O embuste do século que os EUA querem impor aos palestinos
O Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente
(MPPM) condena firmemente o conteúdo do chamado "acordo do
século" para a resolução da questão palestina,
apresentado no dia 28 de Janeiro pelo presidente dos EUA, Donald Trump,
acolitado pelo ainda primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu.
Apresentado com soberba imperial, o mal designado plano "Paz para a
Prosperidade" rasga todas as resoluções aprovadas ao longo
de décadas pela ONU sobre a questão palestina, e rasga mesmo os
acordos, como Oslo, promovidos sob a égide dos Estados Unidos da
América desde a década de 90. O "Plano" acompanha
inteiramente as posições da extrema-direita israelita e assume a
forma de um
diktat
que pretende impor ao povo palestino, cujos representantes não foram
sequer considerados dignos de consulta, a total renúncia aos seus
direitos nacionais, reconhecidos e consagrados pelo direito internacional.
A legitimação da anexação e o prosseguimento da
limpeza étnica dos palestinos
O "acordo do século" proclama (de novo) Jerusalém
indivisa como capital do Estado de Israel; promove a anexação por
Israel de todos os colonatos judaicos na Cisjordânia ocupada; reconhece a
anexação do Vale do Jordão por Israel; nega aos refugiados
palestinos, expulsos em sucessivas campanhas de limpeza étnica pelas
forças sionistas e depois por Israel, o direito ao retorno. O mapa que
acompanha o "Plano" traça uma fronteira que anexa a Israel os
Montes Golã sírios, ao arrepio de toda a legitimidade
internacional.
O arguido por corrupção Netanyahu não perde tempo:
abençoado por Trump, quer que o governo de Israel discuta a primeira
fase da anexação já no próximo domingo.
Em contrapartida, aos palestinos caberia aceitar um "Estado" de
farsa, ainda assim remetido mais uma vez para as calendas gregas: uma entidade
informe, fragmentada em guetos descontínuos que fazem lembrar os planos
de bantustões da África do Sul do Apartheid, sem controlo das
fronteiras, sem controlo do espaço aéreo e das águas
territoriais, com capital num arrabalde de Jerusalém Oriental, sem o
direito a ter forças militares próprias mas sujeita à
eterna presença militar de Israel. Além disso, os palestinos
teriam de renunciar aos subsídios financeiros às famílias
dos presos e das vítimas mortais da repressão israelita; de
reconhecer Israel como "Estado-nação do povo judeu", ou
seja, a discriminação dos palestinos cidadãos de Israel; e
de aceitar o desarmamento dos movimentos da resistência palestina.
Uma parte dos palestinos cidadãos de Israel estariam destinados a ser
anexados à força ao pseudo-Estado palestino. A coberto do
falacioso argumento de um Estado-nação para os judeus e de um
Estado-nação para os palestinos, a pretexto de
"compensação territorial" pelos colonatos implantados
no coração da Cisjordânia, trata-se na realidade de mais
uma medida de limpeza étnica, visando aquilo que o sionismo não
conseguiu realizar em 1948: um Estado judaico "etnicamente puro",
desembaraçado dos seus habitantes palestinos, muçulmanos e
cristãos.
Na linha directa de medidas anteriores da administração Trump
reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel e
transferência para aí da embaixada dos EUA; corte do financiamento
à UNRWA, a agência da ONU de assistência aos refugiados
palestinos; anexação dos Montes Golã sírios
ocupados em 1967; negação do carácter ilegal dos colonatos
israelitas nos territórios palestinos ocupados , o plano
estado-unidense parece saído da pena dos sionistas mais radicais, dos
colonos mais extremistas. E não por acaso: é significativo que
Trump e Netanyahu tenham ambos saudado o papel desempenhado neste processo por
David Friedman, embaixador dos EUA em Israel, por Jason Greenblatt, enviado
especial para o Médio Oriente, e por Jared Kushner, genro de Trump e
principal autor do plano, todos sionistas assumidos com ligações
estreitas ao movimento dos colonos.
Uma nova ordem internacional no Médio Oriente com o Irão na linha
de mira
A relevância do que está em causa transcende o quadro estrito da
questão palestina. Trata-se de uma violação brutal da
legalidade internacional, para mais apresentada expressamente como parte de um
plano de agressão contra o Irão. Trump afirmou, e Netanyahu
reiterou e aplaudiu, que o plano surge na sequência do rompimento
unilateral pelos EUA do acordo de limitação nuclear assinado com
o Irão pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança
da ONU mais a Alemanha, e jactou-se do assassínio em Bagdade, em
gritante violação da soberania do Iraque, do general iraniano
Qassem Soleimani, protagonista destacado do combate ao Daesh e outros
terroristas que atentam contra a integridade e a soberania da Síria.
