Já é oficial A era do petróleo barato está
ultrapassada
O Deptº da Energia dos EUA muda de tom quanto ao Pico Petrolífero
Todo Verão a
Energy Information Administration
(EIA) do Departamento da
Energia dos EUA emite o seu
International Energy Outlook
(IEO) um
compacto compêndio de dados e análises sobre a
evolução da equação da energia no mundo. Para
aqueles com capacidade para interpretar os resultados estatísticos
chave, a divulgação do IEO pode proporcionar uma oportunidade
única para avaliar mudanças importantes nas tendências
energéticas globais, tal como os relatórios de rotina do Partido
Comunista publicados no Pravda outrora proporcionavam aos observadores do
Kremlin percepções quanto a mudanças na liderança
de topo da União Soviética.
De facto, a divulgação recente do IEO 2009 proporcionou aos
observadores da energia um festim de revelações significativas. A
revelação de longe mais significativa: o IEO prevê uma
queda aguda na projectada futura produção mundial de
petróleo (em comparação com expectativas anteriores) e um
aumento correspondente da dependência do que costuma ser chamado de
"combustíveis não convencionais" areias
petrolíferas, petróleo ultra-profundo, óleo de xisto e
biocombustíveis.
Assim, aqui está a manchete para si: Pela primeira vez, a respeitada
Energy Information Administration parece estar a juntar-se àqueles
peritos que desde há muito tem argumentado que a era do petróleo
barato e abundante está a chegar ao fim. Quase igualmente
notável, no que concerne a notícias, o relatório de 2009
destaca a insaciável procura da Ásia por energia e sugere que a
China está a mover-se cada vez mais para perto do ponto em que
ultrapassará os Estados Unidos como o consumidor número um de
energia do mundo. Claramente, uma nova era de competição
energética implacável está iminente.
O Pico Petrolífero torna-se a nova norma
Ainda em 2007, o IEO projectava que a produção global de
petróleo convencional (o material que brota do chão em forma
líquida) atingiria 107,2 milhões de barris por dia em 2030, um
aumento substancial em relação aos 81,5 milhões de barris
produzidos em 2006. Agora, em 2009, a edição mais recente do
relatório sombriamente reduziu aquele número projectado para 2030
a apenas 93,1 milhões de barris por dia em termos de
produção futura, um impressionante declínio de expectativa
de 14,1 milhões de barris por dia.
Mesmo quando se acrescenta a projecção do relatório de
2009 de um aumento maior do que o esperado na produção de
combustíveis não convencionais, ainda assim acaba-se com um
declínio líquido projectado de 11,1 milhões de barris por
dia na oferta global de combustíveis líquidos (quando comparado
aos números em ascensão projectados no relatório do IEO de
2007). O que significa este declínio senão o crescente
pessimismo de peritos em energia no que se refere à oferta internacional
de líquidos petrolíferos?
Muito simplesmente, ele indica que os habitualmente optimistas analistas do
Departamento da Energia agora acreditam que a oferta de combustível
simplesmente não será capaz de acompanhar o ritmo da
ascensão da procura mundial. Durante anos e até hoje, variados
geólogos do petróleo e outros especialistas em energia têm
estado a
advertir
que a produção mundial de petróleo
está a aproximar-se do nível máximo diário
sustentável um pico e subsequentemente irá
declinar, produzindo possivelmente caos económico global. Seja qual for
o timing da chegada do pico real do Pico Petrolífero, há acordo
crescente de que, pelo menos, já entrámos no território do
Pico Petrolífero, ainda que não tenhamos chegado ao momento do
declínio irreversível.
Até recentemente, responsáveis da Energy Information
Administration ridicularizavam a noção de que esta iminente um
pico na produção global de petróleo ou que
deveríamos prever uma contracção na futura disponibilidade
de petróleo a qualquer momento dentro em breve. "Esperamos o
petróleo convencional atinja o pico mais cerca dos meados do
século XXI do que no princípio do mesmo", declarava
enfaticamente o relatório da IEO de 2004.
