. Dói-lhe que
milhares de milhões de pessoas não demonstrem
admiração pelo funcionamento da democracia norte-americana e
pelo esforço que esta desenvolve para levar a liberdade, o progresso,
a cultura e a paz aos confins do mundo.
A recusa de Washington de submeter as tropas norte-americanas em
missões da ONU à jurisdição do Tribunal Penal
Internacional é expressiva da tendência crescente da
Administração Bush para se colocar acima do Direito
Internacional. O resultado foi um compromisso com sabor de
capitulação do Conselho de Segurança para evitar a
retirada da Bósnia dos militares dos EUA.
À força do direito Bush contrapõe o direito dos fortes. No
plano interno, a lei antiterrorismo, aliás aprovada ainda no governo de
Clinton, golpeia duramente direitos e garantias constitucionais. Até o
velho instituto do
habeas corpus
, cartaz das liberdades norte-americanas, está ameaçado de
suspensão.
A política dos EUA no Médio Oriente, nomeadamente o apoio ao
genocídio que atinge o povo da Palestina e a exigência de renuncia
de Yasser Arafat, a amplitude da sua implantação na
Ásia Central e os inconfessáveis objectivos por ela visados,
as repetidas ameaças à Coreia Popular, ao Irão e
à Líbia, a naturalidade com que o Presidente Bush anuncia
uma nova guerra destinada a eliminar o Iraque e as revelações
sobre planos oficiais para assassinar estadistas estrangeiros definidos
como inimigos resumindo, a intervenção global do sistema
de poder imperial nos assuntos internacionais e o gigantesco aumento dos
gastos militares emergem como expressão de uma perigosa irracionalidade.
As apreensões da humanidade aumentam na medida em que essa
estratégia de loucura encontra com porta voz de projectos guerreiros
alucinatórios um homem investido de enormes poderes cujo primarismo,
incultura e escassa inteligência suscitam consenso universal.
Era inevitável que as contradições entre os interesses
dos aliados europeus dos EUA e as perigosas e agressivas metas de uma
estratégia que ameaça a própria continuidade da vida no
planeta sejam hoje transparentes. Mas a covardia dos governos da
União Europeia (sócios na partilha dos recursos mundiais) e as
forças e mecanismos de poder que os controlam impedem que o
agravamento das tensões no clube dos ricos possa contribuir para
conter a escalada americana que empurra a Terra para uma tragédia.
COMO É POSSÍVEL ?
Dando livre curso à tendência bem norte-americana de
privilegiar o secundário em prejuízo do fundamental, um numero
crescente de intelectuais liberais formula nas grandes universidades dos EUA a
pergunta «Como foi possível?», procurando uma
explicação para a presença de George W Bush na Casa
Branca.
A resposta a essa questão parece preocupar muito mais esses brilhantes
intelectuais do que o combate ao sistema em cujo vértice este
presidente incapaz e perigoso se situa. Também não os motiva a
busca de uma explicação para a elevada popularidade de que
continua a gozar e o apoio que a maioria da sociedade presta à sua
política perigosamente aventureira.
O jornal mexicano
Norte,
chamava há dias (17 de Julho pp) a atenção para uma
realidade que perturba muito os cérebros do sistema de poder dos EUA:
a derrocada do socialismo real na URSS e a desagregação desta
não conduziram ao triunfo do capitalismo, como previam os
epígonos da globalização neoliberal.
O capitalismo globalizado, de figurino imperial, pelo contrario, está
muito doente. E os sintomas, alarmantes, suscitam temores de que a
doença seja incurável.
A repentina vaga de escândalos financeiros nos EUA, gerando o
pânico nas bolsas, acabou, aliás, surpreendentemente por envolver
a própria pessoa do presidente dos EUA, trazendo à memória
outros escândalos, que abalaram o prestigio de anteriores ocupantes da
Casa Branca.
As fraudes que fizeram ruir gigantes como a Enron, a Word Com, a Andersen e
outras transnacionais permitiram que milhões de americanos 60%
das famílias jogam na Bolsa - descobrissem de um dia para outro
que empresas que lhes inspiravam profundo respeito eram, afinal, geridas por
executivos que se comportavam como gangsters.
Mas, inesperadamente, outros negócios sujíssimos, em empresas
menores, revelaram que o presidente dos EUA tem também um turvo passado
financeiro. «A rede de corrupção que envolve a
família Bush e a firma petrolífera Haliburton (e outras)
cito outra vez
El Norte
«provoca assombro, mas também nojo e
indignação».
Sabemos agora que num sistema que pretende ligar a ascensão
política ao mérito pessoal, uma empresa ligada ao Presidente foi
beneficiada por contratos com o Pentágono já durante a chamada
guerra contra o terrorismo. Para cúmulo, o actual vice-presidente Dick
Cheeney, um super falcão foi um dos dirigentes da Haliburton...
George Bush, que em 91 escapou milagrosamente da Securities and Exchange
Comission na sequência de negócios suspeitos, cometeu então
na empresa Harken o tipo de fraudes que hoje censura nos gigantes como a World
Com, já falida.
Acompanhei pela televisão, com mal estar, alguns discursos deste
presidente que deveria envergonhar o povo de Jefferson e Lincoln. Sendo,
obviamente, muito diferente, este rebento da família Bush me faz
lembrar pela arrogância, auto suficiência, gestos, burrice e
agressividade o Kaiser Guilherme II quando era o chefe do poderoso
Império Alemão, cujo exército era o terror da Europa.
George filho não pode, reconheço, proclamar como fazia o
Hohenzollern que o seu poder tem origem divina. Mas meses atrás
anunciou solenemente que a sua cruzada contra o povo do Afeganistão
contava com o apoio de Deus .
Para que moderna tragédia nos está empurrando a neo
barbárie norte-americana cujo símbolo é a personagem
grotesca de George W.Bush?
____________
[1]
Miguel Urbano Rodrigues, «Nómadas e Sedentários na
Ásia Central», 435 pgs, Ed. Campo das Letras, Porto, 1999.
A versão em espanhol deste artigo encontra-se em http://www.rebelion.org/internacional/urbano260702.htm
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
|