A morte do petróleo estado-unidense
O jogo está acabado para a maior parte da indústria
petrolífera estado-unidense.
Os preços entraram em colapso e a capacidade de armazenamento
está quase completa. A única opção para muitos
produtores é fecharem os seus furos. Isso significa não
rendimento. A maior parte tem dívida considerável, de modo que a
bancarrota vem a seguir.
Peggy Noonan recentemente escreveu na sua
coluna
que "isto é uma calamidade económica nacional nunca vista
anteriormente; não há na história uma maior do que
esta". Trata-se de uma visão superficial.
O coronavírus mudou tudo. Quanto mais perdurar, menos o futuro se
parecerá como o passado.
A maior parte das pessoas, elaboradores de políticas e economistas,
são cegos para a energia e portanto não podem apreender
plenamente a gravidade ou as consequências do que está a acontecer.
A energia é a economia e o petróleo é a parte mais
importante e produtiva da energia. O consumo de petróleo nos EUA
está no seu mais baixo nível desde 1971, quando a
produção era apenas cerca de 78% do que foi em 2019. Quando o
petróleo vai abaixo, também a economia vai abaixo.
A velha indústria petrolífera e a velha economia desapareceram. O
cabaz energético que está subjacente à economia
será agora diferente. É pouco provável que a
produção e os preços do petróleo recuperem os
níveis do fim de 2018. As fontes renováveis ficarão para
trás, juntamente com os esforços para mitigar
alterações climáticas.
É realmente mau
A procura global por líquidos em 2020 poderá ser em média
20 milhões de barris/dia menor do que em 2019 (Figura 1). Esta
estimativa é realmente um exercício de raciocínio pois
é impossível saber como está a oferta e procura no
presente e muito menos no próximo trimestre ou mais além. Este
é um tempo de instabilidade e incerteza inimagináveis, porque
ninguém sabe quanto tempo a actividade económica estará
deprimida, quanto tempo levará para recuperar ou se se recuperará.
A estimativa na Figura 1 difere da maior parte das previsões em dois
aspectos importantes. Primeiro, acredito que a oferta cairá muito mais
rapidamente do que a maior parte das outras fontes. Isso porque a armazenagem
em breve estará completa e o encerramento da produção
será a única opção para muitos produtores.
Figura 1. Em 2020 a procura global de petróleo pode ser em média
20 milhões de barris/dia mais baixa do que em 2019
Fonte: OPEC, IEA, Vitol, Trafigura, Goldman Sachs e Labyrinth Consulting
Services, Inc.
Segundo, duvido que haverá uma recuperação da procura no
terceiro trimestre apesar da reabertura dos negócios no segundo. Isso
porque estamos numa depressão global. O desemprego permanecerá
alto e os consumidores serão afectados devido à falta de
rendimento ao longo dos meses de quarentena. A verdade é que duvido que
a procura alguma vez se recupere.
As economias re-arrancam vagarosamente. Uma analogia útil é estar
atrás de 25 carros parados devido a um semáforo. O
sinal mudará do verde para o vermelho antes de o seu carro
começar a mover-se. Pode demorar várias mudanças de sinal
até que consiga atravessar o cruzamento.
O consumo nos EUA caiu cerca de 30%, de 20 milhões de barris por dia
(b/d) em Janeiro para 14 milhões b/d em Abril. As entradas nas
refinarias já estão 25% mais baixas do que no primeiro trimestre
do ano e cairão ainda mais quando o consumo diminuir. Refinarias
fecharão.
A maior parte das refinarias dos EUA exige petróleo bruto
intermédio e pesado que deve ser importado. Poucas
graduações de petróleo dos EUA podem ser utilizadas para
produzir gasóleo sem fazer mistura com petróleo importado. Isto
acontece porque elas são demasiado leves para conter os compostos
orgânicos necessários a fim de fabricar gasóleo. Reformar
refinarias não alterará isto.
