Falácias orçamentais
A teoria económica "convencional"
("mainstream")
parece não entender o funcionamento da ordem económica burguesa
e em parte alguma isso é mais evidente do que nos assuntos relativos
à política orçamental. Ela sustenta até hoje que um
défice orçamental "afasta" o investimento privado
através da redução da tomada de empréstimos
privados. Isto pressupõe que na economia haja uma reserva fixa de
poupanças em qualquer dado momento, da qual se o governo tomar mais
(para atender a um défice orçamental) então um montante
correspondentemente menor é deixado para o sector privado, o que leva a
uma redução no investimento privado.
A falácia neste argumento é que não há reserva
fixada de poupanças. As poupanças aumentam quando o total do
Produto Interno Bruto aumenta e uma vez que a despesa do governo que é
financiada pela tomada de empréstimos (um défice
orçamental) aumenta a procura agregada e portanto o produto
(output)
e o emprego (uma economia capitalista é constrangida pela procura,
excepto em tempos de guerra), a reserva de poupanças também
aumenta com o défice orçamental. De facto, assumindo para maior
simplicidade uma economia fechada sem transacções externas, a
reserva de poupanças continua a aumentar até que o excesso de
poupanças sobre o investimento em mãos privadas equalize
exactamente o défice orçamental. Por outras palavras, um
défice orçamental, ao invés de tomar recursos de uma
reserva fixada de poupanças, "financia-se por si
próprio", ampliando a reserva num montante exactamente igual.
Uma falácia semelhante é repetida pela teoria económica
"convencional" sobre a questão da tributação dos
capitalistas para financiar a despesa governamental. Se o governo gasta Rs 100
e levanta os recursos para isso pela tributação dos lucros dos
capitalistas na medida de Rs 100, então a teoria económica
"convencional" argumenta que os lucros dos capitalistas
reduzir-se-ão em Rs 100. A teoria económica
"convencional", por outras palavras, vê todo o processo como se
segue: o governo toma Rs 100 dos lucros,
reduzindo lucros após impostos neste montante,
e então utiliza esta soma para a sua própria despesa.
Isto contudo está completamente errado.
Se continuarmos a assumir para maior simplicidade que estamos a tratar de uma
economia fechada sem transacções externas (alternativamente
poderíamos assumir tanto aqui como no caso discutido anteriormente que o
défice em conta corrente na balança de pagamentos não muda
de todo) e que os trabalhadores consomem o que ganham, então todo o
processo esboçado acima
deixará os lucros após impostos completamente inalterados em
comparação com a situação primitiva,
ao invés de reduzir lucros após impostos como acredita a teoria
económica "convencional".
A razão para isto é simples. A despesa governamental de Rs 100
eleva a procura agregada e portanto o produto e o emprego. Mas o assunto
não acaba aqui; este aumento no produto eleva salários e lucros
nos sectores cujo produto aumenta, o que por sua vez eleva a procura (por bens
de consumo) novamente e portanto o produto e o emprego mais uma vez.
Através de tais ciclos sucessivos de aumento do produto haverá
também um aumento geral nos lucros após impostos.
E estes ciclos continuarão até que os lucros após impostos
tenham aumentado num montante tal que Rs 100 de imposto sobre lucros
deixará lucros após impostos exactamente intactos em
comparação com a situação primitiva.
Portanto o imposto sobre lucros, ao invés de reduzi-los, deixa os
lucros após impostos completamente inalterados.
Numa economia capitalista onde haja apenas duas categorias de rendimento,
salários e lucros, e onde todos os salários sejam consumidos,
deve vigorar a seguinte fórmula:
Lucros após impostos = Consumo de capitalistas + Investimento de
capitalistas + Défice orçamental - Défice corrente na
balança de pagamentos (A)
Se houver outras categorias de rendimento como aquela dos auto-empregados (como
na verdade há num país como a Índia), a fórmula tem
de ser modificada, mas suas conclusões gerais permanecem válidas.
Ao assumir uma economia fechada (ou zero na balança corrente) ignoramos
o último termo [da fórmula]. O consumo e investimento de
capitalistas em qualquer dado período pode ser considerado uma soma
dada, dependente de decisões tomadas anteriormente. Portanto se o
governo equilibra seu orçamento, isto é, se o défice
orçamental é zero, então não importa quanto o
governo gasta (neste caso ele levanta um montante equivalente de impostos), os
lucros após impostos permanecem inalterados. Eles permanece«m
inalterados não importa sobre quem os impostos sejam tributados. Se
forem tributados sobre trabalhadores, então os lucros após
impostos permanecem inalterados, mas não há aumento da procura
agregada e do output (uma vez que o governo agora compra um montante igual ao
que os trabalhadores cedem); e se os impostos forem tributados sobre os
capitalistas,
mesmo assim os lucros após impostos permanecem inalterados,
mas há um aumento líquido da procura agregada e do produto.
