"Memória argelina"
um livro comovente de Henri Alleg,
lição de humanismo revolucionário
por Miguel Urbano Rodrigues
Conheci Henri Alleg em 1986, durante um Congresso de Jornalistas, em
Sófia.
Tínhamos ambos ultrapassado os 60 anos.
"É muito raro ouvi dele recentemente em Serpa que
amizades tão fortes como a nossa se estabeleçam em idades
avançadas". Recordei essas palavras ao findar a leitura de
Mémoire Algérienne,
o seu último livro.
[1]
Henri Alleg integra a galeria daqueles seres excepcionais que fizeram nascer em
mim o sentimento da amizade antes da primeira troca de palavras. Isso aconteceu
quando li
La Question,
o mais belo e terrível libelo contra a tortura, escrito numa
prisão da Argélia há quase meio século, depois de
resistir estoicamente à barbárie dos pára-quedistas de
Massu.
Com excepção do olhar e da cabeleira ruiva, nada na
aparência daquele homem pequeno e de voz suave chama a
atenção. Faz lembrar aquilo a que os italianos chamam o
uomo qualunque.
Impossivel ao olhar para ele imaginar a sua coragem espartana, a
inteligência fulgurante, a capacidade de suportar o sofrimento ate
à ultima fronteira e de enfrentar desafios inesperados, a lucidez da
mundividência histórica, a firmeza ideológica, o talento do
escritor, e a solidariedade com os explorados e oprimidos erigida em
razão de existência.
Não há revolucionários perfeitos. Mas entre todos os que
conheci pessoalmente ao longo de uma existência que me levou a correr
pelo mundo, Henri Alleg, é talvez, na sua modéstia, aquele que
mais se aproxima da imagem do comunista ideal, tal como o concebi na juventude
a partir de clássicos da literatura e do marxismo.
Porquê?
Em primeiro lugar pelo humanismo e ausência de
contaminação. Lenine advertiu que a vida em qualquer sociedade
é decisivamente marcada pela ideologia da classe dominante. Os que nos
formamos no mundo capitalista e lutamos pela destruição da
engrenagem do sistema somos em maior ou menor grau condicionados pelos seus
mecanismos, embora nem sempre essa realidade suba ao nível da
consciência. Em Henri Alleg identifico uma imunidade aparente ao
contágio no quotidiano pelos
vírus
que nos envolvem permanentemente. Habituei-me a ver nele o
revolucionário puro.
No final do ano passado, quando terminava
Memoire Algerienne,
disse-me pelo telefone que não seria "um bom livro".
Como sempre era sincero. Mas, conhecedor da extraordinária riqueza do
tema, da sua exigência e da modéstia que a acompanha não
acreditei.
O livro é uma obra comovente, uma lição de humanismo
revolucionário. A vida de Henri, durante duas décadas, surge-nos
indissoluvelmente ligada à história da Argélia. Daí
o titulo.
Em
La guerre d'Algérie,
a obra monumental em três tomos que concebeu e dirigiu, está
ausente como personagem. Agora, num texto de memórias ele evoca a sua
participação em acontecimentos que emergem já como
capítulos da história da África, da França e da
humanidade.
O jovem que nas vésperas da segunda guerra mundial teve o primeiro
contacto com a Argélia e pressentiu na sua amizade com um menino
engraxador que descobria uma realidade social monstruosa e portanto condenada a
desaparecer não podia então imaginar que um grande ideal e a luta
pela libertação de um povo colonizado e humilhado fariam dele um
dos primeiros franceses a ser torturado pelo Exército da sua
pátria.
Foram as exigências desse combate e a fome de uma autêntica
fraternidade que o transformaram em jornalista e em comunista.
Que caminhada a sua no tempo de horrores em que dirigiu
Alger Republican,
o diário que na sua breve existência expressou o sentir e a
esperança dos oprimidos na Argélia martirizada.
Em colaboração com A. Benzine e B. Khalfa, companheiros de
redacção e de ideal, Henri escreveu muitos anos depois um livro
maravilhoso,
La Grande Aventure d'Alger republicain.
