Classificação de universidades

por Prabhat Patnaik [*]

Manifestação no Chile. A proposta de eliminar a Comissão de Bolsas da Universidade e endurecer o controle político sobre o sistema de ensino superior na Índia tem sido debatida por iniciativa de Narendra Modi, o qual aparentemente está preocupado com a escassez de nomes indianos entre as universidades mais bem classificadas do mundo. Esta preocupação não se limita apenas a Modi; ela é compartilhada por um grande número de pessoas no establishment político do país e por muita gente entre o público em geral. Esta preocupação é, de certa forma, compreensível: ela tem afinidade com a preocupação sobre a falta de medalhas para a Índia nos Jogos Olímpicos; mas, ao mesmo tempo, tal preocupação é ingénua e perigosa. Ela trai uma completa falta de entendimento acerca do papel do ensino superior na vida de um país.

A educação superior tem um papel social crucial, um papel "construtor da nação", pelo que é errado tratá-la em pé de igualdade com a vitória em uma corrida de velocidade ou uma partida de hóquei. Isso não quer dizer que vencer uma corrida ou um jogo de hóquei não tenha qualquer significado social; pode ter um impacto sobre a moral de muitas pessoas no país. Mas as regras pelas quais uma corrida ou um jogo são regidas não precisam necessariamente ser diferentes por razões sociais de um país quando comparado a outro, do modo como regras para julgar universidades necessariamente têm de ser. Classificar as universidades em todos os países de acordo com um conjunto comum de critérios, como fazem todos esses rankings, tais como o Times Higher Educational Supplement, significa separá-los dos seus respectivos contextos sociais e, portanto, negar o papel social da educação. Essa negação não é apenas um descuido. Ela tem uma função ideológica e os Modis do mundo promovem essa ideologia.

Tomemos um exemplo simples. Um estudante indiano deve saber acerca do impacto do colonialismo britânico sobre a economia indiana. Um estudante de ciências económicas deve conhecer a obra de Dadabhai Naoroji . Mas nenhum estudante de económicas em Cambridge ou Oxford ou Harvard sequer ouviu falar de uma pessoa chamada Dadabhai Naoroji. Portanto a trajectória de investigação e ensino numa universidade indiana nunca deve ser idêntica à de uma universidade britânica ou americana. Qualquer critério comum para classificar universidades, tais como o número de artigos em certas publicações reconhecidas, ou o número de citações recebidas por artigos e livros escritos pela faculdade, num mundo dominado pela academia ocidental, subestimaria necessariamente o valor do trabalho feito em universidades indianas. Estar preocupado acerca disto é de facto sucumbir à hegemonia académica ocidental, abandonar a ideia de que o que é ensinado e investigado em universidades indianas deve estar enraizado na realidade social indiana.

Quando Gandhi instou estudantes indianos a abandonarem estudos em faculdades e universidades e aderirem ao Movimento de Desobediência Civil, Tagore perguntou-lhe como é que ele podia fazer isso num país onde a extensão da educação superior era tão limitada. A resposta de Gandhi foi que a educação superior sendo ministrada a estudantes sob o Raj era destinada apenas a produzir servidores oficiais do Raj e que os estudantes indianos fariam bem em saírem de tal sistema. Se se quiser reformular a resposta de Gandhi utilizando o conceito avançado por António Gramsci, o sistema colonial de educação superior estava destinado a produzir "intelectuais orgânicos" para o imperialismo britânico e não "intelectuais orgânicos" para o povo da Índia. Gandhi estava a rejeitar a ideia de educação superior como uma actividade homogénea independente do seu contexto social e sublinhava o papel social da educação superior. Aquela rejeição ainda hoje permanece válida. E se a educação superior não é uma actividade homogénea, então julgar instituições de educação superior através de diferentes países por uma fita métrica padrão é ilegítimo.

Dois pontos devem ser destacado aqui de imediato. Mesmo se aceitássemos a lógica destes rankings e sentíssemos a necessidade de melhorar as fileiras das universidades indianas, nunca conseguiríamos fazê-lo sob a administração do BJP [o partido de Modi], por duas razões, uma bastante óbvia e a outra menos. A razão óbvia é que nenhuma universidade no mundo pode aspirar a qualquer tipo de excelência, não importa por quais critérios, se estudantes e professores dentro dela forem arregimentados, se não lhes for permitido pensar e falar livremente ou levantar questões por medo de serem marcados como "anti-nacionais" e "sediciosos". A tendência de todos os académicos potencialmente de boa qualidade seria fugir de um tal sistema, ao invés de serem atraídos por ele. Só mentes ignorantes pensam em maior controle político como meio de melhorar a qualidade do ensino superior, quando a verdade é precisamente o oposto.

