Não é essa a questão, no entanto...
por Jim Kunstler
O caso do Pico Petrolífero nunca foi acerca do esgotamento [imediato] do
petróleo. Referia-se ao colapso de sistemas complexos numa economia
mundial confrontada pela perspectiva de nenhum novo crescimento alimentado pelo
petróleo. Foi decerto um choque para muita gente ter sido a banca o
primeiro sistema complexo a fraquejar, mas o processo é óbvio: a
falta de crescimento significa a falta de possibilidade de pagar juros pelo
crédito
fim da história, como costumava dizer Tony Soprano.
Na década passada surgiu uma teoria popular na comunidade dos
Peak Oilers:
o mundo entraria num período de planalto ondulante quando a
economia global fosse derrubada pelo pico do petróleo, depois
ressuscitaria quando a destruição da procura fizesse
baixar os preços do petróleo, e depois seria de novo derrubada
quando os preços do petróleo disparassem como resposta
numa série de repetições, em que cada uma delas deitaria
as economias cada vez mais abaixo sendo o único resultado
imaginável uma espécie de tranquila tendência para o
equilíbrio. Este cenário não funcionou como se esperava.
Baseava-se na premissa errada de que todos os sistemas manteriam um certo tipo
de elasticidade operacional quando se afundavam. De qualquer modo, o sistema
bancário foi ferido de morte no primeiro round e o mamute está
agonizante.
O ultimo acto desesperado do sistema bancário perante a
equação de 'acabou o crescimento' do Pico Petrolífero foi
engendrar espécies de títulos transaccionáveis que
poderiam produzir riqueza a partir do nada ao invés da actividade
produtiva. Foi esta a sopa de letras das fraudes derivadas dos algoritmos com
nomes vagos e confusos tais como credit default swaps (CDSs), collateralized
debt obligations (CDOs), structured investment vehicles (SIV's) e, claro, o
recheio básico, títulos suportados por hipotecas. O sistema
bancário está agora a morrer engasgado com estes manjares.
O problema é que o pelotão SOS que apareceu para socorro do
sistema bancário ou seja, os governos não consegue
remover essas obstruções da garganta do paciente. Eles não
querem afogar-se num poderoso vómito da sopa de letras.
Na verdade, o colapso de sistemas complexos baseia-se na ideia de que os
sistemas cobririam mutuamente os fracassos uns dos outros. É agora
fácil de ver como o colapso da banca (ou seja, tanto da concessão
de empréstimo como o serviço da dívida) levou ao colapso
do comércio e da manufactura. Os próximos sistemas a seguir
serão provavelmente a agricultura, os transportes e os próprios
mercados petrolíferos (que constituem o sistema para atribuir e
distribuir os recursos energéticos mundiais). À medida que estas
coisas forem sendo apanhadas, o sistema final que se seguirá será
a governação, pelo menos aos níveis mais altos.
Se tivermos sorte, os problemas humanos acabarão por se reorganizar a
uma escala mais baixa de actividade, de governação, de civilidade
e de economia. Cada semana que passa, a incapacidade de reconhecer a natureza
da nossa difícil situação empurra-nos ainda mais para o
território desconhecido da adversidade. A tarefa do governo neste
preciso momento não é apoiar sistemas condenados nas suas actuais
escalas de falência, mas preparar o público para reconstruir os
nossos sistemas a uma escala menor.
O efeito líquido das falências na banca é que muita gente
tem menos dinheiro do que esperava ter um ano atrás. Isto já
é muito mau, dados os nossos hábitos e práticas da vida
moderna. Mas o que acontecerá quando a agricultura entrar em colapso? A
perspectiva disso está mais próxima do que a maioria julga. O
modo como produzimos a nossa comida foi organizado a uma escala que tem
consequências ruinosas, uma delas a sua dependência do capital.
Agora que a banca entrou em colapso, o capital vai ser extremamente escasso.
Ninguém nas cidades lê as notícias agrícolas, ou
ouve as notícias agrícolas na rádio. Mas imaginem: estamos
a entrar na estação dos plantios. Vai ser interessante saber
quantos agricultores lá longe no cinturão Cheez
Doodle não vão poder arranjar empréstimos com garantia
para as culturas deste ano.
A minha previsão é que este ano a perturbação na
agricultura vai ser muito grave, principalmente se alguns dos locais mais
produtivos do mundo Califórnia, norte da China, Argentina, o
cinturão de cereal australiano forem apanhados por secas
rigorosas a acrescentar à escassez de capital. Se o governo dos EUA vai
tentar uma política de remedeio seja para o que for, é melhor
começar pela agricultura, para promover a agricultura a uma escala
menor, usando métodos que sejam muito menos dependentes dos subprodutos
do petróleo e das injecções de capital.
