O espectro dos anos trinta
O Banco de Reserva da Índia negou, como era de esperar, que o seu
governador Raghuram Rajam tenha alguma vez sugerido que o mundo estava a
enfrentar a possibilidade de uma Grande Depressão do tipo da da
década de 1930. Membros da "comunidade financeira global"
supostamente não dizem tais coisas. Assim, mesmo que o Dr. Rajan o tenha
feito, um desmentido era inevitável.
A questão entretanto não é se Rajan realmente disse isto.
A questão não é tão pouco se o mundo realmente
deslizaria para uma depressão tipo década de 1930. A
questão é se os problemas levantados por Rajan no evento
organizado em Londres eram válidos e significativos.
Ele referia-se ao abrandamento competitivo da política monetária
que se está a verificar por todo o mundo devido à pressão
para ressuscitar o crescimento, o qual tem estado sempre esquivo desde a crise
de 2008. Tal abrandamento competitivo, ao invés de criar crescimento na
melhor das hipóteses tem o efeito de transferir crescimento de um
país para outro o que leva o mundo a ser capturado numa
versão actualizada da política "empobrecer o meu
vizinho" que caracterizou a década de 1930 e realmente agravou o
declínio
(slump)
ao efectivamente destruir os arranjos económicos internacionais que
existiam até então e minar o "estado de
confiança" dos capitalistas por toda a parte.
EFEITO AGRAVAMENTO
Quando o Padrão Ouro entrou em colapso em 1931 seguiram-se
desvalorizações competitivas de divisas por toda a parte. Agora,
se um país desvaloriza sua divisas,
enquanto outros não o fazem,
então as suas mercadorias, tudo o mais permanecendo o mesmo, tornam-se
mais baratas em comparação com as de outros países, o que
portanto transfere a procura de outros países para as suas mercadorias.
Isto equivale a uma tentativa de aumentar o emprego interno (porque mais
mercadorias domésticas são agora procuradas e portanto
produzidas) a expensas do emprego em outros países (porque menor
quantidade das suas mercadorias são agora procuradas). Uma tal
tentativa, contudo, que equivale a tornar-se mais rico a expensas do vizinho
(daí a expressão política do "empobrecer o meu
vizinho") não funciona se outros países também
efectuarem acções protectoras, desvalorizando também suas
divisas. Em tal caso há apenas um enxurrada de
desvalorizações por toda a parte, sem que um único
país seja o ganhador por causa disto.
Mas tais depreciações competitivas da taxa de câmbio
não deixam apenas todos os países exactamente onde estavam antes
de tudo começar; elas exacerbam a incerteza na economia mundial e servem
para amortecer o investimento ainda mais, provocando uma nova
contracção da procura agregada e portanto do emprego por toda a
parte. Em suma, as políticas do empobrecer o meu vizinho, com cada um a
tentar "roubar" emprego dos demais, tem o efeito de agravar a
situação para todos.
A versão moderna da política do "empobrecer o meu
vizinho" a que Raja estava a referir-se funciona como se segue. O
principal país capitalista do mundo, os Estados Unidos, a fim de
estimular crescimento na sua economia, reduz a sua taxa de juro quase a zero e
neste processo inunda a economia com dólares impressos pelo seu banco
central, o Federal Reserve Board. Estes dólares vão então
para todo o mundo uma vez que as taxas de juro alhures ainda não foram
reduzidas. Um tal aumento na oferta de dólares reduziria, se tudo o mais
permanecesse o mesmo, o preço do dólar em relação a
outras divisas, o que significaria uma mudança da procura das
mercadorias de outros países para mercadorias americanas, ou um
"roubo" de empregos dos outros países pelos EUA. Outros
países obviamente não permitem que isto aconteça, isto
é, não permitem que suas divisas valorizem em
relação ao dólar. Assim, previnem isto fazendo com que os
seus bancos centrais detenham os dólares despejados nas suas economias
à taxa de câmbio prevalecente.
Como os bancos centrais detêm cada vez mais dólares, eles
imprimem cada vez mais divisa interna; donde se segue um abrandamento da sua
política monetária interna.
