Prefácio à edição portuguesa
Quando assinei o contrato para este livro, em 1995, recomendaram-me que me
apressasse a terminá-lo, porque a paz estava iminente e poderia tornar o
livro obsoleto. Eu respondi: "Não se preocupem, a política
israelense não é compatível com a paz." Infelizmente,
veio a verificar-se que eu tinha razão. E aqui estamos nós, dez
anos depois, com uma tradução portuguesa deste livro.
Dez anos depois não estamos mais perto, estamos talvez mais longe da paz
entre Israel e os palestinianos. Em vez de aprenderem a lição de
há dez anos, e de desconfiarem das promessas sobre "a
dinâmica da paz" após a aplicação do plano de
Ariel Sharon de retirada unilateral de Gaza, as pessoas voltam a deixar-se
levar pela ilusão de um progresso inevitável. Entre elas
contam-se os políticos, os estadistas e a opinião pública
da Europa. É isso que faz com que a minha introdução
esteja perpassada de "política actual".
De acordo com este plano, uns 8000 colonos judeus na Faixa de Gaza serão
finalmente repatriados este Verão e o exército israelense
será recolocado em torno da Faixa de Gaza, em vez de no seu interior. O
exército israelense continuará a controlar todo o acesso por
terra, mar e ar, e os palestinianos que vivem na Faixa de Gaza
continuarão a estar separados do seu povo na Cisjordânia. Um
enclave separado e desligado, à mercê da política
israelense e das intervenções caritativas do mundo.
Não me compreendam mal: o repatriamento de alguns milhares de colonos,
que nunca lá deviam ter estado, deve ser saudado. Os capítulos
seguintes, escritos há dez anos, explicarão porquê. Mas as
aspirações nacionais palestinianas não se limitavam a
remover alguns
checkpoints
militares e a ter acesso à praia coisas que a
recolocação israelense promete fazer. Os palestinianos têm
lutado pela independência, pela liberdade de escolha, pelo
desenvolvimento do seu futuro sem a dominação e sem o aparelho de
controlo israelenses. No terreno tudo aponta para o facto de que Israel
está a aperfeiçoar os seus mecanismos de dominação
sobre a futura entidade palestiniana.
Por trás da cortina de fumo das declarações sobre
progresso e "retirada", assiste-se a uma escalada da
colonização israelense da Cisjordânia e também da
sua fragmentação territorial. No decurso dos últimos cinco
anos, os colonatos israelenses e uma rede de estradas de alta qualidade
só para judeus despedaçaram a Cisjordânia em diversos
enclaves palestinianos separados e frouxamente ligados. E é este o plano
para o futuro Estado palestiniano: um conjunto de enclaves cujo tamanho e
interligação ainda dependem de negociações futuras.
Isto viola directamente as resoluções internacionais, segundo as
quais a Faixa de Gaza e a Cisjordânia no seu conjunto deveriam fazer
parte de uma entidade única e formar juntas um futuro Estado
palestiniano.
Um erro comum é ver a insurreição que eclodiu em Setembro
de 2000 e a sua repressão militar como um hiato no caminho de
negociações pacíficas conhecidas por "Acordos de
Oslo". Na realidade, o ataque militar israelense sem precedentes dos
últimos cinco anos contra toda a população palestiniana
dos territórios ocupados em 1967 foi Oslo por meios diferentes.
O caminho de Oslo provou ser um esforço israelense permanente para criar
uma liderança palestiniana submissa. Uma liderança que se resigne
a uma solução tão afastada quanto possível das
resoluções internacionais. Quando os palestinianos rejeitaram
claramente esta tentativa, em Setembro de 2000, Israel respondeu com uma
ofensiva militar em grande escala a que eu me refiro no meu
epílogo à edição francesa.
Seria necessário um livro inteiro para descrever a
devastação que Israel descarregou sobre a sociedade palestiniana
durante os últimos cinco anos. Seria necessário um outro para
abordar as falhas da resistência palestiniana. Falhou, não
só devido ao poderio e à superioridade militar de Israel mas
também devido à ausência de uma estratégia clara e
unida, devido ao culto das armas e explosivos e ao culto da vingança que
dominou a resposta palestiniana.
Os meus amigos de Gaza que conhecereis ao longo destas páginas
viveram durante este período a época mais difícil
das suas vidas. Eles emergem desta época de bombardeamentos
aéreos e de artilharia, de funerais diários de parentes e amigos
e vizinhos, de ferimentos, de arrasamentos e demolições de casas,
etc. sem esperança num futuro digno. As formas actuais de
dominação política, social e económica de Israel
continuarão a estrangulá-los, e garantirão recorrentes
explosões de raiva e revoltas sem estratégia por parte dos
palestinianos, e ofensivas militares por parte dos israelenses.