Claro que isso exigirá uma redistribuição de terras
adequadas ao cultivo de alimentos. Os mecanismos do nosso mercado de
imobiliário podiam permitir que isso acontecesse, mas não sem um
consenso coerente de que é imperativo fazê-lo.
Se o agro-negócio tal como praticado actualmente não se afundar com a
escassez de capitais, de certeza que vai entrar em colapso com as roturas dos
mercados de petróleo. O presidente Obama pelo menos iniciou uma marcha na
direcção certa ao propor eliminar mais subsídios aos
agricultores acima do nível de 250 mil dólares. Mas a
situação é muito mais grave. De certeza
que o Departamento de Agricultura americano já sabe disso, mas o público pode
não se mostrar interessado senão quando as prateleiras do supermercado
estiverem vazias e nessa altura, claro, vão ficar malucos.
A recente enorme descida dos preços do petróleo deixou mais uma
vez o público convencido de que o mundo está a nadar em
petróleo o que falta é obrigar as desonestas companhias
petrolíferas a vendê-lo a preços razoáveis.
Há décadas que o público tem vindo a ser sistematicamente
enganado quanto a isto. O que tem faltado até agora é que o
presidente dos EUA retrate a realidade da situação num discurso
televisivo sobre este tema. Sei que muitos de vocês pensam que Jimmy
Carter tentou isso e não conseguiu impressionar ninguém (e
entretanto arruinou a sua presidência). Garanto-vos que Obama terá
que fazê-lo nos próximos anos, quer lhe agrade ou não, e
seria bem avisado se o fizesse mais cedo do que tarde demais. E com isto
não me refiro apenas a vagas alusões à
"independência energética" ou a
"renováveis" em discursos dedicados a muitas outras
questões. Refiro-me a dizer ao público a verdade nua e crua de
que nunca poderemos compensar o esgotamento do petróleo e a resposta
inteligente é fazer todos os possíveis para mudar para cidades
onde se possa andar a pé e em transportes públicos, e não
sustentar o insustentável.
As alternativas ou seja, o que estamos a tentar agora é
convencermo-nos mais ainda de que podemos deslocar-nos ao WallMart e aos
subúrbios por outros meios que não o petróleo. Apesar dos
nossos investimentos nessas coisas, não conseguiremos lá chegar
por outro meio qualquer, e seria melhor que surgissem as notícias sobre
isso antes que um tremendo desapontamento se transforme numa raiva
titânica. Se os americanos acham que foram ludibriados por Goldman Sachs
e Bernie Madoff, esperem até eles descobrirem em que é que a
fraude do chamado "Sonho Americano" da vida suburbana se vai
transformar.
Nesta segunda-feira de nevasca nos centros pobres da América, as
atenções estão fixadas no fiasco infindável da AIG
uma companhia cujo produto principal andou à volta dos credit
default swaps, e agora está sufocada por eles. Conselheiros
irresponsáveis nos bastidores da finança andam a profetizar o
raio de uma reunião de sanguessugas dos mercados em queda nos mercados
de acções seguida por um mergulho para o Dow 4000 ou ainda mais
baixo. Eu próprio reclamei um Dow 4000 há dois anos mas
estava obviamente um tanto adiantado no tempo. Tudo isto é bastante
perturbador. Mas enquanto a nossa atenção está virada para
o Rick Santelli
[1]
no pregão da Bolsa de Chicago, ou para Larry Kudlow
[2]
, à procura desesperadamente das "sementes de mostarda" do
novo crescimento na finança, tentemos desviar os olhos para o horizonte
onde estes outros complexos sistemas estão a trabalhar nas suas
próximas jogadas. A agricultura. Os mercados petrolíferos.
São estes os próximos teatros de alarme e de
aflição.
02/Março/2009
N.T.
[1] Rick Santelli: jornalista da CNBC, faz reportagens ao vivo no
pregão da Bolsa de Chicago. Concentra-se principalmente em taxas de
juro, câmbios e no Federal Reserve. Mostrou-se indignado com a ideia de
ter que pagar a hipoteca dos vizinhos, principalmente se eles compraram casas
acima das suas possibilidades.
[2] Larry Kudlow: economista, comentador na televisão e colunista em
jornais. Traçou a analogia das sementes de mostarda que, sendo das mais
pequenas, dão origem a uma planta muito grande. Defende que, apesar da
deterioração dos principais indicadores económicos,
está para breve uma recuperação económica
O original encontra-se em:
http://jameshowardkunstler.typepad.com/clusterfuck_nation/2009/03/what-next.html
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Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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