por Miguel Urbano Rodrigues
Nas últimas semanas a crise mundial agravou-se perigosamente.
A ameaça de uma nova guerra dita "preventiva", isto é
de uma agressão imperial contra um estado soberano, no caso o
Irão, é inseparável da crise estrutural do capitalismo. A
potência que hegemoniza o sistema, os EUA, não consegue encontrar
soluções para esta crise. O país mais poderoso e rico do
mundo é hoje uma nação parasita que consome muito mais do
que produz. É um facto que o dólar permanece como moeda mundial,
mas o gigantismo dos défices do Orçamento e Comercial e a
colossal divida externa (a maior de todas) deixa transparecer a fragilidade da
ditadura do bilhete verde.
A inexistência de uma saída compatível com a lógica
do capitalismo gera o desespero na extrema-direita estadunidense que controla
hoje a Casa Branca e o Pentágono. O malogro interno e externo da
globalização neoliberal levou a opções que
como bem assinalou
Samir Amin no Fórum de Bamako
estão a gerar o caos.
A histeria crescente do grupo de fanáticos que controla as alavancas do
poder político em Washington traduz a consciência da crise. Mas,
tal como aconteceu no III Reich nazi, em vez de renunciarem à
estratégia de dominação universal, Bush e os seus mentores
intelectuais optam pelo aprofundamento de uma escalada de violência que
encontra a sua expressão numa política de terrorismo de estado
que ameaça inclusive a continuidade da vida na Terra.
O projecto de uma agressão militar ao Irão é muito
anterior à eleição de George W.Bush. O apoio militar e
financeiro dos EUA a Sadam Hussein quando o Iraque atacou e invadiu aquele
pais, na época do Ayatollah Khomeini, foi publico e ostensivo. Como o
desfecho não correspondeu ao objectivo, sucessivos planos foram
elaborados em Washington visando a destruição do regime instalado
em Teerão e o posterior controlo político e económico do
país pelos EUA.
O projecto, no contexto de uma estratégia global para a Ásia
Central, foi desengavetado após a ocupação do Iraque.
No último ano o tema de uma guerra "preventiva" contra o
Irão mereceu uma atenção permanente dos
media
dos EUA. Colunistas prestigiados alguns progressistas como o
britânico Robert Fisk, citando inclusive documentos secretos do
Pentágono , anunciaram como iminente um ataque devastador contra
alvos estratégicos daquele pais.
Mas a agressão não se concretizou. Os projectos foram adiados
sine dia
e os planos reelaborados. Motivo: a situação caótica
existente no Iraque. O bombardeamento sem ataque terrestre simultâneo
não teria significado militar. O alto comando das Forças Armadas
dos EUA informou a Casa Branca de que o Exército não tinha
condições mínimas para iniciar uma guerra convencional
contra o Irão.
Significativamente foi divulgado por diferentes órgãos de
comunicação um relatório secreto encomendado pelo
Pentágono a Andrew Krepinevich. Nesse estudo aquele general na reserva
afirma que o exército dos EUA atravessa uma crise profunda em
consequência da sua incapacidade para derrotar a resistência
iraquiana. A síndrome vietnamita voltou, minando o moral dos oficiais e
soldados, cada vez mais baixa.
O documento desencadeou uma polémica em que interveio o
secretário da Defesa, Rumsfeld, mas o Pentágono não
esconde a sua oposição a qualquer plano que inclua o envolvimento
de forças da US Army em território iraniano. Uma alternativa
modesta limitaria a ofensiva à ocupação a partir do
Sul do Iraque de uma estreita faixa da província do
Khuzistão onde se concentram grandes campos petrolíferos,
refinarias e portos. Mas essa variante é também considerada
inviável pelos especialistas militares. Provocaria uma guerra de longa
duração, ampliando a onda de anti-americanismo em todo o mundo
islâmico.
Os EUA poderiam, utilizando a Força Aérea e a Marinha, destruir
com os seus mísseis cidades e infraestruturas científicas e
industriais, mas não dispõem de tropas terrestres capazes de
sustentar uma guerra de desgaste num pais densamente povoado, com uma
superfície três vezes superior à da França.
Se, três anos transcorridos sobre a ocupação de Bagdad, o
seu exército de ocupação, com mais de 150 mil homens
além de milhares de tropas aliadas e de mercenários
não consegue fazer frente com êxito à
Resistência Iraquiana, como poderia manter-se no Irão, onde um
povo muito mais homogéneo, de 65 milhões, revelou ao longo de 25
séculos uma forte consciência nacional e se assume como herdeiro
de uma civilização brilhante cuja contribuição para
o progresso da humanidade foi importantíssimo?