Quem me dera que se venha a verificar que não tenho razão.
Ramallah, Junho de 2005
Epílogo
De Ramallah, Setembro de 2001
À paisagem maravilhosa e diversificada da Cisjordânia vales
e desertos, rochas de onde brota água gota a gota, planaltos com
verdejantes pomares de citrinos, colinas cobertas de olivais veio
sobrepor-se, no decorrer do último ano, uma outra paisagem, esta
militar. Esta segunda paisagem transformou a Cisjordânia, a parte
principal daquilo que deveria actualmente constituir o Estado palestiniano,
numa colecção de enclaves de tipo "Gaza" em mais
pequeno. Por outras palavras: uma poeira de cidades e aldeias, sem
ligações entre si. Cidades e aldeias palestinianas cujas as
entradas e saídas dependem dos soldados e dos oficiais israelenses, dos
decretos do exército israelense e das determinações do
governo israelense. Cidades e aldeias em que a liberdade de movimentos
não é uma coisa natural. Por outras palavras: cidades e aldeias
palestinianas que vivem lado a lado, em terras que antes lhes pertenciam, com
colonatos judaicos onde a liberdade de movimentos é mesmo uma coisa
natural.
Na Cisjordânia e em Gaza, à entrada das cidades e aldeias
palestinianas e nas estradas que a elas conduzem, foram cavadas trincheiras
profundas ou erguidas barreiras de terra e areia, ou ambas as coisas, e nalguns
casos colocados blocos de betão para impedir os automóveis de
passar. Por vezes há apenas os blocos de betão, sem as
trincheiras nem as barreiras, mas um pouco adiante há um jipe militar
cujos ocupantes podem disparar sobre quem quer que tente deslocar os blocos. Em
qualquer dos casos, as amplas estradas principais da Faixa de Gaza e da
Cisjordânia estão completamente interditas aos palestinianos.
Só os israelenses e o exército estão autorizados a
utilizá-las. Para conseguirem apesar de tudo deslocar-se, os
palestinianos tentaram fazer, com as rodas dos seus carros e carroças,
caminhos através dos campos, dos pomares e das vinhas. Mas também
estes caminhos rapidamente foram encerrados pelo exército. Oficialmente,
o exército israelense deixou em cada cidade ou aldeia uma entrada
"aberta", ou seja, uma entrada que não se encontra barrada por
obstáculos físicos mas sim por um posto militar. Quando é
decretado o cerco total (ou, para utilizar um eufemismo orwelliano que surgiu
nestes últimos oito anos, quando uma aldeia é
"coroada"), os soldados bloqueiam também a passagem nestes
sítios. Qualquer pessoa que tentasse passar ver-se-ia sob a
ameaça das suas espingardas e das suas granadas de gás
lacrimogéneo.
É assim que vivem os cerca de dois milhões de habitantes
palestinianos da Cisjordânia desde há cerca de um ano, desde o
início da "segunda Intifada". O isolamento torna-se cada vez
mais complexo, cada vez mais minucioso: no início, um conjunto
específico de aldeias ficava cortado da sede administrativa; actualmente
é quase cada aldeia que fica cortada da aldeia vizinha e da sede
administrativa. Tudo o que se pode fazer é ir até uma barreira,
na esperança de que os soldados não nos impeçam de trepar
os montes de areia, depois prosseguir ao longo de quinhentos metros ou de um
quilómetro, a pé ou montado num burro que miúdos espertos
das redondezas alugam por meia dúzia de shekels, até à
próxima barreira ou à próxima trincheira. Aí
pode-se apanhar um táxi até à barreira seguinte, e assim
sucessivamente até à noite. Percorrer uma distância
ínfima torna-se assim uma odisseia de várias horas. Nunca se pode
ter a certeza de que um soldado não irá disparar por cima da
nossa cabeça ou por vezes um pouco mais baixo, ou de que uma granada de
gás lacrimogéneo não virá explodir-nos debaixo dos
pés, enquanto uma multidão de gente encolerizada que pretende
voltar para casa ou ir para o trabalho tenta aproximar-se dos soldados para
lhes falar ao coração, ou enquanto uma pedra voa em
direcção aos soldados, e então os soldados "tomam
medidas para dispersar o motim". Há doentes que morrem por causa
dos atrasos nas barreiras, mulheres que dão à luz no meio da
estrada ou dentro de um carro, alunos e professores que chegam atrasados
à escola e milhares de pessoas que pura e simplesmente evitam sair das
suas casas. O horizonte quotidiano e futuro circunscreve--se aos limites da
cidade ou da aldeia onde vivem. As dificuldades da vida quotidiana, a
preocupação de arranjar de comer arredam para segundo plano
quaisquer pensamentos respeitantes a necessidades humanas menos imediatas:
passear em família, visitar os amigos, ir a uma conferência.