A extracção mundial de recursos naturais, o seu sistema de
despacho e distribuição repousa sobre o gasóleo. Quando
fecham refinarias e menos gasóleo é produzido, haverá
níveis mais baixos de extracção de recursos naturais,
menos manufactura e menos compra de bens.
O gasóleo não pode ser produzido sem antes produzir gasolina. Os
EUA têm tido um excedente de gasolina desde o fim de 2014 e o excedente
actual é o mais alto num período de cinco anos (Figura 2).
Figura 2. O stock comparativo de gasolina dos EUA aumentou 30 milhões de
barris
desde 20 de Março para um nível recorde de 28,4
milhões de barris,
mais do que a média de cinco anos.
Fonte: EIA e Labyrinth Consulting Services, Inc.
A procura de gasóleo é menos elástica do que a procura de
gasolina devido ao seu papel crítico no transporte pesado. O que
acontecerá ao excesso de gasolina produzida se a armazenagem estiver
completa? Será queimado?
Aqueles que vêem na morte do petróleo uma oportunidade para as
energias renováveis precisam pensar outra vez. A
fabricação de painéis solares, turbinas de vento e carros
eléctricos depende do gasóleo ao longo de toda a cadeia de
abastecimento, desde a extracção até à
distribuição de produtos acabados. Um mundo em depressão
económica entrará em incumprimento em relação aos
combustíveis mais baratos e mais produtivos. O petróleo
será barato e abundante durante um longo tempo. Haverá pouco
dinheiro ou apetite para as mudanças maciças de equipamento que
as fontes renováveis exigem. A mudança climática
não estará num ponto alto na consciência de pessoas que
lutam para sobreviver.
A Figura 3 é outro exercício de raciocínio no qual utilizo
contagens de plataformas petrolíferas
(rigs)
e de produção para estimar níveis futuros da
produção estado-unidense. A trajectória normal é
uma estimativa de como a produção pode declinar à medida
que as plataformas ficam ociosas por falta de investimento de capital. Isto
sugere que a produção de petróleo pode diminuir em cerca
de 50%, de 7 para 3,5 milhões de b/d, em Julho de 2021.
Figura 3. Exercício de raciocínio com base na contagem de
plataformas até Abril de 2020
e da produção com 12 meses de retardamento.
Fonte: Baker Hughes, EIA DPR, Drilling Info e Labyrinth Consulting Services,
Inc.
A trajectória de encerramento sugere que a produção de
petróleo poderá cair abaixo dos 3 milhões b/d em Junho
deste ano. Uma vez que a produção de petróleo bruto
representa cerca de 55% do produto dos EUA, a produção total do
bruto e de condensados poderia declinar de 12 milhões b/d para 5,5
milhões de b/d no fim do primeiro semestre de 2020. Esta estimativa
é muito mais agressiva do que as previsões da EIA [Energy
Information Administration] porque a EIA não modelou adequadamente a
velocidade de fecho na produção com níveis de armazenagem
plenos.
A energia é a economia
O Produto interno bruto (PIB) é proporcional ao consumo de
petróleo (Figura 4). Isso é assim porque o petróleo
é a economia. Todo aspecto da produção e da
utilização de bens e serviços exige a queima de energia
fóssil. Há aproximadamente 4,5 anos de trabalho humano num barril
de petróleo (N. J. Hagens, comunicação pessoal e The Oil
Drum). Nenhuma outra fonte de energia se aproxima desse nível de
densidade de energia.
Figura 4. O PIB é proporcional ao consumo de petróleo
Fonte: EIA, World Bank e Labyrinth Consulting Services, Inc.
Aqueles que acreditam que o mundo funcionará na mesma com fontes de
densidade energética mais baixa como o vento e o solar deveriam rever
seus velhos manuais de física. Não é possível
encaixar 4,5 anos de trabalho da luz solar ou do vento no espaço de 5,6
pés cúbicos de um barril de petróleo (158,984 litros).
