O governo de Modi e o setor público
Embora se refira à Índia, resistir.info publica este
artigo porque a argumentação nele apresentada é valida
para os muitos países do mundo onde a venda de empresas do setor
público está a ser feita ao desbarato. É o caso do Brasil
e até de Portugal, onde o Sector Empresarial do Estado foi praticamente
destruído.
O governo de Modi não fez segredo da sua intenção de
entregar o setor público da Índia às suas
corporações favoritas e às multinacionais estrangeiras. E
isso não é justificado por um argumento económico, mas sim
pelo seu desejo de obter recursos para as despesas do seu governo, exibindo
assim a sua absoluta ignorância da teoria económica e a
determinação sangrenta de favorecer as corporações
dos seus compadres.
O setor público na Índia surgiu da luta anticolonialista. O
colonialismo implicava não só o governo político por uma
potência estrangeira, mas o controlo dos recursos naturais do país
pelo capital estrangeiro. A descolonização não foi apenas
uma questão política, foi sobretudo económica, em que a
nação reconquistou o controlo dos seus recursos das mãos
do capital estrangeiro em nome da população no seu todo. O setor
público devia ser representativo da população no seu todo:
na verdade não podia haver outro órgão a desempenhar esse
papel.
Do mesmo modo, se o estrangulamento da economia pelo capital metropolitano
tinha de ser afastado no interesse da população como um todo,
então o único órgão capaz de o substituir era o
setor público. O facto de o setor privado indiano não estar em
posição de ocupar o lugar do capital metropolitano era evidente:
quando muito podia usar a tecnologia usada pelo capital metropolitano e
funcionar através de empresas mistas, ocupando apenas algum
espaço para si mesmo, mas não podia substituir a hegemonia deste
último. Mas este argumento conjuntural para o setor público era
periférico; o verdadeiro argumento estava relacionado com
princípios: só o setor público, sujeito a
escrutínio parlamentar, podia funcionar no interesse da
população como um todo.
Um exemplo disto foi o comportamento dos bancos depois da sua
nacionalização, quando deixaram de funcionar como simples
angariadores de fundos para as empresas específicas que os
possuíam, mas que se tornaram enormes mobilizadores de depósitos
e distribuidores de crédito a grandes segmentos de pequenos produtores,
incluindo camponeses, que até aí tinham sido excluídos do
crédito institucional. Os bancos deixaram de ser adjuntos desta ou
daquela empresa e passaram a ser elementos duma rede financeira, como o mundo
nunca tinha visto anteriormente, no sentido de o crédito ser
desembolsado nesta grande dimensão a favor de camponeses individuais e
de pequenos produtores. Foi isso que tornou possível a
Revolução Verde e deu ao país um mínimo de
segurança alimentar.
Tudo isto devia ser, e costumava ser, bem conhecido. Mas vale a pena repeti-lo
para benefício do BJP [Partido do Povo Indiano] que não
participou na luta anticolonial nem é um partido que compreenda ou
valorize a importância da segurança alimentar (como é
óbvio pelos seus atuais esforços através das leis
agrícolas para abrir o país ao "imperialismo alimentar"
da metrópole). Também é bem conhecido que a
implementação de políticas neoliberais, muito antes de o
governo de Modi chegar ao poder, se destinava a prejudicar o setor
público, tal como aconteceu. O argumento de que o setor público
era "ineficaz" porque não gerava lucros do mesmo modo que o
setor privado gerava, preparou o terreno para isso; foi indicador da falta de
compreensão da lógica básica deste setor. (Isto não
quer dizer que o setor público deva obrigatoriamente ter
prejuízos).
Depois, havia este argumento totalmente absurdo e ilógico de que os
recursos gerados através da venda de ações do setor
público podiam ser usados para financiar as despesas do governo duma
forma "segura" e que evitava o recurso a um défice fiscal. O
governo de Modi, segundo parece, engoliu este argumento e está a planear
privatizar grandes fatias do setor público como um meio de fugir ao elo
fiscal em que se encontra.
O absurdo deste argumento pode ser visto do seguinte modo. Quando o governo
gasta 100 rupias adicionais, por exemplo pedindo dinheiro emprestado aos
bancos, haverá um aumento no nível da procura agregada e,
portanto, na produção e receita. Pondo de lado as
transações estrangeiras, para simplificar, este processo de
geração de receitas continuará indefinidamente até
que as poupanças privadas adicionais geradas a partir da receita
adicional e, portanto, a adição ao excesso de poupanças
privadas sobre o investimento privado (que se assume inalterado no
período em questão), seja exatamente igual às 100 rupias.