Nesta época de perversão mediática, essa obra, hoje quase
esquecida, deveria ser estudada em todas as faculdades de jornalismo. Ela
é um documento comovedor sobre o sonho utópico de um punhado de
franceses e argelinos que acreditavam numa Argélia da fraternidade entre
todos os que nela haviam nascido, independentemente da origem racial e da
religião. A equipa de
Alger republicain
bateu-se por esse sonho com bravura e tenacidade até ao fim. O
compromisso com a verdade, sem medos, nem concessões, foi levado
tão longe pelo colectivo que não conheço precedente
similar na história da imprensa mundial. Daí a grande
lição que a historia do pequeno-grande diário argelino
transmite a sucessivas gerações de jornalistas.
A clandestinidade, após o encerramento do jornal, depois a
prisão, a tortura, e os anos de cárcere, não abaterem o
animo de Henri Alleg. Reforçaram-lhe a combatividade e a fidelidade ao
ideal comunista. Um dia um director de presídio disse-lhe que ele nunca
seria o mesmo ao recuperar a liberdade. Enunciou uma realidade. Mas o
porta-voz da repressão não podia compreender que o sofrimento e a
solidariedade com os companheiros das prisões e campos de
concentração argelinos haviam transformado Henri Alleg num
sentido oposto ao imaginado pelos seus carcereiros. Os anos na prisão
--como ele sublinha -- "tornaram-me mais atento e aberto aos outros, menos
absoluto nos meus juízos, ainda mais convicto da necessidade de fazer
"tábua rasa" de uma sociedade de opressão e de desprezo
para criar novas relações de fraternidade e de solidariedade
entre os homens e, com maior firmeza do que nunca, decidido a consagrar todas
as minhas energias a essa esperança".
Foi atrás das grades que o director de
Alger Republicain,
burlando a vigilância dos guardas, escreveu
La Question,
a denúncia da tortura que motivou o protesto solidário de Jean
Paul Sartre, Roger Martin du Gard e François Mauriac. A
ressonância mundial do livro de Alleg contribuiu para apressar o fim da
guerra da Argélia e colocou o autor na galeria dos maiores jornalistas
do século XX.
A simples notícia da publicação do livro (logo apreendido)
em França provocou alias nos presídios argelinos uma
explosão de alegria. Foi recebida como uma vitória colectiva.
Por si só as paginas em que o militante revolucionário evoca a
vida e a luta na prisão e a sua fuga do presídio de Rennes, em
França, para onde fora transferido após a campanha mundial pela
sua libertação, constituem um livro dentro do livro. Para o
leitor fazer uma ideia do funcionamento dos mecanismos repressivos do Estado
Francês naquela época, julgo útil informar que
L'Humanité e Liberation
foram apreendidos quando publicaram a carta dirigida por Alleg ao Procurador
da Republica, relatando as torturas a que fora submetido no centro de terror de
El Biar pelos pára-quedistas da 10 Divisão. Nada resultou alias
do inquérito instaurado. Nem um só dos torcionários foi
punido e alguns acumularam promoções e
condecorações por serviços prestados à
Pátria.
O objectivo do jornalista sequestrado e torturado era outro. Pretendia e
conseguiu iluminar "o verdadeiro rosto da guerra travada na Argélia
e acusar publicamente os carrascos e torcionários".
No capitulo dedicado à evasão, que recorda com pormenores
emocionantes e o fino sentido de humor que lhe marca a personalidade, Henri
Alleg coloca os leitores perante um quadro de toques folhetinescos. Parecia
impossível fugir; mas ele conseguiu, assombrando o director do
presídio e os guardas. A solidariedade do Partido Comunista
Francês e a imaginação e dinamismo da sua companheira,
Gilberte, uma revolucionária de fibra, foram decisivos para o
êxito de um plano tido à partida como inviável.
