por Miguel Urbano Rodrigues
Da África pouco se fala. É um continente quase esquecido mesmo
pela maioria daqueles que lutam contra a barbárie imperialista que
ameaça a humanidade.
Mas a África está presente nas grandes lutas do nosso tempo. Dois
acontecimentos importantes vieram confirmar a participação
crescente dos africanos no combate ao imperialismo e na recusa da
globalização capitalista, o flagelo que um sistema de poder
monstruoso tenta impor no desenvolvimento de uma estratégia de
dominação planetária.
Bamako, a capital do Mali, foi a sede do VI Fórum Social Mundial, de
19 a 23 de Janeiro, que precedeu o de Caracas, iniciado a 24 do mesmo mês.
No dia 18, também em Bamako, promovida pelo Fórum do Terceiro
Mundo, pelo Fórum das Alternativas e pelo Fórum para Outro Mali,
houve uma jornada internacional com características inéditas. Foi
de certa maneira um prólogo ao Fórum.
Quase uma centena de personalidades progressistas, vindas da Europa, da
Ásia, da América e de diferentes países africanos
reuniram-se para debater temas indissociáveis de uma
intensificação da luta contra o imperialismo e da
reconstrução da solidariedade real dos povos do Sul, na
fidelidade ao espirito da Conferencia de Bandung cujo 50º aniversario se
comemorava.
A necessidade de se passar da recusa do neoliberalismo e da
condenação das acções criminosas do imperialismo a
acções imediatas que traduzam a consciência do perigo
mortal que ameaça a própria continuidade da vida na Terra marcou
a atmosfera das intervenções nas dez mesas redondas realizadas
após a sessão plenária. Muitas propostas interessantes
foram formuladas nos trabalhos na perspectiva da construção de um
mundo multipolar autêntico que responda a aspirações
permanentes da condição humana.
Temas como a retirada dos exércitos EUA do Iraque e do
Afeganistão, o desmantelamento das bases militares e dos campos de
prisioneiros, a dissolução da NATO, a gestão
democrática das sociedades, a gestão dos recursos naturais, a
construção da frente unitária do Trabalho, a
perversão e o controle do sistema mediático mundial e a
organização económica da globalização
alternativa mereceram atenção especial.
Samir Amin, que foi com o belga François Houtart e o francês Remy
Herrera, o grande arquitecto da Jornada Internacional do dia 18, definiu com
clareza o espirito e os objectivos a atingir pelas iniciativas de Bamako.
Trata-se de passar da elaboração de uma consciência social
à construção de um actor social. Ricardo Alarcon,
presidente da Assembleia do Poder Popular de Cuba, foi saudado com uma
carinhosa ovação.
UM FÓRUM DIFERENTE
A abertura dos trabalhos do Fórum foi precedida de um desfile pelas
ruas de Bamako. Mais de dez mil pessoas participaram nessa
manifestação. Gente chegada dos quatro cantos do mundo, ombro a
ombro com os malianos, contribuiu para a atmosfera internacionalista.
Até tuaregs do deserto, montados nos seus camelos, se integraram na
manifestação que terminou no Estádio Nacional onde a
Comissão Maliana do Fórum promoveu um espectáculo
belíssimo de canto e dança, iniciado com uma vibrante
saudação da juventude aos participantes estrangeiros.
Os temas constantes do programa do Fórum foram debatidos em
múltiplos lugares, desde o Centro de Conferencias Internacionais
à Universidade à Biblioteca Nacional, a Museus, Palácio
da Cultura, etc.
Os grandes problemas que preocupam a humanidade no contexto da actual crise de
civilização resultante da globalização neoliberal e
da estratégia imperial dela inseparável foram discutidos
durante três dias. De tudo se falou desde as criminosas guerras
"preventivas" dos EUA, à defesa do ambiente, às
questões da agricultura e do trabalho. A América Latina, o
Médio Oriente, a China, o rumo da União Europeia,
múltiplos desafios colocados pela marginalização da
África suscitaram debates muito participados nas oficinas dedicadas a
esses assuntos.