Se os lucros após impostos permanecem inalterados mesmo quando maiores
gastos governamentais são financiados pela tributação dos
lucros, segue-se então que, mesmo que as decisões de investimento
sejam governadas pela lucratividade após impostos,
não deveria haver efeitos adversos nas decisões de investimento
dos capitalistas.
E se as suas decisões de investimento são governadas não
pelos lucros após impostos mas sim pelo grau de utilização
da capacidade da economia, então, como os gastos do governo financiados
por um imposto sobre lucros aumentam a procura agregada e portanto a
produção
e portanto a utilização da capacidade do equipamento já
instalado,
o investimento dos capitalistas
deveria aumentar em comparação com o que teria acontecido de
outra forma.
Além disso, se a despesa governamental for financiada não pela
tributação de lucros mas sim pela tributação de
riqueza, os lucros após impostos ainda assim permaneceriam inalterados,
como está claro na fórmula A acima (uma vez que o défice
orçamental permanece inalterado, com a despesa governamental sendo
equilibradas por impostos equivalentes). Mas um imposto sobre a riqueza
é cobrado sobre a riqueza não importa a forma em que é
mantida. Segue-se que, se a riqueza for mantida na forma monetária,
rendendo quase nada, o imposto pago não seria diferente de quando a
riqueza é mantida na forma de capital em acções que
proporcionam uma taxa de lucro. Sob estas condições, os
capitalistas obviamente prefeririam manter a sua riqueza na forma de capital em
acções ao invés de moeda, o que, tudo o mais permanecendo
constante, teria o efeito de
aumentar o investimento
em comparação com o que teria acontecido em caso
contrário. Portanto, nem um imposto sobre a riqueza nem um imposto sobre
lucros, se as receitas forem gastas pelo governo, podem ser contestados pelos
capitalistas por motivos estritamente económicos.
Estas são proposições elementares que foram elucidadas
décadas atrás pelo bem conhecido economista marxista polaco
Michal Kalecki. Parece que elas ainda não são entendidas pela
teoria económica "convencional". Isto é confirmado pela
afirmação, feita frequentemente, de que impostos sobre
capitalistas desencorajarão o investimento privado. Na verdade, esta
afirmação foi feita recentemente por
The Financial Times
de Londres (o qual representa a visão do capital financeiro
britânico) a propósito do manifesto do Partido Trabalhista
britânico que está prestes a combater uma eleição
parlamentar sob a liderança de Jeremy Corbyn. De acordo com o
The Financial Times,
"o assalto aos negócios é um ataque à
criação de riqueza".
Tais visões eram mantidas pelo capital financeiro quando John Maynard
Keynes, o qual advogava a intervenção do Estado na
"administração da procura", explicava as suas ideias na
década de 1930. O capital financeiro opusera-se de facto às
sugestões de Keynes embora ele estivesse preocupado em resgatar o
capitalismo da ameaça do socialismo. Keynes acreditava no entanto que a
oposição das finanças às suas ideias surgia da
ignorância; e que, uma vez entendida a importância das mesmas, a
oposição desapareceria. Mas claramente isso não aconteceu,
o que sugere que há algo mais subjacente a esta oposição
do que a mera falta de entendimento.
Michal Kalecki mais uma vez acertou no alvo quando escreveu num artigo de 1943
que a oposição dos capitalistas à
intervenção do Estado surgia não por quaisquer
razões económicas válidas mas sim por causa de seu
"instinto de classe". Este instinto de classe dizia-lhes
que a intervenção do Estado para estimular a procura agregada e
portanto o emprego através de maiores gastos estatais, em vez de
conceder concessões aos capitalistas para induzi-los a investir mais
(como o governo Modi tem feito), minaria a legitimidade social do capitalismo.
Não há qualquer raciocínio económico sólido
excepto este instinto de classe que leva os capitalistas a se oporem a
programas tais como o que Jeremy Corbyn está a avançar. Se o
investimento privado secar caso Corbyn se torne o próximo
primeiro-ministro britânico, a razão para isso não teria
sido a teoria económica, mas este "instinto de classe" que
teria incitado a oposição deles na forma de uma "greve ao
investimento".
É verdade que sendo a Grã-Bretanha uma economia aberta os planos
de Corbyn teriam repercussões na balança de pagamentos
britânica, os quais precisam ser examinados. Mas as críticas de
The Financial Times
são baseadas em argumentos que invocam não a balança de
pagamentos, mas os perigos para a "criação de riqueza".
Estes perigos surgem por causa da oposição deliberada dos
capitalistas ao invés de qualquer coisa na própria teoria
económica.
Quando há uma tal oposição deliberada dos capitalistas,
Corbyn terá que confiar no sector público para manter o
investimento. Seu plano, limitado antes de mais nada à
construção de um capitalismo de bem-estar,
terá então que ir além disso devido a esta
oposição dos capitalistas.
01/Dezembro/2019
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2019/1201_pd/fiscal-fallacies
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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