Há quase quatro anos que vivo em Ramallah, a principal cidade da
Cisjordânia. No momento em que escrevo estas linhas, a cidade está
sob bloqueio total há uma semana. Todas as estradas que ligam Ramallah a
Jerusalém as que não estão completamente fechadas
há quase um ano estão actualmente interditas tanto a
automóveis como a peões. Os outros acessos estão fechados
aos automóveis. As pessoas que não compreendem os soldados que
lhes gritam em hebraico para seguirem o seu caminho arriscam-se a ser alvo de
uma granada de gás lacrimogéneo. Da minha janela vejo o colonato
de Psagot. Para garantir a paz aos seus residentes, a estrada que passa a leste
está fechada aos palestinianos desde o segundo ou terceiro mês da
actual Intifada. Do outro lado da rua onde eu moro, está o colonato
Beit-El. Em breve será construída para esse colonato uma estrada
"securizada" apenas reservada aos judeus, que o ligará a outro
colonato atravessando as terras de uma das mais lindas aldeias da
Cisjordânia, Dûra al-Qara. O encantador
wadi
desta aldeia, definido como reserva natural e que permite a subsistência
de centenas de agricultores, desaparecerá, e com ele a fonte de
rendimento dos aldeões. Os habitantes judeus de Beit-El também
podem tomar uma outra estrada construída em terras agrícolas
palestinianas e que neste momento está interdita aos palestinianos. E
isto não é nada em comparação com o que se passa em
Hebron: cerca de vinte mil palestinianos, que têm a infelicidade de viver
na parte velha da cidade que ficou sob controlo israelense por causa das quatro
ou cinco centenas de judeus que lá moram, estão condenados a
prisão domiciliária há já um ano, de forma quase
ininterrupta: é o recolher obrigatório total, para garantir a
tranquilidade da minoria judia. Tornou-se tão habitual, tão
evidente, que já ninguém em Israel fala disso.
O processo imposto nos últimos dez anos à Faixa de Gaza e ao seu
milhão de habitantes, e que é descrito neste livro, reproduz-se
actualmente em centenas de outros exemplos de menor dimensão e é
aplicado aos cerca de três milhões de palestinianos que vivem na
Cisjordânia e em Gaza. A semelhança é assombrosa: os
acessos de cada aldeia palestiniana parecem um "
checkpoint
de Erez" em ponto pequeno, ainda que um pouco primitivo. Postos militares
barram a passagem. Milhares de automóveis ficam estacionados, bloqueados
em engarrafamentos inacreditáveis, dos dois lados: há os que
estão ali para deixar peões e os que os vêm buscar. Mesmo
nas barreiras mais pequenas, aquelas que se atravessa a pé, há
vendedores de refrescos e de café que fazem lembrar Erez, que eu pensava
ser o local mais pavoroso de todo o país. Actualmente considera-se que
as pessoas de Gaza têm sorte: o espaço no interior do qual
são "livres" de ir e vir é bem mais vasto do que o dos
habitantes de muitas cidades e aldeias da Cisjordânia.
Durante os últimos dez anos os palestinianos viram-se confrontados muito
concretamente com a questão da liberdade de movimentos e dos entraves a
tal liberdade, sem obter uma resposta correspondente à sua gravidade. A
direcção palestiniana, que goza do privilégio de se
deslocar a seu bel-prazer, não se interessou por ela e não
encorajou a população a lutar contra a negação
desta liberdade. Aqueles que em Israel apoiaram os acordos de paz não se
aperceberam da realidade dos bloqueios ou então não consideraram
que o problema merecesse a sua atenção. Os países
ocidentais que patrocinaram os acordos de Oslo estão apenas preocupados
com as consequências económicas das restrições
à liberdade de movimentos. O cerco das cidades palestinianas interessou
durante alguns dias a imprensa internacional, e é tudo. Mas não
é uma coisa nova. Trata-se de uma mudança quantitativa e
não qualitativa. O princípio em si foi aprontado há
já dez anos.
Tal como em 1991, em 1993 e em 1996, Israel explica estes constrangimentos
extremos por motivos de segurança. Do ponto de vista israelense, tanto a
nível oficial como popular, os palestinianos lançaram no fim do
mês de Setembro de 2000 uma ofensiva terrorista maciça que visava
simultaneamente Israel e as hipóteses de paz. Foi assim que o governo de
Ehud Barak apresentou as coisas. Por conseguinte, bloqueio e cerco são
meios de defesa de Israel, de protecção da sua
população tanto dos judeus que vivem nos
territórios ocupados como dos que vivem em Israel. Hoje, um ano
após o início da segunda Intifada, a maioria da
população israelense continua convencida de que é essa de
facto a situação e de que a única coisa a fazer é
limitar os movimentos dos palestinianos. Ao fim e ao cabo, não
será isso bem mais humano do que prender dezenas de milhares de pessoas
e do que matar centenas ou milhares? Análises semijornalísticas,
semioficiais, explicam que ao recusar a liberdade de movimento a três
milhões de pessoas se entravam as actividades terroristas. Por cada
operação terrorista "com êxito" (em Israel
não se faz distinção entre uma operação que
tem como alvo civis no interior das fronteiras e acções dirigidas
contra o exército ou os colonos nos territórios ocupados), houve
várias que "falharam", afirma-se.
