Tempos hesitantes
por James Howard Kunstler
O gato saiu do saco esta semana um gato escanzelado, chamuscado,
raivoso, mortífero é a notícia de que a Goldman
Sachs anunciará lucros impressionantes no segundo trimestre e
porá de lado US$18 mil milhões para bónus de empregados
à media de US$600 mil por cabeça (embora, naturalmente,
não distribuídos igualmente entre eles). Provavelmente não
há cinquenta e três pessoas nos EUA que possam explicar como este
desenvolvimento está relacionado com o salvamento-prenda do Tesouro dos
EUA no último Verão, ou os US$13 mil milhões que a GS
recebeu por trás dos pagamentos prenda dos EUA à falida companhia
de seguros AIG, mais as resmas de gangrenados papeis de dívida
titularizada que apodreciam no fundo dos cofres da GS. Esta companhia brinca
com o fogo da história mundial.
Isto traz de volta a questão, a qual tem surgido de modo ténue
às margens da consciência colectiva da América, de saber se
podemos atravessar a longa emergência pela frente sem passar pelas
dificuldades da convulsão política interna. A este ritmo, mais
cedo ou mais tarde, qualquer coisa identificada com riqueza poderia tornar-se
um alvo da ira dos desempregados e arrestados. A primeira pedra que voar
através de uma janela no Eat Hampton, ou a primeira bomba
incendiária lançada no átrio da sede da Goldman Sachs em
Manhattan poderia atear uma cadeia de eventos que empurraria toda a
política económica para fora da arena política e
rapidamente dividiria toda a gente no centro do poder em exércitos
prontos para o sangue.
O que o país incluindo o presidente Obama não pode
entender é que os EUA entraram num período de
contracção económica monumental. Ao invés de
crescimento, tal como é medido pela econometria convencional, apenas
podemos esperar (no melhor dos casos) transformação para uma
economia diferente dentro dos limites da contracção real. O
presidente tem de parar de prometer crescimento renovado. Se bem que isto
afectaria o "padrão de vida" medido em coisas como vendas nos
centros comerciais e veículos-quilómetros conduzidos, isto
não significaria necessariamente "qualidade de vida"
diminuída. Significaria diferentes modos de vida para um bocado de
pessoas por exemplo: jovens adultos que esperaram emprego para toda a
vida como executivos de corporações mas que, ao contrário,
daqui a dez anos encontrar-se-ão a trabalhar na agricultura. Temos um
terrível embaraço para perceber a realidade.
O ABSURDO DO CARRO ELÉCTRICO
Uma reorganização genuína da economia estado-unidense
parece para além do alcance não apenas de todos os
políticos dos EUA como também de todos os media do país e
da sua liderança de negócios. Um maravilhoso exemplo na semana
passa foi a conferência de imprensa imbecil do chefe de marketing da
General Motors, Bob Lutz, que pensa poder ressuscitar o Sonho Americano com
carros eléctricos. (A propósito, isto é quase a mesma
ideia que encontrei no Aspen Environmental Forum entre as celebridades Verdes.)
De um ponto de vista puramente prático, o carro eléctrico
é absurdo. Se fossem produzidos em massa, levariam ao colapso da rede
eléctrica
[NR1]
assumindo que as massas poderiam permitir-se comprá-los, o que
é assumir um bocado. Nós simplesmente não temos a
capacidade de geração eléctrica para movimentar a volts
sequer um quarto do actual parque automóvel e construir as
necessárias centrais nucleares ou termoeléctricas a carvão
em cinco anos é também um absurdo. (Não espere que o
vento, o solar, a biomassa ou qualquer outra coisa preencha a lacuna.) Se os
carros eléctricos fossem produzidos apenas como um produto para a elite
(exemplo: os empregados da Goldman Sachs), eles logo provocariam o
ressentimento da não-elite deixada à mercê dos mercados
petrolíferos.
