Cimeira do G20
Dívida & recursos – um experimento mental

por Nate Hagens

Culto do cargueiro. Nos últimos dias, delegados das 20 maiores economias do mundo reuniram-se em Pittsburgh, Pennsylvania, para mais uma vez desenvolver estratégias internacionais a fim de tratar das crises financeira, energética e social agora em curso. A "Declaração do líder" poderia ser razoavelmente resumida por este excerto:

"Mais uma vez comprometemo-nos [a dar] passos adicionais para assegurar um crescimento forte, sustentável e equilibrado, e construir um sistema financeiro internacional mais forte".

Considerando que não foram mencionados limites biofísicos, nem aos impulsos de consumo subjacentes à espécie humana e considerando que "forte", "sustentável" e "equilibrado" têm cada um deles objectivos opostos ao outro, chego à frustrante conclusão de que as nossas mesmas velhas crenças do "culto do cargueiro" ("cargo cult") infelizmente estão vivas e bem. Abaixo, na caixa, está uma breve vista geral da declaração, o que dá aos leitores oportunidade de brincarem de decisores políticos do G20.

Aqui estão alguns excertos da declaração conjunta do G20 (destaques acrescentados por mim):

7. Hoje, revimos o progresso que fizemos desde a Cimeira de Londres em Abril. Nossos compromissos nacionais de restaurar o crescimento resultaram no maior e mais coordenado estímulo fiscal e monetário já empreendido. Actuámos junto para aumentar dramaticamente os recursos necessários para impedir a crise de se espalhar por todo o mundo. Demos passos para reparar o sistema regulatório rompido e começámos a implementar reformas abrangentes para reduzir o risco de que excessos financeiros desestabilizem outra vez a economia global.

9. O processo de recuperação e reparação permanece incompleto. Em muitos países, o desemprego permanece inaceitavelmente alto. As condições para uma recuperação da procura privada ainda não estão plenamente em vigor. Não podemos descansar até que a economia global seja restaurada para a plena saúde, e as famílias de trabalhadores de todo o mundo possam encontrar empregos decentes.

10. Prometemos hoje sustentar a nossa forte resposta política até que uma recuperação durável seja assegurada. Actuaremos para assegurar que quando o crescimento retornar, os empregos também retornem. Evitaremos qualquer retirada prematura de estímulos.

16. Asseguraremos que o nosso sistema regulatório de bancos e outras instituições financeiras controle os excessos que levam às crises. Quando o comportamento temerário e uma falta de responsabilidade levaram à crise, não permitiremos um retorno à banca no estilo habitual.

17. Comprometemo-nos a actuar em conjunto para elevar padrões capitais, implementar fortes padrões de compensação internacional destinados a por fim a práticas que levam à excessiva tomada de risco, melhorar o mercado de balcão de derivativos e criar ferramentas mais poderosas para manter grandes firmas globais responsáveis pelos riscos que assumem. Padrões para grandes firmas globais deveriam ser proporcionais ao custo do seu fracasso.

Prelúdio

Será que isto não parece que os governos gostariam de reinar com risco financeiro excessivo tomado ao sector privado, enquanto ao mesmo tempo aumenta o seu próprio risco financeiro?

DINHEIRO COMO DÍVIDA

Desde a criação do Federal Reserve System, em 1913, o dólar perdeu 95% do seu valor, pois foi criado dinheiro (dívida) em resposta à procura de crédito. A seguir à morte, em 1971, do acordo de Bretton Woods deixou de haver qualquer redutor de velocidade (speed-bump) para esta expansão da oferta monetária. Bancos centrais controlavam a política monetária através do ajuste da taxa de desconto, da taxa de Fundos Federais, da percentagem de exigência de reserva (reserve requirement) e de várias outras mudanças de regras. Ao contrário do passado distante, quando aumentos de dinheiro exigiriam novas despesas com energia e materiais para encontrar mais ouro a partir da mineração a fim de apoiar a nova emissão de divisas, sob o regime dos últimos 40 anos os bancos comerciais, com a permissão do Fed, puderam criar dinheiro (crédito) à vontade. Enquanto houvesse uma procura por crédito, a oferta monetária podia crescer apenas com uma corrente de papel aos bens reais a que ela se destinava representar. Enquanto dívidas do período anterior pudessem ser liquidadas em dólares, não em recursos, o dinheiro como dívida aumentava e as pessoas aceitavam isto como um recurso de substituição e aumentavam a extracção e o consumo de bens reais consequentemente. Isto não foi um problema confinado aos Estados Unidos – virtualmente todos os países (e todas as economias principais) utilizaram divisa fiduciária – sustentada por nada mais do que a fé no governo.