Em coerência com esta visão, a EIA relatava um ano depois que a
produção global atingiria uns estarrecedores 122,2 milhões
de barris por dia em 2025, mais de 50% acima do nível de 2002, que foi
de 80,0 milhões de barris por dia. Isto era a coisa mais próxima
de uma rejeição explícita do Pico Petrolífero que
se podia obter dos peritos da EIA.
Para onde foi todo o petróleo?
Agora, vamos voltar à edição de 2009. Em 2025, segundo
este novo relatório, a produção mundial de
líquidos, convencionais e não convencionais, atingirá
apenas uns relativamente funestos 101,2 milhões de barris por dia. Pior
ainda, a produção de petróleo convencional será
apenas de 89,6 milhões de barris por dia. Em termos da EIA, isto
é pura profecia da desgraça, tão profundamente pessimista
no que se refere à futura capacidade de produção de
petróleo quanto é provável ser.
Os peritos da agência afirmam, contudo, que isto não se
demonstrará completamente o desafio que possa parecer porque eles
também reviram em baixa as suas projecções da futura
procura de energia. Em 2005 eles estavam a projectar um consumo mundial de
petróleo em 2025 de 119,2 milhões de barris por dia, abaixo da
produção prevista naquele ano. Este ano e todos nós
deveríamos teoricamente dar um profundo suspiro de alívio
o relatório projecta aquele número para 2025 em apenas 101,2
milhões de barris por dia, convenientemente a quantidade exacta que se
espera que o mundo produza naquele momento. Se isto realmente for o caso,
então os preços do petróleo presumivelmente permanecem
dentro de uma amplitude administrável.
Contudo, de facto a parte do consumo parece o cálculo menos
confiável desta equação, especialmente se o crescimento
económico continua em algo como o seu ritmo recente na China e na
Índia. Na verdade, toda a evidência sugere que o crescimento
nestes países retomará o seu ritmo pré-crise no fim de
2009 ou no princípio de 2010. Sob estas circunstâncias, a procura
global de petróleo acabará por ultrapassar a oferta, conduzindo
os preços outra vez para cima e a ameaçar recorrentes e
potencialmente desastrosas desordens económicas possivelmente na
escala do actual colapso económico global.
Ter a mais mínima oportunidade de impedir tais desastres significa ver
uma elevação drástica na produção de
petróleo não convencional. Tais combustíveis incluem
areias petrolíferas canadianas, petróleo extra-pesado
venezuelano, petróleo deep-offshore, petróleo do Árctivo,
petróleo do xisto, líquidos derivados do carvão
(coal-to-liquids ou CTL) e biocombustíveis. Actualmente, tudo isto
acumulado constitui somente cerca de 4% da oferta mundial de
combustíveis líquidos mas é esperado que atinja
aproximadamente 13% em 2030. No cômputo geral, segundo estimativas do
novo relatório IEO, a produção de líquidos
não convencionais atingirá uns estimados 13,4 milhões de
barris por dia em 2030, acima dos 9,7 milhões de barris projectados na
edição de 2008.
Mas para que ocorra uma expansão nesta escala, indústrias
inteiramente novas terão de ser criadas para fabricar tais
combustíveis a um custo de vários milhões de
milhões
(trillion)
de dólares. Este empreendimento, por sua vez, está a provocar um
debate amplo sobre as consequências ambientais de produzir tais
combustíveis.
Por exemplo: qualquer aumento significativo na utilização de
biocombustíveis supondo que tais combustíveis fossem
produzidos por meios químicos ao invés de, como agora, por
cocção podia reduzir em simultâneo emissões
de dióxido de carbono e outros gases com efeito estufa
[NR]
, reduzindo realmente o ritmo da futura alteração
climática. Por outro lado, qualquer aumento na produção
retirada das areias petrolíferas canadianas, do petróleo
extra-pesado
venezuelano, do óleo de xisto das Montanhas Rochosas implicaria
actividades intensivas em energia a níveis estarrecedores, que emitiriam
vastas quantidades de CO2, as quais podem mais do que cancelar quaisquer ganhos
provenientes dos biocombustíveis.
