Os EUA declaram guerra ao mundo através das vacinas
por Prabir Purkayastha
Donald Trump lançou uma nova guerra de vacinas, mas não contra o
vírus. Foi contra o mundo. Na Assembleia Mundial da Saúde, os EUA
e o Reino Unido foram os dois únicos países a se manifestarem
contra a declaração de que as vacinas e os medicamentos para o
Covid-19 deveriam estar disponíveis como bem público, e
não através de direitos exclusivos de patente. Tendo falhado na
sua resposta ao Covid-19, Trump tenta recuperar as suas hipóteses
eleitorais para as eleições de Novembro deste ano, prometendo uma
vacina precoce. O seu lema "Fazer a América grande outra vez"
(Make America Great Again)
consiste agora em vacinas para "US" (
(nós ou Estados Unidos),
mas o resto do mundo terá que fazer fila, esperar e pagar o que as
grandes empresas farmacêuticas peçam, pois são elas que
irão deter as patentes.
Em contraste, todos os outros países concordaram com a proposta da Costa
Rica na Assembleia Mundial da Saúde, de que deveria haver uma
fusão das patentes para todas as vacinas e medicamentos Covid-19. O
presidente Xi disse que as vacinas chinesas estariam disponíveis como
bem público, visão compartilhada também pelos
líderes da UE. Entre as oito vacinas na Fase 1 e 2 dos ensaios
clínicos, os chineses têm quatro, os EUA duas, o Reino Unido e a
Alemanha uma cada um.
Trump apresentou um ultimato à OMS com a retirada permanente de fundos
se a organização não alterar as suas
orientações no prazo de 30 dias. Em nítido contraste,
quase todos os países na Assembleia apoiaram a OMS, incluindo aliados
próximos dos EUA. O fracasso dos CDC
(Centers for Disease Control and Prevention)
contra o Covid-19, com quatro vezes o orçamento anual da OMS, é
bem visível. O CDC falhou em fornecer um teste bem-sucedido para o
SARS-CoV-2, mesmo dois meses depois de a OMS ter distribuido kits de teste
bem-sucedidos para um grande número de países. Trump ainda tem
que responsabilizar a sua administração e o CDC por esse erro
criminoso. Isso, mais do que qualquer outra falha, é a razão pela
qual os números dos EUA para o Covid-19 são agora mais de 1,5
milhões
(em 16 de Maio)
e cerca de um terço de todas as infecções globais.
Compare-se com a China, a primeira a enfrentar uma epidemia desconhecida,
parando-a nos 82 mil infectados e aquilo que países como o Vietname e
Coreia do Sul fizeram.
Escrevemos anteriormente que, se não abordarmos a questão dos
direitos de propriedade intelectual nesta pandemia, provavelmente veremos uma
repetição da tragédia da HIV. Durante 10 anos morreram
pessoas, porque o medicamento patenteado contra o HIV custava entre 10 e 15 mil
dólares para o fornecimento para um ano, muito além das
possibilidades das pessoas. Finalmente, foram as leis de patentes indianas que
até 2004 não permitiam tais patentes, que ajudaram as pessoas a
receber remédios contra o HIV a menos de um dólar por dia, ou 350
dólares pelo fornecimento para um ano. Hoje, 80% dos remédios
contra o HIV no mundo vêm da Índia. Para as grandes empresas
farmacêuticas, os lucros estavam acima das vidas e continuarão a
estar, a menos que mudemos o mundo.
A maioria dos países possui disposições de licenciamento
obrigatórias
[NT]
que lhes permitem interromper direitos de patentes ("quebra de
patentes") em caso de epidemias ou emergências de saúde.
Até a OMC depois de dura discussão aceitou na sua
Declaração de Doha (2001) que países com uma
emergência de saúde, têm o direito de permitir que qualquer
empresa fabrique um medicamento patenteado ou importá-lo de terceiros
países.
Por quê, então, os países são incapazes de quebrar
direitos de patentes, mesmo que haja disposições nas suas leis e
no
Acordo TRIPS
(Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights)?
Trata-se da intimidação dos EUA. Sob a lei de comércio
interno, os EUA emitem Relatórios Especiais USTR 301
ameaçando com sanções comerciais qualquer país que
tente emitir licenças obrigatórias para qualquer produto. A
Índia figura com destaque a cada ano, por ousar emitir uma
licença obrigatória em 2012 para a Natco Pharma (empresa
farmacêutica indiana) para o Nexavar, um medicamento contra o cancro que
a Bayer vendia por US$65 mil para o tratamento durante um ano. Marijn Dekkers,
CEO da Bayer, foi amplamente citado dizendo tratar-se de "roubo" e
"Não desenvolvemos este medicamento para indianos... Desenvolvemos
para pacientes ocidentais que podem pagar".
Isto deixa sem resposta quantas pessoas, mesmo no ocidente, podem pagar 65 mil
dólares por um tratamento. Mas não há dúvida de que
isso seria uma sentença de morte para qualquer pessoa, excepto os
super-ricos em países como a Índia. Embora na época
vários outros medicamentos também estivessem a ser considerados
para o licenciamento obrigatório, a Índia não voltou a
exercer essa disposição após ameaças dos EUA.
