"O ataque dos Hezbollah?
Foi o único acto de solidariedade com Gaza"
Foi a ofensiva israelense contra Gaza que desencadeou a nova guerra ao
Líbano. Desde que Israel se havia retirado do Líbano, em 2000,
os Hezbollah haviam evitado cuidadosamente afrontar o exército
israelense no território de Israel (limitando-se a enfrentamentos na
zona de Shebaa, no Líbano, que o Estado hebreu continua a ocupar). O
momento escolhido pelos guerrilheiros xiitas para o primeiro ataque, e a
retórica que se seguiu, indica que sua intenção era
reduzir a pressão sobre os palestinos abrindo uma nova frente. Sua
acção pode portanto ser encarada como o primeiro acto militar no
mundo árabe de solidariedade com os palestinos. Seja o que for que se
pense do que fez o Hezbollah, é importante compreender a natureza da
guerra de Israel contra os palestinos em Gaza.
A ofensiva das forças armadas israelenses na Faixa de Gaza não se
refere ao soldado prisioneiro. O exército preparava um ataque desde
há meses e fazia pressão para passar à
acção, com o objectivo de destruir a infraestrutura do Hamas e do
seu governo. Foi por isso que elas desencadearam a escalada de 8 de Junho,
quando assassinaram Abu Samhadana, membro do governo do Hamas, e intensificaram
os bombardeamentos contra os civis na Faixa de Gaza. Desde 12 de Junho,
já, o governo havia autorizado uma acção ampla, adiada
contudo por causa das reacções internacionais suscitadas pelo
assassinato de civis palestinos nos bombardeamentos aéreos do dia
seguinte. A captura do soldados serviu para "remover a
segurança": a operação começou a 28 de Junho
com a destruição de infraestruturas em Gaza e a
detenção em massa de dirigentes do Hamas na Cisjordânia,
outra acção que fora planificada com várias semanas de
antecedência.
No discurso público israelense, Israel pôs fim à
ocupação de Gaza quando evacuou seus colonos da Faixa, e o
comportamento dos palestinos seria portanto o de "ingratos". Mas
nada está mais longe da realidade do que esta descrição.
Na realidade, como estava previsto no Plano de Retirada, Gaza permaneceu sob o
controle militar total de Israel, a partir do exterior. Israel impediu a
independência económica da Faixa, e nunca aplicou nem uma
única das cláusulas dos acordos sobre as passagens nas fronteiras
de Novembro de 2005. Simplesmente substituiu a ocupação custosa
de Gaza por uma ocupação mais económica que, do seu ponto
de vista, isenta o ocupante da responsabilidade de garantir a
sobrevivência de um milhão e meio de residentes na Faixa de Gaza,
tal como está previsto na carta da Convenção de Genebra.
Israel não tem necessidade deste pedaço de terra, um dos mais
densamente povoados do mundo e desprovido de recursos naturais.
O problema é que não pode abandonar Gaza se quiser manter a
Cisjordânia. Um terço dos palestinos sob a ocupação
vive na Faixa de Gaza. Se ficarem livres, tornar-se-ão o centro da luta
de libertação palestina, com um acesso livre ao mundo
árabe e ao ocidente. Para controlar a Cisjordânia, Israel tem
necessidade do controle completo de Gaza. E a nova forma de submissão
que imaginou é transformar toda a Faixa num campo de
detenção isolado do mundo. Pessoas ocupadas e sitiadas, sem nada
a esperar, e nenhum meio alternativo de luta política, procurarão
sempre combater seu opressor. Os palestinos prisioneiros em Gaza encontraram
um meio de perturbar a vida dos israelense nos arredores da Faixa
lançando mísseis artesanais Qassam sobre a cidades israelenses
que contornam a Faixa. Estes mísseis rudimentares não a
precisão necessária para atingir um objectivo, e raramente
fizeram vítimas israelenses. Eles provocam no entanto desgaste
físico e psicológicos, desarranjando a vida dos
quarteirões israelenses sobre os quais se abatem. Aos olhos de
numerosos palestinos, os Qassam são uma resposta à guerra que
Israel lhe declarou. Como disse um estudante de Gaza ao
New York Times:
"Por que deveríamos nós sermos os únicos a viver no
medo? Com estes mísseis, Israel também tem medo. Devemos viver
em paz em conjunto, ou no medo em conjunto" (09/Julho/2006).