Os últimos capítulos do livro são talvez aqueles em que
melhor transparece a acumulação de cultura profunda do comunista
que, pela estrada do sofrimento, ampliou na prisão a sua
mundividência de revolucionário.
La Question,
rapidamente editada em dez línguas, catapultou Henri Alleg para os
pináculos da fama. Foi recebido como um herói na URSS, na
Checoslováquia, em Cuba. Mas o êxito fortaleceu nele a
modéstia e o sentido da responsabilidade.
Novos combate, muito diferentes, do anterior, o esperavam no regresso à
Argélia para retomar a publicação de
Alger republicain.
A nova Argélia, que durante uma luta épica se anunciava como
revolucionária e socialista começou logo após a
independência a distanciar-se do projecto.
Henri acreditava que o primeiro número seria recebido com tamanho
carinho que seria impossível a poder algum não levar isso em
conta e assumir publicamente a responsabilidade de uma futura
proibição.
Mas tal esperança não foi confirmada pela história. A
volta do jornal foi saudada com entusiasmo pelo povo e ele logo se tornou o
primeiro e mais querido diário do pais. Por isso mesmo a sua linha
revolucionária e humanista incomodou personalidades proeminentes na
estrutura de poder que ia tomando forma, num contexto de lutas fratricidas
entre companheiros da véspera.
No editorial, ao reaparecer,
Alger republicain
definia assim o país que deveria emergir da guerra de
libertação: "Uma Argélia que destrua as sequelas do
colonialismo, que ofereça a todos, qualquer que seja a sua origem, os
mesmos deveres e direitos, que avance com audácia pela estrada da
democracia, justiça e progresso. Uma Argélia na qual a terra
pertença aos felás, aos operários agrícolas, na
qual as riquezas essências sejam propriedade de todo o povo".
Não foi o que aconteceu.
Os retornados franceses, ao abandonar o país trataram de destruir ou
desmantelar o que não puderam levar, desde infra-estruturas
básicas, ao mobiliário das casas, aos automóveis a
serviços de interesse público. Dissipada a euforia da
independência, o povo argelino compreendeu que teria de partir quase do
zero, no que se refere a equipamentos, para construir o futuro.
Henri recorda o espectáculo desolador que então ofereciam
"dirigentes ainda na véspera tidos por heróis e guias e que,
logo que regressaram ao pais independente, mas ainda ensanguentado, a
braços com mil problemas dramáticos, passaram a lutar pelo poder,
destruindo com as próprias mãos o mito de uma FNL
inquebrantavelmente solidária ao serviço dos interêsses e
aspirações de uma nova Argélia".
"Durante semanas -- transcrevo -- o pais, fustigado como navio sem leme e
sem rumo, onde a autoridade do executivo provisório era nula, ficou
à beira da guerra civil e os choques armados resultantes dessa desordem
fizeram centenas de mortos dos quais não se falou".
Um luar de esperança reapareceu, tímido, quando a
situação pareceu estabilizar-se sob o governo de Bem Bella.
Alger republicain
saudou em editorial, num número especial, o decreto que regulamentou o
destino dos chamados
"biens vacants"
(sem proprietário), acentuando que doravante não havia mais
"bens sem proprietário", mas empresas e
explorações de autogestão.
"A experiência de alguns países -- advertiu o jornal -- de
independência recente ensina que uma camada social privilegiada pode
tomar o poder para seu exclusivo proveito. Agindo assim, priva o povo do fruto
da sua luta e afasta-se dele para se aliar ao imperialismo. Em nome da unidade
nacional, que explora com oportunismo, a burguesia pretende actuar para o bem
do povo pedindo-lhe que a apoie"?
Uma tal linguagem desagradou profundamente a elementos influentes da nova
burguesia em formação instalados já em postos chave da FLN
e do governo.
O Partido Comunista Argelino foi proibido.
Alger republicain
recebia e publicava "muitas cartas de leitores que punham em causa, com
provas, os beneficiários de malversações e os
funcionários responsáveis que as encobriam. Longe de manifestar
reconhecimento por esse trabalho de salubridade pública, os ministros
reagiam com furor quando aqueles que eram postos em causa os tocavam de
perto". As críticas e ameaças de poderosos começaram
a chover na redacção.