O governo pode contrair esse empréstimo das 100 rupias, vendendo
títulos e devolvendo o dinheiro aos bancos. No caso de vendas de ativos
públicos, podemos visualizar uma repetição exata do mesmo
processo, exceto que o governo vende ações do setor
público em vez de títulos para angariar essas 100 rupias.
Portanto, não há diferença entre os dois casos, exceto no
que se refere à natureza do papel do governo que se pretende vender ao
setor privado, títulos num caso e ações no outro. Nas
consequências macroeconómicas, portanto, pode não haver
nenhuma diferença entre as despesas de um governo financiado por um
défice fiscal e as despesas de um governo financiado pela
privatização de ativos públicos. Mas, neste último
caso, o governo entregou adicionalmente áreas fundamentais da economia a
oligarquias empresariais nacionais e estrangeiras.
O FMI e o capital financeiro em geral, veem uma diferença entre as duas
formas de financiamento. Não consideram a venda de ativos
públicos como fazendo parte do défice fiscal. Mas isto é
porque têm um interesse particular em fazê-lo. São motivados
não pela lógica económica, mas pela ideologia, porque
querem ver o fim do setor público que devia ser um baluarte contra o
imperialismo e se mantém um potencial baluarte apesar de a
implementação de políticas neoliberais o ter reduzido a
uma sombra de si mesmo.
Alguns porta-vozes oficiais têm procurado projetar a
mobilização de recursos "que não eram
dívida", como acontece com a venda de ativos públicos, como
sendo uma forma superior de angariar recursos. Mas isso faz pouco sentido: a
venda de ativos públicos significa a perda de um fluxo de receitas
futuras desse ativo que é exatamente igual ao fluxo dos pagamentos de
juros sobre os títulos do governo que são lançados para
cobrir um défice fiscal.
O problema com o financiamento das despesas do governo por meio de um
défice orçamental não é aquele que os porta-vozes
do capital financeiro habitualmente alegam. O problema é que aumenta a
riqueza privada de forma totalmente gratuita. No exemplo acima, quando o
governo gasta 100 rupias e vende títulos para absorver as
poupanças adicionais em mãos privadas que as suas despesas
geraram, essas poupanças adicionais foram acumuladas em mãos de
privados mas não por causa de qualquer coisa que eles tenham feito; as
poupanças, pura e simplesmente, caíram-lhes no colo. Essas
poupanças constituem um acréscimo à riqueza privada, ou
seja, a riqueza dos ricos, visto que os trabalhadores consomem habitualmente o
que ganham e dificilmente conseguem fazer grandes poupanças. Se essas
100 rupias fossem tributadas, a riqueza dos ricos manter-se-ia exatamente o que
era na situação inicial, e não era reduzida de forma
alguma.
É exatamente a mesma coisa quando, em vez de um défice
orçamental, os ativos do setor público são colocados em
mãos privadas: a riqueza adicional é entregue aos ricos
gratuitamente; eles ficam mais ricos, exacerbando a desigualdade da riqueza.
Isto podia ser evitado se essas 100 rupias fossem tributadas. Na verdade,
entregar os ativos do setor público ainda introduz mais desigualdade do
que a venda de títulos, visto que esses ativos são
invariavelmente vendidos a preços de saldo.
É uma vergonha que o governo de um país do terceiro mundo que
já tem uma extrema desigualdade de riqueza agrave tal desigualdade,
através da venda de ativos públicos para angariar recursos para
as despesas do governo, em vez de impor um imposto sobre a riqueza. E se o
governo tiver relutância em lançar um imposto sobre a riqueza,
podia pelo menos aumentar a taxa do imposto sobre lucros, que também
manteria o controlo sobre a desigualdade na riqueza.
Se uma maior taxa no imposto sobre lucros está para além da sua
capacidade, pode sempre, após consulta aos estados, aumentar a taxa do
GST [Imposto sobre Mercadorias e Serviços] sobre os bens de luxo (i.e.
bens consumidos pelos capitalistas e seus dependentes). Isso não
alteraria os lucros em termos reais, i.e., deflacionados pelo índice de
preços dos bens que os capitalistas e seus dependentes consomem, e
comparação com a situação original, e ainda assim
obteria recursos para as despesas governamentais. Mas não daria nada a
mais aos capitalistas, tal como faria um défice fiscal ou a venda de
ativos públicos. Portanto, o desejo do governo de Modi de privatizar
ativos do setor público, além de ser um erro estratégico
do ponto de vista da nação, não faz sentido
económico, mesmo na base alegada pelo governo.
28/Março/2021
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2021/0328_pd/modi-government-and-public-sector
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Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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