Essa evidência acabou por se impor ao presidente dos EUA e ao punhado de
colaboradores que concebeu a estratégia das guerras
"preventivas". Mas a alternativa à guerra convencional com que
sonhavam é ainda mais perigosa. O projecto de agressão persiste.
Com uma alteração que o transforma em ameaça global
à humanidade. Aumentam os temores de que Bush, Cheney, Rumsfeld e Condy
Rice optem por um ataque a objectivos iranianos a fixar , recorrendo a armas
nucleares tácticas.
No momento procuram sondar as reacções de governos
tradicionalmente aliados, os dos grandes da União Europeia, o do
Japão do Canada e o da Austrália.
Merece reflexão a intempestiva atitude de Condoleeza Rice ao tornar
pública a oposição frontal de Washington a um acordo entre
Teerão e Moscovo que permitiria o enriquecimento na Rússia para
fins pacíficos do urânio iraniano.
A secretária de Estado somente não pode confessar que os EUA se
opõem a qualquer saída para o contencioso que tenha por objectivo
a defesa da paz na Região. Porque Washington quer levar a guerra ao
Irão por motivos que são alheios ao dossier nuclear.
BOLSA COTARÁ PETRÓLEO EM EUROS
Tomar posse das riquezas do país, sobretudo do petróleo, e
assumir o controle pleno do Estreito de Ormuz, é uma
ambição antiga do sistema de poder norte-americano. A
eleição de Mahmud Ahmadinejad reforçou-a. O novo
presidente logo começou a ser satanizado como fundamentalista perigoso,
acumpliciado com o terrorismo. Para Bush é inaceitável que
Ahmadinejad seja um patriota empenhado em defender a independência do
Irão, como Estado soberano. E considera alarmante a sua decisão
de instalar em Teerão, a partir do próximo dia 20 ou 22 do
mês corrente, uma Bolsa inédita na qual o petróleo seria
negociado em euros. Washington identifica nessa iniciativa uma medida que
poderia contribuir a curto prazo para o fim da hegemonia do dólar.
Daí a opção da extrema-direita estadunidense pela guerra,
mesmo com recurso a armas nucleares.
Está criada assim uma situação de uma complexidade e
gravidade com poucos precedentes desde a Segunda Guerra Mundial.
A Rússia, para a qual a sobrevivência do Irão como estado
independente é um objectivo estratégico prioritário, tem
adoptado uma atitude prudente na crise. Mas já deixou bem claro que
condena o recurso à força, ao manifestar a sua
oposição à eventual aplicação de
sanções a Teerão pelo Conselho de Segurança da ONU.
A China, que tem mantido relações cordiais com o Irão,
precisa muito do seu petróleo.
Israel, ainda órfã de Sharon, não parece
disponível, segundo os próprios jornais conservadores de
Telavive, a cumprir o papel que Washington gostaria de lhe atribuir. Seriam
grandes os riscos se aceitasse funcionar como instrumento de Bush, utilizando o
seu poder nuclear contra o Irão.
Somente o fanatismo cego impede Bush e a sua gente de compreender que a
utilização de armas nucleares contra o Irão desencadearia
uma vaga de indignação mundial de proporções
inéditas.
No Japão o trauma de Hiroshima permanece bem vivo. Na Europa, qualquer
tipo de cumplicidade, mesmo passiva, de governos de países com arsenais
nucleares, como o da Grã- Bretanha e o da França , seria
insustentável perante a reacção popular.
Por ora são muitas as incógnitas. O Conselho de Segurança
reúne-se nos próximos dias. Tudo indica que, a ser apresentado
qualquer projecto de resolução propondo a aplicação
de sanções ao Irão, a Rússia o vetaria. E
não parece provável que os EUA ousem desfechar um ataque
antecipando-se ao debate. Mas as decisões da engrenagem de poder que
controla a Casa Branca são imprevisíveis.
É admissível que a irracionalidade inerente à
estratégia neofascista da política exterior dos EUA empurre Bush
e os cérebros perturbados que o assessoram para a
convicção de que a difusão no planeta de um grande pavor
após um "castigo nuclear" infligido ao Irão convenceria
finalmente a humanidade de que não tem alternativa para a
submissão total ao poder imperial da potência hegemónica.
Seria um erro enorme e irreparável. Nem o funcionamento dos mecanismos
de um sistema mediático perverso que contribui para a
desinformação das sociedades e a robotização
crescente do homem, desfibrando-o, evitaria o isolamento dos EUA e a
condenação universal do crime. Porque os povos não
aceitariam passivamente uma Hiroshima do século XXI.
É angustiante a crise de civilização que vivemos. O
assalto à razão configurado pelo terrorismo de estado demencial
da direita neo fascista dos EUA carrega a ameaça de uma tragédia
cujo desfecho poderia assumir os contornos de um apocalipse da humanidade.
O original encontra-se em
Avante!
, edição de 16/Março/06.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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