Além disso, a produção acrescida de biocombustíveis
arrisca
divergir vastas extensões de terra arável do cultivo
crucial de alimentos básicos para a fabricação de
combustível para transporte. Se, como é provável, os
preços do petróleo continuarem a aumentar, é de esperar
que se torne mais atraente para agricultores plantarem mais milho e outras
plantas para conversão final em combustíveis para transporte, o
que significa aumentos nos custos alimentares que poderiam colocar os
preços fora do alcance dos muito pobres, enquanto estica famílias
trabalhadoras até o limite. Tal como em Maio e Junho de 2008, quando
tumultos alimentares propagaram-se por todo o planeta em reacção
a altos preços alimentares provocados, em parte, pelo desvio de
vastas extensões da cultura do milho para a produção de
biocombustível isto poderia levar à
inquietação e à fome em massa.
Uma forte pegada energética sobre o planeta
As implicações geopolíticas desta
transformação poderiam ser impressionantes. Dentre outros
desenvolvimentos, a influência global do Canadá, Venezuela e
Brasil todos eles produtores chave de combustíveis não
convencionais forçosamente seria fortalecida.
O Canadá está a tornar-se cada vez mais importante como o
principal produtor do mundo de
petróleo extraído da areia
, ou betume um
material espesso, pegajoso e viscoso que deve ser extraído do
chão e tratado de vários modos intensivos em energia antes de
poder ser convertido em petróleo sintético (synfuel). Segundo o
relatório IEO, a produção das areais petrolíferas,
agora de 1,3 milhão de barris por dia pouco lucrativa, poderia atingir o
marco de 4,4 milhões de barris (ou mesmo, de acordo com os
cenários mais optimistas, 6,5 milhões de barris) em 2030.
Dadas as novas projecções da IEA, isto representaria um
acréscimo extraordinário aos abastecimentos globais de energia
exactamente quando se espera que fontes chave de petróleo convencional
em lugares como o México e o Mar do Norte sofram declínio severo.
Contudo, a extracção de petróleo de areias poderia
demonstrar-se um desastre poluidor de primeira grandeza. Em primeiro lugar,
são necessárias notáveis injecções de
energia do velho estilo para extrair esta nova energia, enormes
extensões de florestas teriam de ser limpas e utilizadas vastas
quantidades de água para o vapor necessário ao desalojamento da
substância viscosa enterrada (exactamente quando o equivalente "pico
da água" pode estar a chegar).
O que isto significa é que a produção acelerada das areias
petrolíferas está certamente ligada à pilhagem ambiental,
à poluição e ao aquecimento global. Há grande
dúvida de que responsáveis canadianos e o público em geral
estará, no final das contas, disposto a pagar o preço
económico e ambiental envolvido. Por outras palavras, seja o que for que
a IEA possa projectar agora, ninguém pode saber se os synfuels realmente
estarão disponíveis nas quantidades necessárias daqui a 15
ou 20 anos.
A Venezuela tem sido desde há muito uma
fonte importante
de
petróleo bruto para os Estados Unidos, gerando grande parte da receita
utilizada pelo presidente Chávez para sustentar seus experimentos
sociais internos e uma ambiciosa agenda política anti-americana no
exterior. Nos próximos anos, contudo, espera-se que a sua
produção de petróleo convencional caia, deixando o
país
cada vez mais dependente
da exploração de grandes
depósitos de betume na bacia oriental do Rio Orenoco. Só para
desenvolver estes depósitos de "petróleo extra-pesado"
exigirá investimentos financeiros e energéticos significativos e,
tal como as areias petrolíferas do Canadá, o impacto ambiental
podia ser devastador. No entanto, o desenvolvimento com êxito destes
depósitos podia demonstrar-se uma fonte de riqueza económica para
a Venezuela.
O grande vencedor nestas amargas corridas da energia, contudo, será
provavelmente o
Brasil
. Já um grande produtor de etanol, espera-se ver
um enorme aumento na produção de petróleo não
convencional uma vez que os seus novos campos ultra-profundos nos
"sub-sal" das bacias de Campos e Santos comecem a produzir. Trata-se
de maciços depósitos offshore de petróleo enterrados
abaixo de espessas camadas de sal a umas 100 milhas [161 km] da costa do Rio de
Janeiro e várias milhas abaixo da superfície do oceano.