Temos portanto um abrandamento competitivo da política monetária
em toda a parte, o qual realmente camufla um impulso competitivo que não
está a ser encenado na frente da taxa de câmbio. É portanto
uma versão moderna do espectro das desvalorizações
competitivas da década de 1930. Contudo, neste processo um enorme
montante de liquidez é acumulado na economia mundial, o qual tem o
potencial para desestabilizá-la e precipitar um agravamento da
situação para todos, o que recorda a década de 1930.
É para isto que Rajan estava a chamar a atenção e
com razão. O problema com o seu argumento, contudo, está
não no que ele disse mas no que ele não disse. E é o
seguinte. Normalmente, deveria haver dois instrumentos disponíveis para
os Estados capitalistas estimularem maior emprego e crescimento: a
política orçamental e a política monetária. A
política orçamental pode ter um impacto expansivo sobre a
economia se o governo incidir num défice orçamental; ela pode
mesmo ter impacto expansivo através de um "orçamento
equilibrado" (ou com um tecto sobre o défice orçamental)
através de um aumento absoluto na dimensão do orçamento.
Esta última possibilidade, de um orçamento equilibrado provocar
um aumento na procura agregada, através de um aumento absoluto na
dimensão do orçamento, decorre da seguinte razão. Suponha
que o governo gaste um adicional de 100 rupias. Isto gera Rs100 de procura
adicional. Mas se o governo equilibra esta despesa pela elevação
de impostos adicionais no valor de Rs100, então só uma parte
disto reduz o consumo ao passo que o resto vem de "poupanças".
Suponha que o consumo é reduzido em Rs80 e as
"poupanças" em Rs20. Uma vez que as
"poupanças" por definição não estavam a
ser gastas, isto significa que a redução na procura devido
à tributação é de apenas Rs80. Portanto mesmo com
um orçamento equilibrado há uma expansão líquida da
procura em Rs20 (isto é, Rs100 Rs80).
Contudo, o capital financeiro não gosta de défices
orçamentais e prefere ao invés "finanças
saudáveis" (isto é, orçamentos equilibrados),
inventando toda espécie de argumentos espúrios para isso, aos
quais a grande economista
Joan Robinson
denominou "a impostura da
finança". Além disso, num mundo no qual a
atracção do investimento estrangeiro (e, mais geralmente, a
promoção do "incentivo a investir" dos capitalistas)
é vista como o principal instrumento para gerar maior actividade,
é evitada qualquer tributação mais ampla de capitalistas
(os quais institucionalmente poupam uma maior proporção do
rendimento, via lucros não distribuídos das firmas, e portanto
são os melhores candidatos à tributação para
aumentar a procura através de um "orçamento
equilibrado"). Na verdade, de facto, são-lhes oferecidas
concessões fiscais numa tentativa fútil de gerar maior
actividade. A utilização do instrumento orçamental
é portanto impedida no capitalismo neoliberal, marcado pela hegemonia do
capital financeiro internacional. A política monetária, dentro da
qual a política da taxa de juro tem o lugar de destaque, torna-se o
instrumento único para promover o crescimento.
Agora, uma redução da taxa de juro é o método para
"criar" crescimento. Mas uma redução da taxa de juro
é também o método para enfraquecer a divisa e depreciar a
taxa de câmbio. Para utilizar a distinção de Rajan, o mesmo
instrumento que se supõe "criar" crescimento acontece
também que "muda" o crescimento de outros países
através do seu efeito sobre a taxa cambial. Naturalmente, se o
crescimento estivesse realmente a ser "criado" e a economia americana
(a qual tomou a iniciativa de reduzir as taxa de juro) estivesse a expandir-se
rapidamente, emparelhando todo o mundo consigo, então conflitos sobre
taxas de câmbio, decorrentes de quem cresce àquela taxa, seriam ao
invés postos em surdina.
Mas o crescimento não está a ser "criado", isto
é, mesmo o regime de taxas de juro quase a zero nos EUA não
desencadeou um boom nos próprios EUA, muito menos na economia mundial.
É neste contexto que as preocupações sobre as
políticas de "empobrecer o meu vizinho", tais como as
exprimidas por Rajan, vêm à superfície.
