A crescente desigualdade de rendimento
Thomas Piketty e Lucas Chancel acabam de escrever um documento como parte do
seu trabalho para o
Relatório da desigualdade mundial (World Inequality Report)
discutindo o movimento da desigualdade de rendimento na Índia. A sua
conclusão é que neste momento a extensão da desigualdade
de rendimento indiana é maior do que alguma vez já foi
nos últimos cem anos.
As suas estimativas remontam a 1922, quando a
Lei do imposto sobre o rendimento (Income Tax Act)
foi aplicada na Índia. A fatia dos 1 por cento de topo da
população no rendimento total naquela data era cerca de 13 por
cento. Ela aumentou para 21por cento no fim da década de 1930 e a seguir
caiu para cerca de 6 por cento no princípio da década de 1980,
antes de ascender para 22 por cento em 2014, o ano final do estudo.
O que é gritante acerca das descobertas reveladas neste documento
é a
sincronia quase exacta entre a ruptura nas tendências da desigualdade e a
transição do
dirigismo
para o neoliberalismo. No período entre 1951 e 1980, os 50 por cento da
base da população capturavam 28 por cento do aumento no
rendimento total ao passo que os 0,1 por cento do topo testemunharam realmente
um declínio no seu rendimento. De facto o rendimento dos 50 por cento da
base aumentou mais rapidamente ao longo deste período do que a
média geral. Entre 1980 e 2014, contudo, os 0,1 por cento do topo
capturaram uma fatia mais alta do aumento do rendimento (12 por cento) do que
todo os 50 por cento da base (11 por cento).
Naturalmente, dados sobre desigualdade de rendimento sempre podem ser
questionados. Para começar não temos inquéritos de
rendimento no país; tudo o que temos são inquéritos por
amostragem relativos a despesas de consumo e obter a partir da despesa
na
distribuição de consumo a distribuição de
rendimento é problemático uma vez que não sabemos como as
poupanças, que são constituídas pela diferença
entre as duas,
são distribuídas. Em segundo lugar, em todos os inquéritos
por amostragem, os percentis do topo são sempre representados
insuficientemente, precisamente porque eles são poucos em
números. Os estatísticos portanto fazem toda espécie de
suposições acerca de como é distribuído o
rendimento
dentro
do decil do topo para chegar à fatia dos 1 por cento do topo ou dos 0,1
por cento do topo da população. E estas suposições
podem sempre ser questionadas.
Portanto não é surpreendente que as estimativas de
Piketty-Chancel também tenham sido questionadas por alguns comentadores.
Mas não importa como alguém encara os seus números
absolutos,
as
tendências
reveladas por eles dificilmente podem ser questionadas, uma vez que mais ou
menos o mesmo método de estimação é empregue ao
longo do tempo. E esta tendência está inteiramente em conformidade
com o que outros investigadores têm estado a dizer e também com o
que alguém poderia esperar teoricamente. O Credit Suisse, por exemplo,
apresenta dados de distribuição de riqueza. Segundo estes dados,
os 1 por cento de topo das famílias na Índia actualmente possuem
mais da metade (57 por cento) da riqueza total das famílias e a
desigualdade de riqueza na Índia tem estado a aumentar de modo
extremamente rápido, na verdade mais rapidamente mesmo do que nos
Estados Unidos.
A distribuição da riqueza é invariavelmente mais desigual
do que a distribuição do rendimento, porque a classe trabalhadora
que não tem riqueza tem no entanto um rendimento. Portanto os
números de Piketty-Chanecel para a fatia dos 1 por cento de topo no
rendimento não estão de modo algum fora de sincronia com os
números do Credit Suisse acerca da sua fatia na riqueza total. (Pela
mesma lógica, contudo, eles negam seriamente estimativas que colocam a
fatia de riqueza dos 1 por cento do topo em apenas 28 por cento, muito embora
estas últimas reconheçam o aumento significativo em desigualdade
de riqueza a partir de 1991, quando começaram reformas neoliberais e
quando a fatia de riqueza dos 1 por cento do topo era apenas, segundo eles, de
17 por cento).
Uma medida de desigualdade adoptada frequentemente é o coeficiente de
Gini o qual mostra a distância entre a distribuição real e
uma distribuição ideal caracterizada pela desigualdade absoluta.
O problema com o coeficiente de Gini, entretanto, é que ao olhar para a
distribuição como um todo ele deixa de fora questões como
as fatias dos percentis do topo. Exemplo: mesmo quando a fatia dos 1 por cento
do topo podem estar a aumentar, o coeficiente de Gini pode mostrar um
declínio na desigualdade se alguma redistribuição
está a ocorrer, digamos, do 4º decil de baixo para o decil da base,
isto é, dos "pobres" para os "muito pobres". Piketty
e Chancel, consequentemente, não utilizam o coeficiente de Gini mas
examinam as fatias dos poucos percentis do topo, as quais são uma medida
muito mais útil (especialmente se estamos a falar de
poder
económico).
