Pico petrolífero e pico do capitalismo
O conceito de pico petrolífero pode ter uma aplicação mais
generalizada do que os seus amigos e inimigos concebem. Quando caímos no
segundo maior crash do capitalismo estado-unidense em 75 anos de
história (com cerca de uma dúzia de "ciclos de baixa nos
negócios" no intervalo entre os crashes), alguns sinais sugerem que
estamos também no pico do capitalismo. O capitalismo privado (quando
activos produtivos são de propriedade de indivíduos e grupos
privados e quando os mercado ao invés do planeamento estatal dominam a
distribuição de recursos e produtos) demonstrou reiteradamente
uma tendência para explodir na super-produção e/ou
inflação de bolhas de activos que arrebentam com horríveis
consequências sociais. Reformas infindáveis,
reestruturações e regulações foram todas
justificadas com o argumento não só de livrar-nos de uma crise
como também de prevenir finalmente futuras crises (como Obama repetiu
esta semana). Todas elas fracassaram nos seus propósitos.
A tendência à crise parece imparável, uma qualidade
inerente do capitalismo. Na melhor das hipóteses, as explosões
foram dominadas antes de provocaram grande devastação, embora
habitualmente isto apenas tenha adiado e agravado aquela
devastação. Um caso recente pertinente: o crash do mercado de
acções no princípio de 2000 foi limitado nas suas
consequências em termos de danos sociais (recessão, etc) por uma
redução sem precedentes históricos de taxas de juros e
expansão da oferta monetária pela Reserva Federal de Alan
Greenspan. A resultante bolha imobiliária temporariamente compensou os
efeitos do estouro da bolha do mercado de acções, mas quando o
imobiliário entrou em crash uns poucos anos depois, o que foi adiado
golpeou de forma catastrófica.
O fracasso reiterado em travar esta tendência inerente à crise
começa a revelar-nos a natureza do sistema. A pergunta cada vez mais
insinua-se no interior de discursos com um longo historial de
negação da sua pertinência: será que o capitalismo,
como sistema, ultrapassou a sua vida útil?
Repetidas intervenções do Estado para resgatar o capitalismo
privado das suas próprias crises auto-destrutivas ou dos movimentos
políticos das suas vítimas produziram períodos maiores ou
menores de capitalismo de Estado (quando activos produtivos são
possuídos ou controlados significativamente ou regulados por
responsáveis do Estado e quando o planeamento estatal domina os mercados
como mecanismo de distribuição de recursos e de produtos). Mas os
capitalismos de Estado não resolveram tão pouco as
tendências do sistema para as crises. Isto aconteceu porque eles
reiteradamente abriram caminho para oscilações de retorno ao
capitalismo privado (ex.: a "revolução" de Reagan nos
EUA, o fim da URSS, etc).
Além disso, a história dos esforços de Franklin Dellano
Roosevelt para neutralizar a Grande Depressão ensina
lições fundamentais acerca do capitalismo como um sistema que
não pode ser eternamente adiado. Uma vez que as reformas do New Deal
não chegaram a transformar a estrutura da corporações,
elas deixaram intactos os conselhos de administração e os
accionistas que dispunham tanto dos incentivos como dos recursos para
evadi-las, minando e abolindo aquelas reformas. A evasão foi o seu foco
até a década de 1970 e a sua abolição a partir
daí. O capitalismo sistematicamente organiza as suas
instituições chave de produção as
corporações de modo a que os seus conselhos de
administração, ao cumprirem adequadamente as suas tarefas,
produzam crises, a seguir minem reformas anti-crise e portanto reproduzam
aquelas crises.
Por conseguinte, a atenção está vagarosamente a mudar para
o questionamento de um aspecto do capitalismo que nunca foi efectivamente
desafiado, muito menos mudado, ao longo de mais de um século: a
organização interna das corporações. As suas
decisões sobre o que, onde e como produzir e como utilizar lucros
são todas tomadas não pela massa de trabalhadores (nem pelas
comunidades que elas impactam) mas ao contrário por um conselho de
administradores. Compostos tipicamente por 15 a 20 indivíduos, os
conselhos de administração são elites minúsculas
responsáveis para com elites apenas ligeiramente maiores
constituídas pelos principais accionistas das corporações.
Cada administração corporativa é encarregada pelos seus
principais accionistas de maximizar o lucro, a fatia de mercado, o crescimento
ou o preço. A massa de trabalhadores tem de viver com o resultado das
decisões da administração sobre as quais não
exercem depois qualquer controle. Esta é uma posição que
compartilham com as comunidades em torno dependentes destas mesmas
corporações.
Esta organização capitalista da corporação gera
regularmente decisões de investimento, produção,
finanças, marketing e emprego que produzem instabilidade
sistémica crises económicas. Grande parte deste sistema
bipolar trouxe-nos ao pico petrolífero devido aos seus desenvolvimento,
de modo que as suas contradições nos trouxeram agora ao pico do
capitalismo. Esta organização profundamente não
democrática do sistema de produção exige
transformação radical.
Suponha-se, de acordo com tal transformação, que os trabalhadores
resolvam funcionar como os seus próprios conselhos de
administração. Todas as programações de empregos
semanais daí em diante especificariam quatro dias com tarefas
particulares de produção e um dia na participação
em decisões colectivas sobre o que, como e onde produzir e o que fazer
com lucros. Tendo exigido autocracia política para abrir caminho a
mecanismos democráticos, os trabalhadores teriam então
alcançado o mesmo em relação à autocracia
económica que estrutura as corporações capitalistas. A
economia e a sociedade evoluiriam então de forma muito diferente do
padrão capitalista. Se temos de redesenhar nossas
interacções com a natureza levando em conta o pico
petrolífero, por que não redesenhar nossas estruturas
empresariais para levar em conta a história dos esforços
fracassados para conter a disfunção do capitalismo geradora de
crises?
Podemos nós considerar uma aliança mutuamente benéfica
entre os que criticam o abuso dos nossos recursos energéticos e os
críticos do abuso das nossas capacidades produtivas? O que acha de uma
aliança concentrada numa reorganização da
produção radical, democrático e portanto anti-capitalista?
A ideia seria fazer cidadãos e trabalhadores aqueles que devem
viver com os resultados do que as empresas fazem tomem decisões
conjuntas centradas sobre as necessidades colectivas, tanto produtivas como
ambientais.
27/Março/2009
[*]
Professor de Economia na Universidade de Massachusetts
Amherst. Autor de
muitos livros e artigos
, incluíndo (c/ Stephen Resnick)
Class Theory and History: Capitalism and Communism in the USSR
(Routledge, 2002) e (c/ Stephen Resnick)
New Departures in Marxian Theory
(Routledge, 2006).
O original encontra-se em
http://www.theoildrum.com/node/5245
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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