O jornal defendia uma imprensa "ao serviço do povo, ao
serviço da verdade". E isso era intolerável para grande
parte dos detentores do poder.
Após o golpe de estado que derrubou Ben Bella, ficou claro que os dias
de
Alger republicain
estavam contados. O diário revolucionário foi fechado. Henri
evoca com pormenores os últimos dias do jornal.
Era o coronel Boumedienne um conservador? Não. Combatente exemplar
nos anos da luta muitos analistas identificaram inclusive nele um dirigente
progressista. Nunca se declarou anticomunista e manteve o socialismo como
objectivo no seu projecto de transformação da sociedade argelina.
Mas a referencia ao socialismo não passava de um eufemismo.
Henri Alleg recorda que muitos ideólogos de esquerda, acompanhando
Nikita Kruchev que nunca foi uma autoridade em marxismo defendiam
a tese segundo a qual os países libertados do jugo colonial e a
própria Argélia optariam inevitavelmente por romper com o
capitalismo, como já fizera Cuba, porque esse era o sentido da
história". Foi porem a História, que desmentiu essa tese.
Países do Terceiro Mundo cujos partidos no poder se declaravam
marxistas-leninistas não romperam com o capitalismo. Isso aconteceu em
algumas das antigas colónias africanas de Portugal e também na
Argélia, onde os dirigentes da FNL nunca esconderam, aliás, a sua
desconfiança dos comunistas.
Alleg recorda que os novos governantes temiam qualquer forma de
contestação operária. Essa recusa de um "movimento
social real traduzia o receio de ver consolidada uma organização
operária independente do aparelho partidário, que inevitavelmente
seria lavada a opor-se aos apetites ambições da nova
burguesia".
Reflectindo sobre essa situação e as suas origens, o escritor
recorda que na desconfiança inspirada pelos operários aos
dirigentes da FLN se identifica a influência de Frantz Fanon. Este numa
tese de raiz maoista, logo adaptada por muitos políticos progressistas,
sustentava que "nos territórios coloniais o proletariado é o
núcleo do povo colonizado mais privilegiado pelo regime colonial",
pelo que "somente o campesinato é revolucionário".
O desenvolvimento da História não tardou a demonstrar a falsidade
da tese, mas foi muito alto o preço, nomeadamente em África,
repito,
da desconfiança que a dirigentes progressistas inspirava o proletariado
como classe revolucionária, obviamente, os partidos comunistas.
Sentindo fechar-se as portas para lutar pelo povo da Argélia, Henri
Alleg não podia permanecer no país como espectador. Voltou
à
França e prosseguiu ali o seu combate.
Pouco espaço dedica no livro a essa fase da sua vida, quase quarenta
anos. Mas em
L'Humanité,
como secretário da Redacção, como escritor, como simples
militante, o seu batalhar de intelectual comunista foi permanente.
Ao revisitar com antigos companheiros, transcorridas décadas, as salas
da antiga redacção de
Alger republicain,
foi dominado por uma grande emoção. Transcrevo as palavras finais
de
Mèmoire Algerienne,
inspiradas por esse momento de reencontro com o passado:
"
sabíamos que não poderíamos nunca renunciar
àquilo que fora e continuava a ser a nossa primeira e luminosa
razão de viver: dar continuidade com milhões de outros à
luta secular dos explorados, dos oprimidos, dos "condenados da
terra", para que possa nascer, finalmente, outro mundo, um mundo de
liberdade, de verdadeira fraternidade".
Nessas palavras está a imagem de Henri Alleg, revolucionário
comunista exemplar.
Serpa, Novembro/2005
[1]
Henri Alleg,
Mémoire algerienne
, 407 pags, Ed. Stock, Paris, Setembro de 2005, ISBN: 223405818X.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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Versão em castelhano:
Memoria argelina -- un libro conmovedor de Henri Alleg
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