De qualquer forma, o dilema da motorização da América
ultrapassou a questão de como podemos abastecer os carros e mesmo
para além da insanidade de manter cegamente a nossa extrema
dependência do carro. A continuação da Feliz
Motorização agora depende de duas outras grandes incertezas: 1) A
probabilidade de que haverá muito menos capital disponível para
empréstimos para automóveis, e 2) a probabilidade de que
haverá muito menos dinheiro do governo para a manutenção
rodoviária. O problema do Pico Petrolífero e a perspectiva
de altas de preços e escassez é apenas a cereja no topo.
A propósito, para finalidades práticas Bob Lutz da GM agora
é um empregado dos contribuintes estado-unidenses, uma vez que os EUA
possuem 60 por cento da "nova" General Motors, de modo que ele deve
ser considerado um porta-voz da política nacional. Uma vez que a
transformação do parque automóvel dos EUA em
veículos eléctricos é absurda, o que seria uma resposta
apropriada para o transporte público? Por que isto não
é o foco da "nova" General Motors? Em 1941 a companhia fez a
transformação de carros para armamentos numa questão de
meses; por que não pode produzir o material rolante para um sistema
ferroviário de passageiros renovado? Ou tramways? Será que isto
não é uma crise suficiente? A resposta é que não
há liderança nesta direcção. Se o presidente Obama
declarasse isto como objectivo político e investisse grandes
esforços nisso ele poderia arrastar o público sonâmbulo
americano nesta direcção, bem como o resto da liderança
nacional no governo, nos negócios e nos media.
Esta espécie de coisa é o que leva observadores casuais a
perguntar-se se o presidente é um comparsa cínico para o
business as usual,
ou uma vítima do pior pensamento convencional sem nenhuma visão
real, ou ainda apenas mais um despistado sonâmbulo pateta com uma
aparência agradável.
Em círculos que passam por "progressistas" nestes dias, os
nativos estão a ficar inquietos. A sua agitação parece
quase incipiente por enquanto ainda a repousar no vago, em desejos de
"mudança" mal definidos. Estas vagas persuasões
precisam ser centradas na acção específica que for
realista dentro do contexto da contracção e
transformação geral. Uma grande contribuição para
isso seria o reconhecimento de que a nossa economia suburbana espraiada
está a morrer e de que agora temos de deslocar-nos de modo diferente,
produzir alimentos de modo diferente e fazer as coisas avançarem outra
vez. Seja o que for o capital real que resta no sistema ele não pode ser
dissipado com bónus em dinheiro para empregados da Wall Street.
Não estou pronto para capitular ao cinismo. Há alguma coisa nos
ventos políticos deste Verão. Penso que os acontecimentos
forçarão o sr. Obama a afirmar alguma liderança real e
levar o debate nacional sobre a nossa situação para alguma outra
direcção, mesmo que seja uma direcção
inconfortável para ele e toda a gente. Apesar do maciço
desapontamento que está a ser expresso agora por tantos eleitores de
Obama, acredito que o presidente irá redimir-se em breve.
O procurador-geral Eric Holder anunciou no fim de semana que
começará uma investigação à má
conduta do regime Bush para com suspeitos de terrorismo. O seu departamento
é capaz de efectuar mais do que uma investigação ao mesmo
tempo. Por que o presidente Obama não o direcciona para a abertura de
uma investigação acerca do comportamento da Goldman Sachs na
área da fraude com títulos, da comercialização de
iniciados
(insider trading)
e da má utilização de fundos governamentais? Sem um
inquérito oficial à conduta desta companhia, e de outras,
acredito que a cólera pública esmagará quaisquer
tentativas de transformar a nossa economia em contracção e a
capacidade do presidente para administrá-la.
13/Julho/2009
[NR1] A este argumento somam-se os defeitos intrínsecos aos carros
eléctricos: baixa autonomia, peso das baterias, tempo de
carregamento das mesmas, custo de investimento elevado. Em Portugal,
por iniciativa do ex-ministro Manuel Pinho,
o governo do sr. Sócrates anda agora a promover os veículos eléctricos
. Algumas autarquias locais alinharam nisso, sem pensar devidamente qual seria a
melhor aplicação dos seus recursos escassos para a melhoria dos
transportes.
O original encontra-se em
http://kunstler.com/blog/2009/07/wobble-time.html#more
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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