Os trabalhadores de Trieste expõem todas as contradições do nosso tempo

– Itália: A classe operária entra em cena contra a ditadura do Green Pass
– Um instrumento de controle social da classe dominante
– Os media corporativos mal falam disso
– Espanha: Supremo Tribunal suspendeu o "passaporte Covid"

Giuseppe Masala [*]

Protestos na Itália contra o certificado vacinal.

A revolta de Trieste é verdadeiramente um acontecimento de enorme significado simbólico que nos confronta com questões que pareciam amplamente desactualizadas (ou deveríamos dizer eliminadas).

Por um lado, a utilidade do trabalho, nem todos os trabalhos são iguais, alguns são mais úteis, outros menos, alguns não têm qualquer utilidade. Basta que os trabalhadores de Trieste decidam parar e o Poder treme. Arrisca desfazer-se uma das artérias fundamentais da Supply Chain (é assim que falam os corajosos, desculpem-me, vou corrigir-me: a cadeia de abastecimento), fazendo parar muitas produções, um pouco em toda a Europa.

No entanto, a importância crucial do seu trabalho não lhes é reconhecida:   não vale a pena contorná-lo, são todos gente que leva para casa cerca de 1500 euros por mês.

Por outro lado, temos as ridículas tiradas televisivas de pessoas que são culturalmente medíocres e que se encontram onde estão devido a não se sabe que mérito. Gente que ganha, pelo menos, 20.000 euros por mês e que, se se afundasse agora no abismo do inferno, ninguém seria prejudicado.

No entanto, eles ganham muito dinheiro. Surge um dos temas do bom velho Marx, o da dicotomia entre o trabalho útil e trabalho inútil. E atenção, por detrás deste discurso há mais do que um tema de justiça social, mas há a decadência de uma nação outrora rica:   durante trinta anos fomos embalados pela ideia de que poderíamos viver do turismo e da venda de sapatos, bolsas de mão e queijo caciocavallo. É claro que tudo isto é muito útil, mas não é suficiente. Outros trabalhos úteis e fundamentais, diria eu, foram humilhados, a começar pela investigação científica, tecnologias de informação e muito mais.

Depois há outra grande questão. A educação. Tornou-se agora em "educação para o conformismo/aceitação".

Mas parece-vos possível que os "burros estivadores do cais" (escrevo isto como um paradoxo, a minha estima por essas pessoas é no mínimo imensa) compreendam imediatamente que não se pode abandonar a soberania sobre o próprio corpo para poder trabalhar?

Em vez disso, muitos licenciados (sic, não dizemos em que), que teoricamente deveriam ter as ferramentas para compreender, alinharam-se todos como idiotas (são de facto idiotas) para se fazerem inocular com coisas experimentais nunca antes experimentadas, renunciando à soberania sobre os seus próprios corpos ao primeiro Brunetta [NR] que passa ao lado. Tudo gente educada para o conformismo e não para fazer perguntas, porque isso cria problemas.

Tinha razão Ivan Illich quando falou de uma ‘deschooling society’, porque entretanto a escola rígida e estatal é só conformismo, é apenas nivelamento por baixo. Os trabalhadores de Trieste confrontaram-nos com todas as nossas contradições sociais. A todos eles, realmente todos eles. Seja qual for o resultado, devemos estar-lhes gratos.

16/Outubro/2021

[NR] Renato Brunetta, ministro italiano que defende a imposição dos certificados vacinais (Green Pass).

Ver também:

A situação na Itália

A partir de Outubro, todos os empregados em Itália são legalmente obrigados a ter o "certificado vacinal" (passe verde, ou Green pass, ou passaporte vacinal) do país, mostrando que tiveram pelo menos uma dose de vacina ou que recuperaram da doença nos últimos seis meses, para poderem trabalhar. Alternativamente, também podem fazer o seu trabalho se pagarem (do seu próprio bolso) por um teste de dois em dois dias, desde que este volte a dar negativo, obviamente. Actualmente, cerca de 15% dos empregados do sector privado e 8% dos empregados do sector público não têm o passe verde.

Os trabalhadores de Trieste anunciaram que a partir de hoje vão fazer greve no porto e recusam-se a cumprir os requisitos do passe verde. Na tarde de ontem esta greve foi considerada ilegal, mas milhares de trabalhadores portuários estão hoje em manifestação contra o passe verde.

O movimento não se restringe a Triste. O Dr. Dominic Standish, residente na Itália, mostra o panorama geral:

Na região de Veneza, na Electrolux, que tem 23% dos 1.430 trabalhadores não vacinados, começou hoje uma greve de oito horas contra o passe. Muitas outras empresas enfrentam perturbações à medida que os empregadores lutam diariamente com os controlos, uma vez que não podem armazenar os dados de saúde dos trabalhadores devido aos regulamentos de privacidade. Muitos autocarros na região de Veneza foram cancelados devido à falta de condutores com passes.

Além disso, estima-se que 30% dos motoristas de camiões em Itália não possuem o passe. Quarenta por cento dos motoristas são originários de fora de Itália, o que significa que muitos deles têm doses de vacinação não reconhecidas pelo governo e podem não conseguir entrar nos locais de trabalho a partir de hoje.

Os trabalhadores correm o risco de multas até 1.500 euros e de serem suspensos do trabalho sem pagamento se não cumprirem os novos regulamentos.

in www.europereloaded.com/meltdown-begins-in-italy-with-mass-protests-at-ports/



Coordenação dos Trabalhadores do Porto de Trieste
12/Outubro/2021

Comunicado de imprensa - Por favor republicar!

Olá a todos!
Após as manifestações de ontem, insistimos mais uma vez: no dia 15 de Outubro haverá bloqueio das operações do porto de Trieste.
Acabamos de saber que o governo procura um acordo, uma espécie de compromisso para os estivadores de Trieste. Estão a acenar com o espantalho da demissão do nosso presidente, Zeno D'Agostino.
Nós, os estivadores, insistimos, porque a nossa mensagem deve ser clara: nada disto nos levará a negociar. Queremos que o Passe Verde seja eliminado para todas as categorias de trabalhadores e não apenas para os estivadores
Queremos também lembrar ao Presidente D'Agostino que quando estava a ser atacado, os seus trabalhadores portuários defenderam-no com uma faca entre os dentes.
Agora que os estivadores decidiram defender-se a si próprios e aos outros trabalhadores, ele mostra com a sua demissão que se recusa a lutar do nosso lado.
Por isso, desejamos-lhe felicidades. Adeus.



Em Portugal as empresas estão proibidas de pedir certificado:
andre-dias.net/multas-de-61000-euros-para-empresas-que-pecam-certificado/

Protesto contra o Green Pass no porto de Genova:

[*] Nasceu na Sardenha no ano 25 antes do Google, licenciado em economia e especializado em "finanças éticas". Cultiva duas paixões, a língua italiana e a linguagem Python. Publicou um romance (que ambiciona ser o primeiro de uma trilogia), Una semplice formalità, também publicado em França com o título Une simple formalité e um conto Therachia, breve storia di una parola infame. Declara-se ciber-marxista. Algumas das suas obras são acessíveis aqui.

O original encontra-se em www.lantidiplomatico.it/...

Este artigo encontra-se em resistir.info

19 /Out/21