Nada tem de surpreendente que o público israelense tenha a
sensação de ter sido agredido e traído pelos
palestinianos. Durante sete anos, a maioria dos israelenses, incluindo
partidários convictos dos acordos de Oslo, foram persuadidos de que o
que estava a acontecer nos territórios era um verdadeiro "processo
de paz". É verdade que aqui e ali havia alguns
"problemas", mas no seu conjunto a orientação era
clara. Todas as mensagens, todos os sinais, todas as provas, todos os alertas
vindos tanto do comum dos palestinianos como de intelectuais palestinianos,
para advertir que na realidade o que estava a ser aplicado era uma
dominação israelense de um novo género, caíram em
saco roto. O público israelense aceitou na íntegra a
versão oficial segundo a qual, nas negociações
caóticas que se desenrolaram em Julho e Agosto de 2000 em Camp David,
Israel tinha feito propostas extremamente generosas que os palestinianos, com
as suas vistas curtas, tinham recusado, opondo-lhes a exigência do
"direito ao regresso". A publicação de mapas mostrando
que a "generosidade israelense" pretendia transformar a entidade
palestiniana num amontoado de enclaves separados pelos grandes colonatos e as
suas estradas nada alterou, do mesmo modo que as garantias dadas pelos
dirigentes da Autoridade, explicando que não pretendiam de forma alguma
alterar o equilíbrio demográfico israelense (por outras palavras,
não se pedia a Israel para absorver um número tal de
palestinianos que os judeus passariam a ser uma minoria no país).
A questão da liberdade de movimentos é actualmente determinante
para o tipo de "independência" que é
"concedida" aos palestinianos no processo de Oslo e nas
negociações embrionárias que é suposto conduzirem a
um acordo definitivo. No decorrer da "década da paz" iniciada
com a conferência de Madrid e os acordos de Oslo, Israel estabeleceu em
Gaza um novo modelo de dominação sobre os palestinianos,
utilizando meios simultaneamente técnicos e burocráticos.
Através de um controlo absoluto da sua liberdade de movimento, Israel
retirava aos palestinianos como indivíduos e como colectividade
um dos elementos mais importantes e mais fundamentais da vida humana: o
tempo. Na espera de uma autorização ou de uma resposta, na
tentativa de sensibilizar o soldado da barreira, na impossibilidade de prever
uma visita, uma viagem, uma entrevista de trabalho, há qualquer coisa
que se perde, cujo valor é imenso e que, ao contrário da terra,
não pode ser restituído: o tempo de trabalho e o tempo de lazer,
o tempo para os filhos ou para os netos, o tempo para amar, para ler, para
pensar, para a ociosidade por escolha, para jogar futebol ou conversar no
pátio. O tempo da antecipação e da
organização, privado e político.
Esta nova forma de dominação foi ao mesmo tempo o núcleo
de um objectivo político declarado: a separação
demográfica das duas populações, a judia e a palestiniana,
num país único. O desenvolvimento dos colonatos, que prosseguiu
sem interrupção e se acelerou mesmo desde 1990, moldou uma
geografia que é a de um Estado único do Jordão ao
Mediterrâneo, enxertando a infra-estrutura das estradas, da água,
da electricidade, mas também a infra-estrutura legal do desenvolvimento
dos colonatos, na de Israel. De ambos os lados da Linha Verde vive um segundo
povo cujas possibilidades de desenvolvimento são restringidas por uma
infra-estrutura de menor qualidade, deliberadamente instalada pelos sucessivos
governos israelenses desde 1948. O acesso desse povo aos recursos de terra e
água é limitado por leis (no interior da Linha Verde) e por
decretos (no exterior) que são igualmente aplicáveis nos enclaves
do governo palestiniano autónomo.