Como é da tradição, não houve
Declaração Final. Mas, por iniciativa do Fórum do
Terceiro Mundo e do Fórum Mundial das Alternativas, foi lançado
após o encerramento dos trabalhos, o
Apelo de Bamako
, subscrito pelos representantes de dezenas das organizações
presentes.
Nesse documento que resistir.info publica o resumo afirma-se a
vontade de construir a solidariedade dos povos da Ásia, da
África, da Europa e das Américas perante os desafios do
desenvolvimento do século XXI, e um consenso político,
económico e cultural alternativo à globalização
neoliberal e militarizada e ao hegemonismo dos EUA e dos seus aliados.
Segundo a organização maliana, aproximadamente 30 mil pessoas
participaram no Fórum.
ATMOSFERA HUMANISTA NUM PAÍS ESQUECIDO
A escolha de Bamako para sede do Fórum Social Mundial surpreendeu
milhões de pessoas.
O Mali é um país da África Ocidental, simultaneamente
enorme e muito pobre. Com uma superfície de 1 240 000 km
2
, quase igual à de Angola, tem uma população de 14
milhões, oriunda de muitas etnias, concentrada nas zonas de savana,
semi-húmidas, do Sul. O resto, quatro quintos, é árido ou
desértico, cobrindo uma ampla faixa do Saara.
Um rio gigante, o Niger, com 4200 quilómetros, é o pulmão
desta terra esquecida.
Esquecida, mas com uma grande história. O Mali foi o berço dos
impérios medievais da África sub-saariana. Islamizado muito
cedo 90% dos habitantes são muçulmanos por
pregadores vindos no século XI do Maghreb foi ali que se
constituíram os primeiros estados organizados do Bafour, nome
originário da África Ocidental. Os cronistas árabes
chamavam-lhe o Bilad Sudão, "o pais dos negros", famoso pelo
espirito guerreiro dos habitantes.
Os contactos com o Egipto e com os estados do Maghreb contribuíram
decisivamente para que no Sahel sub-saariano surgissem impérios
medievais onde floresceram a opinião é do eminente
historiador Joseph Ki Zerbo as civilizações da
«grande época da África Negra». Três desses
impérios, o do Mali, o de Gahna e o do Songhay tiveram por epicentro as
terras da bacia do Niger povoadas por tribos islamizadas do antigo Sudão
Ocidental. Cidades como Tombuctu e Gao foram então centros culturais de
prestígio mundial e pólos do comercio caravaneiro com o
Mediterrâneo e o Oriente. Da região saiu mais ouro durante a
Idade Media que do México após a conquista espanhola.
Ali nasceram e lutaram contra todos os conquistadores estrangeiros personagens
cujos nomes figuram hoje no panteão dos heróis da África:
Sundjata, o fundador do Império do Mali, no século XIII; Kankan
Moussa, o imperador que na Idade Media se impôs como poderoso
interlocutor aos árabes, Soni ali Ber, o criador do Império do
Songhay , desmantelado no final do século XVI, e Samory Toure, o chefe
que durante duas décadas resistiu à ocupação pela
França.
Do antigo Mali, retalhado em pedaços, quase a régua e compasso,
pelo colonialismo francês, sobrou um território sem acesso ao
Atlântico, parte do antigo Sudão ocidental.
Foi desse pais, herdeiro de um nome venerado pelos africanos, que mulheres e
homens progressistas, unidos pela esperança num mundo diferente,
lançaram agora o Apelo de Bamako, como contribuição
humanista à emergência de um novo sujeito popular histórico.
Os malianos fizeram prodígios para que o Fórum Social Mundial
na sua primeira vinda à África correspondesse à
expectativa gerada. Assumiram com dignidade as suas responsabilidades,
suprindo com entusiasmo e sentido de responsabilidade a escassez de recursos
materiais e a inexperiência em iniciativas do género.
