Integração económica e livre mobilidade do trabalho
Há uma visão de que o descontentamento entre os trabalhadores
ingleses que provocou o voto no Brexit não foi por causa da
integração económica europeia em si, mas por causa da
política de livre migração interna que tem acompanhado
esta integração; de que se a Europa não houvesse
instituído a livre migração dentro da UE, então a
sua integração económica teria tido mais êxito. A
sua integração económica teria assim permanecido confinada
apenas
ao livre movimento de bens e capital mas não ao do trabalho, e que
este
movimento livre, isto é,
apenas
de bens e capital, é benéfico para os países a serem
economicamente integrados.
A globalização contemporânea, pode-se recordar,
também está confinada apenas ao movimento livre de bens e capital
e não se estende ao livre movimento do trabalho. Segue-se da
afirmação acima, portanto, que esta globalização
deve ser benéfica para países capturados na sua teia e que
estão errados os que argumentam que integração
económica envolvendo movimento livre de bens e capital é danoso
para o povo dos países que estão a ser integrados,.
Esta visão foi avançada recentemente (
The Hindu,
14 de Julho) pelo Dr. C. Rangaraja, o bem conhecido economista e ex-governador
do Banco de Reserva da Índia, para contestar aqueles que vêem o
próprio facto de estarem presos no movimento livre de bens e capital
como a causa subjacente básica da aflição da classe
trabalhadora inglesa e interpretam o voto no Brexit como uma revolta não
auto-consciente contra isto.
Esta argumentação de que integração
económica envolvendo movimento livre de bens e capital numa certa
região é provável que tenha êxito se não for
acompanhada pela livre mobilidade do trabalho nessa região, entretanto,
vai em sentido contrário aos postulados da teoria económica
convencional
("mainstream")
sobre a qual está fundado o próprio projecto da UE.
Gunnar Myrdal, o famoso economista sueco e que recebeu um Prémio Nobel,
argumentou há muito que quando o capital se localiza num lugar
particular ele tende a atrair outros capitais àquele lugar. Segue-se
disto que se há liberdade de movimentos de capital e de bens numa
região, então alguns segmentos desta tornar-se-ão
"desenvolvidos" ao passo que outros se tornarão
"subdesenvolvidos", através do que ele denominou um processo
de "causação cumulativa".
Uma tal dicotomia, pode-se pensar, seria auto-negadora, uma vez que, na
ausência de mobilidade do trabalho do segmento subdesenvolvido para o
desenvolvido, os salários no primeiro cairiam abaixo dos salários
dos últimos e que este facto atrairia capital do último para o
primeiro. Por outras palavras, o processo de "causação
cumulativa", seria enquadrado em algum ponto pelo desenvolvimento de uma
diferença salarial entre os dois segmentos.
Mas isto não acontece. A vantagem potencial que o capital obteria
localizando fábricas no segmento subdesenvolvido de salários mais
baixos pode ser mais do que compensada pela desvantagem de se afastar do
segmento desenvolvido onde várias "economias externas" (tal
como infraestrutura adequada) estariam disponíveis, especialmente se o
custo do trabalho for comparativamente uma pequena parte do custo total de
produção (de modo que salários mais baixos não
fazem grande diferença).
Pode-se dizer exactamente o mesmo acerca da depreciação da taxa
de câmbio no segmento subdesenvolvido. Mesmo se as taxas salariais nos
dois segmentos forem iguais à taxa de câmbio inicial e nada mudar
na taxa salarial, a depreciação da taxa de câmbio no
segmento subdesenvolvido tem o efeito de embaratecer seu custo de
produção, exactamente do modo como uma queda na sua taxa salarial
o faria. Mas se a redução da taxa salarial não pode
ultrapassar a "causação cumulativa", então uma
depreciação da taxa de câmbio também será
ineficaz pela mesma razão. Além disso,
dentro de uma área com divisa comum,
a questão da depreciação da taxa de câmbio de um
segmento particular da área não se coloca.
Mesmo quando os dois segmentos não pertencem a uma área com
divisa comum, uma depreciação pode no entanto ser contornada
devido às suas consequências inflacionárias (porque inputs
importados então custam mais e isto é "transmitido" na
forma de preços mais altos). Tais consequências
inflacionárias, além de prejudicarem o povo (por causa dos ganhos
incertos decorrentes de uma depreciação da taxa de câmbio),
em certa medida negam mesmo o efeito da própria
depreciação. Se por exemplo houver uma depreciação
de 10% da taxa de câmbio em termos nominais e se isto causar,
através de efeitos custos a mais, uma ascensão de 6 por cento nos
preços, então a depreciação efectiva real já
não é mais de 10 por cento e sim de apenas 4 por cento, isto
é, 10-6, cujo impacto correspondente na ampliação do
nível de actividade no segmento subdesenvolvido fica diminuído.
Finalmente, uma depreciação da taxa de câmbio é
sempre contrariada pelos interesses financeiros pertencentes a um segmento
particular. Isto acontece porque a confiança dos possuidores de riqueza
em manter sua divisa, ou activos denominados nesta divisa, fica minada se a sua
divisa adquirir a reputação de estar sujeita a
depreciações, as quais portanto reduzem os negócios dos
interesses financeiros localizados naquele segmento. (Isto, diga-se de
passagem, é a razão porque a Grã-Bretanha, apesar de
não ser uma área com a divisa comum e apesar de ter um
défice em conta corrente na balança de pagamentos que actualmente
chega a 7 por cento do PIB, nada faz para reduzir o valor da libra esterlina: a
City de Londres, onde estão localizados os interesses financeiros
britânicos, opõe-se à desvalorização da libra
esterlina).
