Este artigo de opinião conta a história por trás da
criação da vacina russa contra a COVID-19 e enfatiza o desejo da
Rússia de cooperar com a comunidade internacional.
Contudo, ele foi rejeitado pelos media ocidentais. No entanto, tal
informação é crucial para o esforço internacional
na luta contra o maior desafio do mundo e gostaríamos que os leitores
decidissem por si mesmos por qual motivo tal editorial foi rejeitado.
Este artigo pode ser republicado por qualquer media que julgue útil
apresentar aos seus leitores a história e alguns factos sobre a primeira
vacina contra a COVID-19 a ser registada no mundo. O Fundo Russo de
Investimentos Directos (RFPI, na sigla em russo) também lançou o
site
https://sputnikvaccine.com/prt/
para prover informação precisa e actualizada sobre a vacina.
O êxito russo no desenvolvimento da vacina para COVID-19 tem raízes
históricas
Esta nova era levou não só à competição, mas
também a muitos esforços colaborativos, incluindo a missão
conjunta Apollo-Soyuz realizada pelos EUA e pela União Soviética.
Uma vacina contra a COVID-19 é a prioridade número um mundial e
muitos países, organizações e empresas
declaram estar perto de desenvolver uma
. Até o final deste ano, alguns outros países já
deverão ter as suas próprias vacinas. É importante que
barreiras políticas não impeçam que as melhores
tecnologias disponíveis sejam usadas para o benefício de todas as
pessoas na face do mais sério desafio que a humanidade encarou em
décadas.
Infelizmente, ao invés de olhar para a ciência por trás da
comprovada vacina adenoviral e vectorial, testada e desenvolvida pela
Rússia, alguns políticos e medias internacionais decidiram focar
na política e nas tentativas de minar a credibilidade da vacina russa.
Acreditamos que tal comportamento é contraproducente e apelamos a um
"cessar-fogo" político sobre as vacinas
em face da pandemia da COVID-19
.
Não é do conhecimento geral em todo o mundo que a Rússia
tem sido um dos líderes globais em pesquisas de vacinas por
séculos. A imperatriz russa Catarina, a Grande, deu um exemplo em 1768,
quando recebeu a primeira vacinação contra a varíola do
país, 30 anos antes de o mesmo ter sido feito nos EUA.
Em 1892, o cientista russo Dmitry Ivanovsky observou um efeito incomum enquanto
estudava folhas de tabaco infectadas pela doença do mosaico.
As folhas permaneciam contagiosas mesmo depois de o cientista ter removido as
bactérias. Porém, isso foi feito meio século antes que o
primeiro vírus pudesse ser visto por um microscópio, tornando a
pesquisa de Ivanovsky o nascimento de uma nova ciência chamada virologia.
Desde a descoberta de Ivanovsky, a Rússia tem sido um dos líderes
globais em virologia e pesquisa de vacinas, formando inúmeros cientistas
talentosos tais como o pesquisador Nikolai Gamaleya, que estudou no
laboratório do biólogo francês Louis Pasteur em Paris e em
1886 abriu na Rússia a segunda estação do mundo de
vacinação para a raiva.
A União Soviética continuou o apoio às pesquisas de
vírus e vacinas. Todos os nascidos depois da Segunda Guerra Mundial
receberam vacinas obrigatórias contra a pólio, tuberculose e
difteria.
Num raro exemplo de cooperação durante a Guerra Fria, três
importantes virologistas soviéticos foram aos EUA em 1955 oferecer
oportunidades de testes na União Soviética para uma vacina
americana contra a pólio, uma doença mortal que tirou a vida de
milhões de pessoas. Se então fomos capazes de cooperar, podemos e
devemos fazer isso agora.
Primeira vacina contra a COVID-19 no mundo
Décadas de esforços de cientistas russos e soviéticos
levaram à criação de uma excelente infraestrutura de
pesquisas, como o Centro Nacional de Pesquisa de Epidemiologia e Microbiologia
Gamaleya.
Tal infraestrutura vai desde uma das "bibliotecas virais" mais ricas
do mundo, criada usando uma técnica única de
preservação, até o centro de experimentos de
reprodução animal. Temos orgulho deste legado que nos permitiu
criar a primeira vacina contra a COVID-19 aprovada no mundo. Nós
já recebemos pedidos internacionais de mil milhões de doses da
nossa vacina, e fechamos acordos internacionais para produzir 500
milhões de doses anualmente com a intenção de aumentar
ainda mais.