O exército mais poderoso do Médio Oriente não tem
respostas militares para estes mísseis feitos em casa. Uma resposta
possível é aquela que o Hamas sempre propôs e que o seu
primeiro ministro Haniyeh repetiu esta semana: um cessar fogo geral. Durante
os 17 meses que decorreram desde que anunciou sua decisão de abandonar a
luta armada em favor da luta política, e declarou um cessar fogo
unilateral (tadhiya, calma), o Hamas não participou mais no
lançamento dos Qassam, salvo sob grave provocação
israelense como a escalada de Junho. O Hamas em contrapartida continua a lutar
contra a ocupação de Gaza e da Cisjordânia. Do ponto de
vista de Israel, o resultados das eleições palestinas é um
desastre, porque, pela primeira vez, eles têm dirigentes que querem
representar os interesses palestinos ao invés de se limitar a colaborar
com as exigências israelenses. Como cessar a ocupação
é uma coisa que Israel não quer considerar, a opção
seguida pelo exército é desfazer os palestinos em migalhas com
uma força devastadora. Eles devem ser esfaimados, bombardeados,
aterrorizados por motores ensurdecedores durante meses, até
compreenderem que se rebelar é fútil e que aceitar a
prisão perpétua é sua única esperança de
vida. Seu sistema político eleito, suas instituições, sua
polícia devem ser destruídos. Para Israel, Gaza deveria ser
governada por gangs que colaborassem com os carcereiros da prisão.
O exército israelense tem sede da guerra
. Ele não se
deixará deter por preocupações referentes aos soldados
capturados. Desde 2002, os militares sustentam que uma operação
do tipo "Escudo defensivo", como em Jenin, é necessária
também em Gaza. Há exactamente um ano, a 15 de Julho (antes da
Retirada de Gaza), o exército havia concentrado suas forças na
fronteira da Faixa para proceder uma ofensiva deste tipo em Gaza. Mas os
Estados Unidos opuseram o seu veto. A secretária de Estado Rice chega
em visita de urgência, descrita como acrimoniosa e tempestuosa, e o
exército foi obrigado a retirar-se. Agora, sua hora finalmente chegou.
Com uma islamofobia que está no seu ponto culminante na
administração Bush, parece que os EUA estão prestes a
autorizar a operação, com a condição de que isso
não provoque a opinião pública internacional por ataques
demasiado mediatizados contra civis (acerca da posição actual dos
EUA, ver Odi Nir, "Us Seen Backing Israeli Moves to Topple Hamas",
The Forward,
07/Julho/2006,
www.forward.com/articles/8063
). Uma vez recebida a
autorização para sua ofensiva, a única
preocupação do exército é sua imagem
pública. Fishman recordou terça-feira passada que para o
exército "o que provoca o risco de fazer descarrilar este imponente
esforço militar e diplomático" são as
informações de crises humanitárias em Gaza. É
necessário alimentar os palestinos para que seja possível
continuar imperturbavelmente a matá-los.
18/Julho/2006
[*]
Professora da linguística nas universidades de Tel Aviv e Utrecht.
Autora de "Destruir a Palestina A segunda metade da guerra
de
1948",
Editorial Caminho
, 2004, 248 pgs., ISBN 972-21-1606-3. O capítulo 5 encontra-se em
http://resistir.info/palestina/cap5_destruir_a_palestina.html
O original encontra-se em
il manifesto
e a versão em francês em
http://www.legrandsoir.info/article.php3?id_article=3884
. Traduzido da versão em francês.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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