Por todas estas razões, tentativas de integração
económica invariavelmente enfrentam um obstáculo, nomeadamente de
que os países que são candidatos à
integração temem ficar "subdesenvolvidos" em
consequência, especialmente se eles fizerem parte de uma área de
divisa comum (de modo que a depreciação da taxa de câmbio
é simplesmente impossível). E mesmo que isto possa não
acontecer a
países
como tais,
áreas particulares dentro de países
podem tornar-se progressivamente cada vez mais "subdesenvolvidas" em
consequência da integração económica do país
com uma entidade maior.
O caminho óbvio para ultrapassar este obstáculo é pela
instituição da livre mobilidade do trabalho entre os diferentes
segmentos que estão a ser integrados. Isto assegura que mesmo que o
capital não flua para os segmentos atrasados, a força de trabalho
do mesmo não permanece presa dentro de um cenário de
"subdesenvolvimento" agravado. Ela escapa à
aflição através da migração para o segmento
desenvolvido.
Uma condição essencial para o êxito da
integração económica é portanto a livre mobilidade
do trabalho na área que está a ser juntada através de tal
integração, pois na sua ausência países soberanos
ficarão relutantes em entrar na mesma. E a necessidade da livre
mobilidade do trabalho é ainda maior quando a integração
assume a forma de uma união de divisas, tal como a Eurozona. A
mobilidade do trabalho é de facto tão essencial para o
êxito da integração económica que frequentemente
economistas julgam as perspectivas de integração verificando se a
diversidade cultural e linguística dentro dela dificulta a mobilidade do
trabalho.
Portanto, a visão de que a integração económica tal
como aquela que a UE representa teria mais êxito na ausência de
mobilidade do trabalho vai contra as conclusões básicas da teoria
económica "convencional". E precisamente devido a tais
conclusões a UE instituiu a livre mobilidade do trabalho dentro das suas
fronteiras, a qual foi considerada uma nova característica que faria a
tentativa de integração um êxito, em contraste com
tentativas semelhantes feitas em outras partes do mundo (tais como na
América Latina).
A razão porque o projecto europeu esta a fracassar não se deve
à livre mobilidade do trabalho (embora este fosse o modo como a direita
apresentaria o assunto) mas sim à crise aguda na qual a Europa
está actualmente envolvida, a qual afectou também a
Grã-Bretanha. De qualquer forma, no âmbito do regime de
globalização, houve uma mudança de várias
actividades da Europa para países com salários mais baixos como a
China e a Índia a qual provocou desemprego e dificuldades
económicas a certas secções da força de trabalho
europeia, incluindo a britânica. (Isto à primeira vista pode
parecer contradizer o prognóstico de Gunnar Myrdal, pois sugere que
salários mais baixos estão a triunfar sobre o processo de
"causação cumulativa"; mas as actividades sendo
comutadas para fora das metrópoles são de ordem inferior no
espectro tecnológico, o qual ainda deixa a tecnologia mais refinada e de
actividades mais intensivas na metrópole). A sobreposição
da crise nesta situação só fez as coisas piores para a
classe trabalhadora europeia e inglesa.
A crise é um produto da globalização por duas
razões óbvias: primeiro, a globalização impede a
intervenção do Estado na "administração da
procura" em estilo keynesiano, uma vez que o capital financeiro
globalizado que tem poderes finais opõe-se a qualquer activismo do
Estado
excepto para promover os seus próprios interesses.
Em consequência, o único possível antídoto para uma
crise ou uma tendência incipiente rumo à
super-produção é a formação de uma
"bolha" de preços de activos. E uma vez que "bolhas"
não podem ser fabricadas por encomenda, crises incipientes
desenvolvem-se em crises completas e crises completas mantêm-se
persistentemente.
Em segundo lugar, a globalização liga (embora não
equalize) os salários mundiais e portanto mantêm-nos restringidos
devido à existência das maciças reservas de trabalho do
terceiro mundo. Logo, o crescimento de salários por toda a parte fica
aquém do da produtividade do trabalho, elevando a fatia do excedente,
tanto dentro de cada país como globalmente, precipitando uma crise de
super-produção generalizada. Estamos a meio de uma tal crise.
O fim desta crise não está à vista em parte alguma. Isto
acontece porque aos Estados-nação individuais falta a autonomia,
dentro do regime da globalização, para resistir às
pressões da finança globalizada e empreender medidas
estimuladoras da procura dentro dos seus próprios países (com
política comercial adequada para assegurar que tais medidas não
tornem a balança de pagamentos insustentável). Ao mesmo tempo,
não existe qualquer Estado supra-nacional ou global que possa
em princípio
ter a fortaleza para resistir às pressões da finança
globalizada e empreender a "administração da procura".
Eis porque a economia mundial, não apenas a Europa ou a Inglaterra,
continua a permanecer afundada na crise. Isto também explica porque a
classe trabalhadora inglesa não auto-conscientemente votou por se
desligar da UE que para ela constitui o teatro da globalização
mais próximo. Provavelmente muitas outras revoltas assim se
seguirão em outros países. Imaginar que a
globalização, juntamente com suas medidas acompanhantes de
"austeridade", acabarão por ser benéficas apenas se
restrições forem impostas à livre mobilidade do trabalho
é aceitar a visão do mundo das forças de direita na Europa
que atacam a imigração mas não a "austeridade".
Tais restrições na melhor das hipóteses exportam um bocado
de aflições de trabalhadores de um segmento da Europa para outro
mas não podem acabar com as próprias
aflições, mesmo num país que decida deixar a União
Europeia e erguer barreiras contra a imigração, uma vez que isto
exigiria que a procura fosse estimulada, isto é, que a
"austeridade" deveria ser ultrapassada.
24/Julho/2016
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2016/0724_pd/economic-integration-and-free-mobility-labour
Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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