E o Fórum foi um acontecimento maravilhoso. Graças sobretudo ao
povo maliano.
Há quase meio século passei umas semanas na Guine Conakry e
estive em Dakar, no Senegal. Tinha uma ideia muito vaga do que iria ver e
sentir no Mali, que na memória me aparecia ligado a Modibo Keita, um dos
mais puros revolucionários da geração que lutou pela
independência das antigas colónias francesas.
O encontro com a realidade maliana foi gratificante. Descobri um povo
diferente.
Diferente talvez pela comovida fidelidade a um grande passado cuja
herança assume numa perspectiva humanista. A primeira surpresa veio da
fraternidade no relacionamento. Num mundo onde a violência alastra
a África não constitui excepção o
Mali apareceu-me como uma terra na qual todo o forasteiro até prova em
contrário é tratado como amigo potencial.
Em Bamako, a capital, a taxa de criminalidade é baixíssima. O
estrangeiro pode perder-se de noite em ruas escuras sem correr riscos.
Bamako é possivelmente uma das capitais mais pobres da África,
para o que terá contribuído a interioridade do pais,
território sem acesso ao mar.
A cidade que tinha uns escassos milhares de habitantes quando os franceses nela
se instalaram no final do século XIX ultrapassa hoje o milhão.
Mas, contrariamente a outras capitais do continente, conservou a atmosfera de
uma grande aldeia africana. Um punhado de grandes edifícios modernos,
como o Banco Central, o Centro Internacional de Conferencias e o hotel
insígnia de um grupo transnacional, semeados no centro, inserem-se
num panorama de casas baixas alinhadas em ruas arborizadas que da
manhã ao anoitecer lembram serpentes ondulantes pelo movimento dos
que compram e vendem coisas a qualquer hora, ou conversam, bebem e comem em
restaurantes populares.
O rio tutelar do pais, o Niger, que a poucas centenas de quilómetros da
nascente nas serranias guineenses já tem mais de um quilometro de
largura, mantém com Bamako uma relação de intimidade
profunda. Tudo naquela artéria líquida apresenta o toque do
excepcional, desde a multidão de ilhotas verdes que o obrigam a
dividir-se, a peixes gigantes como o capitão que atingem os cem quilos.
Numa cidade onde a vocação do convívio é fonte de
alegria , o rio atravessa-a como se fora um ser vivo, em diálogo com
as coisas e as pessoas.
O Fórum sentiu a atmosfera de Bamako e integrou-se nela. Ao caminharem
pelas ruas em pequenos grupos multinacionais, os convidados estrangeiros eram
abordados a cada passo por jovens e velhos. As conversas brotavam
espontâneas de uma primeira e inesperada pergunta e davam a volta a um
mundo de temas.
Nas sessões de trabalho, a natural diferenciação de
mundividências e opções ideológicas de intelectuais
de dezenas de países esbatia-se no debate sobre grandes
questões que desembocavam em convergências de solidariedade aos
povos da Palestina, de Cuba, do Iraque e do Afeganistão. O nome de
Chavez e a firmeza da Venezuela bolivariana ameaçada pela
arrogância do imperialismo norte-americano foram repetidamente aclamados
em mesas redondas em que a condenação da estratégia de
barbárie de Bush&Cia foi unânime.
O espirito do Apelo de Bamako marcou o Fórum do inicio ao fim em
sessões muito participadas com intervenções em que ao
francês sucedia o árabe e o inglês enquanto alguém na
sala falava em persa, turco ou bambara, o idioma veicular dos malianos.
Os que tiveram a oportunidade de viver as jornadas fraternais do Fórum
Social Mundial de Bamako regressaram aos seus países de origem
fortalecidos na convicção de que outro mundo é
possível se, juntos, lutarmos, para passar combatendo repito a
exortação de Samir Amin "da
elaboração de uma consciência social à
construção de um actor social".
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