por Jim Kunstler
Uma das maiores gargalhadas da estação foi provocada por um
artigo
na secção de negócios do
New York Times,
do repórter Michael Grynbaum, o qual escreveu: "O petróleo
está a caminhar com firmeza para a derrubada do alto preço de
US$101,70 corrigido da inflação iniciado em Abril de 1980,
disseram analistas,
embora muitos estejam perplexos quanto ao que mantem o impulso do
seu preço
" (itálicos meus). Realmente, montes de pessoas sabem o que
está a impulsionar o preço mas ninguém
que trabalhe naquele outrora augusto e agora despistado jornal. Isso pode ser
declarado simplesmente a linha da procura cruzou a linha da oferta
embora este simples facto tenha ramificações muito
curiosas.
Dentre as mais subtis está a teoria publicada no
Credit Bubble Bulletin
,
de Doug Noland, publicado às sextas-feiras:
"Há literalmente milhões de milhões de dólares
de liquidez a vaguear pelo mundo ansiosos por possuir "coisas" de
valor. As fontes de liquidez incluem os haveres maciças das reservas
dos
bancos centrais bem como fundos à disposição de fundos de
riqueza soberanos. Importante: quanto mais aparente se torna a fragilidade
financeira dos EUA, mais ansiosos estão eles por acumular 'coisas' reais
... Na verdade, deveria ser notado que esta é a primeira tentativa do
Federal Reserve para a reflação em que os títulos
americanos não são classes de activos escolhidos por
especuladores ou bancos centrais estrangeiros ... O lago de potencial poder de
compra global não é apenas de âmbito sem paralelo. Ele
é fortemente atraído para activos tangíveis em
oposição a títulos dos EUA e tem carácter
altamente especulativo. Ao mesmo tempo, um pesado boom global está a
alimentar uma procura sem precedentes na China, Índia, a Ásia em
geral, e nos outros mercados 'emergentes' incluindo a Rússia e o Brasil.
Acrescente-se a isso várias questões relacionadas com a
meteorologia e constrangimentos à produção de
energia e a perspectiva de sérias estrangulamentos e escassez
ter-se-á desenvolvido".
Em suma, estrangeiros presos a haveres em dólares cujo valor está
a sangrar gasta-los-iam antes em alguma outra coisa que não fossem
papeis financeiros denominados em dólar, e nada é mais crucial
para a manutenção das economias industriais do que o
petróleo. A teoria de Noland vem nos calcanhares da confirmada escassez
de petróleo e gasolina na China, suficientemente má para ter
provocado alguns tumultos civis e bastante má para que a
liderança da China quisesse gastar algo das suas vastas reservas de
dólares americanos licitando preços de petróleo nos
mercados abertos a fim de debelar aqueles tumultos.
Nada é mais complicado do que o comportamento da
acumulação numa escala global, uma crise crescente de
auto-interesses amedrontados que já foi bem descrita pelo banqueiro de
investimento
Matthew Simmons
.
Simmons foi um dos muitos analistas que interveio na conferência de
Houston,
em meados de Outubro, da ASPO-USA (Association for Study of Peak Oil)
à qual
The New York Times
não foi capaz de enviar um repórter. Simmons também
disse que o
público americano (e os seus líderes) provavelmente não
"captarão" o problema fundamental do petróleo
até que à ascensão dos preços somem-se
situações pontuais de escassez ou seja, filas nos postos
de gasolina, o que representará o comportamento da
acumulação na base de motoristas individuais.
Por trás da dinâmica da acumulação há
várias circunstâncias claras.
Uma das maiores é a
crescente crise de exportação
,
descrita pelo geólogo Jeffrey Brown. Países como a Arábia
Saudita e o México, que vendem petróleo a países
importadores como os EUA e o Japão, estão a utilizar mais do seu
próprio petróleo e a produzir menos. A trajectória do
México é tão aguda (devido ao severo esgotamento do seu
campo gigante de Cantarell) que poderia facilmente passar da
condição de fonte número 3 das importações
da América para zero em menos de cinco anos. O crescimento anual
previsto da procura mundial de petróleo no próximo anos
será o equivalente a 80 por cento de toda a produção dos
EUA.
