A perversidade orçamental do regime neoliberal (I)
QUANDO o crescimento do rendimento numa economia se reduz, o mesmo se verifica
com a receita fiscal dentro de um dado regime tributário. Uma vez que o
governo tem certas obrigações de despesas, para cumpri-las ele
deve impor impostos adicionais ou expandir seu défice orçamental.
Aumentar o défice orçamental numa situação assim,
que foi a resposta típica por toda a parte sob o
dirigismo
capitalista do pós-guerra,
tem o efeito adicional de assegurar que um componente da procura, nomeadamente
a que resulta dos gastos do governo, permaneça inalterado mesmo
quando a economia está a desacelerar,
controlando assim esta desaceleração.
Isso era mencionado nos manuais de teoria economia como o "estabilizador
automático" da economia: as despesas do governo sob estas
circunstâncias actuavam como um "estabilizador
automático" e serviam para limitar a desaceleração.
Tudo isto passava-se sob o
regime dirigista
anterior.
Sob o neoliberalismo, contudo, o assunto é completamente diferente.
Quando a arrecadação da receita tributária sob o
regime
neoliberal desacelera por causa da desaceleração da economia, o
governo não pode impor impostos adicionais
aos capitalistas
(impor impostos adicionais aos trabalhadores para financiarem seus gastos
não contribui para a procura agregada e portanto nada impede a
desaceleração), nem aumentar o défice orçamental.
Isto acontece porque ambas as medidas serão contestadas pelo capital
financeiro internacional que iniciaria uma fuga de capitais dentro do regime
liberalizado, causando uma crise financeira funesta.
De facto, uma vez que praticamente todos os países, com
excepção dos Estados Unidos, adoptaram leis que restringem seus
défices orçamentais a 3% do PIB (na Índia, o centro e os
estados têm um limite de 3%), com a desaceleração da
economia tem de haver não só uma desaceleração do
crescimento da receita tributária,
como também do défice orçamental
e, portanto, da despesa pública total.
Portanto, dentro de um regime neoliberal
a despesa pública não actua como estabilizador automático,
como havia feito anteriormente. Quando o crescimento da economia desacelera, o
mesmo ocorre com o crescimento da despesa pública, contribuindo ainda
mais para a desaceleração da economia. Isto por vezes é
chamado de despesa pública "pró-cíclica" ao
invés de "anti-cíclica" (o que é um tanto
enganoso porque sugere que a crise é sempre uma crise cíclica).
Esse é o ponto crucial da perversidade do regime orçamental sob o
neoliberalismo, nomeadamente o facto de que ele remove o que de outra forma
teria sido um baluarte contra a desaceleração da economia, ao
impor a chamada "responsabilidade orçamental" sobre todos os
governos; agravando assim o processo de desaceleração.
Contra este pano de fundo básico, os governos naturalmente recorrem a
todos os tipos de subterfúgios para se esquivarem da
situação desagradável em que se encontram. Actualmente
estamos a testemunhar na Índia dois destes esforços. Um consiste
no esmagamento dos estados pelo governo central, transferindo o fardo de sua
própria crise orçamental para os ombros dos governos estaduais,
violando até as suas obrigações constitucionais. O outro
é sua corrida enlouquecida para privatizar o sector público, numa
tentativa míope totalmente repreensível de obter algum dinheiro
dentro dos constrangimentos de uma economia neoliberal. Vamos examinar cada um
destes subterfúgios.
Uma maneira pela qual o centro está a tentar esmagar os estados, ao
descarregar uma parte dos gastos com defesa sobre os seus ombros, já foi
discutida nesta coluna (
PD, 1º de Setembro
). A defesa cabe exclusivamente à "Union List"
[NT]
do sétimo capítulo da Constituição, o que
significa que o centro tem a responsabilidade exclusiva do gasto com defesa e
de decidir sobre todos os assuntos de defesa. Mas o governo central pediu
à 15ª Comissão de Finanças para deduzir as despesas
com defesa do conjunto divisível, o que significa pedir aos governos
estaduais que suportem uma parte deste fardo, apesar de o acordo constitucional
em relação ao Sétimo Capítulo permanecer inalterado
e todas as decisões relativas à defesa continuarem a ser tomadas
apenas pelo centro.
Mas pelo menos até agora isto continua a ser apenas uma
ameaça.