Neste Estado único cujo governo único determina as linhas de
desenvolvimento, vivem portanto duas comunidades étnicas, cada uma das
quais está submetida a um sistema de leis distinto e que não
gozam dos mesmos direitos em relação à terra, à
água e ao espaço. Os palestinianos cidadãos israelenses
têm direito de voto, contrariamente aos seus irmãos que vivem na
Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Podem tentar lutar por meios
políticos como fazem há cinquenta anos contra a
segregação ao mesmo tempo gritante e legal que caracteriza a sua
vida enquanto cidadãos. Os palestinianos da Cisjordânia e da Faixa
de Gaza manifestaram a sua recusa da dominação israelense, antiga
e nova, de mil maneiras: pelas armas, pela recusa de deixar a terra, por mortes
de crianças e assassínios de soldados, pela
negociação, pelo levantamento popular, por palavras de ordem e
declarações inábeis, bravatas, finalmente em conversas de
coração aberto, francas, em que falam da sua dor, dos seus sonhos
e esperanças.
Em 1999 realizaram-se em Israel conversações entre delegados
palestinianos e israelenses tendo em vista um acordo definitivo. No
início do mês de Dezembro de 1999, o chefe da
delegação palestiniana, Yasser Abed Rabbo, anunciou a
suspensão das conversações enquanto Israel continuasse a
instalar colonatos. Ehud Barak, primeiro-ministro israelense, anunciou um ou
dois dias mais tarde o congelamento de todos os novos concursos públicos
para construções nos colonatos. A direita israelense manifestou a
sua cólera, considerando que Barak "cedia" às
pressões palestinianas. Foi-lhe feita uma pergunta sobre esse assunto
numa conferência de imprensa conjunta com Madeleine Albright,
então ministra dos Negócios Estrangeiros americana, que tinha
vindo tentar alcançar um compromisso entre as duas partes, num momento
em que o retomar das conversações bilaterais com a Síria
estava "na ordem do dia". O público israelense ainda
não estava informado desta recente (e temporária) viragem nas
relações com a Síria. Na conferência de imprensa
Barak irritou-se com as perguntas dos incrédulos. Em 7 de Dezembro de
1999, na presença de Albright, declarou: "Não há
qualquer razão para não diferir a publicação de
novos concursos públicos [para construção nos colonatos]
por um ou dois meses. Dessa forma serão conhecidos no início do
mês de Março [ou seja, após a assinatura do acordo-quadro
com a Autoridade Palestiniana, objectivo em relação ao qual as
duas partes tinham estado de acordo] em vez de o serem no início de
Dezembro. É evidente que nos casos em que tudo foi autorizado de forma
legal as construções poderão prosseguir... [É essa]
a nossa atitude, [ela] reforça a nossa dominação sobre
Eretz Israel
assim como a nossa posição nas negociações...
[Manter] os concursos públicos é uma posição que
enfraquece
o Estado de Israel na sua luta pelo controlo de Eretz Israel
[o sublinhado é meu]."
No quadro do interminável conflito israelo-palestiniano, encontram-se
todo o tipo de explicações históricas
contraditórias para a fundação do Estado de Israel numa
parte de "
Eretz Israel
": promessa divina feita aos judeus, justa concretização de
um direito histórico (inspiração sionista) ou projecto
colonial judaico-ocidental. Há também a teoria que atribui o
êxito colonial à hábil estratégia e à manha
dos judeus financiados pelo Ocidente, face à tese que, embora admitindo
que o sionismo é um produto da era colonial europeia, considera o Estado
israelense como resultado de condições históricas que
forçaram o povo da diáspora, os judeus da Europa, a optar em
muitos casos por imigrar para a Palestina e mais tarde para o Estado de Israel.
Isto depois de a Europa cristã e branca ter agido de acordo com o
programa do Terceiro Reich, que consistia em expulsar o povo judeu que
lá vivia há dois mil anos, e não apenas em
expulsá-lo fisicamente mas em liquidar qualquer recordação
da sua existência sobre o globo terrestre.
Durante anos, os árabes, os palestinianos e os diferentes movimentos da
esquerda radical no mundo apresentaram Israel como resultado directo, um pouco
tardio, dos objectivos e das concepções colonialistas ocidentais
e mais especificamente do movimento colonial judeu, o sionismo. Esta
explicação não fazia caso do facto de durante o
século XIX e o início do século XX o sionismo ter
constituído uma resposta entre muitas outras elaboradas pelos judeus
face à opressão e discriminação de que eram alvo na
Europa, resposta esta adoptada por uma minoria. Foi só depois do
"êxito" do projecto nazi que a resposta sionista foi aceite
pela maioria dos judeus. (Isto nada diz, aliás, acerca da justeza ou
falsidade do argumento sionista segundo o qual só um Estado judeu podia
salvar os judeus da indústria alemã da morte. Se os Aliados
não tivessem vencido a Alemanha nazi, o exército alemão
poderia ter conquistado a Palestina de então e deparar com um gueto
judeu já pronto.) As perseguições dos anos 30, o fechar de
portas da América aos que tentavam fugir e o assassínio dos
judeus da Europa proporcionaram ao Estado em formação a massa
crítica de imigrantes, dinheiro em abundância, o apoio
internacional e uma justificação no sentimento profundo de que
"não havia escolha".