Trump silencia o terrorismo de Estado e a limpeza étnica praticados
desde há décadas por Israel contra o povo palestino e outros
povos da região, e quer retirar à questão palestina a
centralidade que tem no estabelecimento de um clima de paz no Médio
Oriente.
O que se visa é toda uma reorganização política e
geoestratégica da região sob a égide imperial.
Apresentando o Irão como principal fautor do terrorismo, o que se
procura é criar em torno do eixo Israel-Arábia Saudita um
alinhamento de certos países árabes contra os países e as
forças que no Médio Oriente se opõem ao domínio dos
Estados Unidos e se colocam ao lado do povo palestino. O documento explicita-o
ao recomendar a criação de um "Conselho de Segurança
Regional" composto pelos EUA, Israel, "Estado da Palestina",
Jordânia, Egipto, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
A comunidade internacional deve assumir as suas responsabilidades
De resto, a presença na sessão de apresentação do
"acordo do século" dos embaixadores em Washington do
Barém, de Omã e dos Emirados Árabes Unidos é bem o
sintoma do estado avançado da realização deste plano
e da traição cada vez mais descarada e ignóbil de
regimes reaccionários e ditatoriais árabes à causa
palestina.
A gravidade inaudita do documento e dos perigos reais que faz pesar sobre os
povos do Médio Oriente, e em primeiro lugar sobre o martirizado povo
palestino, exige que a operação agora em curso seja barrada.
Para isso é necessário que países e
organizações que defendem um mundo regido pelo direito
internacional e não pela lei do mais forte actuem energicamente e sem
demora, rejeitando de forma categórica o plano apresentado
unilateralmente pelos EUA e reafirmando que a solução para o
drama palestino é inconciliável com a continuação,
seja sob que forma for, do controlo e colonização sionista dos
territórios palestinos ocupados em 1967. A ONU, cuja legitimidade
é directamente posta em causa por este plano, bem como a União
Europeia, que reafirmaram já o seu continuado apego à
solução de dois Estados, incluindo um Estado palestino nas
fronteiras de 1967, devem, ademais, passar das pias declarações
de princípios aos actos.
O MPPM considera intolerável que a União Europeia mantenha com
Israel um Acordo de Associação, quando este refere como
condição, logo no preâmbulo, o respeito pelos direitos
humanos e pela democracia. O que a situação reclama são
antes sanções contra Israel, violador contumaz e impenitente do
direito internacional e dos direitos humanos dos palestinos.
Portugal não pode continuar a ser complacente com Israel
O MPPM considera inaceitável que o governo português continue a
manter relativamente aos crimes e violações do direito
internacional por parte de Israel uma atitude de chocante complacência.
É inaceitável que o governo português mantenha uma
cooperação de longa data com Israel nos domínios militar e
de segurança, recentemente evidenciada na aquisição de
equipamento israelita de guerra electrónica para os aviões KC-390
destinados à Força Aérea Portuguesa. É
inaceitável que o governo português enfileire com aqueles que
querem coarctar a justa crítica ao sionismo e aos crimes de Israel
equiparando-a ao anti-semitismo, como pretende a capciosa
definição da International Holocaust Remembrance Alliance que o
governo subscreveu.
No cumprimento do preceituado pela Constituição, o MPPM considera
que o governo português deve, ao invés, assumir uma
posição activa de denúncia dos crimes e
violações do direito por parte de Israel. O governo
português deve dar cumprimento à recomendação da
Assembleia da República e reconhecer soberanamente o Estado da Palestina
nas fronteiras de 1967, bem como agir nesse sentido dentro das
instituições da União Europeia, aderindo à proposta
do Luxemburgo.
Solidariedade com a causa palestina
Os desígnios dos EUA e do Estado sionista de liquidar de vez as
aspirações do povo palestino à liberdade, à
justiça para os refugiados, a um Estado soberano e independente contam
com a oposição firme e cada vez mais unida do próprio povo
palestino.
Neste momento de extrema dificuldade para o povo palestino, e num combate que
é também pela paz e a justiça em todo o Médio
Oriente e no mundo, o MPPM reitera a sua solidariedade de sempre à causa
do povo da Palestina e apela à solidariedade activa de todas e todos os
cidadãos e organizações portugueses com o povo palestino
no seu anseio pela realização dos seus legítimos e
imprescritíveis direitos nacionais.
30 de Janeiro de 2020
A Direcção Nacional do MPPM
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Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente,
www.mppm-palestina.org
Este comunicado encontra-se em
https://resistir.info/
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