Foi o medo de que os países pudessem quebrar patentes usando as suas
disposições de licenciamento obrigatório que levou a
propostas de fusão de patentes. O argumento era que, como muitas dessas
doenças não afectam os países ricos, as grandes empresas
farmacêuticas deveriam abandonar as suas patentes nessas fusões ou
o capital filantrópico deveria fornecer fundos adicionais para o
desenvolvimento de novos medicamentos nessa fusão. É esta ideia
do agrupamento ou fusão de patentes que tem sido apoiada por todos os
países da OMS, excepto os EUA e o seu fiel seguidor, o Reino Unido.
Embora a fusão de patentes
(pooling)
seja bem-vinda se nenhuma outra medida estiver disponível,
também faz parecer que os países não têm outro
recurso além da caridade do grande capital. O que isso oculta, como a
caridade sempre faz, é que pessoas e países têm direitos
legítimos, mesmo sob o TRIPS, de ultrapassar patentes.
Os EUA, que gritam assassinato se a licença obrigatória for
emitida por qualquer país, não têm tal escrúpulo
quando seus próprios interesses são ameaçados. Durante o
susto com o antraz em 2001, o secretário da Saúde dos EUA emitiu
uma ameaça à Bayer sob "domínio eminente de
patentes", por licenciar ciprofloxacina a outros fabricantes. A Bayer
vergou-se e concordou em fornecer a quantidade requerida a um preço
exigido pelo governo dos EUA. E sem um gemido. Sim, a mesma Bayer, que
considerou a Índia um ladrão por emitir uma licença
obrigatória.
As vacinas para o Covid-19 podem precisar ser repetidas cada ano, pois ainda
não sabemos a duração de sua protecção.
É improvável que proporcione uma imunidade vitalícia como
a vacina contra varíola. Ao contrário do HIV, onde os
números de pacientes eram menores e poderiam ser estigmatizados de
maneiras diferentes, o Covid-19 é uma ameaça visível para
todos. Qualquer tentativa de convencer as pessoas e governos a ficarem
reféns de vacinas ou medicamentos Covid-19 verá o colapso de todo
o edifício de patentes do TRIPS, criado pelas grandes empresas
farmacêuticas apoiadas pelos EUA e pelos principais países da UE.
É por isso que os mais inteligentes do mundo capitalista alteraram a sua
posição para uma fusão de patentes nos medicamentos e
vacinas para o Covid-19.
Diferentemente do capital inteligente, a resposta de Trump à vacina
Covid-19 é simplesmente a intimidação. Ele acredita que
com dinheiro ilimitado que está disposto a colocar nos esforços
de criar uma vacina, os EUA derrotariam todo mundo na posição de
vencedores ou
comprariam a empresa que obtivesse sucesso. Se for bem-sucedido, poderá
usar a "sua" vacina Covid-19 como um novo instrumento de poder
global. Serão os EUA que decidirão quais os países que
recebem a vacina e quais os que não recebem.
Trump não acredita numa ordem global baseada em regras, mesmo que as
regras sejam a favor dos ricos. Ele está a abandonar vários
acordos de controlo de armas e prejudicou a OMC. Ele acredita que os EUA, sendo
a maior economia e o poder militar mais poderoso do mundo, têm o direito
de dar ordens a todos os países. Ameaças de bombardeios e
invasões podem ser combinadas com sanções unilaterais e,
no seu mais recente arsenal imaginário, negando vacinas.
O seu problema é que os dias de uma hegemonia global única
já terminaram. Os EUA mostram-se um gigante em ruínas e a
resposta à epidemia foi simbólica. Foi incapaz de fornecer testes
de vírus ao seu povo a tempo e interromper a epidemia, como
vários outros países fizeram.
A China e a UE já concordaram que qualquer vacina desenvolvida por eles
será considerada como bem público. Mesmo sem isso, uma vez que um
medicamento ou vacina seja bem-sucedido, qualquer país com uma
infraestrutura científica razoável pode replicar o medicamento ou
a vacina e fabricá-lo localmente. Na Índia, como em muitos outros
países, existe a capacidade científica. Também existe uma
das maiores capacidades de fabricação de medicamentos
genéricos e vacinas do mundo. O que nos impede, ou qualquer país,
de fabricar vacinas ou medicamentos depois de desenvolvidos? Apenas a
ameaça vazia de uma hegemonia falhada em patentes? Ou a crença de
que, na guerra das vacinas EUA-China, têm de se estar do lado dos EUA?
24/Maio/2020
[NT] A licença compulsória ou obrigatória de patentes
(
compulsory licensing provisions
), conhecida como "quebra de patente" significa uma suspensão
temporária do direito de exclusividade do titular de uma patente,
permitindo a produção, uso, venda ou importação do
produto ou processo patenteado.
Esse instrumento é accionado pelo governo do país que concede a
patente, intervindo sobre o monopólio da sua
exploração, constituindo um mecanismo de defesa contra
possíveis abusos cometidos pelo detentor de uma patente ou para os casos
de "interesse público".
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2020/0524_pd/us-declares-vaccine-war-world.
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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