Os números de Piketty-Chancel mostram que 1983-84 foi o ano da mais
baixa fatia de rendimento para os 1 por cento do topo, após o qual esta
fatia começou a ascender. Pode-se recordar que o neoliberalismo fez o
seu primeiro aparecimento em torno da mesma época e que o
orçamento apresentado em 1985 por Vishwanath Pratap Singh, que era
então o ministro das Finanças no governo Rajiv Ganhi, continha
passos significativos nesta direcção (contra os quais de facto,
naquela época, os partidos de esquerda organizaram uma
convenção em Nova Delhi). A associação entre
crescimento da desigualdade e a prossecução do neoliberalismo
é portanto notavelmente estreita. E, não surpreendentemente, tal
crescimento da desigualdade caracterizou quase todos os países do mundo
no período da "globalização", o qual se
caracteriza pela prossecução quase universal de políticas
neoliberais sob o
diktat
do capital financeiro internacional.
Os autores, tanto no próprio documento como em entrevistas individuais,
apresentam um certo número de razões do porque do aumento da
desigualdade de rendimento na Índia neste período, razões
que têm a ver com a prossecução do neoliberalismo. O
declínio da taxa fiscal sobre o rendimento marginal mais elevado de 98
por cento para 30 por cento, a persistente desigualdade na propriedade da terra
e a falta de acesso à educação e à saúde por
parte dos pobres são alguns dos pontos levantados pelos autores.
Tudo isto é muito importante. Mas há factores adicionais que
precisam ser mencionados aqui, nomeadamente o ataque à pequena
produção, incluindo agricultura camponesa, que o neoliberalismo
trouxe na sua esteira. Se bem que uma
melhoria
nas condições do campesinato não beneficie
necessariamente os trabalhadores agrícolas de modo automático,
uma
deterioração
nas suas condições invariavelmente é "passada"
aos trabalhadores. E além disso, uma vez que no caso de uma tal
deterioração camponeses empobrecidos procuram emprego na economia
urbana, onde muito poucos empregos adicionais são criados, eles tendem a
inchar o exército de trabalho de reserva o que também afecta os
salários dos trabalhadores urbanos e portanto a
distribuição geral do rendimento urbano.
Por outras palavras, como a Índia rural tem em média um
rendimento mais baixo do que a Índia urbana, qualquer
ampliação da diferença rural-urbana tem o efeito, tudo o
mais constante, de ampliar a desigualdade geral de rendimento (pela medida de
Piketty-Chancel). Mas tem também o efeito adicional de ampliar a
desigualdade de rendimento dentro do próprio sector urbano. Isto
acontece através de um inchaço do exército de trabalho de
reserva na economia urbana através da imigração de
camponeses empobrecidos para dentro dele. Por ambas as razões, o assalto
à pequena produção lançado pelo neoliberalismo
constitui um factor importante subjacente ao crescimento da desigualdade
de rendimento.
O caso da China, onde, segundo estes autores, antigamente a desigualdade de
rendimento estava a ascender rapidamente mas foi revertida no século
actual é instrutivo neste contexto. Certamente há
diferenças básicas entre as economias indiana e chinesa, mas um
importante factor próximo por trás da reversão do
crescimento da desigualdade na China foi a política adoptada pelo
Partido Comunista Chinês sob a palavra de ordem "Rumo a um mundo
rural socialista". Esta política enquadrou e reverteu alguns dos
abusos à agricultura camponesa que a tentativa de industrializar
através de um implacável impulso exportador implicara.
A introdução de um imposto sobre a riqueza (o qual,
espantosamente, a Índia não tem), o aumento de taxas de
tributação sobre o rendimento dos ricos, o assegurar sob a
égide do Estado de educação e
serviços de saúde de qualidade a todos e, naturalmente, a
redistribuição de terra, são sem
dúvida alguns dos passos que devem ser tomados para reverter as
desigualdades crescentes de rendimento e isto implica um descartar do
neoliberalismo. Mas ainda que reconhecendo isto, devemos reconhecer
também, o que os autores não o fazem explicitamente, que o
neoliberalismo não é apenas uma opção
política que possa ser abandonada à vontade. Ele corresponde a
uma etapa do capitalismo em que o capital financeiro internacional adquiriu
hegemonia. Ultrapassar o neoliberalismo, portanto, exige uma luta de classe
contra esta hegemonia através de uma vasta mobilização de
trabalhadores e camponeses.
Entretanto, os autores correctamente enfrentam os apologistas do
neoliberalismo, os quais argumentam que tal crescimento da desigualdade de
rendimento é essencial para alcançar o alto crescimento do PIB
que realmente se verificou em países como a Índia. Isto é
absurdo, uma vez que a mais alta taxa de crescimento do rendimento que alguma
vez se verificou no capitalismo mundial foi experimentada no período do
pós-guerra, durante a chamada "Era dourada do capitalismo",
quando a desigualdade de rendimento esteva realmente a declinar por todo o
mundo. Este declínio na desigualdade de rendimento certamente não
foi causado pela
operação
do capitalismo mas sim pelas
concessões
que o capitalismo foi forçado a fazer diante do assomar da
ameaça socialista. Mas isto mostra que o argumento de que a desigualdade
crescente de rendimento é
essencial
para mais alto crescimento é totalmente inconsistente
(non sequitur).
01/Outubro/2017
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2017/1001_pd/growing-income-inequality
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|