Dezassete
analistas
de investimento estimaram recentemente que o PIB dos EUA contrairia uma
média de 30-35% em 2020 (Figura 5) dentro de uma amplitude de 9-50%. A
correlação mostrada na Figura 4 sugere que diminuirá em
cerca de 20-25% com base na diminuição estimada do consumo de
petróleo nos EUA. Qualquer valor dentro deste espectro é
catastrófico.
Figura 5. PIB dos EUA a contrair 30-35% em 2020,
segundo estimativas de dezassete analistas de investimento
Fonte: Charles Schwab e Labyrinth Consulting Services, Inc.
O economista
Lawrence Summers
advertiu que o sistema financeiro dos EUA pode entrar em colapso devido a
incumprimentos em cascata. Aproximadamente 25% dos inquilinos nos EUA
não pagou seus senhorios e 23% dos americanos em Abril não
fizeram o
pagamento da hipoteca
. Quando pessoas não pagam seus credores, os credores por sua vez
não podem pagar aos seus credores. Para comparação: uma
taxa de incumprimento de hipotecas de 28%
contribuiu para o colapso financeiro de 2008.
Joseph Stiglitz
explicou recentemente que a actual pandemia afectará o mundo em
desenvolvimento mais gravemente do que os países desenvolvidos. Isto
pode levar a problemas de migração em massa que poderiam superar
em muito as deslocações dos últimos seis para fora da
África e do Médio Oriente.
Arrastando-se rumo a Belém
(Slouching Toward Bethlehem)
[1]
Muitos provavelmente acharão a minha análise claramente
pessimista. Os mercados do petróleo bruto não. Os preços
futuros negativos do WTI na semana passada não podiam ter enviado um
sinal mais forte aos produtores para a cessação.
Vastos segmentos da indústria petrolífera dos EUA terão de
ser nacionalizados antes do fim do ano. O preço do petróleo
também está demasiado baixo para justificar o custo da
extracção mesmo que haja armazenagem disponível. O valor
de um barril de petróleo, contudo, é de 4,5 homem-anos de
trabalho e este multiplicador de produtividade será essencial para que a
economia dos EUA evite o colapso ou recupere se o colapso for inevitável.
Os Estados Unidos enveredaram pela prática insensata de
drenar primeiro a América
desde o início da produção do petróleo de baixa
permeabilidade
(tight oil),
há uma década atrás. Houve mérito nisso até
ao ponto em que o petróleo interno substituía o petróleo
leve importado, mas exportar mais era estúpido. Isso é verdade,
especialmente agora que a compra do petróleo dos outros será
barata durante anos.
Agora existem alguns momentos em que podemos realmente dizer que as coisas
estão diferentes. Este é um destes momentos. Não sabemos
que forma terrível o futuro pode assumir, que monstro rude se arrasta
rumo a Belém
[1]
para nascer.
O jogo está acabado para o petróleo. Deveríamos voltar
toda a nossa atenção para o salvamento da economia.
Espero que aprendamos a encarar o que está a acontecer como uma
oportunidade para simplificar e para aprender a satisfazer-nos apenas com
aquilo de que precisamos. É pouco provável que tenhamos muita
escolha.
28/Abril/2020
[1]
Slouching Towards Bethlehem
: Arrastando-se vagarosamente em direcção a Belém.
É
o título de uma colecção de ensaios de Joan Didion,
inspirada em título do poema
The Second Coming
de W. B. Yeats, Trata-se de uma alegoria da autora em que descreve as suas
experiências na Califórnia da década de 1960.
[*]
Geólogo do petróleo com 36 anos de experiência na
indústria do petróleo e do gás. É perito em
exploração do xisto
(shale)
nos EUA e consultor de várias empresas.
O original encontra-se em
oilprice.com/Energy/Crude-Oil/The-Death-Of-US-Oil.html
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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