A razão mais subtil é que a própria aceitação de um ranking concebido por um corpo metropolitano, por mais bem intencionado que seja, num mundo marcado pela hegemonia intelectual metropolitana, condena todas as instituições imitadoras do terceiro mundo à mediocridade. Eles vivem a paródia com a qual o arqui-imperialista Rudyard Kipling havia ridicularizado a classe média colonizada, através da sua criação do banderlog em O Livro da Selva, cujo principal desejo, expresso para o filho varão Mowgli, era: "nós queremos ser como você"; coisa que obviamente nunca poderiam ser. A razão pela qual instituições como a Universidade Jawaharlal Nehru adquiriram renome mundial, o que é um facto, independentemente de figurarem em qualquer lista compilada pelo Times Higher Educational Supplement, é precisamente porque nunca tentaram imitar instituições do Ocidente. E isso é uma condição necessária para a excelência.

O segundo ponto é que não se importar acerca dos rankings preparados por instituições como The Times Higher Educational Supplement, onde as universidades indianas não figuram no topo, não deve significar que está tudo certo com o ensino superior indiano. Todos conhecem seu péssimo estado, o qual foi produzido por um conjunto de factores. Estes incluem o controle político que leva os bajuladores ao topo da administração universitária; absoluta mesquinhez na concessão de recursos para elas, razão pela qual posições docentes são deliberadamente mantidas vagas e instituições forçadas a desenrascarem-se com o corpo docente ad hoc a fim de poupar dinheiro; e uma agenda de mercantilização da educação a qual implica que as universidades privadas – a operarem em linhas comerciais – são realmente favorecidas pelo governo em comparação com as universidades públicas. Rejeitar os rankings de instituições metropolitanas não é, portanto, estar orgulhoso quanto ao estado do ensino superior na Índia; é simplesmente sugerir que os critérios pelos quais as julgamos devem ser sui generis e não aqueles concebidos pelas instituições metropolitanas.

A razão porque eles produzem tais listas baseadas num conjunto de critérios comuns, independentemente do contexto social das universidades, não é apenas ideológica, não é apenas para aprisionar essas instituições dentro do discurso conceptual metropolitano. Há também uma razão adicional, mais directamente económica. E isso tem a ver com o facto de que, na era da globalização, o capital globalizado não pode simplesmente transportar pessoal de seu país natal para servir suas necessidades internacionalmente. Ele deve recrutar pessoal local, o qual, para o capital originário da metrópole, também é mais barato. O capital globalizado, portanto, deseja instituições de ensino superior por toda a parte a fim de produzir estudantes que sejam mais ou menos idênticos em todo o mundo. Quem recruta verificaria então quão "boa" seria supostamente a instituição num determinado país que produz tais estudantes. Ele exige portanto uma classificação de tais instituições em todo o mundo. Por outras palavras, o capital globalizado, precisamente porque é globalizado, requer uma classificação das instituições de educação superior em todo o mundo, da mesma forma que requer um ranking de "classificação de crédito" de países pelas agências especializadas de rating.

Colocar universidades indianas entre as melhores em tais classificações faz parte portanto da agenda de fazê-las produzir "intelectuais orgânicos para o capital financeiro internacional". É convertê-las de instituições encarregadas de produzir "intelectuais orgânicos para o povo indiano" àqueles requeridos para produzir "intelectuais orgânicos para o capital financeiro internacional". Elas podem não estar a sair-se muito bem no cumprimento da tarefa anterior, mas este é um argumento destinado a melhorar o seu funcionamento quanto a essa tarefa, não para mudar a sua tarefa de produzir alimento para o capital financeiro internacional, enquanto vira as costas ao povo.

Pode-se pensar, naturalmente, que não produzir alimento para o capital financeiro internacional diminuiria e empregabilidadde dos estudantes num mundo neoliberal dominado por este capital. Mas isto é basicamente um argumento a favor da mudança do regime económico do país ao invés da mudança do sistema de educação. Além disso, nem mesmo está claro que os produtos de um sistema de educação que se prostra perante o capital financeiro internacional permaneceriam empregados. Estudantes saídos da Jawaharial Nehru University ou da Jadavpur University afinal de contas actualmente não permanecem desempregados. Ao contrário, suas perspectivas de emprego mesmo dentro do actual regime económico são muito melhores do que aquelas dos saídos das outras universidades que fazem de tudo para produzir estudantes na forma de mercadorias bem embaladas para o mercado.

Assim, parecemos estar a completar um círculo. O sistema de educação colonial fora orientado para produzir servos para o Raj, o que Gandhi objectara. Sete décadas após a independência, estamos agora mais uma vez no processo de fazer com que o nosso sistema educacional produza servos para o capital financeiro internacional. Isto deve ser contestado. O sistema de educação na Índia deve ser voltado para a produção de intelectuais orgânicos para o povo trabalhador indiano.

12/Agosto/2018

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2018/0805_pd/ranking-universities . Tradução de JF.


Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .
13/Ago/18