O reconhecimento internacional do Estado de Israel nas fronteiras de 1949,
assim como as resoluções da ONU recusando a Israel o direito de
conservar os territórios conquistados em 1967, não podem deixar
de ser interpretados como um assentimento, ainda que inconsciente, dado
à explicação histórica mais complexa da
criação do Estado de Israel. Nestes dez anos em que o conflito
atingiu a sua violência mais extrema, os palestinianos apoiam-se
insistentemente nas resoluções da ONU que fixam as fronteiras em
4 de Junho de 1967. Ao fazê-lo, também eles admitem na
prática a explicação histórica e a sua
consequência, que Israel não é simplesmente um Estado
colonial, que há que procurar a sua origem não apenas na
história colonial da Europa e do movimento minoritário judeu mas
também no passado anti-semita e mortífero deste continente.
Não se trata aqui nem de "justiça" nem de
"renascimento": o Estado de Israel não conseguiu ressuscitar
os seis milhões de judeus mortos nem a cultura de que eles provinham e
que foi destruída.
No processo de reinstalação dos sobreviventes do genocídio
e dos seus descendentes, e apoiando-se nos robustos princípios
colonialistas que existiam no movimento sionista, o jovem Estado de Israel
expulsou a maioria do povo palestiniano das suas terras e da sua pátria,
e fez dele um povo de refugiados. Com o lançamento dos acordos de Oslo,
houve israelenses e palestinianos que se iludiram e acreditaram que não
se tratava apenas do reconhecimento pelos palestinianos do Estado de Israel,
mas também do reconhecimento por Israel do direito à
existência dos palestinianos enquanto povo na sua terra, do seu direito
à autodeterminação e a um Estado independente. Houve
palestinianos que chegaram mesmo a dizer que era a vez de o poderoso Estado de
Israel reconhecer a tragédia palestiniana de 1948 e dar uma
expressão real a este reconhecimento, no processo de
reconciliação entre os dois povos.
Mas os anos de Oslo durante os quais se acelerou a
construção dos colonatos, e as palavras de Barak acima referidas
dão o pano de fundo teórico deste fenómeno
vêm pelo contrário reforçar a tese que vê no Estado
de Israel uma entidade visando essencialmente a expansão territorial,
ignorando totalmente a existência do outro povo que vive no mesmo
território. São os colonatos judeus do Grande Israel (
Eretz Israel
) que devem definir as fronteiras do Estado: era esta a táctica de antes
de 1948, e verifica-se que foi esta a táctica que orientou o
"processo de paz". Não foi por acaso que Barak não
disse durante esta conferência de imprensa que era preciso
"congelar" a construção dos colonatos para fazer
avançar o processo de paz, para provar aos palestinianos as boas
intenções israelenses ou para mostrar ao povo israelense que uma
era estava a terminar e que outra estava a começar. Nestas
condições, como esperar que a sociedade israelense tivesse
maturidade suficiente para debater seriamente a tragédia palestiniana de
1948 e o apego de cada palestiniano ao país inteiro?
Entretanto, durante os anos de Oslo, sob a protecção e com o
apoio do Ocidente, Israel sentiu-se suficientemente seguro para falar de paz
enquanto no terreno manobrava no sentido de obter o "controlo" das
regiões de
Eretz Israel
de que não tinha conseguido apoderar-se em 1948. Com as suas palavras
tal como com a sua política no ano que decorreu até ao
início da segunda Intifada Barak expressava o peso e o estorvo
que os palestinianos representam para as elites dirigentes israelenses, peso
que é necessário através de meios do mais subtis
que a simples força bruta enfraquecer, e pressionar até
que acabe por murmurar: "Aceito".
Em Camp David, em Julho-Agosto de 2000, os palestinianos não podiam
aceitar como acordo definitivo as propostas israelenses
(evacuação de uma parte dos colonatos, troca de
territórios, concessão a longo prazo de uma parte importante dos
territórios a Israel e o bizarro mosaico do controlo israelense e
palestiniano sobre Jerusalém). A seus olhos estas propostas não
passavam de uma base para negociações que iriam prosseguir,
não podiam ser o resultado das negociações. Israel e os
Estados Unidos apresentaram as reservas palestinianas como uma
rejeição obstinada e uma posição de estéril
recusa. Em Israel prefere-se pensar que Arafat tinha programado o levantamento,
que este não era apenas uma explosão de raiva espontânea e
popular contra o prosseguimento da dominação israelense sobre o
presente e o futuro dos palestinianos (e de facto também contra a
Autoridade Palestiniana e o seu sistema de governo). Esta
explicação vem muito oportunamente legitimar a forma como as
forças de segurança israelenses reagiram de imediato, disparando
a matar, às pedras atiradas pelos palestinianos nos primeiros dias da
actual Intifada, a forma como recorreram a meios militares cada vez mais duros
para responder à "escalada da violência" palestiniana.
