O argumento da competitividade
A presente análise acerca do livre comércio é
válida para a generalidade dos países, não apenas para a
Índia
Com o governo forçado a retirar-se do acordo RCEP
[NT]
, surgiu um argumento: se a Índia não é competitiva
com outros países na produção de todo um conjunto de bens,
razão principal pela qual os produtores de tais bens dentro do
país objectam ao acordo, então por que deveriam continuar a
produzi-los? E um argumento relacionado declara: ao proteger produtores
não competitivos, o país está a penalizar consumidores que
caso contrário teriam acesso a bens importados mais baratos. Isto
não é injusto?
A resposta imediata e óbvia à primeira pergunta (iremos à
segunda depois) é que o que aparece como competitividade em preço
é habitualmente o reflexo de uma estratégia mercantilista
agressiva de capturar mercados estrangeiros prosseguida por Estados
através da instituição de subsídios ou de uma taxa
de câmbio subavaliada. Isto é verdadeiro na agricultura
(nomeadamente na Europa e nos EUA onde são dados enormes
subsídios, embora estes países não façam parte do
RCEP). O conceito de competitividade de preço é portanto
enganoso; a competitividade aparente dos preços de qualquer país
está invariavelmente abrigada dentro de uma pletora de políticas
orçamentais e de taxas de câmbio ali instituídas. Deixar
produtores indianos à mercê do "mercado" de onde acabam
por ser expulsos por importações mais baratas devido aos
subsídios providenciados por Estados estrangeiros é portanto
claramente odioso.
Contudo, além disso há uma questão de princípio
envolvida que muitas vezes não é discutida mas deveria
sê-lo. Esta relaciona-se com o facto de que o argumento habitual sobre o
livre comércio está baseado numa fraude: ele assume que todas as
economias, depois de se terem aberto ao livre comércio, alcançam
um equilíbrio de pleno emprego (onde todos os seus recursos, incluindo o
trabalho, são plenamente utilizados). Por outras palavras, o argumento
do livre comércio exclui
por hipótese
qualquer possibilidade de o livre comércio gerar desemprego. Isto
é uma suposição que nega claramente a nossa
experiência de desindustrialização colonial, a qual
é o pai da nossa moderna pobreza em massa.
Se no mundo como um todo (ou dentro de um grupo de países preso a um
acordo de livre comércio) existisse alguma autoridade que pudesse
permanentemente pressionar o aumento da procura agregada até que todos
os recursos em todos os países fossem plenamente utilizados (ou subissem
até um nível mínimo do exército de reserva do
trabalho, uma vez que o pleno emprego é impossível sob o
capitalismo por outras razões bem conhecida), então não
haveria qualquer desemprego (além deste mínimo). Mas não
há tal autoridade que assegure a ausência de uma deficiência
da procura. Portanto um nível de desemprego (para além do
exército de reserva do trabalho) existe sempre.
O que faz um acordo de livre comércio é mudar este desemprego de
alguns países para as costas de outros.
Mesmo supondo que a competitividade de preços entre países seja
inteiramente reflectida nas diferenças de produtividade do trabalho
às taxas de câmbio e salários monetários
predominantes, isto é, que não há dumping ou
subsídios envolvidos, segue-se que o livre comércio simplesmente
expulsa muitos trabalhadores do trabalho no país de baixa produtividade.
Duas questões se levantam de imediato: primeiro, por que o país
de baixa produtividade não pode reduzir sua taxa de câmbio
até que ela se torne competitiva e assim livrar-se do desemprego? Uma
vez que a depreciação da taxa de câmbio necessariamente
reduz a taxa de salário real, isto equivale a sugerir que o país
de produtividade mais baixa deveria assegurar que seus salários reais
são adequadamente reduzidos, de modo a tornar-se "competitivo"
e portanto evitar ser assolado pelo desemprego em massa.
Contudo, trata-se de uma ideia errada: reduzir salários reais no
país em causa não aumenta a procura agregada em todos os
países tomados em conjunto. Consequentemente, a iniciativa de depreciar
a taxa de câmbio num país pode reduzir a taxa de desemprego dentro
das suas próprias fronteiras só pelo aumento do desemprego
alhures, isto é, pela "exportação" do
desemprego. Entretanto, tal "exportação"
necessariamente convidará à retaliação por parte de
outros países, de modo que todos ficariam empenhados numa guerra de
taxas de câmbio que implica efectivamente uma corrida para o fundo quanto
a salários reais. Isto portanto não é
solução para o problema do desemprego gerado pelo livre
comércio dentro de qualquer país.
Além disso, considerando a hegemonia das finanças que caracteriza
o mundo de hoje, qualquer depreciação da taxa de câmbio, ou
mesmo uma expectativa de depreciação da taxa de câmbio (que
é expectável que seja iniciada por um governo preocupado com o
desemprego causado pelo livre comércio) provocaria fluxos financeiros de
saída que podem ser maciçamente desestabilizadores. Portanto uma
depreciação da taxa de câmbio dificilmente será uma
saída para uma situação de desemprego gerado pelo livre
comércio.
