Hipotecas, inflação e Pico Petrolífero

por ASPO USA

Cartoon de Tomy. Agora parece provável que nos próximos anos a situação habitacional/ hipotecária/ creditícia virá a desempenhar um papel central na história do Pico Petrolífero. Uma verdadeira avalanche de más notícias económicas já compete com notícias de rotina relacionadas com o petróleo na determinação da cotação do barril. Até recentemente, o mundo da OCDE parecia relativamente imune às pressões inflacionárias do barril a US$90 e da gasolina a US$3 e, graças a secas e biocombustíveis, à alta de preços dos bens alimentares — mas isso está a mudar.

As acções do Federal Reserve para melhorar a liquidez e manter a recessão à distância desempenharam um papel importante no declínio do dólar e a consequente alta de US$25 nos preços do petróleo neste fim de ano. Na semana passada o record dos preços do petróleo aumentaram os números da inflação como uma vingança quando os preços no produtor apresentavam a sua alta mais aguda em 34 anos. A inflação na Europa deu um salto semelhante. Se a inflação induzida pelo preço do petróleo continuar muito mais tempo, o Fed terá de pensar muito e penosamente acerca de novos cortes nas taxas de juros pois o loop realimentado (feedback loop) do dólar mais baixo, petróleo mais alto, mais inflação só tornará a situação pior.

Nos últimos dias, contudo, emergiram mais percepções ameaçadoras quanto à situação do crédito. Quando os esforços do governo para restaurar a liquidez parecem estar a fazer pouco progresso, observadores sugerem que muitas das nossas instituições financeiras tomaram tamanhos empréstimos que estão, ou logo ficarão, insolventes. Para remediar um problema desta magnitude, os preços da habitação terão de diminuir em 30 por cento a fim de restaurar o seu relacionamento normal com os rendimentos e as instituições financeira terão de confessar a real extensão das suas perdas potenciais.

Isto sugere que levará muito anos até estabilizar a situação do crédito corrente e isto será muito penoso. É claro que o Pico Petrolífero já está inextricavelmente envolvido com a situação do crédito assim como está envolvido com o aquecimento global. Trata-se de uma rua com duas mãos; a ascensão dos preços do petróleo devido a abastecimento insuficiente afectará a situação económica induzida pelo crédito e problemas económicos sérios afectarão a procura pelo petróleo.

2008

A possibilidade de sérias dificuldades económicas estarem ao largo tornaram as projecções da procura de petróleo para 2008 mais controversas do que de costume. Na semana passada, os três principais prognosticadores — a AIE, a EIA e a OPEP — e várias importantes instituições financeiras divulgaram suas estimativas do que poderá ser a procura no próximo ano.

A primeira foi a AIE da OCDE, que agora prevê a procura mundial de petróleo a crescer 2,1 milhões de barris/dia no próximo ano. A revisão em alta baseia-se num esperado aumento na procura por etano e outras matérias-primas petroquímicas no Médio Oriente, nomeadamente na Arábia Saudita. Esta previsão assume que haverá problemas económicos nos EUA e em outros países da OCDE, mas continuará robusto o crescimento da procura de petróleo em países não-OCDE, onde subsídios protegerão o povo do impacto dos altos preços do petróleo.

Em contraste com a AIE, economistas da OPEP prevêem um crescimento de apenas 1,3 milhão b/d devido ao aumento dos problemas económicos mundiais. A EIA dos EUA prevê uma "suave diminuição de velocidade no crescimento económico global" e sugere um crescimento da procura de 1,38 milhão de b/d. Observadores salientam que todas elas são previsões "polticamente correctas" que reflectem os objectivos e viéses dos patrocinadores das organizações.

A Goldman-Sachs permanece optimista (bullish), acreditando que a procura de petróleo permanecerá robusta nos EUA e no Japão, e em aceleração na China e na Coreia. "O abrandamento do equilíbrio em 2008 provavelmente será modesto e de curto prazo", ao passo que o segundo semestre do ano poderia assistir a uma "recuperação da procura mais rápida do que o aumento do abastecimento da OPEP". As previsões da Goldman-Sachs prevêem que o petróleo chegue aos US$105 por barril no próximo ano. Outros comentadores conhecidos vêem os problemas económicos a forçarem uma redução dos preços do petróleo em 2008 e acreditam que eles certamente não romperão as alturas de 2007.

A julgar pela escala das pressões que se estão a acumular nos mercados financeiros, a resposta para tudo isto dependerá provavelmente de quão rápido e quão longe as iminentes perturbações económicas se estenderão.

O original encontra-se em "Peak Oil Review" , nº 51, 17/Dezembro/2007

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

18/Dez/07