A Intifada Al-Aqsa é hoje apresentada em Israel como "a
expressão militar da recusa política palestiniana". Mas a
explicação da actual violência do conflito
israelo-palestiniano é exactamente a oposta: o que Israel não
conseguiu obter através da pressão política,
burocrática, policial ou militar tenta agora obter através de uma
ofensiva prolongada contra o povo palestiniano e contra a Autoridade
Palestiniana. No decurso dos sete anos do processo de Oslo, Israel tentou impor
à direcção palestiniana um acordo definitivo que
garantisse a influência israelense sobre a entidade palestiniana,
influência assegurada pelo domínio
tecnológico-burocrático sobre a população
palestiniana, paralelamente à colocação sob tutela da
Autoridade Palestiniana. Esta beneficiava de um determinado número de
privilégios e tinha-se arrogado direitos exorbitantes, de acordo com uma
longa tradição de corrupção no seio da OLP.
Enquanto acentuava o seu domínio sobre o conjunto da
população palestiniana e limitava de forma crescente a sua
liberdade, Israel tratava de adular a direcção palestiniana e
submergi-la em belas palavras, em
cocktails,
em oportunidades de enriquecimento rápido e de negócios
chorudos. E durante sete anos a direcção palestiniana acomodou-se
muito bem às exigências securitárias israelenses, sem
insistir demasiado no respeito das suas próprias exigências, como
a conclusão da recolocação das tropas na
Cisjordânia, o fim das construções nos colonatos, a
concretização dos acordos que deveriam permitir o regresso dos
exilados de 1967.
Mas esta táctica israelense não foi bem sucedida. Muitos
palestinianos não ficaram menos surpreendidos do que os israelenses com
o "não" de Arafat em Camp David. Com base numa
experiência de sete anos, pensavam que uma vez mais ele cederia ao
diktat
israelo-americano. Por que razão não o fez é uma
questão que irá alimentar muitos capítulos de outros
livros. Mas, ao fim e ao cabo, as profecias de grande número de
palestinianos e de observadores que não estavam prisioneiros da
"concepção de paz" de Oslo concretizou-se, e a
explosão de cólera aconteceu mesmo, a 29 de Setembro de 2000.
Actualmente o exército israelense tenta impor as suas
soluções aos palestinianos bloqueando centenas de aldeias,
encerrando estradas, assassinando, retomando as prisões em massa,
disparando com armas pesadas.
Acompanho este levantamento desde o seu início. Vi como centenas de
jovens, na sua maioria provenientes dos bairros pobres ou dos campos de
refugiados, atacaram os "locais simbólicos da
ocupação israelense", as barreiras e dispositivos militares
nas linhas de demarcação entre os territórios da
Autoridade Palestiniana e os controlados por Israel. Estes jovens acreditavam
que bastariam alguns dias para que Israel compreendesse a mensagem das pedras:
que estavam fartos desta ocupação denominada "processo de
paz". Em vez disso responderam-lhes com tiros bem apontados que em poucos
dias mataram e feriram dezenas de jovens. Chamaram-lhe a Intifada dos pobres.
Pela minha parte, chamei-lhe a Intifada dos
poushtaqim
(vadios, malandrecos), esses jovens que ao longo dos últimos anos
perderam qualquer esperança no futuro e que, com as suas pedras,
forçaram a direcção da Fatah a abandonar o seu estatuto de
partido no poder, de grupo privilegiado. A esplanada das mesquitas, em
Jerusalém, mais não foi do que o detonador.
Durante os primeiros dias da Intifada, fui a Gaza, a Ramallah e a Hebron.
Já estavam então reunidas todas as condições para a
escalada: os primeiros a avançar foram mortos pelas balas do
exército, apesar de a vida dos soldados não se encontrar
ameaçada. Mas apesar disso os jovens não desistiram das pedras:
pelo contrário, tornaram-se cada vez mais audaciosos. Não queriam
saber dos polícias palestinianos que ali estavam sem nada fazer para
proteger o seu povo. Ao cabo de dois ou três dias alguns palestinianos
reagiram disparando alguns tiros imbecis para o ar; imbecis porque não
passavam de fanfarronadas que apenas serviram de pretexto ao exército
israelense para responder ainda com mais força, apresentando a
situação como "trocas de tiros" de parte a parte. Um
atirador de elite israelense que entrevistei nessa altura disse-me que os
soldados se tinham rido ao ouvir na rádio a expressão "troca
de tiros". Os tiros palestinianos, disse-me, eram ridículos.