Em suma, a preocupação de Rajan, embora válida em si
mesma, decorre de um contexto acerca do qual ele faz silêncio, um
contexto no qual o "abrandamento competitivo da política
monetária" por todo o mundo não está a promover a
procura agregada mundial em qualquer medida significativa e na qual a
utilização do outro instrumento além da política
monetária, a saber, a política orçamental, a qual é
um instrumento seguro para promover procura agregada, é vetado pelo
capital financeiro. A economia capitalista mundial está a ficar presa
num síndrome de na melhor das hipóteses meramente "desviar
crescimento" porque actualmente é incapaz de "criar
crescimento".
Esta é exactamente a situação na qual o capitalismo
mundial foi apanhado na década de 1930. O capital financeiro impediu
mesmo então a incidência de défices orçamentais. E a
ideologia da "finança saudável", que caracterizava o
Padrão Ouro, foi mantida mesmo após o seu colapso. E governos,
ansiosos por promover "incentivos ao investimento" dos capitalistas,
eram avessos a aumentar os impostos sobre eles. O instrumento orçamental
portanto não foi utilizado, ao passo que o instrumento da
política monetária foi ineficaz, uma vez que os "incentivos
ao investimento" dos capitalistas permaneceram extremamente baixos.
Não surpreendentemente, "roubar emprego" de outros
países através de políticas "empobreço o meu
vizinho" ficaram em voga. Estas políticas tornaram-se um assunto
preocupante numa situação de crise que decorre de factores
estruturais mais básicos. Eles podem agravar a crise, mas não
são a causa da crise.
MAL-ESTAR ESTRUTURAL
Segue-se que enquanto estes factores estruturais básicos operarem, meras
tentativas para impedir o abrandamento competitivo da política
monetária nunca porão fim à crise, nem mesmo terão
êxito: uma vez que sob o capitalismo contemporâneo a
facilitação da política monetária é o
único instrumento ao dispor dos governos para tratar da crise, a
alternativa ao abrandamento da política monetária é
simplesmente nada fazer. Não é por acaso que Rajan, que sugeriu
coordenação entre bancos centrais sob a supervisão do FMI
para impedir tal abrandamento competitivo da política monetária,
manteve-se silencioso acerca do que implicaria exactamente tal
coordenação e de como ajudaria a aliviar a crise.
O abrandamento competitivo da política monetária
situa-se dentro de um capitalismo que está estruturalmente avariado. E
isto é assim devido a pelo menos três razões: uma, o
espaço
(scope)
para a ultrapassagem das crises nas metrópoles infligindo
"desindustrialização" às colónias (o que
equivalia a "roubar" emprego do terceiro mundo) não
existe mais, pois os mercados do terceiro mundo já estão
penetrados e em qualquer caso são demasiado magros no mundo de hoje para
proporcionar uma solução. Dois, a prescrição
keynesiana de utilizar o instrumento orçamental, a qual nunca foi
aceitável para o capital financeiro, está particularmente
descartada no capitalismo contemporâneo onde o capital financeiro
está internacionalizado e portanto tem o controle. Três, a
internacionalização do capital tornou em toda a parte do mundo o
vector dos salários reais sujeito ao efeito pernicioso
das reservas de trabalho maciças do terceiro mundo, de modo que este
vector não provoca aumento mesmo quando a produtividade do trabalho
aumenta por todo o mundo, provocando uma tendência
ex ante
rumo à super-produção global.
Face a este
mal-estar
estrutural o único factor de compensação que o
capitalismo tem é a emergência de "bolhas" ocasionais. O
abrandamento da política monetária é um meio de estimular
tais "bolhas", mas não pode
forçar
uma bolha a surgir, razão pela qual, apesar de todo este abrandamento,
o mundo capitalista permanece fincado numa crise mesmo oito anos depois de ela
irromper, com poucas esperança de qualquer recuperação no
futuro previsível. As políticas do "empobrecer o meu
vizinho" que surgem no contexto desta crise só podem
torná-la pior,
como seria um aumento da taxa de juro nos EUA.
05/Julho/2015
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2015/0705_pd/spectre-thirties
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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