O verdadeiro segredo
Hoje muitos media e políticos ocidentais questionam a rapidez da
criação da vacina da COVID-19 na Rússia, levantando
dúvidas sobre sua eficácia e autenticidade. O segredo por
trás de tal rapidez é a experiência da Rússia na
pesquisa de vacinas. Desde a década de 1980, o Centro Gamaleya tem
liderado o esforço para desenvolver uma plataforma tecnológica
usando adenovírus, encontrados em adenoides humanos e normalmente
transmitindo o resfriado comum, como "vectores" ou veículos
que podem induzir material genético de outro vírus dentro de uma
célula.
O gene do adenovírus que causa a infecção é
removido, enquanto um gene com o código da proteína de outro
vírus é inserido. Tal elemento inserido é pequeno e
é uma parte não perigosa de um vírus, sendo segura para o
corpo, mas ajuda o sistema imunológico a reagir e produzir anticorpos
que nos protegem da infecção.
A plataforma tecnológica de vectores baseados em adenovírus torna
a criação de novas vacinas mais fácil e rápida,
através da modificação do vector transportador inicial com
o material genético de novos vírus emergentes.
Tais vacinas geram uma grande resposta do corpo humano com o intuito de criar
imunidade, enquanto o processo total de modificação vectorial e a
produção em escala piloto demora poucos meses.
Os adenovírus humanos são considerados dos mais fáceis
para modificar desta maneira, portanto tornaram-se vectores muito populares.
Desde o início da pandemia do COVID-19, o que os pesquisadores russos
tiveram de fazer foi apenas extrair um gene codificador da espiga do novo
coronavírus e implantá-lo dentro de um vector adenoviral familiar
para o colocar numa célula humana.
Eles decidiram usar esta tecnologia já comprovada e disponível ao
invés de entrar por um território desconhecido.
Os estudos mais recentes indicam que apenas duas doses da vacina são
necessárias para criar uma imunidade prolongada.
Desde 2015, pesquisadores russos têm trabalhado no modelo de dois
vetores, daí a ideia de usar dois tipos de vectores adenovirais, Ad5 e
Ad26, na vacina contra a COVID-19.
Desta forma, eles enganam o corpo, que desenvolveu imunidade contra o primeiro
tipo de vector, e impulsionam o efeito da vacina com a segunda dose usando um
vector diferente.
De modo comparativo seria como dois comboios que tentam levar uma carga
importante a uma fortaleza do corpo humano que necessita da entrega para
produzir anticorpos. Será preciso o segundo comboio para ter certeza de
que a carga chegará a seu destino. Tal comboio deverá ser
diferente do primeiro, o qual já foi submetido ao ataque do sistema
imunológico do corpo e já é conhecido deste. Desta forma,
enquanto os outros desenvolvedores de vacinas possuem um comboio, nós
temos dois.
Tal vacina tem sido usada por milhares de pessoas nos últimos anos,
criando uma plataforma vacinal comprovada que foi usada para a vacina da
COVID-19.
Cerca de 2.000 pessoas na Guiné receberam injecções das
vacinas do Centro Gamaleya em 2017-18, e o mesmo possui uma patente
internacional para sua vacina contra o ébola.
Método dos dois vectores
O Centro Gamaleya usou vectores adenovirais para desenvolver vacinas contra
influenza e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio
(MERS, na sigla em inglês).
Ambas as vacinas estão actualmente em estágios avançados
de testes clínicos. Tais conquistas mostram que os laboratórios
russos não perderam tempo nas últimas décadas, enquanto a
indústria farmacêutica internacional frequentemente subestimou a
importância da pesquisa de novas vacinas na ausência de
ameaças globais à saúde antes da pandemia da COVID-19.
Outros países decidiram seguir nossos passos desenvolvendo vacinas
baseadas em vectores adenovirais.
Exame antes da alta de voluntários que participaram de testes da vacina
russa contra a COVID-19 no Hospital Militar Burdenko, na Rússia
A Universidade de Oxford, Reino Unido, está usando um adenovírus
de um macaco, o qual nunca foi usado antes numa vacina aprovada, ao
contrário dos adenovírus humanos.
A companhia americana Johnson & Johnson está usando o adenovírus
Ad26 e a chinesa CanSino o adenovírus Ad5, os mesmos vectores usados
pelo Centro Gamaleya, mas eles ainda terão de dominar a técnica
dos dois vectores. Ambas as companhias já receberam grandes quantidades
de encomendas de vacinas dos seus governos.