Mas aqui se levanta a segunda questão: o que, pode-se perguntar,
está errado em ter produtores de alto custo deslocados através do
livre comércio? Uma vez que eles são de alto custo, não
merecem manter-se a produzir. A resposta aqui é simples: se aqueles
deslocados através do encerramento de algumas actividades pudessem ser
absorvidos alhures, em outras actividades, então tal deslocamento
não causa muita preocupação. Mas desde que isto não
aconteça
não há absolutamente nenhum argumento para assinar um acordo de
livre comércio que cause desemprego.
Por outras palavras, um país deve impor tais restrições
comerciais quando são necessárias para o emprego; e os produtores
estão perfeitamente justificados ao pedirem tais
restrições.
Isto à primeira vista pode parecer que vai contra o argumento da
"eficiência", que a produção deveria ocorrer
só onde é empreendida mais "eficientemente". Mas
"eficiência" é um argumento válido só no
seguinte sentido: se, com a plena utilização de todos os recursos
disponíveis, um país pode ganhar acesso a um maior lote de bens
pela especialização na produção só em certos
bens e o abandono da produção de outros, os quais são ao
invés obtidos através de importações, então
deveria fazê-lo. O argumento da "eficiência" do livre
comércio, por outras palavras, pressupõe a plena
utilização de todos os recursos. Quando isto não acontece,
apoiar o encerramento de todo um conjunto de actividades produtivas com base na
"eficiência" é absurdo.
Mas aqui levantar-se-ia a pergunta: por que se deveria pedir aos consumidores
para pagarem mais impedindo a entrada de importações mais baratas
a fim de escorar um grupo de produtores locais de alto custo? Este argumento,
que à primeira vista parece ter alguma pertinência, baseia-se
contudo numa distinção ilícita entre produtores e
consumidores.
Ele postula que mesmo quando um grupo de produtores (trabalhadores e
camponeses) perde seus rendimentos devido a importações baratas
há um outro grupo de pessoas, os consumidores, que não obstante
ficariam melhor por causa destas importações baratas. Dito de
modo diferente, o argumento pressupõe que os rendimentos destes
consumidores não seriam afectados mesmo quando os rendimentos de
produtores vão abaixo por causa do livre comércio.
Isto, contudo, é erróneo. A redução de rendimentos
de produtores também reduz os rendimentos dos consumidores, mesmo de
consumidores que são distintos daqueles produtores cujos rendimentos
vão abaixo em primeiro lugar. Isto acontece por causa das
consequências macroeconómicas do deslocamento inicial de alguns
produtores. O exemplo da Índia colonial esclarecerá este ponto.
A destruição do artesanato deveu-se à
importação de bens manufacturados britânicos fabricados com
máquinas. Apesar de ter produzido desemprego e pobreza em massa, parecia
em primeira instância trazer bens mais baratos para o consumo dos
camponeses que não eram directamente afectados pelo deslocamento dos
artesãos. Mas, ao longo do tempo, quando artesãos deslocados
inundaram o mercado de trabalho rural, os salários reais caíram e
as rendas aumentaram, os quais afectaram os rendimentos dos próprios
camponeses que inicialmente se supunha terem sido beneficiados devido a
importações mais baratas. Os efeitos da
desindustrialização no rendimento propagam-se portanto em
ondulação, afectando em última análise o povo
trabalhador como um todo. A única beneficiária da
desindustrialização colonial terá sido provavelmente a
classe dos latifundiários, numericamente minúscula, a qual foi
criada pelos britânicos como um baluarte de apoio à
dominação colonial.
Por conseguinte, apoio a um acordo de livre comércio que cria
desemprego, ou rendimentos mais baixos para o campesinato não pode ser
justificado em
quaisquer
circunstâncias; e o povo estava certo ao reivindicar que o governo
deveria abandonar o RCEP.
O presente discurso intelectual no país tornou-se tão
hegemonizado pelo capitalismo que a própria ideia de pleno emprego
parece ser um sonho impossível. O que é esquecido é que a
União Soviética e os países socialistas da Europa do Leste
não só tiveram pleno emprego mas foram realmente economias com
escassez de mão-de-obra.
De facto, se um grupo de pessoas simplesmente consome e investe o que produz
entre si próprios, então não há razão para
esperar qualquer subida do desemprego. Uma grande razão para o
desemprego é que alguns no grupo não queiram comprar o que outros
no grupo produzem, mas querem ao invés comprar o que pessoas de fora do
grupo produzem, muito embora aqueles de fora não queiram comprar o que
as pessoas dentro do grupo produzem. Tal desemprego, que é o que o RCEP
teria gerado, deve ser impedido.
17/Novembro/2019
[NT] Parceria Económica Regional Abrangente (
RCEP
). A Índia retirou-se do RCEP em 2019.
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2019/1117_pd/argument-about-competitiveness
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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