É lógico que um tal sistema iria finalmente dissociar-se, não ligeiramente mas significativamente, das suas correntes biofísicas (muito do que foi escrito nestas páginas [ The Oil Drum ] desde 2005 foram de facto tentativas de quantificar tais afastamentos). Basicamente, o mundo tem agora entre US$400-700 milhões de milhões (trillion) em dívida e outros activos que exigem serviço, a repousar no topo de US$55 milhões de milhões em PIB e numa oferta de energia de alta qualidade que está a esgotar-se (cuja infraestrutura foi paga há muito com a energia incorporada nas décadas de 1960 a 1980). Como esta dívida não é realmente um jogo de soma zero mas antes um marcador da oferta monetária insana através das respostas sociais e políticas ao longo de quatro décadas, é extremamente improvável que a quantidade de recursos naturais que teremos disponível por unidade de tempo nos permita reembolsar pouco mais do que uma fracção desta dívida. (Estarei a apresentar "Abstract Energy Gain and the Permanent Recession" na conferência da ASPO em Denver onde esmiuçarei isto com mais pormenor).

ABSOLUTAMENTE NADA FOI RESOLVIDO

Lições de gravidade. Em suma, absolutamente nada foi "resolvido" nos últimos meses. Os componentes da pirâmide da dívida apenas mudaram de livros de registo. Sob muitos aspectos reais caímos do despenhadeiro no último Outono e uma espingarda de ar gigante (intervenção governamental não baseada sobre recursos reais) permitiu-nos continuar o sentimento de levitação desde então. Mais de 30% do PIB do G20 foi garantido por bancos centrais do próprio G20 através de garantias de empréstimo, compras de papel comercial, vários programas dinheiro por nada (Cash-for-coyote), etc. O resultado destas medidas foi uma recuperação moderada do PIB nocional, com os custos de menos recursos e menos tempo para tratar dos problemas subjacentes reais. Se somos incapazes de crescer, quem dirá de um modo "forte", "sustentável" ou "equilibrado". Todo o "modelo do aumento da oferta monetária a cada ano de modo suficiente para liquidar dívidas anteriores" não só choca-se contra uma parede como entra em reversão, o qual finalmente morrerá pois super-excedemos significativamente nossos níveis de dívida sustentáveis/reembolsáveis.

Há duas desconexões fundamentais com a realidade que prevalecem entre aqueles que aconselham nossos decisores: 1) a concepção errada de que dinheiro é algo como um recurso e não o marcador de dívida que ele realmente é; e 2) que a energia seja tratada do mesmo modo como outra qualquer commodity, analisável em termos de dólares pelo mercado. A seguir a estas duas falsas suposições, colocámo-nos num canto perigoso – esperamos que ao imprimir dinheiro e garantias do governo o cargueiro finalmente reapareça outra vez a transbordar, como magia. Como tal, após a recuperação fantasma (conduzida pelos estímulos fiscais/monetários do governo), no próximo ano ou pouco mais ou menos espero que o sistema financeiro desande (unravel) – ou há um esquecimento geral da dívida ou o Fed e outros tentam moldar o seu caminho de saída do problema.

Temos suficiente conhecimento para efectuar melhores escolhas.

QUESTÕES À LAREIRA:

1) Pode você articular uma resposta política concertada que realmente levasse a um crescimento "forte", "sustentável" e "equilibrado"?

1a) Se não puder, que espécie de política de "prioridades económicas" recomendaria? Pense com coragem.

2) O que será preciso para economistas, decisores políticos e autoridades internacionais entenderem que dinheiro/crédito não é um recurso, e não fazer o seu próprio cargueiro?

Favor centrar-se sobre a questão do meio. Assumindo que a minha visão seja correcta na generalidade, o que poderia ser feito?

26/Setembro/2009

O original encontra-se em http://campfire.theoildrum.com/node/5816#more

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
/Set/09