O uso de dois vectores é uma tecnologia única, desenvolvida pelos
cientistas do Centro Gamaleya, o que diferencia a vacina russa de outras
vacinas vectoriais de adenovírus em desenvolvimento ao redor do mundo.
É válido ressaltar que vectores adenovirais possuem claras
vantagens sobre outras tecnologias, como as vacinas mRNA.
As futuras vacinas mRNA, ainda sob testes clínicos nos EUA e em outros
países, não usam vectores como transporte e representam uma
molécula RNA com um código de proteína de
coronavírus envolto em uma membrana lipídica. Tal tecnologia
é promissora, mas seus efeitos colaterais, especialmente os impactos na
fertilidade, não foram estudados em profundidade.
Nenhuma vacina mRNA recebeu por enquanto qualquer aprovação
oficial no mundo.
Acreditamos que na corrida mundial por uma vacina contra o coronavírus,
vacinas vectoriais adenovirais serão as vitoriosas, mas até mesmo
nesta categoria a vacina do Centro Gamaleya está na frente.
Tais documentos proverão informação detalhada sobre a
vacina, incluindo os exactos níveis de anticorpos mostrados tanto por
diversos testes de terceiras partes como pelo teste do proprietário
Centro Gamaleya, os quais identificam os anticorpos mais eficientes no ataque
à espiga do coronavírus.
Eles também mostrarão que todos os participantes dos testes
clínicos
desenvolveram 100% de imunidade
contra o COVID-19.
Estudos em hamsters sírios, animais que normalmente morrem com a
COVID-19, mostraram protecção em 100% e ausência de danos
nos pulmões depois de terem recebido uma dose letal da
infecção.
Após o registo, iremos conduzir testes clínicos internacionais em
outros três países. A produção em massa da vacina
está prevista para Setembro e já testemunhamos forte interesse
global pela vacina.
O cepticismo entre políticos e media internacionais emergiu assim que a
Rússia anunciou seus planos para a produção em massa da
vacina contra a COVID-19.
Quando falei com alguns media ocidentais, eles recusaram-se a incluir
factos-chave sobre a vacina russa da COVID-19 nas suas reportagens. Vemos tal
cepticismo como uma tentativa de prejudicar nossos esforços em
desenvolver uma vacina funcional que parará a pandemia e
ajudará na reabertura da economia global
.
Não é a primeira vez que a Rússia encarou a
desconfiança em sua liderança na ciência quando a
política cria obstáculos a avanços científicos e
põe a saúde pública em risco.
Durante o surto de pólio no Japão nos anos 1950, mães
japonesas cujos filhos estavam morrendo de pólio manifestaram-se contra
o seu próprio governo, o qual havia banido a importação da
vacina soviética contra a pólio por razões
políticas.
As manifestantes alcançaram seu objectivo e a proibição
foi retirada, salvando a vida de mais de 20 milhões de crianças
japonesas.
Hoje, a política está novamente no meio do caminho da tecnologia
russa, a qual pode salvar vidas no mundo.
A Rússia está aberta à cooperação
internacional na luta contra esta e futuras pandemias. Numa conferência
internacional de vacinas contra a pólio em 1960, em Washington, um
delegado soviético disse, respondendo a perguntas sobre a
segurança da vacina desenvolvida na Rússia, que "nós
amamos nossas crianças e estamos preocupados com seu bem-estar tanto
quanto as pessoas nos EUA ou em qualquer outra parte do mundo estão
[preocupados] com suas crianças".
Após tais palavras, a delegação soviética recebeu
grande ovação da audiência e os trabalhos conjuntos sobre
vacinas continuaram.
No que precisamos pensar agora é no bem-estar e na prosperidade das
futuras gerações. Todos os países no mundo precisam deixar
a política para trás e focar no descobrimento das melhores
soluções e tecnologias para proteger vidas e retomar a actividade
económica.
Nosso fundo já assegurou parcerias de produção conjunta da
vacina russa em cinco países.
Talvez em algum momento, graças a tais parcerias na luta contra o
COVID-19, possamos rever e abandonar as restrições politicamente
motivadas nas relações internacionais, que já se tornaram
obsoletas e representam um obstáculo aos esforços coordenados
para lidar com os desafios globais.
[*]
Licenciado em Economia e presidente do
Fundo Russo de Investimentos Directos (RFPI, na sigla em russo). Na
década de 1990 trabalhou em diversas instituições
financeiras estrangeiras, incluindo o banco de investimentos Goldman Sachs em
Nova York.