A política da pandemia

por Peoples Democracy

Toda pandemia global deve ser vista no seu contexto político, social e económico. A pandemia do Covid-19 está a verificar-se num momento em que o capitalismo neoliberal devastou todos os serviços básicos que são vitais para o bem-estar do povo. A privatização desnudou ou desmantelou o sistema público de saúde de muitos países; o Estado abandonou a responsabilidade de prover as necessidades básicas do povo – alimentação, habitação, educação e transporte público. Em qualquer crise enfrentada pela sociedade, seja económica ou social, a prioridade da política de Estado tem sido salvaguardar os interesses do capital financeiro – as corporações, bancos e bilionários – e não os do povo trabalhador.

A pandemia do coronavírus viu um conjunto de respostas políticas dos governos e classes dominantes de países que revelam as contradições num sistema neoliberal exaurido e a reacção instintiva do capitalismo de colocar os lucros antes do povo.

O imperialismo estado-unidense continua a comportar-se do mesmo modo que antes – utilizando intimidação e coerção contra países que não aceitam seus ditames. Ele recusa-se a retirar as sanções contra o Irão quando o país está gravemente afectado pelo vírus e uma crise de saúde desenvolveu-se ali. O Irão depara-se com acesso difícil a remédios e equipamento médico devido às sanções ilegais sobre companhias de terceiros países que têm relações comerciais consigo e à proibição de comércio e ligações de transporte. No caso da Venezuela, além das sanções que têm um efeito terrível sobre a economia, a administração Trump acusou o Presidente Maduro e seus colegas no governo de narco-terrorismo exactamente em meio à crise do coronavírus. Um prémio de 15 milhões de dólares foi estabelecido por informação que leve à prisão de Maduro – um convite aberto ao assassínio do chefe de um Estado soberano. E não só isso: os Estados Unidos e seus aliados ocidentais foram instrumentais na rejeição do FMI ao pedido da Venezuela de fundos de emergência para travar a crise do coronavírus.

O próprio presidente Trump liderou a campanha para culpar a China pela epidemia do coronavírus. Ele denominou-a como um "vírus chinês" e acusou a China de não informar a tempo acerca da ameaça do vírus. Ele cinicamente quis utilizar a pandemia para isolar a China e fortalecer sua posição negocial nas suas batalha económicas e comerciais com a China. É uma outra questão que depois de ridicularizar a China por bem mais de um mês e meio, enfrentando um desastre Covid em sua casa, a administração Trump tenha permitido fornecimento de equipamento médico da China serem importados. O primeiro voo com máscaras, batas e kits de teste aterrou em Nova York em 29 de Março e mais 21 voos estão previstos para várias cidades.

Se bem que Trump não possa intimidar a China quanto à pandemia do Covid, o descarado desdém da administração Trump quanto ao bem-estar de povos fora dos EUA pode ser visto nos seus esforços para impedir países de aceitarem missões médicas cubanas para combater o vírus. Os EUA estão a advertir estes países no Caribe e na América Latina de que as missões cubanas prejudicarão os interesses dos seus países.

Para o imperialismo, a hegemonia está acima de tudo, não a saúde do povo e o seu bem-estar. Em 2008, durante a crise financeira global, a prioridade para os círculos dirigentes dos EUA e dos países capitalistas avançados era salvar corporações, bancos e companhias financeiras e de investimento. As prioridades de classes são explícitas e os trabalhadores, especialmente trabalhadores precários estão no fim da lista. Exemplo: o pacote de 2 milhões de milhões (trillion) deu milhares de milhões de dólares a corporações nos EUA com menos condicionantes exigidas do que em 2008. A transferência de cash de 1200 dólares por pessoa são uma quantia reles para aqueles que estão a perder empregos e não têm segurança social. Esta transferência não impede os lay-offs maciços que já estão em curso. Um recorde de 3,3 milhões de pessoas reclamava benefícios de desemprego na semana passada.