A crise das exportações é apenas um elemento adicional no
topo da situação geral do Pico Petrolífero, mas ilustra o
modo como estes sistemas de que dependemos e os mercados de
petróleo são um deles são passíveis de
estremecer e fracassar exactamente quando o mundo chega ao maior pico de
produção petrolífera desde sempre. As finanças
são outro
sistema complexo e está, também, a entrar numa etapa de enorme
instabilidade. A produção alimentar é outro ainda, com
uma escassez de cereais que conduziu os preços do trigo às
maiores alturas de todos os tempos. O inventário dos sistemas complexos
a entrarem em fase de mudanças é longo e ameaçador.
Outro grande elemento por trás da ascensão dos preços do
barril é o nacionalismo petrolífero. As antigas companhias
"major" Exxon-Mobil, BP, Chevron, etc agora representam
apenas cerca de cinco por cento da produção mundial de
petróleo. Os outros 95 por cento vêm de indústrias do
petróleo nacionalizadas como a Saudi Aramco, a Pemex do México, a
Petróleos de Venezuela e a Petrobrás do Brasil. A Lukoil e a
Rosneft da Rússia são efectivamente controladas pelo Estado.
Não só o petróleo à escala mundial está
geralmente em esgotamento (ultrapassado o pico) como a maior parte do
petróleo remanescente está controlado por entidades que
estão inclinadas tanto a reter (acumular) algum do remanescente para o
seu próprio uso futuro como destinar qualquer petróleo que tenham
a vender para outros lugares do que leilões abertos nos mercados de
futuros. Vender petróleo para clientes favorecidos será um
instrumento de geopolítica extremamente poderosos na década pela
frente, e este é apenas um aspecto de uma desesperada
competição global de recursos que poderia tornar-se feia e
violenta. Por enquanto, de qualquer forma, seu significado para os EUA
é que dois terços do nosso abastecimento diário composto
por importações está em perigo.
Outro elemento importante do preço do petróleo é a
condição do equipamento utilizado em todo o mundo para
extraí-lo do solo, movê-lo através do globo e
refiná-lo para obter subprodutos utilizáveis como a gasolina e o
jet fuel. O mundo está aflitivamente necessitado de equipamentos de
perfuração, e o custo do aço está a subir. A
procura por novo equipamento não está à vista. O
inventário mundial de equipamento existente pode ser bem
descrito como decrépito. Como destacou Simmons, há um fosse
assustador entre a necessidade de investimento em novos equipamentos de
perfuração, petroleiros e refinarias e o dinheiro
disponível apenas para manter a produção aos níveis
actuais. A perspectiva é sombria. De facto, a falta de vontade
à escala mundial para investir em equipamento para a indústria
petrolífera é em si própria um sintoma do fracasso das
finanças globais como um sistema complexo sob pressão. No topo
do problema do equipamento está um problema de recursos humanos: o
mundo não está a produzir suficientes técnicos e
engenheiros de petróleo para preservar a produção, sem
falar em aumentá-la, e todos os anos uma onda de especialistas senior
retira-se do sistema.
Além destas partes da história do preço do petróleo
há ainda outros sub-enredos, como o conflito político na
Nigéria que efectivamente mantém a sua indústria
petrolífera como refém, para não mencionar o frágil
estado de coisas por todo o Médio Oriente, e ousarmos nós
abandonar os hábitos insanos da utopia da Feliz
Motorização da América.
Realmente não há desculpa para o
New York Times
e o resto dos media 'de referência' não entenderem o que
está para acontecer. A ignorância generalizada é um
sintoma de um outro sistema complexo com moral baixa o sistema que nos
informa o que se passa. Enquanto isso, o perigo cresce. A
estação quente está a caminho e os fornos estão a
tinir. Muitos americanos terão de começar a escolher entre pagar
a sua hipoteca, encher o reservatório do Chevy Suburban, comprar aquele
bloco de [queijo] Velveeta, ou pagar o rapaz do óleo de aquecimento.
Parece que a China estará a gastar mais dos seus dólares
acumulados a aumentar o preço do petróleo (ou a fazer contractos
favoráveis com fornecedores estrangeiros) ao invés de comprar
títulos Freddie Mac. Os EUA não poderiam encontrar-se numa
posição menos favorável entre todas estas forças
que agitam o cenário. O país certamente não pode
permitir-se continuar na sua patética pose de ignorância.
05/Novembro/2007
O original encontra-se em
http://www.kunstler.com/mags_diary22.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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