Numa outra área, no entanto, o centro já espremeu os estados, e
isso está relacionado com a compensação de Imposto de Bens
e Serviços (Goods and Services Tax, GST). Quando este imposto foi
criado, a fim de convencer os estados a concordarem com ele o centro
prometeu-lhes que seriam compensados durante um período de cinco anos
por qualquer perda de receita que pudessem enfrentar. A perda de receita
deveria ser calculada tomando um nível de receita base e aplicando-lhe
uma taxa de crescimento anual de 14% em termos nominais. Qualquer que fosse o
défice da receita estimada desta maneira seria compensado pelo governo
central. Isso deveria acontecer a cada dois meses e um Fundo de
Compensação para a Cessação foi criado para este
fim, para o qual deveria ir a receita de certos impostos.
Mas desde Agosto o governo central deixou de fazer tais pagamentos de
compensação. Seu argumento é que não há
dinheiro suficiente no Fundo de Compensação para a
Cessação. Os estados, no entanto, apontam, com muita
razão, que a promessa de pagar uma indemnização aos
governos estaduais não estava ligada de maneira alguma à
dimensão do Fundo de Compensação; era uma cláusula
contida no projecto de emenda da Constituição. Se não
houver dinheiro no Fundo de Compensação, ou não houver o
suficiente, o centro deveria pagar uma compensação com a sua
própria parte da receita de GST.
É bem sabido que a receita na conta do GST tem ficado aquém das
expectativas, com a receita mensal caindo abaixo de 1 milhão de
milhões de rupias na maioria dos meses do actual exercício
financeiro. Este défice é devido tanto à natureza
defeituosa do próprio GST como à desaceleração da
economia. O facto de as arrecadações de GST de Novembro, que caem
na época festiva, ultrapassarem um pouco 1 milhão de
milhões de rupias é porque a receita do GST está
estreitamente relacionada à magnitude da rotatividade de negócios
e portanto ao nível de actividade da economia.
Confrontado com esta perda de receita, o governo central está a esmagar
os estados, renegando a sua própria promessa de compensar as suas
receitas num curto prazo, numa tentativa de manter a cabeça acima da
água. Além disso, nas cobranças do Imposto Integrado de
Bens e Serviços (IGST), as quais devem ser compartilhadas entre o centro
e os estados, o centro manteve para si a parte do leão.
Devido a este duplo esmagamento, os estados estão em apuros. Como grande
parte das despesas com assistência social aos pobres provém das
receitas do Estado, uma contracção destas receitas tem um efeito
directo sobre as despesas sociais, inclusive de saúde e
educação.
Tudo isto poderia ter sido evitado se o governo central não houvesse
esmagado os estados, se houvesse cumprido a sua promessa de reduzir a receita
para os estados e ampliado o défice orçamental para isso (o facto
de nunca ter tido a iniciativa de tributar capitalistas é amplamente
demonstrada pela sua recente medida de realmente lhes dar
isenções fiscais). Uma ampliação do défice
orçamental teria promovido a procura agregada e, portanto, o emprego e a
produção, sem ter quaisquer consequências
inflacionárias. É verdade que a inflação na
economia está a crescer ultimamente, mas isso tem a ver com sectores
específicos (as cebolas são um exemplo) e exige medidas
específicas de gestão da oferta (através da
utilização do sistema de distribuição
pública); elevar o défice orçamental numa tal
situação dificilmente levaria a uma aceleração da
inflação, desde que tais medidas específicas de
gestão da oferta estivessem em vigor.
Mas uma tal ampliação do défice orçamental seria
inaceitável para o capital financeiro internacional; e o governo Modi,
com toda a sua arrogância contra as minorias desafortunadas do
país e com todas as suas pretensões
machistas,
não tem estômago para enfrentar o capital financeiro. Ele prefere
antes esmagar os governos estaduais, prefere ver um corte nas despesas sociais
para com os pobres, do que tomar medidas que desgostem o capital financeiro
internacional. Ele é uma simples conduta através da qual o
capital financeiro faz os seus ditames para imiscuir-se na economia. Assim se
faz sentir a perversidade do regime neoliberal.
15/Dezembro/2019
[NT] Union List: é uma lista de 100 ítens apresentada no
Sétimo Capítulo da Constituição da Índia em
que o Parlamento tem o poder exclusivo para legislar. A secção
legislativa é dividida em três listas: Lista da União,
Lista dos Estados e Lista Concorrente. Ao contrário dos governos
federais dos EUA, Suíça ou Austrália, permanecem poderes
residuais com o Governo da União.
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2019/1215_pd/perversity-neo-liberal-fiscal-regime-i
Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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