Só nos países escandinavos e nalguns outros da Europa onde existem tradições social-democratas, apesar de muito erodidas, é que os trabalhadores estão a ser protegidos de lay-offs e grande parte dos seus salários subscritos por subvenções do Estado. Na Dinamarca, por exemplo, 75 dos salários seria pago pelo Estado e 25 por cento pelas empresas. O governo conservador no Reino Unidos também tem sido uma excepção, está a dar subvenções que cobrem 80 por cento dos salários dos empregados das empresas, embora trabalhadores precários não obtenham qualquer compensação digna.

A primeira resposta da maior parte dos governos direita foi assegurar que a economia e actividades económicas não sofressem. Esta é a razão porque rapidamente abraçaram a ideia da "imunidade da manada" a qual, dito de modo simples, significa que ao invés de medidas estritas para impedir a propagação da infecção, deixa as pessoas ficarem infectadas e quando um número substancial da população, digamos 80 por cento, ficar infectada, ela recuperaria e desenvolveria imunidade. Então a sociedade obteria imunidade do vírus. Esta abordagem não exigiria confinamentos, isolamentos em grande escala ou distanciamento social, permitindo que as actividades normais prosseguissem.

O primeiro-ministro Boris Johnson, do Reino Unido, o primeiro-ministro de direita da Holanda, a liderança italiana e também o presidente Trump do seu próprio modo agarraram-se a esta ideia. Mas eles foram forçados a abandoná-la quando a ascensão das infecções começou a engolfar seus países. Trump até à semana passada insistia em que a economia em andamento deve ter precedência sobre o combate ao vírus. Só depois de os EUA correrem à frente como o país com o número de infecções mais alto do mundo, ultrapassando de longe os números chineses, é que Trump finalmente reconheceu que salvar vida é a prioridade e que a economia vem depois disso. Mas colocar lucros antes do povo levou a um desastre americano que está a desdobrar-se perante os olhos do mundo.

Há outro acólito de Trump que se mantém na mesma, o presidente Jair Bolsonaro do Brasil. Ele continua a negar a gravidade da ameaça mortal. Ele continua a exortar o povo a trabalhar e a empenhar-se em actividades económicas. Ao seu apelo, foram efectuadas manifestações no país contra o Supremo Tribunal e o Congresso com os quais ele se tem empenhado em batalhas que estão em curso. A cólera pública contra a sua posição insensível está em crescendo com o povo a bater panelas e frigideiras nas suas casas em protestos diários.

Modi, que este ano convidou o demente Bolsonaro como hóspede principal no Dia da República, obviamente não partilha das suas visões bizarras sobre o coronavírus. Mas há algo de comum entre os dois – o autoritarismo. Apelar a um confinamento total de 1,3 mil milhões de pessoas e a uma paralisação das suas actividades diárias com um aviso de três e horas e meia só pode provir de uma mentalidade autoritária. Além disso, ela mostra uma rígida perspectiva de classe: foi uma declaração de guerra à classe trabalhadora.

A expressão "trabalhador migrante" é parcialmente enganosa. A maior parte deles são trabalhadores envolvidos na produção, construção, distribuição e serviços. Não há protecção para os seus empregos, nem benefícios de desemprego, nem segurança alimentar ou mesmo abrigo para as suas famílias. Tudo o que Modi ofereceu nos seus discursos foram homilias piedosas a pedir ao patronato para não despedir trabalhadores ou cortar os seus salários. Quando os trabalhadores e suas famílias votaram com os seus pés, as medidas de força começaram: eles estão a ser arrebanhados em abrigos improvisados, ou postos em quarentena em condições deploráveis, ou os mais recalcitrantes estão a ser enviados para prisões temporárias.

A realidade é que após três décadas de políticas neoliberais temos um esqueleto enfraquecido de um sistema público de saúde (com excepções como Kerala ), nenhum sistema de distribuição pública universal e um Estado que se recusa a fazer o aprovisionamento público de serviços básicos. No período pós-pandemia o trabalho nos é impedido. Tem de haver políticas alternativas à mistura tóxica de neoliberalismo e Hindutva. A esquerda tem de tomar a liderança para combater por este caminho alternativo.

05/Abril/2020

O original encontra-se em https://peoplesdemocracy.in/2020/0405_pd/politics-pandemics

Este editorial encontra-se em https://resistir.info/ .
06/Abr/20