Desde os primeiros dias, foi uma vertigem de mortes. Os jovens que
lançavam pedras, por vezes crianças, eram atingidos na
cabeça e no peito. O que se seguiu é inseparável destas
imagens, profundamente gravadas no coração de cada palestiniano.
Em 12 de Outubro de 2000 uma multidão de palestinianos, transbordando de
raiva e de desejo de vingança, linchou dois soldados israelenses
perdidos em pleno coração de Ramallah. Israel reagiu bombardeando
os edifícios da polícia palestiniana em Ramallah e Gaza. Depois
disto tornou-se quase uma rotina ver helicópteros de combate
lançarem mísseis ou tanques dispararem obuses sobre os bairros
residenciais palestinianos. Nalguns casos era uma resposta a tiros
"reais" que tinham atingido o seu alvo. Mas o mais frequente era
tratar-se de uma reacção a tiros simbólicos, "para o
Sol", como disse um dia, com raiva, um membro da Segurança
palestiniana de Gaza. Depois, como seria de esperar, veio o momento dos
atentados mortíferos nas cidades israelenses. A partir daí, de
acordo com as leis da escalada, os tiros de obus e os bombardeamentos de
represália eram inevitáveis. Como eu estava enganada quando
escrevi, há dois anos, na edição em inglês deste
livro, que Israel não podia bombardear os campos de refugiados da
Cisjordânia e da Faixa de Gaza como tinha bombardeado o Líbano. Na
verdade fê-lo: quase todas as cidades palestinianas sofreram essa
experiência.
Foi nos campos de refugiados de Rafah e de Khân Yunis que os obuses
israelenses e as operações de destruição mais
estragos causaram. São as zonas mais pobres de todos os
territórios palestinianos. Os mais atingidos são os campos de
refugiados próximos dos colonatos. À primeira vista, dir-se-ia
que um tremor de terra atingiu estes campos. Nestes últimos meses,
bairros inteiros foram transformados em ilhas de ruínas, em amontoados
de placas de amianto esmagadas, de blocos de betão em pedaços, de
placas de chapa arrancadas, barras de ferro torcidas, tubos partidos, portas de
madeira quebradas, frigoríficos e fogões esmagados e portas de
ferro quase intactas, por vezes ainda de pé. Aqui e acolá, uma
pasta, um livro rasgado, um caderno coberto de letra de criança,
permanecem como vestígios da vida.
Apenas fileiras de casas por detrás deste montão de ruínas
lembram que estas destruições não são o resultado
de catástrofes naturais. Estas casas, a escassas dezenas de metros da
fronteira egípcia ou da linha de demarcação entre o campo
e os colonatos de Goush Katif, estão devoradas nas esquinas e telhados,
perfuradas por buracos de todas as dimensões provocados por
mísseis, balas ou obuses de todo o género, por armas cujo nome o
ferido médio em geral desconhece. É o que resta depois do que em
Israel se chama "troca de tiros".
Há casas que são arrasadas por gigantescos
bulldozers,
sob a protecção de helicópteros e de tanques de guerra.
O exército considera que estas destruições têm como
objectivo impedir os tiros sobre os colonatos (em Khân Yunis) ou a
escavação de túneis para o Egipto através dos quais
se infiltrariam armas (em Rafah). Tanto num caso como noutro, as pessoas
acordam com o barulho dos
bulldozers
a destruir as paredes ou com o som dos tiros de carros de combate
próximos. Em escassos segundos, dezenas de pessoas na sua maioria
filhos de refugiados de 1948 ficam sem casa. Fogem em pijama, sem
poderem levar nada. No dia seguinte vemo-los vaguear pelo mercado, à
procura de roupas. No início o exército dizia que eram casas
abandonadas. Depois, quando foram divulgadas pelas cadeias de televisão
as imagens das crianças à procura dos seus brinquedos entre os
escombros, essa desculpa deixou de servir.
É um epílogo que não tem fim.
[*]
Jornalista israelense. Nasceu em Jerusalém em 1956, filha de sobreviventes
do Holocausto. Estudou História em Jerusalém e Telavive. Iniciou a sua carreira
no jornalística no
Haaretz
em 1989. Mudou-se para Gaza em Dezembro de 1993 e depois para Ramallah, na
Cisjordania, em 1997. Este texto faz parte da edição portuguesa de "Beber o mar
em Gaza", publicada pela
Editorial Caminho
em Junho/2005 (558 páginas, ISBN 972-21-1731-9).
O erro, frequente em Portugal, de confundir 'israelense' com
'israelita' foi aqui corrigido.
Este excerto encontra-se em
http://resistir.info/
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