Quando os desafios técnicos substanciais para explorar estes campos
submarinos forem ultrapassados, a produção do Brasil
subirá até três milhões de barris por dia. Em 2030,
o Brasil deveria ser um grande actor na equação energética
mundial, tendo sucedido à Venezuela como o principal produtor de
petróleo da América do Sul.
Novas potências, novos problemas
O relatório IEO alude a outras mudanças geopolíticas que
estão a ocorrer na paisagem energética global, especialmente um
esperado aumento espantoso na fatia do abastecimento energético global
consumida na Ásia e um declínio correspondente por parte dos
Estados Unidos, do Japão e de outras potências do "Primeiro
Mundo". Em 1990, os países em desenvolvimento da Ásia e do
Médio Oriente representavam apenas 17% do consumo energético
mundial; em 2030, esse número, sugere o relatório, deveria a
tingir os 41%, rivalizando com o das grandes potências do Primeiro Mundo.
Todas as edições do relatório previram que a
China
finalmente ultrapassaria os Estados Unidos como o consumidor de energia
número um. O que é notável é quão
rapidamente a edição de 2009 espera que isso aconteça. O
relatório de 2006 colocara a China na posição de
liderança em 2026-2030; no de 2008, era 2021-2024; no de 2008, era
2016-2020. Este ano, a EIA está a projectar que a China
ultrapassará os Estados Unidos entre 2010 e 2014.
É muito fácil passar por alto estas estimativas cambiantes, pois
os relatórios não enfatizam como elas mudaram de ano para ano.
Contudo, o que sugerem é que os Estados Unidos enfrentarão uma
competição cada vez mais acirrada da China na luta global para
assegurar fornecimentos adequados de energia para atender as necessidades
nacionais.
Dado o que sabemos acerca das perspectivas minguantes quanto a adequados
fornecimentos futuros de petróleo, estamos certos de enfrentar
competição geopolítica acrescida e conflitos entre os dois
países naquelas poucas áreas que são capazes de produzir
quantidades adicionais de petróleo (e sem dúvida desespero
genuíno entre muitos outros países com muito menos recursos e
poder).
E muito mais se seguirá. Como principal consumidor de energia do mundo,
Pequim sem dúvida desempenhará um papel muito mais crítico
no estabelecimento de políticas internacionais de energia e de
preços, enfraquecendo o papel central há muito desempenhado por
Washington. Não é difícil imaginar, então, que
grandes produtores de petróleo no Médio Oriente e na
África verão como do seu interesse aprofundar laços
políticos e económicos com a China a expensas dos Estados Unidos.
Pode-se esperar também que a China mantenha laços estreitos com
fornecedores de petróleo como o Irão e o Sudão, não
importa quanto isto se choque com objectivos de políticas externa
americanos.
À primeira vista, o
International Energy Outlook
para 2009 não
parece diferente das edições anteriores: um tedioso
compêndio de tabelas e textos sobre tendências energéticas
mundiais. Encarado sob outro prisma, contudo, ele trombeteia as manchetes do
futuro e as suas notícias não são confortantes.
A equação energética global está a mudar
rapidamente, e com isto é provável que se desencadeie grande
competição de potências, perigo económico, aumento
da fome,
inquietação crescente
, desastre ambiental e
contracção da oferta de energia, não importa que passos
sejam adoptados. Sem dúvida a edição de 2010 do
relatório, e aquelas que se seguirão, revelarão muito
mais, mas as novas tendências em energia sobre o planeta já
são cada vez mais evidentes e perturbadoras.
[NR]
Um falso problema. O autor deixou-se iludir pela teoria do aquecimento
global.
[*]
Professor de estudos da paz e da segurança mundial no Hampshire College
em Amherst, Massachusetts, autor de
Rising Powers, Shrinking Planet: The New Geopolitics of Energy
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O original encontra-se em
http://www.tomdispatch.com/post/175082/michael_klare_goodbye_to_cheap_oil
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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